O uso de tecnologias no contexto escolar não é algo novo, pois desde a invenção da escrita, a primeira tecnologia que possibilitou o congelamento da fala para que essa fosse transmitida a distância, novos recursos têm surgido e inevitavelmente são inseridos na escola (CHAVES, 2000). Assim como a escrita, outras ferramentas tecnológicas que surgiram ao longo da História foram recebidas com temor e insegurança.
A escola pública tem oferecido alguns recursos didáticos e tecnológicos para que o professor utilize e possibilite meios para que o conhecimento do aluno seja ampliado. Para muitos educadores, o uso de certas ferramentas, os chamados artefatos, é uma grande dificuldade, por se tratar de recursos com os quais não estão acostumados ou não foram capacitados para utilizá-los (RICIOLLI, 2009) e, ao invés de ajudá-los, tornam-se um problema em sua prática pedagógica.
Para outros professores, esses artefatos só vieram contribuir em sua tarefa educacional. O uso de artefatos, tanto os mais antigos (TV, vídeo, retroprojetor, som etc.) quanto os mais atuais (computador e internet), pode colaborar para uma aula prazerosa, criativa, reflexiva, interativa e auxiliar o processo de ensino e aprendizagem (RICIOLLI, 2009).
Segundo Riciolli (2009), mesmo com a implementação dos laboratórios de informática nas escolas, ainda há alunos que quase não têm contato com as ferramentas digitais na escola, por diversas razões, como falta de infraestrutura da própria escola, falta de tempo dos professores e pouco incentivo da instituição de ensino. Riciolli (2009) mostrou que alguns alunos possuem computador conectado à internet em casa e, outros, acessam em Lan houses.
Na cidade alvo desta tese, Joviânia, todas as escolas de Educação Básica possuem laboratórios de informática, onde os professores podem levar seus alunos para trabalharem o conteúdo programático, uma vez que realizem o agendamento com antecedência. O computador pode ser uma ferramenta de apoio ao processo de ensino- aprendizagem nas escolas públicas, desde que o professor tenha autonomia para usar esse artefato e consiga oferecer autonomia aos alunos. Assim, será possível estimular o interesse e promover maior engajamento dos alunos, além de instigá-los a buscar o conhecimento.
É preciso que se diga, todavia, que esses recursos não devem ser considerados a solução para todos os problemas da Educação, nem como um meio mágico por meio do qual a aprendizagem vai se efetivar. É uma ferramenta digital que pode colaborar para o interesse do aluno na sala de aula, visto que já faz parte do cotidiano de muitos alunos. Nas palavras de Valente (1993, p. 13), “[...] o computador não é mais o instrumento que ensina o aprendiz, mas a ferramenta com a qual o aluno desenvolve algo, e, portanto, o aprendizado ocorre pelo fato de estar executando uma tarefa por intermédio do computador”.
Os recursos oferecidos pelas novas tecnologias no processo de ensino e aprendizagem da língua inglesa podem ser construídos de maneira mais significativa por meio da internet, pois ela possui inúmeras possibilidades de recursos que, se usados de maneira apropriada e autônoma, podem desenvolver o processo de gênese instrumental.
Nas escolas públicas que disponibilizam laboratório de informática, é preciso romper com a “fórmula mágica” do uso das tecnologias, que vem sendo disseminada, segundo a qual o mero contato com as ferramentas digitais promove a inclusão digital e, logo, o conhecimento. Essa visão deturpada da tecnologia tem atravancado a mentalidade dos professores, pois muitos acreditam que proporcionar aos alunos o contato com as tecnologias digitais já é uma forma de inclusão, mesmo sem um domínio adequado dos recursos disponíveis nessas ferramentas. É relevante dizer que muitos usuários utilizam apenas uma parcela das funções disponibilizadas por seus computadores como ferramenta tecnológica (RABARDEL & WAERN, 2003, p. 1).
Ao professor cabe também a tarefa de auxiliar no processo de interação entre os alunos, uma vez que a aprendizagem se desenvolve em um ambiente de contrastes de opiniões e diferentes perspectivas. Isso pode ser reforçado pela fala de Mendes (2008, p. 10), que enfatiza:
O processo de aprendizagem, mediado pela interação, vai levar à construçãodeumconhecimentoconjunto entreo alunoe oprofessor ou um colega; e, para que isso ocorra, o processo envolverá dificuldadese sucessosna compreensão, negociaçãodas perspectivas diferentes dosparticipantes e ocontrole da interação por partedeles,
atéqueestesejacompartilhado.
A possibilidade de interagir com o outro no mundo digital é, hoje, uma realidade para muitos que têm acesso ao computador e à internet. Essa interação, a cada dia, tem
quebrado barreiras geográficas, culturais e pessoais e proporcionado a oportunidade de compartilhar novos pensamentos e conhecimentos. Entretanto, de acordo com Lopes (2004), dos 170 milhões de pessoas de nosso país, apenas “20 milhões têm acesso a um computador”.
Aindaassim, quemolharcommaisatençãoesseretratoobservaráque crianças e jovens estãoembarcando nomundo digital, o quepermite algum otimismo para o futuro. Nos últimos três anos, o número de incluídos aumentou de 10% para 15%, ou seja, 50% de acréscimo
(LOPES, 2004, p. 1).
Com a apropriação dessas ferramentas tecnológicas, os professores criam condições de se operacionalizar e/ou instrumentalizar para agir em sua prática pedagógica. O professor deve mostrar aos seus alunos a maneira de usar o computador e a internet de forma que eles aprendam a buscar o aprendizado, não usando as ferramentas de forma mecânica mas, sim, devidamente instrumentalizados a (re)construir o próprio conhecimento, que é a gênese instrumental. Por meio das gêneses instrumentais os usuários tendem a estabelecer coerência entre as formas de artefatos e as da atividade, a torná-los consistentes, segundo Folcher e Rabardel (2007).
Silveira (2003) destaca que “não basta levar computadores para as escolas. É preciso discutir seu uso didático-pedagógico e buscar incorporá-los ao processo de ensino e aprendizagem”, e fazer dessas ferramentas instrumentos colaboradores no desenvolvimento do aluno. Vale mostrar que Rabardel e Waern (2003) possuem uma visão do que é esse apoderar-se dos computadores pelas pessoas e o que a implicação de seu uso pode fazer e, ainda, usam o termo “artefatos” para se referir a eles,
Temos o foco na apropriação dos usuários de seus computadores como artefatos. Perguntamos como os usuários desenvolvem suas atividades, bem como adaptam artefatos de seus computadores para as novas condições que o uso dos artefatos implica ou permite (RABARDEL; WAERN, 2003, p. 1, tradução nossa)21.
Por melhor ou mais inovador que seja o recurso disponível em escolas, a fim de potencializar o trabalho docente, agilizando e aperfeiçoando seu dia-a-dia, se não for bem utilizado não colaborará na tarefa do indivíduo. É fundamental usá-los com
21 In this special issue we focus on users’ appropriation of their computers as artefacts. We ask how users
develop their own activities, as well as adapt their computer artefacts to the new conditions that use of the artefacts implies or allows.
consciência, autonomia e responsabilidade, tornando-os uma ponte entre o discente e o conhecimento. Nessa perspectiva, Warschauer (2006, p. 206) aponta que há os que não participam da inclusão e não se beneficiam com as ferramentas tecnológicas:
[...] astecnologiasdeinformaçãoecomunicaçãocoincidemcomaluta porumaeducação melhor, enemsempredemaneiraquebeneficieos alunosmarginalizados. Aorganizaçãodatecnologiaemfavordemaior igualdade, inclusão e acesso não está absolutamente garantida, mas dependerá, emgrandemedida, damobilizaçãodosalunos, educadores e comunidades, exigindo quea tecnologiaseja usadademaneira que atendaseusinteresses.
Diante disso, percebe-se que o professor que não utiliza a tecnologia em seu cotidiano teme ser substituído por aquele que a usa. Isso faz com que ele propague a “fórmula mágica” do uso da tecnologia e prefira um uso precário, ou seja, ele acredita que é melhor levar os alunos ao laboratório de informática e oferecer qualquer tipo de contato com as ferramentas computacionais do que não fazê-lo.