Redesignet prosess
9.4 Omstilling av organisasjonen
Foi proposto aos estudantes que escrevessem suas narrativas (auto)biográficas e que durante o processo de escrita, também fizessem, em certos momentos, o relato oral de suas experiências musicais formativas. A escolha pelo registro escrito das narrativas (auto)biográficas, para fins de construção de material de pesquisa, trata-se de uma escolha metodológica baseada nas propostas metodológicas e conceituais de Delory-Momberger, com o ABP, e de Paul Ricoeur, com a análise hermenêutica.
A compreensão do texto como obra do discurso é vital para a realização da interpretação durante a análise hermenêutica, por isso ele é preferível diante dos
relatos orais. No entanto, acredito que vale a pena ponderar acerca das experiências que emergiram dentro do AMBP no que se refere a relação entre o ato de escrever as experiências musicais formativas e o ato de falar sobre essas mesmas experiências. Os colaboradores foram convidados a relatar oralmente as suas experiências dentro do AMBP em dois momentos distintos: primeiro junto às tríades, com o objetivo de partilhar suas experiências e contar com a perspectiva dos seus pares acerca do esboço em andamento, para assim seguir na edição do texto.
O segundo momento deu-se antes da entrega da versão final: os colaboradores fizeram o relato oral de suas narrativas diante de todo o grupo, e foi possível observar que, para a maioria dos colaboradores, havia uma maior desenvoltura no ato de narrar e um maior interesse em partilhar as experiências com os demais colaboradores. É interessante notar que nos primeiros encontros com os estudantes do EMI, muitos deles afirmaram não ter muito o que dizer e outros, que não sabiam se tinham, de fato, alguma experiência musical. Daí a necessidade do exercício da escritura da narrativa, de colocar sobre o papel a visão que o sujeito tem de si mesmo, realizando assim um exercício de figuração de si por meio da intriga.
Nesse momento, faço um adendo para falar sobre o “esforço de memória”, conceito que será retomado logo adiante. Tomar a iniciativa em seguir o caminho de acesso às lembranças não é uma rota natural e cotidiana aos seres humanos. Estamos mais acostumados com o aparecimento das lembranças, não com a busca e o precisar achá-las. O ato de recordação exige esforço intelectual, portanto, essa busca das lembranças musicais formativas com o lugar carece de uma certa mobilização reflexiva. Como apresento mais adiante na análise, Ricoeur (2014) explicita uma distinção entre a lembrança como evocação, que consiste do aparecimento atual de uma lembrança e a lembrança como fruto do ato de recordação, fruto do esforço empreendido na busca.
No desenvolvimento do AMBP, exercitar a escrita da narrativa (auto)biográfica, tendo como mote as experiências musicais formativas e os lugares onde elas aconteceram e se configuraram como tal, levou os sujeitos a se mobilizarem na busca dessas lembranças musicais por um caminho de reflexividade e reconstituição inteligente. Isso contribuiu para uma maior consciência e acuidade na percepção do sujeito acerca da trama que se havia construído na sua relação com a música. Alguns estudantes que apresentaram dificuldades em começar o esboço do texto, finalizaram suas narrativas (auto)biográficas tendo maior consciência de sua própria história, uma
maior consciência de “si-mesmo” com a música, como podemos perceber no relato de um dos estudantes do EMI, Samuel Fagundes,
(...)nunca largarei minhas músicas, nem pretendo parar de me aprofundar no mundo da música, é possível que eu foque apenas em desenvolver no violão, afinal é o que tenho mais afinidade e sempre tive vontade de aprender a tocar violão erudito, e claro, vou fazer tudo em casa, minha casa sempre foi o berço de todas as experiências musicais e eu não pretendo mudar isso, pretendo viajar e conhecer lugares, mas com a música ao meu lado, as músicas que eu ouço e ouvi, sempre fizeram de certo modo minha cabeça e isso vai continuar assim. (SAMUEL FAGUNDES, AMBP/EMI)
Entendemos a partir das ideias de Ricoeur e seu conceito de Tríplice Mimese, que as operações de prefiguração, configuração e refiguração estão presentes no AMBP e fazem parte de um processo formativo musical intencionado pelo dispositivo. O sujeito visita sua memória musical com uma postura reflexiva, de reflexividade biográfica, visando a organização e compreensão da sua história na e pela narrativa (auto)biográfica. É possível inferir que a conscientização de si e acerca da própria formação musical como processo, junto a possibilidade de gerenciamento dessa formação, constituem resultados possíveis da prática do AMBP.
Desse modo concretiza-se a dimensão de projeto presente na configuração e execução do AMBP, o que se torna perceptível por meio das palavras de Maria de Jesus (AMBP/EA), que ao concluir a escrita de suas experiências diz acreditar que elas não pararam: “é tanto que estou no coral da melhor idade do IFB e não quero parar por aqui, quero realizar o meu grande sonho que é aprender tocar violão, sempre tive vontade, mas faltou coragem, mas hoje me sinto capaz”. Uma outra estudante diz ao fim de sua narrativa (auto)biográfica que “de hoje em diante quero sempre ter mais contato com a música, já estou pensando até em aprender a tocar alguns instrumentos”.
O ato de ler-se no seu próprio discurso registrado em forma escrita, aqui entendido como obra, leva o sujeito a confrontar-se com o mundo que emerge do seu próprio texto, trabalhando e ampliando a compreensão de si. O objetivo do ateliê é também exercitar a leitura de si mesmo e do outro, caracterizando a operação de refiguração, ou Mimese III. Podemos entender essa experiência como parte do processo de reflexividade biográfica em que a Mimese III vem a ser a intersecção entre o mundo do texto e o mundo do ouvinte ou do leitor.