A infância do Ernesto Sales foi marcada pela lembrança das visitas ao pai no presídio (Figura 10): “À época era uma criança também atingida pela violência da ditadura reinante naqueles dias” (SIC) referendou o pai ao filho, em carta datilografada ao nosso entrevistado, em 19 de março de 1990. Além disso, Ernesto Sales e a família passavam por dificuldades financeiras e era imperativo trabalhar para ganhar o pão. Por ser o filho mais velho, entre quatro, ele arcou com a responsabilidade de ajudar a mãe, os irmãos e, principalmente, a irmã diabética.
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Em alguns momentos Ernesto Sales relatou que a família tinha que decidir entre comprar insulina para a garota ou comida para todos, devido ao alto preço do medicamento. Em seus relatos, Ernesto Sales menciona sempre, de maneira orgulhosa e, ao mesmo tempo, sofrida, as vezes que visitava o pai e realizava, junto a mãe, um percurso difícil ao presídio:
Então o pouco recurso que tinha era pra ir visitar meu pai. Tinha...parece que era visita quarta e sábado, domingo. Tinha dois dias que eu não recordo direito. Mas pelo menos uma vez na semana a gente ia. Né? A minha mãe teve muitos problemas de saúde. Ela tinha muito zelo pela gente. Ela tinha medo que a gente fosse sequestrado, que acontecesse alguma maldade. E isso era muito tenso. Era uma coisa muito tensa, né? Os próprios familiares se distanciavam por conta.., pra não sobrar nada pra eles. Alguma repressão, coisa que o valha. Então, não foi fácil né? Eu sou trabalhador. (Ernesto Sales)
Nesta citação do Ernesto Sales podemos inferir alguns significados dele em relação ao papel de criança: o medo do sequestro, as tensas visitas à unidade prisional, assim como o distanciamento dos próprios familiares. Não bastava o pai estar isolado do convívio social, pois havia ainda uma mácula de ser taxado como “terrorista” e os parentes próximos não se aproximarem daquela família nuclear, justamente pelas consequências de que essa aproximação poderia ter. Outro tipo de perseguição vivida por Ernesto Sales, ainda na infância, foi o que ele denomina como uma espécie de prisão domiciliar. Quando discorre sobre a mãe, podemos compreender melhor sobre:
Ela foi uma perseguida política. Ela foi presa política, mas não dentro do aparato estatal. Na residência. E a Lei não prevê isso. Entendeu? Como, meu amigo, se você bota uns macacos21 da Polícia Federal na
sua porta. Pra onde você vai com uma reca de menino – que eram 4, na época era 3, o mais novo nasceu em 71. Eles iam na cola...na
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espreita...Se isso não é uma prisão é o que? Ficar 24 horas na sua casa. Entendeu? A minha mãe faleceu no oitavo acidente vascular cerebral. E ela teve muitos ao longo. (Ernesto Sales)
Nestes dois trechos trazidos até aqui observamos um discurso voltado para dois espaços presentes na vida do Ernesto Sales: a casa e o presídio. Porém existe outro ambiente não menos importante que foi a Escola. Na educação, nosso participante também nos relatou situações constrangedoras devido ao fato de ser um filho de comunista: “E na escola todo mundo sabia. Né? ‘Ah, isso aí é filho de preso político’. Nas festinhas: ‘Cadê seu pai’, ‘Quem é seu pai?’” nos relata Ernesto Sales. A relação dialógica (Bakhtin, 2016) que Ernesto Sales estabelece na escola são marcados por tensionamentos e conflitos com alguns colegas que o estigmatizavam.
No momento que o participante mencionava este fato, ele trouxe a lembrança de um acontecimento recente dentro do ambiente universitário, à época em que o mesmo cursava uma instituição superior. Quando questionamos Ernesto Sales sobre o sentimento de perseguição, ele nos relatou que quando pegava carona com um colega de curso descobriu que este era policial e, segundo Ernesto Sales, o mesmo chegou a fazer algumas perguntas estranhas assim como deixar a arma exposta no assoalho do carro. Apesar de não podermos inferir se as perguntas do policial se relacionavam ao passado de Ernesto Sales e do pai do mesmo, é notório que a ideia de perseguição política se estende nestas situações, inclusive para fases posteriores ao período de arbítrio.
Foi também na infância que Ernesto Sales começou a ter suas primeiras experiências artísticas e artesanais. A relação com a arte, neste momento, de acordo com sua narrativa, surge como uma estratégia de sobrevivência diante da difícil fase da vida: “É um pouco a sobrevivência, né, que me impulsionou como artista”. (Ernesto Sales). Neste momento encontramos um vínculo ao destaque dado pelo nosso primeiro entrevistado, Oswald Barroso,
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à necessidade da arte como uma estratégia de sobrevivência. No caso de Ernesto Sales esta sobrevivência não é só da ordem simbólica, mas também financeira e material. Na época, a família de Ernesto Sales, e o pai inclusive, fabricavam pendentes para jarros de samambaias. Era uma tarefa árdua que nosso sujeito aborda em seu relato:
Quando eu tinha menos de 10 anos que foi nesse período que a gente começou a produzir é... eu recordo de todo o processo. De você ir no mercado trazer aqueles rolos de corda pesado e eu não aguentar direito com aquele rolo de corda, mas eu ter que levar. Botar dentro do ônibus junto com a minha mãe. De... de escolher a corda que a gente ia manusear. As minhas mãos eram mãos finas, mãos de criança e a corda tinha uma espessura... eu não sei te dizer. É, a numeração, mas... ela tinha um... era uma coisa assim pesada. Era uma coisa que machucava, que dava calo, que feria. (Ernesto Sales)
A relação do artesanato com os presidiários políticos era comum. Além de ter uma função terapêutica possuía o objetivo de adquirir renda. Por isso, o transporte de materiais que a família realizava em praticamente todas as visitas à prisão de José Sales. A seguir abordaremos o tópico em que demostraremos de que maneira Ernesto Sales rememora o pai.