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fogo – aldeia Tanguro. (B) Carne de bicho sendo moqueada sobre o Wa’ra (jirau) – aldeia Caçula. Enquanto as mulheres iniciam a construção das Awã (cabanas), os homens103 saem para o local pré-determinado pelos anciãos durante o Warã, onde seria realizada a caçada de fogo. Em todas as atividades realizadas os Wapté participam, mas nessa atividade de caçada eles participam indiretamente, pois ficam na cabana enquanto os homens realizam a caçada de fogo.104

Depois de muitas discussões nos últimos Warã, os homens chegam ao local da caçada de fogo determinado pelo conselho dos anciãos. Ao chegar nesse local, dois dos caçadores (um de cada clã) começam a tocar fogo. Um sai em direção ao oeste e o outro em direção ao leste. Nesse momento, discutem ainda o local onde devem se encontrar, ou seja, nesse momento definem o tamanho do círculo/área a ser queimada. Enquanto isso, os demais homens caçadores ficam todos em um mesmo local (ver figura nº 65 - A), numa distância de aproximadamente 800m do local onde são tocadas as primeiras chamas, observando atentamente o comportamento do fogo se propagando no cerrado (analisando a direção do vento para evitar acidente com o fogo), para depois adentrarem no círculo já queimado.

103 Nas ocasiões que participamos das caçadas eram em média 33 caçadores.

104 Segundo informação de um dos anciãos (Márcio Bidu Xavante), eles estavam cansados e por isso não foram. De fato, nesse dia eles tinham feito a última corrida do Noni (término do Noni: 28/7/10 pela manhã).

Fig. nº 65 – Grupo de caçadores no início da caçada observando o fogo propagar-se no cerrado. (B) Fogo se propagando no cerrado durante a caçada de fogo. (C) Caçadores caminhando pelo cerrado já queimado a

procura de animais mortos pelo fogo ou fugitivos do fogo, aldeia Tanguro.

Nas palavras dos padrinhos dos Wapté, essa fase da caçada de fogo ocorre da seguinte maneira:

Todos os caçadores observam os ventos antes de colocar o fogo. Quando os dois companheiros estão quase acabando de fechar o círculo do fogo algum caçador também coloca o fogo para dividir o círculo ao meio até chegar onde os dois companheiros vão fechar o círculo. Esta divisão ao meio é para facilitar a caçada e demorar um pouco a queimada do círculo. Esta caçada de fogo acontece toda época de seca do ano quando a estrela está mais alta no céu, que é chamado Siruru. Quando Siruru está mais alto traz bastante vento para a caçada de fogo. Quando a caçada rende muitas caças, então usam toda a carne no ritual de casamento. Isso também acontece do mesmo jeito na festa de formação dos Wapté (Vinícius Sidiwẽ Supretaprã Xavante, aldeia

Ẽtẽnhiritipá – comunicação pessoal).

Quando o xavante faz caçada de fogo, dois homens costumam por fogo fazendo em círculo. Estes se chamam Ĩwa, que quer dizer: que colocou o fogo. Wahubtede’wa, dono de seca, escolhe dois homens (Ĩwa) para colocar o fogo. A caçada de fogo só acontece na época da seca, ou seja, na época do

Siruru (estrelas). Os Xavante decidem no Warã a caçada de fogo. Eles

escolhem o lugar onde vai ser a caçada. Para caçada de fogo, os Xavante se reúnem no centro da aldeia, e antes de sair, eles cantam no centro; os velhos explicam como se caça com fogo e também como se coloca o fogo. Quando chega no local, um deles sai numa direção e o outro na outra e rapidamente para fechar o grande círculo. Em seguida, trocam entre si o arco e a fecha. E para dividir o campo [círculo], um deles corta no meio. O Xavante controla o fogo na beira do rio, então dessa forma não passa para pegar outro campo. O

Öwawẽ leva para si o bicho que o homem do outro clã matou. Também os Poreza’õno fazem a mesma coisa. Assim os Xavante se ajudam. Com isso os

Xavante distinguem-se bem. Segundo a tradição nossa, nós distinguimos assim divididos. Por isso, as crianças lutam no clã105.

105

Texto elaborado por Marculino Ts. Tseretsu; José Auriz Tserebdzu; Jair Tserenhiwari Xavante; Elson Parine’edi Xavante; Leandro Parinai’a Xavante durante a Oficina Pedagógica de produção de material de apoio pedagógico realizada na aldeia Pimentel Barbosa em maio de 2010.

Fig. nº 66 - Des. Marculino Ts. Tseretsu (A) Os dois tocadores de fogo (Ĩwa); (B) Wahubtede’wa – o dono de seca.

Numa ocasião que acompanhamos uma das caçadas de fogo na aldeia Tanguro, percebemos que depois de 25 a 30 minutos, o fogo já deixava um espaço de aproximadamente 200 a 300 metros de largura de cerrado queimado e com isso os demais caçadores entraram nessa área queimada e foram se dispersando pelo cerrado. Mas para isso, escolheram os lugares onde as labaredas do fogo estavam mais baixas para eles não correrem qualquer risco de acidente.106

Segundo informação de um dos caçadores, os animais que não morrem com o fogo são difíceis de serem enxergados devido à invisibilidade que a fumaça causa e por isso, deve-se andar com muita atenção e com o mínimo de barulho.107

Ao vencerem esse primeiro obstáculo, de pular o fogo, aos poucos os caçadores vão se dispersando no cerrado queimado, mas sempre em duplas ou grupo de três pessoas. Conforme o planejamento, essas pessoas voltam a se encontrar após ter percorrido toda a área, aproximadamente cinco horas de caminhada pelo cerrado queimado. Ainda na ocasião que acompanhamos a caçada na aldeia Tanguro, a caçada teve início às 8:30h, aproximadamente, e terminou por volta das 14:00h, mas quando o último caçador chegou no local de onde partiram, já era 14:50h. A caçada só terminou quando o último caçador chegou ao local onde foi determinado pelos anciãos durante o planejamento no Warã.

106 Nas ocasiões que acompanhamos as cerimônias de caçada, durante o Warã de planejamento os anciãos determinavam uma pessoa com experiência para nos orientar durante a realização da caçada de fogo, pois temiam acontecer qualquer acidente com relação ao fogo. O ancião Ivan foi o meu instrutor durante uma caçada na aldeia Tanguro e ele esteve sempre me orientando e me dando informações a respeito dos animais e do cerrado, como por exemplo, o comportamento de alguns animais e das plantas medicinais do cerrado usadas pelos A’uwẽ/Xavante. Segundo informação, já aconteceram alguns acidentes nesse tipo de caçada.

107 Essa foi uma situação que realmente constatamos, pois durante toda a caçada os meus olhos ficavam doendo e lacrimejando.

No depoimento seguinte, um dos padrinhos dos Wapté sintetiza essa parte da cerimônia da caçada de fogo.

Quando chega o horário marcado, os caçadores se pintam e vão para o centro da aldeia onde fazem os cantos das caçadas e daí saem rumo ao local indicado pelos anciões. Ao chegar no local indicado em dupla de clãs opostos (Öwawẽ e Poreza’õno), os dois companheiros que se chamam (ĩwa), colocador de fogo. Começam a colocar o fogo seguindo uma forma de círculo, tendo cuidado de estar sempre fora do círculo de fogo, eles vão acompanhando a queimada e matando os animais que tentam escapar do fogo. Depois de abater alguns animais e a queimada ir chegando ao fim os caçadores que abateram animais maiores gritam por ajuda enquanto os que conseguiram pequena caça começam a voltar para casa. Se algum caçador não consegue abater nenhum animal, ele espera por alguém que pode lhe dar um pedaço de caça (Vinícius Sidiwẽ Supretaprã Xavante, aldeia Ẽtẽnhiritipá – depoimento pessoal).

Durante as atividades do ritual de furação de orelha, a carne de animal é a base da alimentação e para isso fazem uma programação/planejamento de caçada de fogo que lhes possibilite armazenar carne o suficiente para toda a comunidade108. Durante as caçadas, os animais de pequeno porte são consumidos no dia-a-dia, já os animais de grande porte são armazenados para a divisão entre os núcleos domésticos na parte final da festa.

A quantidade de animais a serem abatidos nessa cerimônia está relacionada diretamente com a capacidade dos quatros Siõtõhöpó (grande cesto confeccionado para carregar carne durante a festa do Wapté) confeccionados para armazenar a carne durante as caçadas. Em Tanguro fizeram três grandes caçadas de fogo para encherem os quatros cestos, o que lhes possibilitou abater os seguintes animais: 11 (onze) antas, 07 (sete) catetos, 01 (um) veado cervo, 02 (dois) veados mateiro (Ponere), 02 (dois) Tamanduás Bandeira, vários tatus, vários jabutis e várias cutias.

Fig. nº 67 – (A) Anciã confeccionando um dos quatro Si’õtohöpó. (B) Os quatro Si’õtohöpó depois de usados, aldeia Tanguro.

108 Na aldeia Ẽtẽnhiritipá essa programação foi de pesca, pois nessa aldeia colocaram fogo no cerrado de forma não planejada antes da realização das caçadas cerimoniais e, temendo não conseguirem carne o suficiente para a festa, os anciãos optaram pela pescaria cerimonial para consumo durante a celebração do Danhono.

Durante as caçadas, um aspecto que tem muita importância e que também nos chamou a atenção, é a quantidade de animais abatidos por Clã, ou seja, esse é um aspecto que faz parte da política entre os dois clãs. Nas caçadas realizadas na aldeia Tanguro, por exemplo, esse aspecto teve o seguinte resultado: clã Öwawẽ: cinco antas, um veado (ponere), quatro catetos; Clã Poreza’õno: seis antas, um veado (ponere), três catetos, um veado cervo.

Fig. nº 68 – (A) Caçador carregando jabuti durante a caçada de fogo. (B) Fogo se propagando pelo cerrado, aldeia Tanguro.

A cada Warã posterior a uma caçada é realizada uma avaliação e se necessário um replanejamento, principalmente quando a caçada não é bem sucedida. Nessas sessões, além de avaliarem a caçada, os caçadores fazem um relato acompanhado de sons emitidos pelos animais e de uma “dramatização” dos seus movimentos de quando estão sendo perseguidos. Nesse momento, cada um dos caçadores busca fazer um relato o mais minucioso e detalhado possível, pois um dos seus objetivos é passar suas experiências aos homens mais novos e, ao mesmo tempo, a sua atuação enquanto caçador e, consequentemente, nesse momento ele é também avaliado pelos homens mais experientes, os anciãos. Essa é uma das formas como acontece o processo de difusão desse conhecimento às gerações futuras, pois a arte de caçar é um saber de grande importância para o povo A’uwẽ/Xavante.

A seguir, transcreveremos o relato de um dos padrinhos dos Wapté e também

caçador,109 onde ele coloca o processo de formação de um caçador dentro da cultura

A’uwẽ/Xavante.

Tradicionalmente o povo xavante pratica a caçada, a pesca, a roça e coleta de frutos do cerrado e da mata. Na cultura A’uwẽ, o caçador sempre foi importante para as caçadas. É sempre ensinado aos jovens para manter essa tradição viva e assim garantir que o povo A’uwẽ sempre tenha a carne de caça e sua alimentação. A função do caçador na cultura se processa como uma escola onde cada aluno se qualifica no rastreamento específico de cada animal durante as caçadas, como: a anta, o queixada, o caititu, o

109 Relato e desenho de Flávio Serewassa baseado numa entrevista que fez com as lideranças Márcio Tserewari Xavante e Luciano Tserewapu Xavante para elaboração de material didático do curso Magistério Intercultural – Hayo/SEDUC-MT, na ocasião da oficina Pedagógica ministrada pelo autor na aldeia Pimentel Barbosa no período de 18 a 22 de maio de 2010 e aqui utilizada com autorização prévia do autor.

tamanduá bandeira, etc. A caçada na cultura A’uwẽ é decidida normalmente na reunião, no Warã, onde se escolhe o local da caçada em que normalmente é sonhado pelo ancião onde estão os animais. Depois o caçador sai para caçar e ao encontrar os rastros do bicho, aí inicia a perseguição. O caçador usa todos seus conhecimentos, como por exemplos, o uso de um pauzinho específico na orelha facilita achar o animal pequeno, como tatu; durante a perseguição de animal carnívoro, como por exemplo, a onça, é usado outro tipo de pauzinho para que o caçador tenha sucesso. Na cultura A’uwẽ o caçador também deve fazer dieta alimentar, comer pouca comida antes da caçada e evitar ter relações sexuais na véspera da caçada, porque segundo a tradição A’uwẽ o caçador fica mais resistente para perseguir a caça. O caçador deve ter cuidado com o seu corpo. Ao entrar na mata ele deve passar a folha de Rowede no corpo, por que essa folha incentiva ele e também para facilitar o encontro de animais como: a anta, caititu, veado, cervo, tamanduá bandeira e queixada. Quando o caçador vai caçar, ele sai da aldeia bem de manhã e vai seguindo um caminho estreito e vai até o local onde encontra os animais, através do seu sonho. Ao passar por perto de alguns animais o caçador sente cheiro e prossegue até aproximar-se para matar usando suas armas pessoais como: arco e flecha ou espingarda. Durante a caçada, o caçador também analisa para onde está a corrente do vento, porque se o vento estiver indo do caçador para o animal ele não consegue aproximar dele para poder matar com seu arco e flecha. Depois que o caçador mata o bicho, ele faz o corte da carne ai depois pega a folha de palmeira de buriti e faz cesto grande para carregar a carne nas costas para voltar para sua casa. Quando ele chega em casa, a carne é dividida entre os moradores da comunidade, por isso o caçador é sempre muito respeitado por todos da aldeia. Para cada tipo de animal existe uma divisão específica da carne no momento quando vai repartir entre os caçadores (Relato de Flávio Serewassa Xavante, aldeia Tanguro).

Fig. nº 69 (A) Representação do sonho do caçador; (B) Caçador a caminho do local de caçada orientado sob o sonho. Desenhos de Flávio Serewassa Xavante.

Toda a carne dos animais abatidos é moqueada e guardada na casa dos caçadores, principalmente daqueles que abateram as respectivas caças. Depois de várias caçadas e também depois de já terem percebido que a quantidade de carne é suficiente para a festa, aproximadamente 150 quilos em cada um dos quatro baquité, todos os homens levam para o centro da aldeia toda a carne que conseguiram durante a caçada. Os homens levam essa carne para o lugar onde ficam as suas respectivas equipes e de acordo com a divisão inicial das quatro equipes lideradas pelos dois Pahöri’wa e pelos dois Tebe. Depois dessa distribuição os anciãos retiram a carne dos pequenos baquité (ver figura nº 70 B) e colocam-na no grande

Warã para carregar os baquité de carne até as casas dos Pahöri’wa ou de um dos Tebe. Essa

carne fica guardada nessas casas até o dia da cerimônia dos Pahöri’wa. Cerimônia esta que será discutida mais adiante.

Fig. nº 70 – (A) Ritéi’wa sendo adornado pelo seu companheiro de grupo para levar os quatro Siõtõhöpó do centro da aldeia até a casa dos pais dos dois Pahöri’wa e dos dois Tebe. (B) Os quatro Siõtõhöpó sendo preenchidos com carne de animais abatidos durante as caçadas de fogo. (C) Ritéi’wa adornado e pintado aguardando a autorização dos anciãos para transportar os quatro Siõtõhöpó do centro da aldeia às casas dos

dois Pahöri’wa e dos dois Tebe, aldeia Tanguro.

Como pudemos perceber no relato acima, assim como as outras cerimônias, a caçada também possui uma relação muito estreita com a questão espiritual A’uwẽ/Xavante e essa relação é explicitada no mito “O segredo da Onça”. Mito esse que está presente nas narrativas atuais desse povo e que pode ser conferido em Ferreira e Silva (2010), que foi narrado pelos professores numa ocasião de elaboração de material didático para as escolas da Terra Indígena Pimentel Barbosa.

3.10 – Wamnhoro - as máscaras cerimoniais

Para o povo A’uwẽ/Xavante as máscaras cerimoniais simbolizam os laços de afinidade que são estabelecidos entre as pessoas a partir da cerimônia; simboliza a maturidade que os iniciados obtêm a partir das cerimônias, como por exemplo, o estabelecimento da relação específica entre Wapté com os padrinhos; das relações estabelecidas entre os próprios Wapté; de maneira geral, ela simboliza todo o processo de iniciação do rapaz na vida adulta. Segundo informações de um dos anciãos, seus cantos e suas danças estão intimamente relacionados com os espíritos wadzepari’wa. Espíritos estes que são malevolentes, de má índole, de má vontade, e que aparecem de forma disfarçada para aterrorizar as pessoas. Segundo um dos

anciãos, Midá Xavante, esses espíritos gostam de ficar no local onde os Wamnhoro ficam

pendurados, enquanto os homens estão fazendo para seu filho, por isso temos que fazer tudo certo!, afirma esse ancião.

O Wamnhoro é um artefato confeccionado da seda do buriti e tem o formato de um cone. Quando usado cerimonialmente, é colocado sobre a cabeça ou carregado na mão direita do “dançarino” para ser balançada durante a cerimônia. A sua confecção é realizada gradativamente, conforme as cerimônias do rito Danhono vão acontecendo e de acordo com o

ritmo de trabalho dos artesãos. Esse trabalho dura um longo período110 e sua confecção

consiste nas seguintes fases: primeiramente os jovens e os homens da aldeia vão ao mato tirar o broto de buriti; após a coleta dos brotos, já em suas casas, os pais dos Wapté iniciam o trabalho de preparação do material com a seleção dos fios de seda do buriti (ver figura nº 71 – A, B e C); após essa seleção, os fios de seda são agrupados em pequenos feixes por cordão de algodão branco fiado pelas mulheres (ver figura nº 71 – C); depois são guardados junto a um pedaço de “braço de buriti” e enrolados por fios de seda também de buriti até completar uma quantidade ideal para confecção de um exemplar de Wamnhoro (ver figura nº 71 – B). Passam entre esses feixes um barbante confeccionado da seda de buriti trançado pelo pai (ver figura nº 71 – C). Cordão de semente de capim navalha com algumas unhas de veado e penas (azul, amarela e vermelha) de arara adornam os Wamnhoro.

Fig. nº 71 – (A) Sedas de buriti estendidas ao sol para secar – aldeia Caçula. (B) Anciãos fazendo os molhos (feixes pequenos) de seda de buriti para armazenar enquanto completa a quantidade necessária para confeccionar

o Wamnhoro desejado para seu filho ou neto Wapté – aldeia Caçula. (C) Molhos de seda de buriti sendo desembaladas para iniciar o processo de confecção do Wamnhoro – aldeia Tanguro.

O processo de confecção do Wamnhoro é uma atividade que também deve ser disseminada paulatinamente entre os participantes desta cerimônia. Enquanto os pais ou avôs dos Wapté coletam e preparam a quantidade de seda de buriti o suficiente para confeccionar este artefato para uso de seus respectivos filhos/netos, todas as tardes, um dos anciãos determina a uma criança (pertencente ao próximo grupo a entrar no Hö – Abare’u) o desafio de levar um pequeno feixe de seda (simbolizando o Wamnhoro) até o Hö enquanto os padrinhos e madrinhas estão no centro da aldeia dançando Wanorindobe. Mas no momento que a criança é percebida, os padrinhos elegem uma das madrinhas para interceptá-lo e retirar o “Wamnhoro”. Esse pequeno fato cerimonial tem a finalidade de imprimir nos padrinhos o

110 Na ocasião em que registramos essa cerimônia nas aldeias Tanguro e Caçula, o trabalho de preparação do material para confecção do Wamnhõrõ durou aproximadamente dois meses.

espírito da cerimônia, pois no dia específico para a celebração da cerimônia Waiarãpó, os padrinhos e madrinhas devem ficar atentos para observar de qual das casas sairão os Wapté com máscaras para poderem retirá-las deles. Esses feixes de seda retirados dessas crianças pelas madrinhas são utilizados na confecção dos artefatos que elas usarão nas cerimônias ou, às vezes, doam esse material a um parente que está preparando o Wamnhoro do seu filho. Enquanto os pais estão preparando o material para a confecção do Wamnhoro, os padrinhos dos Wapté preparam o local onde serão confeccionadas as máscaras.

Depois que os pais já estão com o material (seda de buriti, cordão de algodão e urucum) preparado e em quantidade suficiente para confeccionar o Wamnhoro do seu filho, é marcado o dia para realização dessa tarefa. Quando chega esse dia, todos os padrinhos dos Wapté e os

Tirówa (futuros padrinhos) levantam bem cedo (aproximadamente 4:00h) para se pintarem e

adornarem e, logo em seguida, vão para o centro da aldeia participar do Warã (ver figura nº 72 – A). Nessa sessão do Warã recebem dos anciãos todas as orientações sobre a confecção do Wamnhoro.

Fig. nº 72 – (A) Warã de planejamento, organização e orientação do processo de confecção dos Wamnhoro. Cada pai ou avô traz consigo as embalagens com as sedas de buriti preparadas e armazenadas ao longo dos últimos dois meses, aproximadamente. (B) Ritéi’wa carregando a seda de buriti ainda embalada para o local

onde será a confecção dos Wamnhoro. (C) Disposição circular dos tubos de seda de buriti já no local onde devem ser confeccionados os Wamnhoro, aldeia Tanguro.

Logo após as orientações dos anciãos, os padrinhos, os Tirówa e o Dahi’rada (chefe de cerimônias) saem enfileirados em direção ao local onde os Wamnhoro serão confeccionados (ver figura nº 72 – B). O local onde os homens confeccionam os Wamnhoro e os artefatos utilizados durante os ritos e cerimônia que é denominada por esse mesmo nome, fica situado