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2. Theoretical Background

2.1 Islamism

Turno Informante Discurso

001 P1: / se FOSse autoMÁtico/ JÁ faci [ liTAva/

002 P2: /[ é É /

003 MAF: / É /

004 P1: / porque ele não PREcisava / nem PASsar a MARcha /

005 MAF: / É /

006 P1: / e Ele poDIa / usar o [ OUtro PÉ /

007 MAF: /[ VOu falar NÃO /

/ to não / POde não / eu / EU não POtu / eu não POSso /

/ eu TEnho não POSso / eu TENdo FORça / aGOra/

008 P1: / E MESmo / você esTANdo com FORça / né MAF /

009 MAF: / É / É / É /

010 P1: /[ mas não POde /

011 P2: / [É porque PASsa por uma REavaliação / no deTRAN NÉ /

MAF é uma das mais animadas participantes do GCA da UNICAP. Em eventuais ocasiões, participa dos encontros muito calada ou aparentemente triste. Nessa ocasião, estava especialmente motivada e, provavelmente, pelo fato de estar presente, até o momento da conversa retratada no Recorte 02, um número bem reduzido de participantes e por haver um número reduzido de falas simultâneas, a afásica parece compreender melhor a conversação e interagir oralmente de forma mais inteligível.

Para GIL (2002), os sujeitos afásicos, mais especificamente com a afasia de Broca, são caracterizados por um falar lento, pausado, com supressão de grupos consonantais e uso de consoantes surdas, sendo-lhes conferida a rotulação de sujeitos aprosódicos. Scarpa (2001), entretanto, critica essa literatura afasiológica que trata da lateralização hemisférica cerebral tanto no que concerne às manifestações linguísticas da afasia como do processamento prosódico. Para esta última autora, a situação prosódica nas afasias, embora variável à fala de cada sujeito, ou seja, inconstante e imprevisível, é também caracterizada pela preservação dos níveis superiores de hierarquia prosódica. Logo, nos níveis prosódicos sílaba, pé e palavra fonológica estão as maiores dificuldades do afásico pois, nos níveis acima da palavra estão os enunciados e os discursos que, segundo Scarpa (2001), se afastam da dificuldade comum a fala dos afásicos. Assim, a desintegração fonética com a supressão, a substituição e/ou a repetição de alguns fonemas, que faz com que a fala de MAF seja assinalada por um sotaque diferenciado, não a torna desvinculada do uso dos elementos prosódicos na fala.

Os elementos prosódicos como a entoação, a ênfase e a pausa, associados ao contexto conversacional, têm a capacidade de nortear a conversação por diferentes caminhos, uma vez que autoriza diferentes sentidos e viabiliza alguns significados possíveis (Brazil, 1985). Assim, com base no contexto e nos Turnos 001, 004 e 006 evidencia-se que a conversa, que vem girando em torno da atenção de que um afásico hemiplégico deve dar à necessidade de ter um automóvel compatível com suas dificuldades motoras, é direcionada por MAF, nos Turnos 007 e 012, à inferência de que o indivíduo depois do Acidente Vascular Encefálico (AVE) não tem mais condições de dirigir porque, embora recupere o movimento, não recupera mais a força.

Tendo como ponto de partida a sobreposição de vozes, no turno 007 é possível verificar um padrão entoacional marcado, na maioria das unidades tonais, pelos tons descendente e ascendente-descendente. Esses tons usados por MAF sinalizam a transmissão de informações ainda desconhecidas do interlocutor por um falante que pretende manter o

domínio do seu enunciado (BRAZIL, 1985) ou que pretende manter o turno durante a conversação (MARCUSCHI,1986; DIONÍSIO, 2012). Com isso, evidencia-se a percepção de um falante, que mesmo afásico, ou seja, com sua linguagem alterada, se apropria não conscientemente dos recursos prosódicos, fazendo-se um sujeito ativo no discurso e que, mesmo quando comete repetições hesitativas, nas palavras de Marcuschi (2006), caracterizadas pelas unidades entoacionais destacadas pelo tom neutro, que podem ser conferidas no Turno 007, o faz com a finalidade de manter a posse do turno e concluir sua fala. As Figuras 05 e 06 são o resultado da análise acústica no PRAAT das emissões de 'posso' de MAF no Turno 007.

Figura 06- Retomada de posso.

Outro aspecto digno de atenção no Recorte 02 é que, há proeminências em todas as unidades tonais, conforme sugere Brazil (1985), mas nenhuma delas ocorre em sílaba pretônica, todas foram feitas em sílabas compatíveis com a sílaba tônica. Essa ocorrência não torna desvirtuado o recorte apresentado, antes reforça a hipótese de Brazil (1985) de que, embora, a proeminência esteja relacionada às escolhas do falante, há uma tendência em escolhê-las a partir da relação gramatical com a sílaba tônica. Logo, é plausível perceber que no Turno 007 há um percurso de reorganização para a fala, com manutenção do turno, reformulações de palavras e acentuação tônica que culminam com o entendimento do discurso da afásica por parte do interlocutor.

Nas Figuras 05 e 06, resultado de duas diferentes emissões de 'posso', evidenciam que a acentuação enfática da palavra foi coincidente com a acentuação tônica, pois em termos de duração da emissão da sílaba, mais longa foi a penúltima. O correlato acústico frequência fundamental, entretanto tem seu maior pico na sílaba átona, ficando por sua vez, a intensidade mais elevada na sílaba tônica.

Outro fato relevante é que, ao substituir o fonema /s/ por /t/, MAF comete uma parafasia fonológica que muito se assemelha com o processo fonológico de substituição reforçando, assim, os resultados dos estudos de Rapp (2003), de que essas manifestações que estão presentes no processo de aquisição também estão presentes na afasia. Logo, por que não afirmar que são parte do processo de reorganização da linguagem?

4.4.3 A palavra amendoim na conversação

O encontro do GCA do dia 03 de julho de 2014 foi registrado por meio de gravação de vídeo durante uma hora e doze minutos. O trecho de fala analisado na sequência foi recortado entre os dez minutos e quarenta e cinco segundos e os onze minutos. O tópico conversacional apresentado no Recorte 03 é resultado da descrição por parte informante JFB de um senhor ao qual ele presta serviços.

Em trecho anterior ao recorte de transcrição apresentado, JFB faz menção às dificuldades motoras e de linguagem apresentadas pelo senhor para quem faz algumas tarefas a fim de fazer passar o tempo. Brincalhão como sempre, trata de descrever o outro com caricaturas, gestos e expressões corporais que leva os participantes a rirem e se divertirem com suas demonstrações. Traz à baila um assunto que, pela descrição, é comum a todos, as sequelas do AVC, sem, contudo, aparentar ter magoado ninguém. Chega ao ponto de apresentar o amendoim em um contexto de inferência em que a esta semente é dado um caráter afrodisíaco de estimulação sexual.

A legenda dos participantes para a transcrição 03 é JFB para o informante participante da pesquisa e A1 para outro afásico participante do GCA.