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Analyse av utgangssituasjonen

In document Gert-Jan de Vreede (sider 89-93)

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9.1 Analyse av utgangssituasjonen

A singularidade do olhar interpretativo, construído a partir da análise hermenêutica, amplia os horizontes de compreensão do material (auto)biográfico produzido na pesquisa e parte da sua construção depende do correto entendimento e aplicação da teoria das mimeses de Paul Ricoeur. Na análise, essa teoria se configura como instrumento interpretativo da operação narrativa desenvolvida no Ateliê Músico- Biográfico.

Na teoria das mimeses ou teoria da Tríplice Mimese, desenvolvida no terceiro capítulo do primeiro tomo de sua obra Tempo e Narrativa, Ricoeur nos convida a estabelecer o conceito de mimese de forma subdividida em mimese I, II e III, visando contribuir para a compreensão da relação entre tempo e narrativa. A mimese I é o mundo percebido, o mundo prático ainda não explorado pela atividade poética, portanto, ainda não narrado. É a vida prefigurada: as tradições, percepções, opiniões, pré concepções. Já a mimese II possui uma função mediadora entre o mundo prático (mimese I) e o mundo do leitor ou espectador (mimese III), trata- se de uma temporalização da experiência dentro da narrativa, alocando eventos individuais dentro da história como um todo por meio da tessitura da intriga. Ao mesmo tempo em que coloca ordem e configura os episódios em história, a intriga fornece um caminho ou fio condutor a ser seguido. Por meio desse caminho, o leitor pode compreender o que se está narrando.

É na Poética de Aristóteles que o autor encontra as noções de mimese e de intriga, como um modo de agenciamento dos fatos, chamado por Aristóteles de

muthos. Esses seriam os estruturantes da noção de narrativa. A etimologia da palavra mimese nos leva a mimoi, que seria traduzido por imitação, mas Ricoeur nos alerta para o fato de que mimese em Aristóteles difere do uso do termo por Platão e não representa a pura cópia. “Se continuarmos a traduzir mimese por imitação, deve-se entender totalmente o contrário do decalque do real preexistente e falar de imitação criadora, (...) se traduzirmos mimese por representação, não se deve entender, por esta palavra, alguma duplicação de presença, como se poderia entendê-lo na mimese platônica, mas o corte que abre o espaço de ficção”. (RICOEUR, 1994 p.76) Ricoeur chega à definição de mimese como “a imitação ou a representação da ação no meio da linguagem métrica” (Ricoeur, 1994 p.59). Assim, a mimese está na base de qualquer obra poética, e seu entendimento seria a chave para entender seu sentido. Ricoeur expande o entendimento de mimese o diferenciando em três categorias, ou melhor, nos três níveis da operação mimética (mimeses I, II e III), que correspondem aos tempos da prefiguração, configuração e refiguração, respectivamente.

O ato narrativo conduz um tempo prefigurado da ação, no nível do vivido e da experiência em mimese I, a um tempo configurado simbolicamente pela elaboração da narrativa em mimese II. A operação de representação da realidade, entendida como uma função mimética do mundo da ação (mimese II), não se trata de uma simples imitação, cópia ou réplica, mas de uma configuração na narrativa que guarda a possibilidade de uma figuração do mundo na práxis em mimese III, ou seja, uma refiguração. E tendo em vista que toda obra visa comunicar uma experiência a alguém, tem-se o tempo refigurado em mimese III – que, completando o ciclo dessas operações narrativas, restitui à ação o tempo vivido do leitor, e o sentido nunca se encerra num fechamento ou cristalização.

A análise hermenêutica identifica a relevância de se considerar a mimese II para além sua estrutura interna, mas, segundo Ricoeur (1994), em sua posição mediadora entre a “montante” e a “jusante” do sentido. As narrativas (auto)biográficas encontram seu sentido na relação entre sua fundamentação na experiência do sujeito (mimese I) e o seu encontro com o leitor, que por ser o outro ou o si mesmo como um outro (mimese III).

É na mimese III que o sentido se constrói, nesse encontro entre obra e leitor existe um espaço privilegiado digno de nota. A prefiguração e a configuração se atualizam no ato da refiguração, assim, razão da existência da obra vem à tona em

mimese III. O leitor é, portanto o responsável por fazer a unidade do percurso de mimese I até mimese III, por intermédio de mimese II.

O processo de produção e partilha de relatos (auto)biográficos, dentro do AMBP, foi proposto como um espaço de formabilitè, fomentador da reflexividade biográfica e, por conseguinte, um possível lugar em que os colaboradores pudessem repousar sua atenção sobre seu percurso individual com a música, configurar no e por meio do relato escrito, o enredo de sua formação musical com o lugar/lugares, e pensar projetos de formação musical possíveis, delineados a partir de um olhar reflexivo para si mesmo, no âmbito da sua relação com a música.

Com o objetivo de compreender melhor a execução projeto e os textos ali produzidos é que recorro à teoria da Tríplice Mimese, de Paul Ricoeur. As narrativas (auto)biográficas produzidas no AMBP são a expressão da realidade percebida pelos sujeitos quando indagados acerca de suas experiências musicais formativas com o lugar.

Proponho a realização da análise hermenêutica da narrativa, em que interpretar consiste em “explicitar o tipo de ser-no-mundo manifestado diante do texto” (Ricoeur, 2008, p. 21). Torna-se necessário permitir que o mundo do texto ganhe vida e vá além do próprio autor, permitindo-nos encontrar possibilidades de ser, de se configurar nesse novo mundo aberto pelo texto: só me encontro como leitor, perdendo-me nas possibilidades presentes no mundo do texto.

Trazer a subjetividade da experiência individual, manifestada por meio da escrita narrativa, como base para se pensar o fenômeno da relação homem/música, exige cautela e cuidado no processo de interpretação do texto produzido. Na hermenêutica partimos em busca do sentido do texto como obra de um discurso, não em busca da motivação ou estado psicológico de quem o escreveu. Assim, a escolha da análise hermenêutica para interpretação do material biográfico produzido na presente pesquisa-formação, vai em direção a objetificação do texto escrito, entendendo-o como obra, uma obra do discurso (RICOEUR, 2013). Não é possível presumir a intenção do autor, mas sim entender a intenção do texto, o seu sentido como obra do discurso.

Para entender o caminho tomado no processo de análise, é preciso seguir junto aos conceitos de Ricoeur (1984, 2013) acerca da teoria do texto. Assim, o discurso coloca-se como um evento, ou seja, ele ocorre temporalmente e no presente, sempre se remetendo a seu locutor, mediante um conjunto de indicadores, tais como os

pronomes pessoais. A instância do discurso é autorreferencial. Ademais, o discurso é sempre a respeito de algo, de um mundo que se pretende descrever, exprimir ou representar. (RICOEUR, 2013, p. 54)

4.3.2 Mundos narrados: A linguagem como discurso e o discurso como

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