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6. Findings and Discussions

6.3 Obstacles

Turno Informante Discurso

001 P1 ((trecho de fala em andamento)) / aí / mas eu fiQUEI penSANdo /

/ COmo as PESsoas / CRIaram COIsas /

002 C1 / É /

003 P1 / invenTAram COIsas / pra GENte consuMIR né /

004 MAF / diNHEI / diNHEIro / ((gesto))

005 EAC / diNHEIro /

006 MAF / É / ((balança a cabeça positivamente))

007 P1 / e tem que TER diNHEIro né / pra ter isso tuDInho /

Quanto à organização entoacional, o compartilhamento de informações novas que faz menção aos tons descendentes (BRAZIL, 1985) foi de maior ocorrência no Recorte 09, com exceção de dois episódios de entoação ascendente, sendo a primeira em uma unidade tonal apresentada no Turno 003 e a segunda em outra unidade tonal no Turno 007. Todos os dois eventos se passam na fala de P1 que, por ocasião, tinha o domínio da atividade desencadeadora da conversação.

Dividido em turnos bem distribuídos, entregues e tomados em lugares relevantes pela marcação das pausas breves, as quais oportunizam ao interlocutor assumirem ao turno entregue, conforme preconiza Marcuschi (1986), o Recorte 09 inicia-se com a transcrição de fala de P1 que não faz uma pergunta, mas sim levanta uma reflexão sobre a temática proposta, o consumismo. Daí, imediatamente à reflexão proposta, MAF interage pragmaticamente ao introduzir na conversação o que está descrito no Turno 004. MAF fala somente em dois

turnos durante a conversação descrita; entretanto, um dos turnos, o 004, é bastante relevante para o contexto conversacional, uma vez que a única palavra proferida pela informante é central no desenvolvimento da conversação.

Embora não seja a fala do interlocutor o objeto de nossa análise, é importante considerar o contexto comunicativo em que é pertinente notar que P1 faz uma ênfase bem marcada pelo prolongamento de sílaba tônica nas palavras coisa e inventaram nos Turnos 001 e 003 que parece ter atingido sua intencionalidade, o que pode ser percebido pela manifestação dos dados linguísticos e paralinguísticos na fala de MAF no Turno 004 ao pronunciar desleixadamente e depois retomar com mais precisão a emissão da palavra

dinheiro associada ao gesto referente à mesma. Assim, é interessante reafirmar que, para dar

melhor inteligibilidade à interação, a proeminência, que tem como principal atribuição nortear o ouvinte na direção de determinado sentido idealizado pelo falante (BRAZIL, 1985), é tomada pelos participantes da interação, o que pode ser conferido pelo contexto comunicativo nos Turnos de 001 a 004.

O Turno 004 traz duas unidades tonais analisadas acusticamente através do software PRAAT, que serão apresentadas por meio da imagem do espectrograma pelas Figuras 26 e 27.

Figura 27 - Retomada da emissão: dinheiro.

Sobrepondo as Figuras 26 e 27 visualiza-se que ambas, mesmo compostas de um número diferente de sílabas (a da Figura 26 com duas e a da 27, com três sílabas), apresentam modulações semelhantes no tracejado de seus parâmetros a ponto de tornar bem parecidos seus respectivos espectrogramas. Logo, observa-se a intensidade mais elevada na sílaba tônica que, por sinal, tem maior tempo de duração, o que permite identificá-la com a sílaba mais proeminente. O outro parâmetro que está igualmente mais elevado em sílaba pretônica é a F0.

O que, então, caracteriza essa produção de MAF como objeto de análise passível da relevância quanto ao efeito de sentido norteador do discurso marcado pela ênfase que faz da sílaba proeminente? Primeiro há que se considerar que o parâmetro duração, que se encontra aumentado em nhei, está bem mais prolongado na primeira emissão (Figura 26) que na segunda. O alongamento, segundo Marcuschi (2006a), acompanhado de elevação do tom tem função enfática e, em geral, recaem sobre a sílaba tônica.

Ainda com o propósito de reforçar a tese de que a ocorrência não proposital, mas intencional (na perspectiva de gerar sentidos) da proeminência na fala do afásico, particularmente de MAF nesse contexto, toma-se como relevante a repetição da palavra. Do ponto de vista da neurolinguística, a repetição de palavra serve para conduzir o sujeito afásico por um percurso de reelaboração da sua linguagem (COUDRY; FREIRE, 2010), mas do ponto de vista dos estudiosos da língua falada, além de servir para a construção ou

organização do texto para a produção também tem como função a ênfase (MARCUSCHI, 2006b).

Outro fato interessante é que a palavra proferida na primeira unidade tonal do Turno 004, retratada pela Figura 26 ocorre de forma desviante da palavra alvo, assim, mais que uma produção corriqueira, a emissão de dinhei reflete características típicas da fala de sujeitos com sequelas de lesões no cérebro, com base nas afirmações de Rapp (2003) que vai ainda mais adiante ao afirmar que, em geral, as palavras que estão mais susceptíveis a trocas são as de uso cotidiano, o que caracteriza a ocorrência de dinhei como uma parafasia fonológica, as quais, segundo Scarpa (2001), são comuns em situações de repetições de palavras ou sílabas.

4.4.10 Conversação sobre acordar às três horas da manhã

Compreender uma conversação quando não se está envolvido nela não é tarefa fácil, mesmo quando ela ocorre com fluidez entre um grupo de pessoas que parece norteá-la com muita propriedade e domínio, dentre outros aspectos, por terem uma temática comum a todos os participantes da interação. O trecho de transcrição que se segue é um ótimo exemplo da necessidade de situar a conversação em um contexto para torná-la inteligível, pois, do contrário, o leitor não estaria apto a perceber as mensagens de insinuação, por exemplo.

Trata-se de uma conversação que ocorreu no encontro do GCA do dia 18 de setembro de 2014. No contexto conversacional estão envolvidos três informantes da pesquisa (JFB, MAF e o que tem a sua fala analisada no momento, O EAC), outros dois afásicos participantes do grupo (aqui apresentada como A1 e A2), além da pesquisadora que coordenava a atividade no momento (aqui apresentada como P2).

Na ocasião, cada afásico tinha a oportunidade de falar sobre as suas vivências passadas durante a semana, o que foi compartilhado de um por um, isto é, cada afásico trouxe à conversação acontecimentos pessoais até que foi dada a oportunidade para EAC falar, momento em que foi interrompida pelo senhor JFB, o qual, com sua personalidade de brincalhão, imediatamente fez insinuações que giraram em torno da vida familiar e da ausência da companhia da esposa do colega de grupo.