5. Barn i rusfamilier
5.9 Barn i rusfamilier – Anbefalinger
A atividade de tradução é sempre uma empreitada difícil. É uma viagem ao estrangeiro com o compromisso de trazer para a própria língua uma vivência nova, de aprendizagem e de conhecimento. Traduzir é revelar universos, é desbravar uma terra desconhecida, longínqua, às vezes, mas atraente por seus encantos e pelas riquezas que tem a oferecer. O tradutor tem sempre um vislumbre dessa terra por que a conhece, tem o domínio da língua, que é sua porta de entrada, e tão grande é seu desejo de desbravador, que ele decide empreender, tal qual um navegante, a busca pelo novo mundo no intuito de trazer mais uma luz, mais um tesouro para sua própria língua.
As línguas, no início de nossas atividades de tradução, se apresentam como portais impávidos, cheios de fechaduras feitas com o ferro mais forte que existe, e isso as torna intransponíveis. Precisamos, como tradutores, encontrar as chaves e irmos aos poucos abrindo, destravando esses portais. À cada chave encontrada, à cada abertura feita, algo novo, misterioso nos é revelado, e as coisas vão fazendo sentido, as imagens vão sendo formadas, assim como um objeto que é coberto por um pano, e alguém, que queira nos desafiar, vá tirando o pano aos poucos, revelando apenas as partes desse objeto e, à medida que vamos acertando, outra parte é revelada, até que se descobra o objeto por completo.
O que está por trás do portal é a obra que se pretende traduzir, e é ela que possui em si todos os mistérios, todas as novidades do universo revelado. Ela é como a filha de um rei poderoso que, por possuir uma beleza particular e encantadora, faz com que o tradutor se apaixone por ela e ouse conquistá-la para casar com ela e trazê-la para sua casa. É um casamento que se instaura entre o tradutor e a obra traduzida, e para usar um termo grego, podemos falar de um philotésion érgon, no melhor dos sentidos que esse termo possa ser empregado. Muitas vezes, os enfados da vida de casal também acontece: a obra se recusa a obedecer, e nós ficamos agastados, frustrados por não encontrarmos as soluções adequadas, e muitas vezes, voltamos a ser básicos aprendizes da língua.
Não se empreende uma tradução se não amarmos a obra e tudo o que advém dela, pois uma obra não é, definitivamente, um emaranhado de palavras e frases em outra língua, mas carrega em si tudo o que circunda seu nascimento, tais como a cultura, o tempo, o contexto político e artístico do país em que ela é produzida, e o tradutor precisa, além da posse da língua, estar de posse de todos esses elementos. O tradutor não é apenas um bilíngue,
mas é também um historiador, um antropólogo, um sociólogo, um político, um artista plástico e ainda, pode ser também ator.
É o caso da tradução de teatro, configurada com uma tradução ainda mais especial, por conter elementos em certo ponto irrecuperáveis, como a cena propriamente dita, certos gestos que ajudariam a completar o sentido da obra, mas que, perdidos, obrigam-nos a trabalhar com o que resta: o texto escrito, que em si, já é magnânimo.
Nossa empreitada foi traduzir Suplicantes, de Eurípides, uma peça de teatro grego situada no século V a. C. cheia de ambiguidades, desde a data da composição que, como foi visto na introdução desta pesquisa, interfere diretamente nos sentidos que podem ser construídos em determinados trechos, até as intenções do autor em transmitir certas mensagens ao longo da peça.
Suplicantes se apresentou como um dos portais mencionados acima, cheio de fechaduras, que por sinal, estavam bastante enrijecidas por falta de visitantes de língua portuguesa. Apenas alguns ousaram abri-las, facilitando assim, o trabalho277. O encantamento inicial causado pela obra era de um mistério impulsionador, primeiro porque meu contato com ela era pouquíssimo, e avidez de conhecê-la tomou-me o ânimo, e segundo porque tratava das consequências da guerra e da morte, tema que me chamou a atenção pela grandiosidade e também pela complexidade, por envolver muitos aspectos ao memso tempo, tais como política, cultura, e mesmo história.
A primeira chave, portanto, para a abertura do portal para entrar em Suplicantes era situá-la historicamente. Precisei entender em que contexto ela estava inserida e, então, a Guerra do Peloponeso revelou-se tremenda, cheia de mazelas, fonte de críticas em outras tragédias euripidianas278. A peça foi encenada durante o período em que a guerra estava acontecendo e, mesmo não sabendo o ano exato, é seguro afirmar que o contexto era o da guerra. Esse fator foi extremamente importante para a compreensão e, sobretudo, para a tradução da peça, pois me permitiu visualizar com mais profundidade as intenções de Eurípides, e aplicá-las na tradução, através de escolhas tanto no vocabulário utilizado, quanto
ὀὁὅΝὅἷὀtiἶὁὅΝpὄὁἶuὐiἶὁὅέΝχΝpἷὦἳΝὧ,ΝἵὁmὁΝἷὅtὠΝἷxplíἵitὁΝὀἳΝpὄὁpὁὅiὦὤὁ,Ν“umΝἷlὁἹiὁΝἳΝχtἷὀἳὅ”Νἷ,Ν
sendo assim, em todas as partes da peça a valorização da cidade se revela. Eurípides enfatiza suas qualidades – χtἷὀἳὅΝὧΝἳΝἵiἶἳἶἷΝmἳὀtἷὀἷἶὁὄἳΝἶἳΝjuὅtiὦἳΝἷΝἶἳΝ“ἳὀtiἹἳΝlἷiΝἶὁὅΝἶἷuὅἷὅ”,ΝὃuἷΝ recupera os mortos e lhes dá uma sepultura, porque assim o exige os costumes dos homens e
277 Como mencionei na introdução desta pesquisa, as traduções em língua portuguesa foram feitas pelos
portugueses Fernando Couto e José Ribeiro Ferreira, e pelo brasileiro Jaa Torrano.
278 A guerra é repudiada por Eurípides. Exemplos disso são Fenícias, Troianas e Hécuba, que mostram a
as normas dos deuses –, mas também repreende seus defeitos – a aceitação da guerra por motivos banais não é, definitivamente, a melhor saída – e faz isso com vistas a chamar a atenção da cidade para o que ela é de fato, um modelo de cidade.
A segunda chave foi o estudo profundo do luto na Grécia antiga. A necessidade desse entendimento se fez presente desde o início da tradução, pois, se meu projeto era transmitir ao leitor o sentido do universo grego, esse aspecto – o luto –, que foi o objeto desta pesquisa, precisou estar presente na tradução desde o primeiro gemido das mães argivas. Verifiquei que os comportamentos, o desespero, a organização do mundo de uma mãe em luto na Grécia antiga tinham um alcance que ia muito além da esfera psicológica e particular da dor e do sofrimento que passavam, pois afetava a ordem social da cidade, ao ponto de serem necessárias leis que regulassem seus excessos nos funerais.
O luto grego não era apenas um estado de alma, como compreendemos modernamente. Verifiquei que era um ritual composto de regras a serem rigorosamente seguidas, sendo o contato das mulheres com o morto parte dele. A relação com os mortos na Grécia antiga era uma questão de piedade tanto para com os deuses, quanto para com os homens, semelhantes que são na condição humana. Tanto é assim, que o conflito instaurado em Suplicantes é a recusa de Tebas na devolução e na sepultura dos cadáveres que travaram combate em suas portas. Deixar cadáveres sem sepultura era algo tão grave que obrigou Teseu a empreender uma guerra para recuperá-los. Essa guerra, em oposição à empreitada de Adrasto, é justa, pois garante a manutenção das nomas divinas e do equilíbrio da cidade. Nesse sentido, entende-se que negar a sepultura a um cadáver é ferir a dignidade humana no que ela tem de universal, e esse entendimento perpassa a literatura grega, sendo referenciado desde Homero279.
Outra chave encontrada foi o aperfeiçoamento da língua grega, que se deu de forma gradual. Ter um conhecimento razoável não basta. Como foi mencionado no texto de apresentação à tradução da peça nesta pesquisa, é necessário um conhecimento profundo da língua, que só acontece quando o contato com o texto é constante. Para nós foi preciso viver e respirar o texto de Eurípides em suas mais imperceptíveis nuances, cada letra, cada palavra, cada frase, cada jogo poético, e sopesá-los, afim de investir na tradução. Foi preciso sentir a dor de Adrasto e a das mães argivas e transmiti-las em minha língua, que está situada em um tempo muito diferente, povoada de outros valores e outros sentimentos.
279 Na Ilíada, como já foi mencionado, a cena do enterro do corpo de Pátroclo ilustra o assunto, bem como o