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Offentliggjøringen av en aksept av homofilt samliv

In document Fra avvisning til aksept (sider 98-104)

A força do povo nas pinturas de Oswald é bem representada na figura central da tela analisada. O homem cindido em dois traz o personagem do Antônio Conselheiro e de um Cangaceiro, provavelmente Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião19. Necessário destacar que

o pintor optou por retratar os dois como se compusesse uma única figura: não há polarização, e sim unificação do líder religioso e o líder cangaceiro. No primeiro personagem, o homem de cabelos longos e barba comprida de veste azul, observamos Antônio Conselheiro. O líder religioso, na imagem, munido de uma bengala e um manto, fundou o Arraial de Canudos, uma experiência de sociedade alternativa no interior da Bahia e um importante marco insurrecional na história do nordeste e do Brasil, em 1893. Retratado no livro Os Sertões, de Euclides da Cunha e em diversos filmes, peças de teatro, cordéis de literaturas, Canudos, e mais precisamente a figura de Conselheiro, incorpora no imaginário popular o líder carismático que unificou camponeses fugidos da seca, negros recém libertos e índios contra um sistema de latifundiários de terra e governantes. Arraial de Canudos, que chegou a contar com 25 mil pessoas, era uma comunidade rural, de economia autossustentável com forte influência católica, apesar de não contar com o apoio oficial da Igreja.

Na figura de Antônio Conselheiro20 pode-se observar uma das vozes do discurso de

19.Virgulino Ferreira, vulgo Lampião, nascido em 1898 e morto em 1938 foi o cangaceiro mais conhecido do Brasil, famoso por liderar um dos movimentos de irredentismo que marcou o século XX no sertão, o Cangaceirismo.

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Oswald, ligado à temática da militância e espiritualidade, como já explícito no mapa semiótico do mesmo. A militância política do nosso entrevistado durante a ditadura militar foi na Ação Popular, uma organização criada a partir da Juventude Universitária Católica (JUC) e Ação Católica Brasileira, tendo também uma vertente protestante. A inspiração de Oswald na figura de Antônio Conselheiro, de certa forma, reverbera na trajetória de ação política que nosso entrevistado seguia quando ia morar nas periferias das cidades de Fortaleza e Recife para trabalhar a conscientização do povo oprimido. Era uma escolha difícil na época porque implicava abrir mão do conforto material (Oswald era de uma família de classe média) e correr risco de morte pela repressão. Havia algo de messiânico no fato de se engajar na luta contra a ditadura militar e ser a favor de uma revolução proletária.

Na tentativa de entendermos o processo artístico e político de Oswald perguntamos ao mesmo de que maneira os momentos de perseguição política influenciaram a trajetória de desenvolvimento dele. Ele respondeu:

Influíram de duas maneiras. No primeiro momento eu diminuí, foi um desvio. Eu considero um desvio. Eu considero até que minha prisão foi assim uma pancada pra me voltar pro meu eixo. Que é a arte. Entendeu? (Oswald)

O eixo a que se refere nosso entrevistado relaciona-se à noção de equilíbrio presente na obra vigotskiana em que relega à arte a mais importante concentração dos processos biológicos e sociais na sociedade e um meio de equilíbrio do homem com o mundo nos momentos críticos (Vigotski, 1999). Quando pensamos em todos os processos de perseguição, sejam prisão ou tortura, dos quais Oswald passou conseguimos observar a associação arte e

que atraiu sertanejos, camponeses, índios e escravos recém libertos. Seu nome foi popularizado através do livro Os Sertões, de Euclides da Cunha.

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vida e entender essa relação como constituidora do processo subjetivo do perseguido, reforçando a nossa tese.

O artista ele não vive, ele navega, como dizia o Fernando Pessoa. E ele faz arte. Ele vive no espaço e no tempo da arte que é o espaço e o tempo da eternidade. Então, ele não é uma pessoa do espaço do cotidiano. Ele é uma pessoa do espaço da eternidade. E por isso mesmo, preso...Tudo, todo o pensamento dele, todo o sentimento dele, tudo que ele passa, vai, mais cedo ou mais tarde, se traduzir em arte. E, essa arte foi quem me salvou da morte e da loucura, principalmente. Eu tive preso várias vezes. (Oswald)

A tradução ao qual Oswald menciona refere-se, ao nosso ver, às noções de transformação e transposição. Vigotski (1999) recusa a ideia de arte como contágio, ou seja, de que, por exemplo, um poema que trata da tristeza tem objetivo de contagiar o leitor com a tristeza do autor. Para o pensador bielorrusso, a arte liga-se a uma concepção de transformação, quer dizer, a verdadeira natureza da arte implica o transformar, o superar o sentimento comum. Vigotski (1999) destaca que o medo, a dor e a inquietação, quando suscitadas pela arte, implicam algo a mais acima daquilo que nelas está contido. Este algo, para Vigotski, transforma a “água em vinho”, realizando assim a mais importante missão da arte que é uma espécie de milagre (essa é a palavra usada pelo psicólogo). A importância dada por Oswald à arte, posto que o salvou da morte e da loucura, é a mesma que o psicólogo bielorrusso postula.

Em síntese, quando abordamos o fazer artístico não se trata, somente, de uma questão de beleza, de contágio, mas sobretudo de permanência da vontade de viver. A arte é o mais forte instrumento na luta pela existência tal como aconteceu com nosso entrevistado. Para Vigotski, na arte, “não se pode admitir nem a ideia de que seu papel se reduza a comunicar sentimentos e que ela não implique nenhum poder sobre esse sentimento” (Vigotski, 1999, p. 310)

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