A) Pesquisa documental de uma entrevista anterior
No momento em que os objetivos da pesquisa foram se consolidando e já ensaiávamos a aproximação com o primeiro entrevistado, Oswald Barroso, acessamos uma entrevista que já havíamos feito com ele no ano de 2012, quando a temática ligada à memória era uma constante no meu trabalho dentro do coletivo artístico Aparecidos Políticos. Na ocasião daquela entrevista, realizada dentro de uma exposição do referido coletivo, na Galeria Antônio Bandeira, em Fortaleza-CE, contamos com a presença de Oswald Barroso como entrevistado, que compareceu à galeria. Uma das propostas da exposição deste coletivo era entrevistar ex- presos políticos. A entrevista, com duração de 21 minutos, foi produtiva e Oswald Barroso sentiu-se à vontade de expor detalhes de suas prisões e torturas. Decidimos aproveitar este material, já como um registro documental, pois há nele detalhes de torturas sofridas que, por exemplo, julgávamos serem relatos importantes. No intuito de não entrar novamente nesta questão - a não ser que o próprio entrevistado assim o fizesse - decidimos aproveitar este material auditivo para dar ensejo a continuidade do que seria a nossa segunda entrevista que faríamos à Oswald, desta vez, mais recente, como iremos abordar no subtópico a seguir.
B) Realização de cinco entrevistas narrativas individuais
Antes de abordarmos as entrevistas realizadas é necessário mencionar que já conhecíamos, de outras ocasiões, dois dos entrevistados que são Oswald Barroso e Ernesto Sales. Neste sentido, a etapa do rapport, avançou consideravelmente já que as temáticas a serem discutidas eram sensíveis e delicadas. Apenas com a terceira entrevistada, Marlene
Crespo, a aproximação foi mais recente, surgida nesta etapa da pesquisa, e que contou com a intermediação do filho, pois ela tem 88 anos.
Após o agendamento das entrevistas, deixávamos a critério do entrevistado a escolha do local, que nos casos até aqui investigados, foi nas residências, um museu de arte e duas outras através de videoconferência, no caso de Marlene Crespo. O instrumento de gravação foi o aplicativo Gravador de Voz do celular LG Smartphone e, para o caso do vídeo gravação, o aplicativo whatsapp. No caso da gravação da Marlene, fazíamos a captação da imagem através do aplicativo whatsapp e a gravação da voz através do aplicativo Audacity. Após a cinco gravações, realizamos a transcrição literal de todo o áudio gravado, no editor de texto Br Office através do uso de fone de ouvidos.
Findada a transcrição, os dados foram analisados a partir da Análise Temática Dialógica da Conversação (Borges, 2017). Trabalhamos com os sujeitos da pesquisa algumas questões gerativas, como: de que maneira se deu sua perseguição política durante a ditadura. Como foi sua vida antes e durante a ditadura militar. De que maneira a sua produção artística ajudou na elaboração da sua memória sobre aquele período.
Tabela 2
Relação de participantes e a perseguição política
Participantes Perseguição Política Tempo Entrevista
Ernesto Sales Espionado, preso Primeira: 47’43’’
Segunda: 38’13’’
Psicologicamente Segunda: 59’21’’
Marlene Crespo Presa, Torturada Física e
Psicologicamente
Primeira: 43’29’’ Segunda: 57’00’’
C) Pesquisa documental de dois livros
Outra documentação relevante que não havia surgido inicialmente na pesquisa foi de dois livros publicados em 2018 e 2019, dos entrevistados Marlene Crespo e Oswald Barroso, respectivamente. A publicação dos livros de memórias dos dois foi coincidência já que quando escolhemos os dois como participantes da pesquisa não sabíamos que os mesmos iriam lançar as publicações. Nesta etapa, avaliamos que uma análise temática dialógica circunscrita apenas às entrevistas poderia limitar o alcance e, consequentemente, seria muito válido aproveitar uma fonte bibliográfica que os autores tinham feito com o objetivo de criar um legado das memórias dos mesmos. O livro de Marlene Crespo, chamado Desenhos da resistência: obra gráfica de
uma artista engajada nas lutas sociais durante a ditadura militar, possui 176 páginas com
textos e, principalmente, fotografias dos trabalhos artísticos. O livro de Oswald Barroso, denominado Risco Vermelho: as desventuras de um rei descaminhado, é um livro autobiográfico de 282 páginas que contam sobre a vida de Oswald durante a ditadura. Possui poucos registros artísticos do mesmo, mas é uma valiosa fonte de informação da vida de nosso entrevistado.
Tabela 3
Relação de livros publicados pelos entrevistados usados para a Análise Temática Dialógica
Autor Título Ano Páginas
Oswald Barroso Risco Vermelho: as
desventuras de um rei descaminhado. Volume II
2019 282
Marlene Crespo Desenhos da
resistência: obra gráfica de uma artista engajada nas lutas sociais durante a ditadura militar
2018 176
D) Pesquisa documental de análise de obras de artes
Findadas as entrevistas narrativas e análise documental dos livros, partimos para uma análise documental relacionada às produções artísticas dos três participantes. Nesta etapa, ancorados na Pesquisa Educacional Baseada em Artes, nos propomos a analisar as produções artísticas dos mesmos para irmos além da narratividade oral e escrita. A proposta, nessa fase, foi adentrar no universo complexo e semiótico das produções artísticas dos autores no intuito de encontrarmos possibilidades discursivas que a arte propicia, ainda mais ao abordar um contexto de alta repressão política e censura.
No caso de Oswald Barroso, analisamos uma pintura em tela, a partir da análise temática da imagem parada e uma poesia produzida no cárcere. Em Marlene Crespo, foram investigadas seis ilustrações feitas em nanquim sobre papel produzidas durante a ditadura ou no período de abertura política. Apenas o caso do Ernesto Sales traz obras que, apesar de serem atuais, rememoram aspectos vividos por nosso entrevistado durante a ditadura. As duas obras
de Ernesto Sales são instalações, ou seja, possuem uma perspectiva de volume mais tridimensional.
Tabela 4
Relação de obras de arte analisadas
Autor Obra - Título Linguagem Ano Observação
Oswald Barroso Sem título Pintura (Acrílica
sobre tela)
1975
Fraco é o ferro Poesia 1977
Marlene Crespo Sem título Desenho (Nanquim
sobre papel)
Sem data Desenho de uma mulher grávida, com um filho na mão e aprisionada
Na Cela Desenho (Nanquim sobre papel) 1987 Ilustração na Tribuna Operária Desenho (Nanquim sobre papel) Sem data Funai: sobre os critérios de indianidade Desenho (Nanquim sobre papel) 1981
Sem título Desenho (Nanquim sobre papel)
Sem data Desenho de uma mulher cangaceira armada Sem título Desenho (Nanquim Sem data Família de operários
sobre papel)
Ernesto Sales Extermínio da
juventude pobre e negra
Instalação (Tronco, machado e tinta) Capoeira Instalação