• No results found

En endringsmodell: Fra avvisning til aksept i fire faser

In document Fra avvisning til aksept (sider 122-127)

Neste tópico em específico apresentaremos memórias de Ernesto Sales em relação ao pai e analisaremos de que modo a educação advinda forjou a personalidade do nosso entrevistado a partir da entrevista e da análise de trechos de uma carta. A fala de Ernesto Sales é um elo na corrente organizada do enunciado do pai dele (Bakhtin, 2016). Existe um sentido de continuidade dos discursos de pai e filho, posto que “todo enunciado, além do seu objeto, sempre responde (no sentido amplo da palavra) de uma forma ou de outra aos enunciados do outro que o antecederam” (Bakhtin, 2016, p. 61).

134

A prisão de José Sales em 1971, pai do Ernesto Sales, durou nove anos. Depois da liberdade dele, os dois não se viram, por quase 10 anos, por causa da separação do pai e da mãe. A mãe, com os filhos, viajou para Rio de Janeiro. Na carta escrita por Salles, já em liberdade, ao filho, em 19/03/1990, vemos como o pai escreve, em um estilo íntimo e, mas ao mesmo tempo distante, ao filho. Para Bakhtin (2016) e Fiorin (2011) a carta é um gênero discursivo secundário, ancorada no tempo, no espaço e numa relação de interlocução, que no caso em voga trata de pai e filho. Em um excerto da carta podemos ler:

Figura 11- Trecho da carta de Sales ao filho, de 19 de março de 1990

As perguntas iniciais da carta, “como vive” “onde trabalha” “já casou”, por exemplo, denotam uma relação de distanciamento que os dois tinham, por serem perguntas genéricas e interessadas em se saber das atuais condições de Ernesto Sales.

Em outro trecho, o assunto da política é o tema principal da interlocução entre os dois e expõe um estilo linguístico de escrita:

135

Nesta parte da carta observamos o uso do pronome de tratamento “companheiro”, uma palavra muito recorrente nos enunciados dos militantes políticos, que é um meio lexical (Bakhtin, 2016) de aproximação do enunciante Pai, tentando balancear afetivamente a relação outrora tão distante. Pelo uso dessa expressão, podemos inferir que a relação de pai e filho, além de ensaiar um retorno afetivo, é também um vínculo de companheirismo, no sentido político, pois o pai se “enche de alegria” por ter um filho como “combatente do povo”. Sales parabeniza o filho pela corrente política seguida por ele e o aconselha sobre os perigos de ser instrumentalizado por falsos líderes.

Em um dos trechos da entrevista oral que fizemos, em que se aborda as questões dos valores, Ernesto Sales comenta: “E essas marcas elas são muito fortes. Essas marcas é que me mantém como artista. Essa marca são como me mantém em pé, sabe? ” Ao perguntamos quais seriam essas marcas, a resposta segue:

A injustiça porque eu sei que meu pai ele lutou, né, para que as condições fossem dadas para a toda população e não pra ele. Ele não tava na perspectiva de se locupletar. Ele fazia expropriação no banco não pra ele... Inclusive na época que ele fazia expropriação de banco foi a época de que a gente mais passou fome na vida. Né? A minha irmã ela era diabética desde um ano de idade. E a insulina o frasco de insulina era um salário mínimo. Você tinha a regular e a [inaudível] pra comprar. Ou você comprava aquilo ou você comprava um alimento. (Ernesto Sales)

Neste trecho merece uma análise sobre o ato de expropriar. A palavra expropriação é um meio lexical de alto teor político para os militantes da resistência, pois naquela época significava a desapropriação dos dinheiros dos bancos para ajudar a financiar as organizações de resistência à ditadura. Os militantes recusavam usar a palavra assalto já que a mesma era

136

relacionada a um roubo para usos lucrativos e particulares. A palavra expropriar, segundo o dicionário brasileiro da língua portuguesa (Michaelis, 2020), significa: “Retirar legalmente de alguém a posse ou propriedade, por conveniência ou necessidade do poder público; desapropriar”. Para as organizações militantes de resistência da época, eles tomavam de volta o dinheiro que pertencia à classe trabalhadora, no qual via nos bancos uma instituição burguesa e instrumento da ditadura, que usurpava a renda daquela classe. O pai do nosso entrevistado, neste sentido, por assumir a função de militante de uma organização política armada e ter atuado em uma desapropriação, encontrava-se na categoria de guerrilheiro urbano.

Assumir a função de um guerrilheiro, naquele período, além de ser um ato político corajoso, era quase uma sentença de morte. Como já mencionamos na introdução desta tese, faz-se necessário analisar este ato no contexto histórico em que ocorria. Similar aos partisans que resistiram aos nazistas, na França, através do uso de armas e ações de sabotagem e também expropriações, há de se compreender que o Brasil se encontrava em um momento de ausência de liberdades como muitos casos de assassinatos, torturas e desaparecimentos. A luta armada não era uma estratégia que as organizações escolhiam por comodidade, mas era o último front na tentativa de se derrubar o regime autocrático. Ernesto Sales é ciente deste papel desempenhado pelo pai e se orgulha do fato de saber que o pai não procurava lucrar com isso (quando menciona que a família passava fome nesta época), e sim dar a vida por uma causa: “Ele fazia expropriação no banco não pra ele... Inclusive na época que ele fazia expropriação de banco foi a época de que a gente mais passou fome na vida” (Ernesto Sales). No penúltimo trecho da entrevista, acima, podemos observar um elo profundo entre o pai militante e os valores que Ernesto Sales guarda, até os dias de hoje, inclusive se reconhecendo como um militante político que dá continuidade à luta do pai, porém com “armas diferentes”. Na fala de Ernesto Sales, a seguir, a entonação expressiva (Bakhtin, 2016) com o rum se constitui para

137

enfatizar valores. “Eu vou lutar para que as condições sociais sejam garantidas até o fim da minha vida. De um jeito ou do outro. E eu não sou fácil, rum. Eu tenho uma arte agora como uma arma poderosa, rum, para essa transformação. ” (Ernesto Sales)

A arte como uma arma poderosa para garantir condições sociais de dignidade relaciona-se com afirmação de Bakhtin (1997) de que um objeto estético abarca valores do mundo com um coeficiente estético determinado na qual a posição do autor e seu desígnio artístico devem ser avaliados em função de todos esses valores. O significado de “desígnio”, ou seja, o valor da arte como transformação social, do Ernesto Sales, está sempre presente no discurso do mesmo e é uma postura condizente com a dos artistas revolucionários (Breton, 1985; Freire, 1997). De uma forma contundente Ernesto Sales atribui ao pai a condição de herói. Para ele, a resistência armada, posição assumida pelo pai, não foi motivo de vergonha, e sim de admiração:

...os meus heróis são esses caras que anularam a própria vida em função de uma coletividade, né? Então, eu não rechaço. “Ah, não, não era o momento, não era isso” “A análise foi equivocada”. Eu não tenho essa avaliação. Entendeu? A minha avaliação é que o que ocorreu foi importante pra gente. (Ernesto Sales)

Além dos valores mencionados acima, Ernesto Sales relega ao pai a importância do aprendizado de algumas técnicas artísticas: “Ele me influenciou tanto na questão de você se dispor a construir algo e vender algo para sobreviver. Né? Ele me influenciou no fino trato que ele dava na talha. ” E, complementa, ao destacar a necessidade da arte dentro do presídio: “O principal aspecto de você trabalhar com a arte era a sobrevivência. Né? E depois tinha essa outra história da venda. ” Segundo Ernesto Sales, José Sales talhava, pirogravava e trabalhava com materiais como couro, bambu e madeira.

138

In document Fra avvisning til aksept (sider 122-127)