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A partir da análise dos textos produzidos no AMBP, tendo como base a teoria hermenêutica de Paul Ricoeur (2008), algumas compreensões primárias direcionaram o entendimento do material de pesquisa, possibilitando o surgimento de novas compreensões e a construção de algumas proposições.
Dentre essas compreensões, trago a ideia de uma “Intriga Musical”, embasada na proposição teórica desenvolvida por Ricoeur em sua obra Tempo e Narrativa, v. I (1984). Tal Intriga Musical surge quando os sujeitos ao porem em intriga os acontecimentos da sua vida na mimese II, revisitam o passado em busca de suas experiências musicais formativas e se veem diante de um material que não poderá ser transposto para o discurso por meio de uma representação simbolicamente equivalente, se a música, ou aquilo que eles consideram musical, também não for trazido para o presente do relato.
Creio ser relevante mencionar os detalhes que envolveram as produções no AMBP, tanto em relação aos atos da escrita e como a elocução das narrativas autobiográficas pelos sujeitos colaboradores do ateliê. É interessante citar, que no AMBP com adultos, após as explicações iniciais e o convite para que os sujeitos iniciassem a escritura de suas narrativas autobiográficas foi possível perceber a dificuldade dos colaboradores em iniciar o registro dos eventos referentes às experiências musicais formativas e os lugares onde elas aconteceram em forma de uma trama narrativa.
Em vários momentos do ateliê os sujeitos interrompiam a escrita, me chamavam e começam a relatar oralmente suas experiências. Eles buscavam expressar por meio de gestos, de sons, de canções, de exemplos sonoros com vocalizações e batidas na mesa, ou por meio de suspiros e interjeições a ideia que lhes passava pela mente. Isso quando não recorriam aos aplicativos de música no celular ou sites de música para mostrar a versão específica da música que desejavam que eu ouvisse.
Quando convidados a narrar para outros colegas, no interior das tríades ou diante do grupo, aquilo que entendiam como suas experiências musicais formativas, os sujeitos encontraram obstáculos em comunicar, também por meio do discurso oral, as suas experiências musicais formativas com o lugar.
Isso me chamou a atenção para o fato de que na construção narrativa dentro do AMBP houve um esforço em transpor para a narrativa alguns elementos que esgotavam os recursos linguísticos oferecidos pela escrita. Ao arriscarem-se nos relatos orais, outros códigos, símbolos e signos foram utilizados com a finalidade de comunicar, objetivamente, e dar sentido a uma experiência subjetiva.
Nos diálogos com autores pude encontrar no trabalho de Araújo (2017) uma consideração que ajuda a compreender a particularidade desse fenômeno, como uma decorrência direta do processo de biografização que se dá no ato da configuração narrativa.
Contudo, enquanto o sujeito, em seu processo de biografização, se utiliza de símbolos da linguagem para traduzir subjetividades em informação objetiva, quando se biografiza com música, também se utiliza de música e de elementos musicais que são capazes de realizar “insights” em si mesmo. Tais
insights podem compreender o que não pode ser dito por palavras e que faz
sentido também de forma subjetiva. (ARAÚJO, 2017, P. 109)
O autor utiliza o termo insight, a partir das leituras de Fernando Lazzarin, para tratar do efeito produzido pela relação que o sujeito estabelece com a música nos processos de biografização, e sem recorrer aos símbolos da linguagem guarda em si mesmo o sentido que compreende a partir de tais insights. Porém, acredito que dentro do AMBP, o caráter premeditado da elaboração e socialização das produções (auto)biográficas, move o sujeito durante toda a configuração da sua narrativa na direção do “esforço de recordação ou de memória”, como também, de um esforço imaginativo-criativo para conseguir transpor esses efeitos que envolvem a recordação de suas experiências musicais formativas, para conseguir partilhar suas experiências sob a forma de uma obra objetiva carregada de legibilidade.
A partir dessa compreensão, busquei trabalhar junto aos colaboradores do grupo com a construção escrita, mas com o suporte oral e musical da narrativa (auto)biográfica. Convidei-os a levarem instrumentos, músicas em áudio e vídeo, e a cantarem durante os encontros, com vistas a trabalhar na expansão da ideia de intriga musical, ou seja, a criação de um texto que apresente o vivido com a música e a música vivida, imbricada na formação, não apenas um texto narrativo que busque contar eventos onde a música aparece em segundo plano.
Essa imbricação entre a música, a experiência e o lugar onde tal experiência se consolidou como formativa tornou-se o alvo a ser perseguido na elaboração das narrativas (auto)biográficas pelos sujeitos-autores. Assim, o AMBP passa a cuidar da
elaboração de uma intriga musical, que consiste de um enredamento de acontecimentos que precisa da própria música e da linguagem musical para ser configurada.
Em vários momentos durante o AMBP, os sujeitos se mostraram fascinados com a descoberta da própria história com a música ao narrarem suas experiências dentro das tríades ou diante do grupo. Como já dito, eles valiam-se de interjeições, suspiros, batuques, movimentos corporais, danças, vocalização de melodias e tocaram e cantaram trechos de músicas, o que faz com que o momento de recordação seja também um momento de reconhecimento de si e da “coisa” lembrada. Tal ação demanda um esforço de transposição para uma esfera de legibilidade e um esforço em criar modos de trazer as EMF na elaboração de seus relatos (auto)biográficos.
Imagino esse esforço de transposição a partir de uma breve ilustração: imaginemos seres bidimensionais, que vivem em uma folha de papel e que foram descobertos por cientistas que desejam, agora, entrar em contato com esses seres e falar de quão incrível é o mundo em três dimensões. Por mais que os cientistas tentem desenhar todas as formas do mundo tridimensional na mesma folha em que habitam esses novos seres, será impossível a realização de uma transposição perfeita. O esforço empreendido na configuração narrativa das experiências não consegue alcançar em um nível perfeito todos os acontecimentos e experiências que tomaram forma na vida.
Quando a configuração narrativa exige a sobreposição dos universos formados pela temporalidade da experiência vivida e pela temporalidade particular que cada música suscita enquanto nos impele a entregar várias instâncias da nossa percepção e também dos sentidos, cabe ao sujeito recorrer a todos os recursos possíveis de que dispõe para esforçar-se em transpor para o plano da linearidade típica da organização temporal dos acontecimentos, o plano narrativo, aquilo que ele experimentou, que lhe aconteceu e lhe atravessou de forma multifacetada, plural e cinestésica.
No AMBP, alguns colaboradores elencaram o nome de artistas que os haviam marcado em determinada fase da vida e começavam a cantar as músicas dos artistas da época, como se aquela ação pudesse explicar melhor aquilo que não era possível ser elucidado no ato do discurso ou na tessitura de uma intriga, na composição textual. Enquanto contava sua história para o grupo, Maria Silva (AMBP/EA) sorria, suspirava e cantava ao narrar suas primeiras experiências musicais formativas que assim foram por ela relatadas,
começaram quando eu era bem criança, quando eu e meu irmão íamos levar almoço para os trabalhadores na roça cujo lugar era chamado de fazenda Pereiras, de longe já ouvia eles cantando enquanto chegava o almoço. Eles cantavam, as músicas eram sempre repetidas como Sérgio Reis, O Menino da Porteira, Jair Rodrigues, Orgulho de um sambista, Waldick Soriano, Eu não sou cachorro não. Eu achava muito legal, gosto dessas músicas até hoje. Eu também acompanhava mais quando eles iam tocar sanfona, aprendi até tocar o triângulo, o surdo, reco reco, o pandeiro, hoje não sei mais nada. Nessa época os meus irmãos eram os melhores tocadores de sanfona dessa fazenda, já citada no início. Fazendo essa retrospectiva do passado, é como se tivesse vivendo tudo de novo, as músicas que mais faziam sucesso na época além das que já falei, Debaixo dos Caracóis dos seus cabelos, Amada Amante, do Roberto Carlos, Gilberto Gil Aquele Abraço, Tinha também os festejos de folia de Reis, Divino Espírito Santo, São João, São Sebastião, essas já era num arraial chamado Jardim, bem próximo a fazenda Pereiras.
(Maria Silva, AMBP/EA)
No seu relato, Maria Silva (AMBP/EA) alterna o engendramento dos fatos e acontecimentos com a descrição do nome de canções e dos artistas que lhe vinham à mente ao narrar suas experiências musicais formativas. Como a própria autora do relato escreve, “essa retrospectiva do passado é como se tivesse vivendo tudo de novo”. A Intriga Musical parece convidar o sujeito a trazer à tona as músicas, o repertório e os personagens que integram a experiência musical formativa como uma espécie de cuidado para com a integridade de sua memória musical. Uma outra forma de configuração da Intriga Musical, identificada na estrutura de alguns relatos, foi a utilização da letra das canções na composição do relato, como se subjacente a essa ação estivesse a ação do canto, propriamente dito. Maria Elisabeth (AMBP/EMI) recorre a essa “forma composicional” em certo trecho do seu relato:
no retiro da igreja eles colocavam uma música que mexia comigo, era a música um dia uma criança me parou, olhou nos meus olhos a sorrir, caneta e papel em sua mão, tarefa escolar para cumprir e no meio de um sorriso o que é preciso para ser feliz? amar como Jesus amou, sonhar como Jesus sonhou, sorrir como Jesus sorria, sentir o que Jesus sentia e ao chegar ao fim do dia eu sei que dormiria muito mais feliz. (MARIA ELISABETH, AMBP/EMI)
A música que Maria Elisabeth traz para o seu relato é uma famosa canção católica, composição de Padre Zezinho, e foi a única que a autora escolheu mencionar. Não houveram títulos de outras canções ou nome de artistas presentes em toda sua narrativa (auto)biográfica, porém a canção escolhida está inscrita na história da autora e foi à letra da canção que ela recorreu ao revisitar os sentimentos,
emoções, pensamentos associados à experiência musical formativa vivida no retiro da igreja.
Com vistas a prosseguir com o processo de análise, passo a compreensão de que o ato do sujeito narrar uma história que envolva música, enredando acontecimentos nos quais a música aparece como um dos diversos elementos que integram o momento vivido, participando, portanto, da narrativa, seja diferente do ato de narrar uma experiência musical formativa. Nessa última, essa música da experiência musical formativa está entrelaçada à história do sujeito e integra-se a sua identidade narrativa, não se dissocia do entendimento que ele constrói de si próprio no relato (auto)biográfico. Ao colocar a si-mesmo em intriga, o sujeito apresenta narrativamente a sua identidade como resultado da articulação entre suas disposições interiores e suas ações no mundo, entre o si e o mesmo, entre ipseidade e mesmidade, como afirma Ricoeur,
a pessoa, compreendida como personagem de narrativa, não é uma entidade distinta de suas ‘experiências’. Bem ao contrário: ela divide o regime da própria identidade dinâmica com a história relatada. A narrativa constrói a identidade do personagem, que podemos chamar sua identidade narrativa, construindo a da história relatada. É a identidade da história que faz a identidade da personagem. (RICOEUR, 1991, p. 176)
A Música que se emaranha com a trama da nossa vida não é, simplesmente, música que rega as ocasiões cotidianas com sons, mas sim a Música que constitui parte de quem somos e de quem nos tornamos, pois por ela fomos marcados, atravessados, tocados. Inúmeras são as dimensões pelas quais uma experiência musical pode se configurar como formativa para o sujeito, portanto, torna-se inviável determinar quais experiências podem ser proporcionadas com a finalidade de serem formadoras. O sujeito vive e abraça a experiência musical como sua, configurando a si mesmo no mundo com e por meio dela, mesmo que não o perceba, biografizando- se na realidade que o cerca. A partir dessa compreensão, é possível considerar as EMF como elementos constituintes da identidade narrativa do sujeito.
No exercício da representação do vivido, os sentimentos, as sensações, as texturas sonoras e a música que constituem o momento revisitado se revelam inseparáveis, partes da figura que o sujeito busca construir de si, levando-o a recorrer aos instrumentos semióticos que estiverem ao seu alcance, seja o texto, as imagens, a música ou vídeos que possam auxiliar na representação dessa experiência.
A compreensão dessa Intriga Musical, presente tanto nos relatos orais como nas narrativas (auto)biográficas dos sujeitos, permitiu que meu olhar se alinhasse às singularidades desses escritos. Pude assim, perceber que alguns elementos presentes na configuração da narrativa eram frutos de um esforço narrativo para representar de modo adequado aquilo que os sujeitos entenderam como suas experiências musicais formativas com o lugar. Considero a necessidade de desenvolver adiante, a título de exercício explicativo-compreensivo, a ideia de que há um esforço constante para realizar uma transposição simbólica da experiência formativa musical, por parte do sujeito.
5.2 Dimensões compreensivas das experiências musicais formativas: