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Turno Informante Discurso

001 JFB // SAbe o que É ((gesto com as mãos)) / poPAIt / diz AÍ /

002 P2 / ãnh /

003 JFB / POpait / Ele não SAbe não / 004 P2 / seRÁ que é futebol soCIEty não /

005 P1 / soCIEty /

006 JFB /SIM ((prolonga)) / 007 P2, P3, P4 / [[ soCIEty / 008 P2 / fuTEbol soCIEty / 009 JFB / Ele É DOno de lá //

A Trancrição 01 é assinalada por uma variação entoacional com predominância de tons descendentes, que segundo Brazil (1987), apontam para uma atividade dialógica em que há prevalência de transmissão de novas informações. Ao analisar o recorte, fica evidente que o afásico traz à conversação uma informação desconhecida, que pelo manuseio que faz do recurso entoacional atinge o propósito de transmissão de informação, corroborando a proposta de Brazil (1987) de que o falante, ao se apropriar do recurso entoacional, o faz com o propósito de gerar no interlocutor a condição de assimilar o significado pretendido.

JFB mostra-se um senhor bem extrovertido durante a realização das atividades do GCA e, embora apresente uma grande dificuldade na seleção dos fonemas para a fala e, consequentemente, cometa "erros" na fala, não demonstra sentir constrangimento para o desenvolvimento das atividades conversacionais e dialógicas.

Na atividade conversacional e dialógica apresentada no Recorte 01 há alternâncias de turnos entre os falantes que endossam a afirmativa de Fávero et al (2010) de que esta construção colaborativa propicia a formação de tópicos a partir das falas dos interlocutores em torno de um foco referencial, nesse caso, o futebol society.

O Turno 001 do Recorte 01 é caracterizado por uma tentativa de acesso a uma informação para a fala. Na ocasião o afásico sente a dificuldade em falar uma palavra durante a fala espontânea. Essa falta da palavra é uma dificuldade comum a todos os falantes, muito mais marcada nas afasias. Na tentativa de resolver essa falta, muitas vezes, o falante faz movimentos na tentativa de produzir a palavra e, assim, ou usa expressões sinônimas que se aproximem da palavra alvo, ou emite uma sequencia de sons com vistas a aproximar da palavra alvo (mais característico do afásico), como verificado na produção do sujeito em questão.

O uso de expressões sinônimas que se aproximem da palavra alvo, recurso linguístico para compensar a anomia, pode aparecer, por exemplo, em um momento em que há a tentativa de nomear um tipo característico de escova plástica de cerdas pequenas usada para pentear cabelos crespos e curtos em que o falante diz: "é para...assim... (gesto de pentear o cabelo) para...o cabelo". Esse movimento gerado pela dificuldade em nomear as coisas, que não é uma exclusividade do afásico, é característico da organização da linguagem para a fala.

A emissão de uma sequência de sons com vistas a aproximar da palavra alvo, conforme verificado nos Turnos 001 e 003 do Recorte 01, é outro recurso utilizado na tentativa de sanar a falta da palavra no momento da fala. A produção de uma palavra que não é a esperada na fala espontânea, definida por Rapp (2003) como parafasia fonológicas ou lexicais, pode ser interpretada pelo interlocutor, pelo contexto ou pelo parentesco fonológico em si. No trecho analisado, a informação prosódica com permanência da acentuação tônica da palavra no lugar adequado (Turno 001) serve de facilitador do entendimento e confirma a teoria de Scarpa (2005) de que os domínios superiores da hierarquia prosódica (frase entoacional, frase fonológica) exercem influência na colocação do acento nos domínios inferiores (palavra fonológica, sílaba). É, no entanto, a retomada do popait (Turno 003) um movimento metalinguístico na tentativa de clarificar a parafasia.

O popait apresentado na fala de JFB no Turno 003 diferencia-se do popait apresentado no Turno 001 em termos de acentuação tônica, conforme se observa através das Figuras 03 e 04, resultantes das análises acústicas das duas produções.

Figura 03- Primeira emissão de popait.

A palavra 'popait' que aparece nos Turnos 001 e 003 do Recorte 01 é interpretada como uma tentativa do afásico de falar a palavra inglesa 'society' (conforme Turno 004). Assim, observa-se que em termos de produção da palavra, o movimento feito pelo afásico no Turno 01 foi, apenas, de substituição do fonema /s/ por /p/, enquanto manteve o traço fonológico de acentuação na segunda sílaba. Na Figura 03 é visível que o correlato acústico duração é maior na sílaba tônica da palavra alvo. Outro correlato acústico que caracteriza a modulação prosódica para a fala observado nesta análise é a F0 que, conforme a Figura 03 está mais elevada na sílaba tônica.

A produção primeira da palavra popait, embora corriqueira, manteve os traços prosódicos (duração e acento). Para Chacon (1998), a prosódia, caracterizada por sua atuação na organização multidimensional da linguagem é um elemento linguístico próprio de ambas as modalidades de uso da língua. Esse movimento de manter os traços prosódicos na linguagem oral, então, revela que o afásico se apropria, como os demais falantes, desse elemento linguístico durante sua fala e permite ao interlocutor interpretar o enunciado.

A pretensa intenção do JFB, no primeiro momento, parece não ter alcançado no interlocutor o efeito esperado, talvez pelo desvio na produção do fonema almejado para a produção da palavra, o que fez necessário ao afásico reformular a maneira de falar. Assim, pela deficiência de acesso lexical, o afásico se apropria da proeminência como recurso facilitador de sua intenção, conforme aponta Olson (1997), e produz a mesma palavra, sendo com outras características prosódicas, como pode ser vista na Figura 04.

Figura 04- Retomada do termo popait.

A Figura 04 é o resultado da análise acústica da palavra popait emitida pelo afásico JFB e apresentada no Turno 003 do Recorte 01. Por meio da análise acústica há a possibilidade de sustentar a informação apontada pela análise perceptual da produção de fala de JFB. Ao repetir a palavra já emitida no Turno 001 do mesmo recorte há uma tentativa de tornar a palavra foneticamente proeminente ao acentuar a sílaba tônica, o que pode ser conferido na Figura 04 e fazer um movimento de elevação de F0 na primeira sílaba da palavra.

A proeminência, ou seja, ênfase em sílaba que se pretende destacar, conforme Brazil (1985), está relacionada aos objetivos idealizados pelo falante para com o seu ouvinte. No Turno 003, o fato de repetir a palavra é muito mais que um percurso de reelaboração da linguagem, é também uma tentativa de sustentar no discurso uma palavra que insiste em "não sair como deve". Assim, em acordo com a TIE, a ênfase tem um efeito de sentido, ela vem carregada de um significado e faz que a palavra diferencie-se daquela produzida no primeiro momento. Além disso, o fato de repetir a palavra com diferentes características prosódicas tem como efeito a produção de significados diferentes de uma emissão anterior.

4.4.2 Conversação sobre dirigir com um veículo sem adaptações

Trata-se de uma conversação espontânea que ocorreu no início do encontro do GCA do dia 15 de janeiro de 2015 entre a pesquisadora responsável por esta pesquisa (P1), outro pesquisador do sexo feminino (P2) e a informante MAF, uma das participantes da pesquisa. A conversa entre os três interlocutores presentes ao encontro baseou-se nos episódios vivenciados pelo interactantes durante o mês de dezembro passado.

Durante a interação, o discurso de P2, que durante o período de recesso encontrou em uma feira de artesanato um dos participantes do grupo, o qual por mudanças pessoais em sua vida cotidiana se ausentou da participação sistemática do grupo, deu origem ao tópico dirigir

com um veículo sem adaptações. A fala de P2 foi o ponto de partida para conduzir a conversa

em torno da temática voltada para os prováveis impedimentos que tornam o afásico ausente nos últimos encontros e o tópico tratado no Recorte 02.