5. Barn i rusfamilier
5.5 Organisering, samarbeid og samhandling
5.5.1 Interne rutiner og prosedyrer
É de suma importância que o tradutor avalie e pondere os métodos que estão disponíveis para se atingir um fim na tradução que ele decidiu empreender. É nesse ponto que sua cautela deve chegar ao ápice, pois a tradução não pode correr aleatoriamente, e muito menos, como reforça Schleiermacher (2010), misturar os métodos, sob pena de fracassar completamente em sua tentativa. Por isso, o autor polonês considera apenas dois caminhos
possíveis para o tradutor seguir na empreitada de sua tradução: o primeiro caminho consiste em deixar o autor à vontade em seu lugar de origem e conduzir o leitor até ele; o segundo, por sua vez, é o oposto disso, ou seja, consiste em deixar o leitor em sua zona de conforto e levar o autor até ele. Ambos os caminhos são completamente diferentes, e, por isso mesmo, não podem atingir resultados semelhantes.
Com esses dois caminhos, o tradutor parece estar diante de uma encruzilhada, pois, se tenta passar ao seu leitor o mesmo prazer que experimentou diante do estranho, corre o risco de estrangeirar demais a língua de chegada; e, se por outro lado tenta estabelecer uma relação imediata entre o seu leitor e o autor da obra, como se esse leitor estivesse diante de um autor de sua língua, corre o risco de cair na domesticação.
Apresentarei, portanto, de forma sucinta, cada um dos caminhos como postos na visão de Schleiermacher (2010), e, em seguida, justificarei a escolha do primeiro caminho como método para a minha tradução de Suplicantes, proposta neste trabalho, explicando as razões porque o julgamos mais adequado.
Segundo Schleiermacher (2010), esses dois métodos possuem em si suas dificuldades. O primeiro método exige do tradutor um esforço a mais em conhecer plenamente a língua de partida, de modo que ele possa transmitir em sua tradução o mesmo sentimento que ele próprio tem diante do estrangeiro. É como se o tradutor trouxesse o seu leitor para a mesma posição em que ele se encontra, não ultrapassando com isso os limites da contemplação do estranho, e fazendo com que a língua de chegada receba a língua de partida e se molde a ela. No entanto, isso só pode acontecer se houver da parte do público algum grau de receptividade ao estrangeiro, pois, se os sistemas linguísticos de ambas as línguas são diversos, e não é possível alcançar o todo através de equivalências, o tradutor tem que se esforçar para não apresentar ao leitor contorções forçadas ou arranjos linguísticos antinaturais.
χὅὅim,ΝjὠΝὃuἷΝἷὅὅἷΝmὧtὁἶὁΝἷxiἹiὄὠΝἶὁΝtὄἳἶutὁὄΝumΝ“transplἳὀtἷΝἶἷΝlitἷὄἳtuὄἳὅ”,ΝpἳὄἳΝuὅἳὄΝἳὅ
palavras de Schleiermacher (2010, p. 75), esse método só terá sentido e valor para um público que assimile facilmente o estrangeiro.
Por outro lado, se no primeiro método a língua de chegada se deixa moldar pela língua de partida, no segundo método, os limites ficam completamente condicionados à língua de chegada, ou seja, é ela que aparece plenamente em todo o seu vigor, pois é como se o autor, que na verdade é estrangeiro, falasse na língua de chegada. Aqui, o esforço do tradutor consiste em transformar o autor em um falante de sua própria língua. Para Schleiermacher (2010), esse método carrega, no mínimo, uma falta de sentido, pois é inútil separar uma pessoa de seu pensamento e insistir que este possa ser o mesmo em duas línguas diferentes.
Além disso, parece-nos vão o esforço de cogitar as possibilidades discursivas de um determinado autor se ele falasse em determinada língua e não em outra, pois tal esforço se funda apenas em meras especulações, retira do autor as influências que o moldaram e o formaram em sua própria língua, e faz com que o leitor transite aleatoriamente entre o que é particular de seu próprio universo linguístico e o que lhe é estranho; entre o que é próprio do autor e o que é criação do tradutor.
Schleiermacher (2010) termina seu ensaio mais propenso a defender o primeiro método, pois, diferentemente do segundo, o tradutor que o segue vai por uma linha menos arbitrária. Desde o começo, põe o seu leitor diante do fator estranho, e faz com que ele tenha a consciência de que o autor pertence a outro universo, escreveu e pensou em outra língua.
Apesar de todas as dificuldades apresentadas em ambos os métodos, parece-nos mais proveitoso, de fato, o primeiro método – levar o leitor até ao autor. A tradução que proponho de Suplicantes, de Eurípides, para o português, que leva em consideração os comportamentos e as atitudes de um povo situado temporal e espacialmente distante de nós só pode, a meu ver, ter êxito, se seguir esse primeiro método, pois assim, é possível fazer com que o leitor da tradução entenda por um contato mais direto com o estrangeiro que os homens ao longo dos séculos, e em várias partes do globo, pensaram, falaram, comportaram-se de maneiras diversas. Essa consciência – e por que não dizer aprendizado? – é fundamental, pois, no presente caso, trata-se da tradução de uma obra produzida em um país que contribuiu sobremaneira para influenciar toda a civilização ocidental.
Por que, então, tolher o leitor e dar a ele uma visão falsa e vazia do universo do autor? Ou ainda, para que forçá-lo a uma identificação com seu próprio universo, ao ponto de ele não conseguir sair, como diz Schleiermacher (2010), de uma transição aleatória e limitada entre o que é seu e o que é do tradutor? Isso só o impediria de desfrutar do autor, e de nada adiantaria, pois ele já possui as obras escritas em sua própria língua com as quais pode se identificar. É como se alguém viajasse a um país estrangeiro e fosse impedido, por exemplo, de provar da verdadeira culinária daquele país, recebendo apenas reproduções de receitas com o tempero idêntico ao do seu país de origem. Do que desfrutaria esse visitante? O que seria novo para ele? De que adiantaria ele ter saído de seu país e ter viajado para tão longe? Que experiência e que prazer ele teria diante do estrangeiro se ele se expusesse apenas ao que é seu?
Não é obrigatório saber uma língua estrangeira para desfrutar da culinária de um país estrangeiro, assim como também não é obrigatório saber uma língua estrangeira para ler e apreciar uma obra escrita nessa língua. Por isso, acredito que fornecer ao leitor uma tradução
em que ele consiga apreciar o estrangeiro e aprender com ele é enriquecedor não só para o leitor, mas também para toda a literatura nacional84.
Um dos fatores que me levaram a adotar o primeiro método apresentado por Schleiermacher (2010) é o fato de que Eurípides, assim como os outros autores clássicos gregos e romanos, estão distantes de nós tanto pelo tempo, quanto pelo espaço geográfico. Além disso, a língua grega ática, por exemplo, há séculos não é mais falada, e se em uma tradução, optássemos por trazer o autor para a língua de chegada, como o leitor poderia recuperar um dia o que está subjacente no texto de partida?
Isso, contudo, parece não ocorrer na tradução de obras em línguas modernas, em que, se o tradutor escolhe trazer o autor para sua língua, o leitor, se quiser se esforçar um pouco para acessar o que realmente a obra quer mostrar, facilmente consegue, através de comparações, ou mesmo de contatos pessoais com quem sabe a língua, recuperar o conteúdo estrangeiro.
Outro fator que me leva necessariamente à escolha do primeiro método de tradução apresentado por Schleiermacher (2010), está coincidentemente baseado nas regras de hospitalidade observadas pelos próprios gregos, no cuidado que eles tinham na recepção dos estrangeiros, que era uma matéria religiosa, sendo punidos por Zeus aqueles que não a observassem devidamente. O estrangeiro era, portanto, recebido com afabilidade, com cuidado, de modo que ficasse à vontade na casa de seu anfitrião.
Assim também faço com a língua grega em minha tradução para o português da referida peça de Eurípides. Encaramos a tradução figuradamente como se ela fosse uma oportunidade para o português, nossa língua materna, receber a língua grega como uma visitante ilustre, de modo que possa recebê-la bem, acomodá-la sem forçá-la a nenhum tipo de adaptação ao modo de ser do português, mas fazer com que ela se sinta à vontade para se expressar com toda sua força, com toda a sua beleza, com todo o aparato de conhecimento que pode fornecer ao leitor e formá-lo para que se torne um indivíduo melhor para sua casa, para seu país, para sua sociedade.
Não se trata, porém, no caso da presente tradução, de grecizar o português. Não se trata de dar ao leitor transliterações e termos incomuns que soariam estranhos aos seus ouvidos. Nossa língua pode dar ao grego o que ela tem de melhor sem afetar a identidade desta última, e sem, do mesmo modo, forçá-la a apreender o que é genuinamente nosso. Acredito, portanto, que tornar o português um lar hospitaleiro (óikos) para o grego se
84Cf. LARBAUD, 2001, p. 73
acomodar, ou seja, fazer com que ele se sinta em casa, e não seja forçado a perder sua identidade é uma tarefa válida, e está em completa consonância com os autores que escolhemos como suporte.