dos seus padrinhos o adorno (penas na cabeça), a pintura corporal e as bordunas que deverão portá-las enquanto
estiverem na beira do córrego batendo água - aldeia Caçula. (B) Os Wapté no centro da aldeia em ato solene e público, recebendo as últimas orientações e conselhos dos anciãos, antes da entrada no córrego para bater água -
aldeia Caçula. (C) Os Wapté no centro da aldeia recebendo os devidos conselhos e orientações antes da cerimônia do Uiwedezadarã - aldeia Tanguro.
Ao nascer do sol (aproximadamente às 6:00h), o Dahi’rada (chefe do cerimonial) vai até o Hö buscar os adolescentes para o centro da aldeia, o Warã. Ao chegar ao Warã, os meninos formam uma fila de frente para o grupo de anciãos e se posicionam de joelho no chão, meio que sentados sobre os tornozelos (ver figura nº 24 – A). Logo em seguida, seus padrinhos se dirigem até o local onde estão os Wapté para pintá-los, adorná-los e lhes entregar as bordunas que portarão durante o período que estiverem reclusos na beira do córrego para bater água.
Para adornar os Wapté, os padrinhos, inicialmente, colocam a borduna do lado direito de cada uma dos adolescentes (ver figura nº 23 – A) e, logo em seguida, mastigam castanha de coco babaçu. O leite do coco extraído da mastigação é jogado sobre a “bola” de urucum para dissolver a sua superfície, formando, assim, uma tinta vermelha. Com essa tinta, inicia-se a pintura denominada ῖsapré, constituída de três listras circulares ao corpo. A primeira é elaborada sobre o peito (passando pelos dois mamilos); a segunda, na altura do umbigo; e a última, próximo da cintura. Essa ordem nem sempre é a mesma, pois observamos que havia padrinhos que iniciavam a pintura de baixo para cima; outros iniciavam pela listra intermediária. Após essa pintura, são colocados os penachos (pena de arara amarela/azul) amarrados com cordão de algodão na parte posterior da cabeça (ver figuras nº 23 – A e 24 - B).
Depois que todos os Wapté já estão pintados e adornados, nesse momento, os anciãos iniciam a reunião de orientação e aconselhamento para os meninos que, enquanto isso, permanecem na mesma posição e de cabeça baixa em forma de respeito aos anciãos.
Ao término desse momento de orientação dos anciãos, o Dahi’rada (chefe do cerimonial) se dirige até o centro do círculo formado pelos meninos e os anciãos e, de joelhos, dão as últimas orientações e convidam-nos a lhes seguir (ver figura nº 23 - B). Nesse momento, tanto os Wapté como também seus padrinhos seguem o Dahi’rada e se deslocam para o lado externo do círculo formado pelas casas (espaço não público). Chegando nesse local, cada um dos padrinhos retira os cocares dos seus respectivos afilhados e logo, imediatamente, seguem em fila para o córrego, passando pelo centro da aldeia (ver figura nº 23 – B).
Ao chegarem à beira do córrego, já encontram o Wate’wa Nhibri64 construído, suas
camas preparadas, duas pequenas forquilhas para colocar as suas bordunas, o pátio bem limpo e os dois diques (de palha transada) construídos (ver figura nº 25 – A e B). Vale ressaltar que
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esse dois diques são construídos para delimitar o local onde vão bater água, assim como também, impedir a passagem de qualquer animal enquanto estão realizando essa atividade.
O Wate’wa Nhibri é construído pelos padrinhos. Quando os Wapté chegam nesse abrigo, já encontram tudo arrumado e logo vão se acomodando, de acordo com a alternância clânica, e colocando suas bordunas nos seus devidos lugares65 (vê figura nº 25 – B).
Fig. nº 25 – (A) Início da construção do Wate’wa Nhibri ou Wateaba Nhibri ou Wate’wa Nhõrõwa, abrigo onde os Wapté permanecerão durante o período de realização da cerimônia Watewá (bateção de água) – aldeia Caçula.
(B) Abrigo já construído e preparado na beira do córrego com as respectivas camas e bordunas nos seus devidos lugares; (C) Local com os devidos diques de proteção, onde baterão água durante o período da cerimônia.
Quando chegam à beira do córrego já encontram também todos os homens “maduros” e anciãos. Mas antes dos Wapté entrarem na água, representantes de cada um dos grupos de idade entram na água e fazem a demonstração de como se deve bater água. A entrada dos grupos de idade na água respeita a mesma ordem de quando passaram pelo Hö, ou seja, respeita a ciclicidade dos grupos no Octógono Cultural para a formação e autoformação, iniciando pelo grupo mais velho, Nozö’u.
A cada vez que um grupo de idade terminava de fazer a sua demonstração aos Wapté, o próximo grupo a entrar na água busca fazer melhor do que o anterior. Esse aspecto de competição entre os grupos, de certa maneira, é uma forma de demonstrar aos demais a sua habilidade de bater água e, consequentemente, reafirmar a força política do grupo dentro das
relações dos grupos de idade66. Competição esta que beneficia diretamente os Wapté em
formação.
65 Enquanto os Wapté estão batendo água, as mulheres não podem lavar roupa acima do local onde batem água, pois segundo os anciãos, o sabão estraga a pele e também deixa os olhos dos Wapté irritados.
66 Durante todo o processo da realização do rito de iniciação/passagem, os demais grupos são co-responsáveis. Os Tirówa, por exemplo, quando vão tirar palha para fazer a cama para os Wapté (Nozo’u) e também tirar talo do capim para colocar no furo da orelha dos Wapté após a furação de orelha (capim especial que não gruda no furo da orelha) leva os seus futuros afilhados (Abare´u) para irem aprendendo e também irem se acostumando com esse tipo de atividade para não estranharem quando estiverem no Hö.
Fig. nº 26 - Ancião pertencente ao grupo mais velho (Nozö’u) entrando na água para fazer a primeira demonstração aos Wapté da maneira correta de bater água durante a cerimônia
Wa’tewa - Aldeia Caçula.
Enquanto os oito grupos fazem suas demonstrações, os anciãos mais velhos ficavam assistindo, observando e avaliando cada um dos grupos. Depois que todos já tinham terminado suas demonstrações, chega a hora dos Wapté entrarem na água para colocar em prática tudo o que tinham terminado de assistir. Mas antes de entrarem na água, e ainda durante a demonstração dos outros grupos de idade, os pais preparam seus filhos penteando seus cabelos e passando leite de coco mastigado no seu corpo antes de entrar na água. Nesse período, o cuidado com os adolescente é constante, como podemos perceber no depoimento de um dos padrinhos dos Wapté, quando ele diz que:
Os adolescentes, antes de entrar na água, os padrinhos passam erva no corpo dos Wapté. Essa folha de wedenhorõtó (mutamba) é coletada por uma pessoa escolhida pelo grupo dos padrinhos. Existem outros tipos de folhas que também são usadas com essa finalidade (Vinicius S. S. Xavante – depoimento pessoal).67
Ainda meio sem ritmo, sem sincronia e sem harmonia sonora das batidas das mãos na água, os Wapté iniciam a atividade e, aos poucos e com as orientações dos anciãos, vão adquirindo confiança. Mas enquanto não pegam totalmente o ritmo, alguns dos anciãos também acham muito engraçada a falta de sincronia do grupo e a forma que cada um bate água.
Fig. nº 27 – (A) e (B) Wapté, após a demonstração dos grupos mais velhos, iniciando suas primeiras batidas d’água e se deslumbrando da beleza das bolhas d’água durante a cerimônia de Bateção de Água – aldeia Caçula.
Depois de alguns minutos assistindo e dando dicas aos adolescentes, ainda na beira do córrego, os anciãos iniciam um Warã especial, onde os velhos discutem por um longo período de tempo os detalhes da cerimônia, como por exemplo, o período ideal para o grupo permanecer na água; reforçam os cuidados que deverão ter com a alimentação nesse período; a obrigação de pescar para partilhar com o Dahi’rada (chefe da cerimônia); o local ideal onde ficará fincado o Wedehöpu68 (ver figura nº 28 – A e B), etc. Esse Warã marca o início do
Wate’wa - cerimônia de entrada dos Wapté na água e, a partir desse momento, os adolescentes
permanecerão um período de três a quatro semanas batendo água no córrego. Com isso, os anciãos, os pais e os padrinhos dos Wapté voltam para a aldeia.
Fig. nº 28 – (A) e (B) As duas Fig. mostram as marcações no Wedehöpu (literalmente pau com marcas) dos dias de cerimônias de Bateção de Água
nas aldeias Tanguro (Abril/10) e Caçula (maio/10), respectivamente.
No período em que os Wapté estão no córrego, eles batem água todos os dias, mas não o dia todo. Obrigatoriamente eles batem água duas vezes ao dia: das 4:00h às 6:30h e das 16:00h às 18:30h, aproximadamente. É uma bateção ritmada e com pequenos intervalos. O
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início de cada bateção de água é alternado entre os dois Wapté que estão nos extremos da fila e, dessa forma, alternam também os clãs.
Entre esses dois principais momentos de bater água, desenvolvem outras atividades como, por exemplo, pescar, cuidar do corpo e da pele, passando os devidos remédios, etc. Realizam ainda as pequenas sessões de bateção de água, mas de forma esporádica e/ou de acordo as necessidades. Como por exemplo, nas ocasiões solicitadas pelos anciãos. Após bater água nesses dois horários, os meninos fazem uma visita rápida às suas respectivas casas. No período matutino, após a realização do Warã, o Dahi’rada vai até o córrego para conduzi- los até o pátio da aldeia. Mas antes de sair da beira da água, o chefe faz uma pequena conversa para saber dos ocorridos durante a noite e se todos estão bem. Terminada essa conversa, saem caminhando em fila até a entrada do espaço público da aldeia. Depois que entram nesse espaço, todos seguem caminhos diferentes que os levam às suas respectivas casas. Enquanto fazem esse trajeto, devem ficar de cabeça baixa e sem olhar para os lados, pois não podem olhar para nenhuma mulher. A forma de caminhar durante esse trajeto deve ser a “marcha cerimonial”, ou seja, caminhar em passos lentos e compassados, segurando a borduna com a mão esquerda, enquanto a outra mão deve ficar fechada e encostada na boca (ver figura nº 29 – B e C).
Fig. nº 29 – (A) Os Wapté, ao nascer do sol, sendo retirado da água pelo Dahi’rada - aldeias Caçula. (B) Os Wapté, em “marcha cerimonial”, se dirigindo às suas casas para visitar os familiares - aldeias Tanguro. (C) Os
Wapté, já se dispersando, durante a visita aos familiares – aldeia Caçula.
Ao chegar às respectivas casas, adentram três ou quatros passos e ficam parados por algum instante de frente para a única porta da casa, enquanto suas irmãs mais novas (ou primas mais novas) elaboram a pintura passando a mão com tinta preta (pó de carvão e coco de babaçu mascado) na parte superior das costas (uma de cada lado), no abdome, nos antebraços (lado externo dos músculos) e nas batatas das pernas. Após ser elaborada essa pintura pelas irmãs, imediatamente, eles retornam ao córrego caminhando da mesma forma de quando vieram, ou seja, em marcha cerimonial e de cabeça baixa. Enquanto é elaborada a pintura corporal, as mães, tias e avós acariciam-nos e conferem se não têm algum machucado no corpo.
Fig. nº 30 – Os Wapté na beira do córrego logo após retornaram da visita matinal às suas respectivas famílias – aldeia Tanguro.
Com relação a sua ida em suas respectivas casas no período vespertino, ao pôr do sol, os
Wapté permanecem um pequeno intervalo de tempo com a família. Ficam aproximadamente
até as 20:00h, quando já está totalmente escuro. Nesse intervalo, ficam deitados numa esteira e embrulhados. Segundo informação de alguns padrinhos e de alguns anciãos, essa visita é para que as mães matem a saudade dos seus filhos e também para que eles possam descansar por um pequeno período. Mas na hora de voltar para o córrego, os Wapté devem sair de casa discretamente para não deixar suas mães, tias e avó com saudade.69
O ato das irmãs ou primas mais novas passar a mão no corpo do seu irmão (Wapté) é um fato muito importante na realização dessa cerimônia, pois é um momento da mãe do menino, via irmã ou prima, verificar o corpo do filho assim como também ter a oportunidade de conversar com ele, mesmo que seja num pequeno período de tempo duas vezes ao dia. Podemos dizer que, mesmo que a criança seja separada da família por um período de cinco (05) anos aproximadamente, a mãe não deixa de ter uma participação direta na educação dos meninos e também, essa é uma das formas que a mulher participa dessa cerimônia.
Depois de alguns dias que os meninos já estão batendo água, esporadicamente os outros grupos de idade pertencentes à mesma metade dos Wapté e corresponsáveis pela sua formação, batem água com a finalidade de instruí-los da melhor forma e técnica de bater água. De certa forma, essa pausa serve de descanso para os Wapté, pois enquanto esses grupos batem água, eles ficam a maior parte do tempo deitados descansando em suas esteiras no interior do Wate’wa Nhibri. Na ocasião70 que registramos a cerimônia de bateção de água na aldeia Caçula, o primeiro grupo a proporcionar esse descanso aos Wapté foi o grupo dos
69 Os caminhos que percorrem cada um dos Wapté quando vão a suas casas são caprichosamente limpos, pois esse será o caminho que os Wapté irão passar todos os dias quando saírem da água, ao amanhecer e ao entardecer do dia, para irem a suas casas visitarem suas famílias.
Ẽtẽpá, seus padrinhos e na sequência, os grupos Anhanarowa e Tirówa. Nessa ocasião, os Anhanarowa bateram água aproximadamente até às 20h30min. (18h30min. até às 20h30min.
aproximadamente) e, enquanto isso, o grupo Tirówa cantava e dançava em frente às casas da aldeia para alegrar a comunidade.
Depois da dança, os Tirówa vão para a beira do córrego (por volta das 20:30h) e com isso, o grupo Anhanarowa bate água mais uma sequência e logo encerra sua participação, pois, a partir daquele momento, o grupo Tirówa assume a atividade e vai até o nascer do sol do dia seguinte. Mas quando os Tirówa vão para a beira do córrego, cada um leva uma oferenda (bolo, banana, etc.) que guardam nos baquités para entregar aos velhos durante o
Warã do dia seguinte (Warã matutino). No dia seguinte, logo após o Warã, um dos anciãos se
dirige até o córrego para retirar o grupo de Tirówa da água e levá-los até suas casas. Nesse momento, antes de saírem da beira do córrego, eles entregam as oferendas ao ancião e em seguida batem água mais uma vez e em seguida saem em fila e em marcha cerimonial (enquanto passam pelo espaço público) até suas casas e fazem o mesmo que os Wapté fazem quando visitam suas famílias. Mas só que ao voltar para o córrego os Tirówa se pintam e enfeitam (com sucatas e objetos pendurados no corpo) de uma forma que proporcionam aos que estão assistindo muitas risadas da maneira que estão adornados.
Após essa atividade, os anciãos e os pais dos Wapté se dirigem até o córrego e lá os pais passam óleo de coco no corpo dos Wapté, seus filhos. No momento que estão passando o coco de babaçu mastigado no corpo de seus filhos, observam minuciosamente o físico deles, conferem para ver se não tem algum machucado, penteiam seus cabelos, acariciam passando a mão várias vezes no seu rosto (ver figura nº 31 – A e B). De certa maneira, podemos dizer também que essa é uma forma dos pais verificarem o desenvolvimento físico dos seus filhos, pois sabem que a fase seguinte da vida deles, após o término da formação e autoformação é a de Ritéiwa (guerreiro). Após essa sessão, os pais colocam os meninos em fila em frente à
Wate’wa Nhibri e os mais velhos fazem um longo discurso dirigido a eles. Nesse discurso,
enfatizam aspetos como: “vocês têm que ser fortes! Tem que ser A’uwẽ Uptab! [Xavante de verdade!] Você não pode ficar fraco, mole!” Após esses discursos os meninos entram na água e os velhos continuam as discussões entre si, a respeito dos próximos acontecimentos da festa (ver figura nº 31 – C).
Fig. nº 31 - (A) e (B) Jovens (Wapté) recebendo os devidos cuidados físicos dos pais – passando leite/óleo de coco babaçu no corpo e no cabelo para proteger do sol. Consequentemente, nesse momento ocorre a avaliação do
desenvolvimento físico dos adolescentes, aspecto que influencia na definição das cerimônias seguintes (C) Jovens (Wapté) recebendo as orientações e conselhos dos anciãos durante a cerimônia de Bateção de Água -
aldeia Caçula.
Durante todo o período de atividades relacionadas às cerimônias que constituem o
Danhono, os anciãos são peças fundamentais para o desenvolvimento das mesmas, e com isso
recebem o reconhecimento da sua importância por todos da comunidade e durante toda a festa. Dentro desse reconhecimento, todas as noites, antes do início do Warã do pôr do sol, o
Dahi’rada sai em silêncio e vai passando pelas casas pegando as oferendas (bolo de milho,
bolo de trigo, mo’õni assada (batata Xavante), frutos da estação, etc.) que foram preparadas especialmente pelas mães dos Wapté aos anciãos. Após essa coleta, ele volta para o Warã e lá entrega as oferendas recolhidas a um dos anciãos mais velhos, que logo em seguida faz a divisão e partilha entre todos os homens presentes nessa reunião. Enquanto são recolhidas as oferendas, os homens ficam no Warã num silêncio quase que total. Depois da divisão e do consumo das oferendas, aí surgem alguns assuntos a serem debatidos, como por exemplo, a colocação da gravata nos adolescentes e a furação de orelha dos Wapté, pois já que o momento de realização dessa cerimônia se aproximava.
Durante o período que estão no córrego batendo água, uma atividade cerimonial que tem destaque é a colocação da ῖparazumapu (gravata) nos Wapté. Assim como qualquer outra atividade, ela é planejada no Warã, e é o assunto principal do Warã matinal daquele dia.
A colocação da gravata nos adolescentes inicia com a ida do Dahi’rada ao córrego buscar os Wapté. Ao chegar à beira do córrego, normalmente encontra os meninos fora d’água tomando sol, pois a sessão de bateção começa às quatro horas e termina ao nascer do sol. Inicialmente o Dahi’rada conversa com todos verificando como passaram a noite e, em
seguida, pede aos meninos para entrarem no córrego para bater água mais uma vez e, logo em seguida, saem enfileirados em direção ao centro da aldeia71 (ver figura nº 29 – A, B e C).
Ao chegar a suas casas, os Wapté adentram uns quatro passos e se posicionam de frente para a única porta de saída. E, enquanto seus pais lhe colocam a gravata, suas irmãs ou primas lhe passam tinta preta (carvão com coco mastigado) em partes do seu corpo específica, da mesma forma que acontece quando visitam sua família. Terminado esse trabalho, voltam ao córrego em “marcha” cerimonial, enquanto passam pelo centro da aldeia. Mas quando saem do pátio da aldeia, todos se agrupam em fila única e com muitas brincadeiras uns com os outros em forma descontraída. Chegando ao córrego, iniciam uma sessão de cuidados corporais, passando na pele o wedenhorõtó (ver figura nº 32 – A e B).
Fig. nº 32 – (A) e (B) Os Wapté passando a proteção de pele, o wedenhorõtó (entrecasca da mutamba), no corpo dos seus companheiros após a cerimônia de colocação da gravata – aldeia Caçula.
Já com gravata e com o wedenhorõtó passado na pele, os Wapté reiniciam a bateção de água normalmente, mas antes disso conversam bastante entre si, pois durante os momentos de visitação das suas casas não é permitida nenhuma conversa ou brincadeira, então esse é o momento de conversar e também apreciar e admirar suas gravatas e as dos seus companheiros, i’amão, como se tratam.72
Quando estão batendo água, os Wapté têm uma alimentação especial. A base é fubá de milho tradicional, mo’õni (batata xavante), farinha de mandioca e arroz sem sal e sem gordura. Segundo os anciãos, essa dieta é devido a furação de orelha que acontece após essa cerimônia. Pois, “nesse período os meninos são proibidos de comer outra coisa ou comida
71 Vale ressaltar que todas as vezes que o chefe vai buscar os meninos, nos períodos matutino e vespertino, o
Wapté líder, antes de seguirem para suas casas, lhes entrega uma fileira de peixes pescados naquele período como retribuição do serviço prestado ao grupo.
72No dia a dia, quando não estão frente aos anciãos e seus padrinhos realizando qualquer atividade formal, os
adolescentes estão sempre alegres e descontraídos. Por exemplo, numa ocasião na aldeia Tanguro, numa madrugada de muito frio, em tom de brincadeiras, alguns diziam: “Tá gelada, mas vamos continuar!”
temperada; se eles comerem outro tipo de comida, eles ficam com a pele escura. Também a cicatriz da orelha não fica perfeita” (depoimento do ancião Márcio Bidu Xavante).73