2. Om programmene
2.1 Om Tigris
Partindo do pressuposto de que “as imagens discursivas dos sujeitos da interação verbal podem ser analisadas associadas a uma série de outros dispositivos enunciativos, como, por exemplo, as cenas discursivas de onde o ethos emerge” (GONÇALVES, 2006, p. 300), debruçamo-nos sobre os textos que compõem a prática jornalística opinativa do JB e do CL.
O Jornal do Brasil, grande expoente da mídia jornalística brasileira, atualmente mantém sua sede no Rio de Janeiro e, segundo o próprio periódico:
Desde sempre correspondendo à confiança dos seus leitores, como prometeu no editorial do seu lançamento em 9 de abril de 1891, o JB acompanhou o processo histórico nacional ao longo de todo o século XX. E se consolidou acompanhando a evolução da sociedade brasileira, mantendo a sua vocação para o pioneirismo, tanto no que diz respeito à qualidade editorial como à produção gráfica, servindo de modelo e referência para o jornalismo brasileiro51.
Segundo informações disponibilizadas em sua versão on-line, o JB anunciou, em julho de 2010, o fim de sua edição impressa e, a partir de então, passou a existir somente na WEB, com a possibilidade de os seus leitores terem acesso a conteúdos exclusivos através de assinatura do JB Premium52. Desde então, o veículo recebe o subtítulo de “O Primeiro Jornal 100% Digital do País”, buscando acompanhar as tendências midiáticas do mundo moderno que cada vez mais têm feito com que os meios de comunicação passem a manter sua base de dados também no mundo virtual.
Nos anos seguintes, os dirigentes do JB cogitaram a possibilidade de voltar à edição impressa do periódico (uma consulta popular chegou a ser feita a este respeito, mas a ideia não se concretizou). Assim, o jornal se consolidou em sua versão exclusivamente virtual e hoje apresenta uma proposta de produção de informação e opinião concernente com o momento de inovações tecnológicas pelo qual passam os veículos de comunicação contemporâneos, com a popularização da WEB. De abril de 1891, quando foi fundado por Rodolfo Dantas53, a dezembro de 1999, o JB disponibiliza todo o seu arquivo no News Archive54. De 2000 até hoje, o arquivo do jornal segue disponível na BN do Brasil,55. Os
textos mais recentes encontram-se disponíveis no próprio site do JB56.
51 http://www.jb.com.br/paginas/news-archive 52 http://www.jb.com.br/jb-premium/noticias
53 Rodolfo Epifânio de Sousa Dantas nasceu em Salvador em outubro de 1855, tendo atuado no Brasil como advogado, político e jornalista. Além de reconhecido nacionalmente como fundador do JB, Rodolfo Dantas fez legado principalmente na política, na Bahia e no Rio de Janeiro.
54 http://news.google.com/newspapers?nid=0qx8s2k1irwc&dat=19920614&b_mode=2
55 Segundo informações da Biblioteca Nacional, “o Jornal do Brasil autorizou a Fundação Biblioteca Nacional a digitalizar e disponibilizar toda a coleção do jornal na hemeroteca digital brasileira. A decisão é inédita, por se
Por sua vez, o periódico argentino CL foi fundado em 28 de agosto de 1945 por Roberto Noble57 e se mantém, até hoje, como um dos mais expressivos jornais em terras portenhas. Estima-se que, já em 1965, CL era o jornal de maior tiragem e mais ampla circulação na Argentina (SIVAK, 2013). O periódico caracteriza-se como um dos mais expressivos veículos em oposição ao atual governo de Cristina Kirchner, tomando para si como bandeira de frente o mote “independente do governo, não de você58”, marcando ideologicamente a relação de proximidade entre sua linha editorial e seu público leitor. Segundo informações de sua página institucional na WEB59, o Grupo Clarín “estrelou as mudanças experimentadas pelos meios de comunicação ao redor do mundo”, em mercado de mídia que está entre as mais diversificadas na AL60.
O alcance e a popularidade do CL entre os argentinos fizeram dele um dos mais representativos meios de comunicação do país, como destaca Sivak (2013). Pautado em valores como “precisão e isenção editorial”, o periódico objetiva, segundo informações disponibilizadas na página do Grupo na WEB, “fortalecer as instituições que sustentam o regime democrático, facilitando a discussão de questões importantes e promovendo o debate e a comunicação entre os diferentes setores da sociedade61”.
Desde 1945, o periódico disponibiliza seu arquivo diário na Hemeroteca da Biblioteca Nacional da Argentina62. Em seu arquivo virtual63, disponibiliza as edições, na íntegra, desde 20 de agosto de 1997 até hoje, contribuindo para que o conteúdo por ele produzido sirva de material de estudo da história e da cultura latino-americanas em face dos fatos mais importantes do mundo noticiados dia a dia.
tratar do primeiro grande periódico corrente a aderir a este site da instituição”. Afirma ainda que “pelo acordo firmado entre o Jornal do Brasil e a BN Digital, o jornal será disponibilizado, de início, no período de 1950 a 2000, em razão, sobretudo, do menor número de publicações desse período ao alcance da hemeroteca digital brasileira. Num segundo momento, será disponibilizado o restante da coleção, que compreende mais de 100 anos”. Mais informações sobre o arquivo encontram-se disponíveis em: http://hemerotecadigital.bn.br/noticias/jornal-do-brasil-na-hemeroteca-digital-brasileira
56 http://www.jb.com.br
57 Roberto Jorge Noble nasceu em Buenos Aires em 1902. Foi político, jornalista e empresário. Foi casado com Ernestina Herrera Noble, que mais tarde o sucedeu na direção do periódico Clarín.
58 Grupo Clarín: ¡independiente del gobierno, no de vos! 59 http://www.grupoclarin.com.ar
60 Em novembro de 2013, durante nossa estada em Buenos Aires para estágio doutoral, presenciamos a aprovação da Lei dos Meios pela Suprema Corte Argentina, que obrigou o Grupo Clarín a ceder alguns de seus veículos de comunicação para o Governo. Pela lei, o Grupo deveria ceder parte de suas licenças em TV a cabo, rádio, dentre outros. A aprovação foi amplamente divulgada e comemorada pelo governo Kirchner, que há anos trava uma incessante luta ideológica contra o Grupo Clarín em terras argentinas. Mais detalhes sobre a referida lei encontram-se disponíveis em um infográfico que pode ser acessado em: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/12/entenda-lei-de-meios-e-o-7d-na-argentina.html
61 http://www.grupoclarin.com.ar/institucional/principios-y-valores 62 http://www.bn.gov.ar
Do JB e do CL, ao longo de quase um século de publicações, tomamos como material de análise 50 exemplares de editoriais (ANEXO A e ANEXO B), gênero que objetiva a discussão de problemas sociais, através da sustentação, da refutação e da negociação de tomadas de posição por instituições midiáticas (DOLZ; SCHNEUWLY, 2004). Tal como os artigos de opinião e as cartas de leitor, também gêneros jornalísticos da ordem do argumentar, os editoriais são gêneros que podem suscitar diversas cenografias, principalmente se levarmos em consideração sua dimensão ideológica, já que representa a opinião de uma empresa que não está isenta de suas escolhas políticas.
Devemos frisar que o JB e o CL se consolidaram como veículos de comunicação de massa de referência no Brasil e na Argentina como parte da identidade cultural latino- americana no que se refere ao repertório de signos culturais tematizados por estas mídias contemporâneas em seus textos de opinião, através dos quais os dois referidos periódicos acompanharam as mudanças por que passou a AL na história64.
A análise deste material revelou, pois, a necessidade de examinar as mudanças na linguagem para a compreensão das mudanças sociais e culturais, conforme assevera Fairclough (2008). Assim, os dados examinados nesta pesquisa revelam que muito das tradições culturais dos povos da América Latina encontra-se repertoriado nas páginas de seus jornais e, mais especificamente, nos textos de opinião que veicularam ao longo do tempo, textos estes que delineiam uma imagem de seus enunciadores que muito se aproxima da imagem do próprio veículo, no âmbito da identidade cultural desta parte do continente americano. Com base neste traçado, expomos a seguir, os procedimentos que executamos para a constituição do corpus.