Coordenador: António Marques, Laboratório de Reabilitação Psicossocial da
FPCEUP/ESTSPIPP; Escola Superior de Tecnologia da Saúde do Porto - Instituto Politécnico do Porto
A reabilitação psicossocial, assente no atual paradigma de recovery e nos pressupostos que lhe estão subjacentes, é hoje amplamente reconhecida como essencial para promover a melhoria do funcionamento e efetiva inserção social de pessoas com experiência de doença mental nos contextos por si escolhidos para residir, aprender, trabalhar e socializar, contribuindo significativamente para a melhoria do seu bem estar e qualidade de vida. No entanto, este reconhecimento não significa que haja consenso na forma de conceptualizar o recovery e, sobretudo, que se assista em Portugal a uma prática generalizada de intervenções assente nestes princípios e valores.
Reconhecendo que ainda muito há para evoluir em Portugal neste domínio, pretende-se neste simpósio contribuir para a disseminação de boas práticas de intervenção que incorporam a filosofia contemporânea do recovery, ilustrando os seus pressupostos, características, virtualidades, desvantagens e tendências promissoras para a sua utilização. No seguimento de estudos realizados nos últimos anos com população com doença mental grave, apresentam-se as linhas orientadoras para a implementação de programas de suporte interpares em Portugal e um programa de formação e de suporte implementado de acordo com esses requisitos. Ilustra- se a evolução na utilização da realidade virtual na remediação dos défices cognitivos, bem como um programa de avaliação dos défices de reconhecimento emocional facial nesta população. Apresentam-se os resultados de uma revisão sistemática da utilização da Terapia Cognitiva-comportamental de baixa intensidade na psicose, e um estudo de caracterização do comportamento motor com recurso a sistemas não invasivos de parametrização em tempo real do funcionamento motor.
António José Pereira da Silva Marques
Laboratório de Reabilitação Psicossocial da FPCEUP/ESTSP [email protected]
SUPORTE INTERPARES NA DOENÇA MENTAL Filipa Campos 1,2,3, António Marques 1,3, & Cristina Queirós1,2
1Laboratório de Reabilitação Psicossocial da FPCEUP/ESTSPIPP; 2 Faculdade de Psicologia e
de Ciências da Educação da Universidade do Porto; 3 Escola Superior de Tecnologia da Saúde do Porto - Instituto Politécnico do Porto
A ajuda inter-pares assenta no pressuposto de que alguém que enfrentou e superou algum tipo de adversidade pode oferecer apoio, encorajamento, esperança e orientação a pessoas que se encontram a vivenciar uma situação similar (Davidson et al., 2006).
Determinar princípios orientadores para a aplicação do suporte interpares em Portugal e posterior operacionalização de uma formação para pares e implementação de um programa de intervenção neste âmbito.
Recorreu-se ao método de Delphi (questionário com 77 questões) no qual participaram 96 especialistas no tema. A formação integrou 5 pessoas com doença mental, das quais 3 foram selecionadas para desempenharem funções remuneradas como prestadores de suporte interpares na ANARP. O programa de intervenção será avaliado através do RAS-R (Corrigan et al., 2004, 2012; Sousa et al., 2009), Escala de Empowerment (Almeida & Pais-Ribeiro, 2010), ESSS (Pais-Ribeiro, 1999), WHOQOL-BREF (Canavarro et al., 2007) e EAAG (Pais- Ribeiro, 1995).
Obteve-se consenso em 83% das afirmações sobre o suporte interpares, tendo determinado pressupostos quanto aos objetivos, características, perfil do prestador e da população alvo, estratégia de formação e supervisão. O programa formativo foi constituído por 10 sessões teórico-práticas, com periodicidade diária, num total de 30h. O programa de intervenção prevê
o envolvimento dos pares na admissão e integração de novos utentes, facilitação de grupo de suporte, ligação com utentes e famílias, e desenvolvimento de projectos anti-estigma.
O suporte interpares é uma intervenção benéfica para o processo de recovery das pessoas com doença mental bem como para os prestadores deste tipo de serviços.
Filipa Alexandra Lourenço Campos
Laboratório de Reabilitação Psicossocial da FPCEUP/ESTSP [email protected]
USO DA REALIDADE VIRTUAL NO TREINO COGNITIVO DE PESSOAS COM ESQUIZOFRENIA
Monica Cardoso 1,2, António Marques 1,3, & Cristina Queirós 1,2
1 Laboratório de Reabilitação Psicossocial da FPCEUP/ESTSPIPP; 2 Faculdade de Psicologia e
de Ciências da Educação da Universidade do Porto; 3 Escola Superior de Tecnologia da Saúde do Porto - Instituto Politécnico do Porto
A Realidade Virtual representa uma nova possibilidade no treino da cognição em pessoas com esquizofrenia, tentando reproduzir em contexto securizante e de laboratório a realidade do paciente. Consiste num conjunto de tecnologias informáticas que, quando combinadas culminam numa interface interactiva para um mundo gerado por computador. Têm sido aplicadas com eficácia na avaliação e tratamento de patologias psiquiátricas como os transtornos de ansiedade, fobias, stress póstraumático, depressão, etc (Arbona et al., 2007; Richard & Richardson, 2012).
Realizar uma revisão bibliográfica sobre o uso da realidade virtual na avaliação e tratamento das funções cognitivas na esquizofrenia.
Pesquisa bibliográfica nas bases de dados utilizando palavras chave representativas da patologia em questão (esquizofrenia), cognição, tratamentou ou avaliação, e realidade virtual ou "serious game", sem limites de data mas limitados a artigos publicados em revistas de caracter científico.
Foram identificados 56 artigos, e após definição de critérios de exclusão sucessivos, verificou- se que apenas 9 abordavam a aplicação da realidade virtual aos défices cognitivos de pessoas com esquizofenia. Todos abordavam as funções executivas, sendo que 55% concentram-se na avaliação e 30 % no tratamento/treino, e verificou-se que o uso da realidade virtual apresentou resultados superiores comparativamente às abordagens tradicionais.
A realidade virtual parece fornecer um ambiente com estímulos graduados e controlados, num contexto específico, de forma interactiva e dinâmica, promovendo resultados positivos no treino da cognição de pessoas com esquizofrenia. Pretende-se com bases nestes resultados desenvolver uma ferramenta tecnológica para o treino de competências na reabilitação psicossocial e cognitiva.
Mônica de Macedo Cardoso
Laboratório de Reabilitação Psicossocial da FPCEUP/ESTSP [email protected]
RECONHECIMENTO EMOCIONAL FACIAL: PROGRAMA EXPERIMENTAL DE REALIDADE VIRTUAL PARA PESSOAS COM ESQUIZOFRENIA
Teresa Souto 1,2, Alexandre Baptista1, Cristina Queirós 1,2, & António Marques 1,3 1 Laboratório de Reabilitação Psicossocial da FPCEUP/ESTSP; 2 Faculdade de Psicologia e de
Ciências da Educação da Universidade do Porto; 3 Escola Superior de Tecnologia da Saúde do Porto - Instituto Politécnico do Porto
A realidade virtual (RV), como recurso metodológico, tem provado ter um elevado potencial na avaliação e treino de pessoas que sofrem de doença mental, nomeadamente esquizofrenia (Costa et al., 2000; Kim et al., 2007).
Apresentar um programa (RV-REF) em fase experimental, com uma concepção modular que visa em formato individualizado a avaliação e treino reconhecimento facial emociona incluindo feedback do desempenho em cada tarefa.
Apresentação do 1º módulo do programa, relativo à avaliação do reconhecimento emocional facial e respectivos resultados. Avaliou-se a capacidade de reconhecimento das seis emoções básicas (alegria, tristeza, raiva, nojo, surpresa e medo), tendo por base estudos prévios sobre esta temática, efectuados com a metodologia de fotografias, referenciada por Ekman e Friesen (2003) e introduzindo alterações relativamente ao tipo de estímulos e forma de apresentação. No RV-REF, recorre-se a avatares tridimensionais em ambientes virtuais igualmente tridimensionais, o que constitui uma abordagem ecológica.
São as emoções de felicidade e raiva as melhor reconhecidas pelos dois grupos (um grupo de 12 indivíduos com esquizofrenia e um grupo de referência de 12 indivíduos sem patologia psiquiátrica) com, respectivamente, 92% e 100% de acertos. As principais dificuldades surgem no reconhecimento do medo (17% de acertos em ambos os grupos), nojo (33% de acertos para o grupo de indivíduos com esquizofrenia) e tristeza (42% de acertos grupo de referência). É necessário melhorar algumas expressões emocionais mas, este formato de avaliação, sendo mais representativo da realidade em que o indivíduo se encontra inserido, constitui uma inovação terapêutica.
Maria Teresa Soares Souto
Laboratório de Reabilitação Psicossocial da FPCEUP/ESTSP [email protected]
TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL DE BAIXA INTENSIDADE NA PSICOSE
Raquel Almeida 1, 2, António Marques 1, 3, & Cristina Queirós 1,2
1Laboratório de Reabilitação Psicossocial da FPCEUP/ESTSPIPP; 2 Faculdade de Psicologia e
de Ciências da Educação da Universidade do Porto; 3Escola Superior de Tecnologia da Saúde do Porto - Instituto Politécnico do Porto
Várias diretrizes internacionais recomendam o uso da Terapia Cognitivo-Comportamental na Psicose (TCCp), contudo vários fatores organizacionais e a necessidade de formação e competências específicas dos profissionais de reabilitação para o seu uso efetivo, têm dificultado a sua utilização generalizada em Portugal (NICE, 2009; PORT, 2009; Prytys et al., 2011). Recentemente tem sido referido na literatura da especialidade, a utilização de uma alternativa de TCCp de baixa intensidade, que envolve menos recursos, mas apresenta igualmente resultados relevantes na remissão da sintomatologia e melhoria da funcionalidade (Hutton, Morrison & Taylor, 2012; Kuipers, 2011; Waller et al., 2013).
Sistematizar a informação publicada sobre TCCp de baixa intensidade nos últimos 10 anos e construir, com base nos resultados, um programa de TCCp de intervenção grupal.
Realizou-se uma revisão sistemática nas bases de dados EBSCO Psychology and Behavioral Sciences Collection, PsychInfo e Medline with Full Text, desde 2002 até Agosto de 2013, tendo sido identificados 126 artigos, dos quais, pela aplicação de critérios de exclusão, ficaram 25. Os resultados encontrados influenciaram a criação do manual TCCp de baixa intensidade, que será implementado numa Associação Comunitária do Porto.
A sistematização do conhecimento determinou os pressupostos subjacentes ao programa desenvolvido, centrado em 12 sessões, de 90min, com periodicidade semanal, dirigidas a temas como: modelos da Psicose, normalização, estratégias de coping para lidar com vozes, prevenção de recaídas diminuição da ansiedade e depressão.
Os resultados encontrados apontam para a eficácia desta abordagem e para a relevância de um programa com as características apresentadas.
Ana Raquel Freitas Simões Almeida
Laboratório de Reabilitação Psicossocial da FPCEUP/ESTSP [email protected]
ANÁLISE DO PADRÃO MOTOR EM PESSOAS COM DIAGNÓSTICO DE ESQUIZOFRENIA: UMA ABORDAGEM EM TEMPO REAL
Fátima Sá 1,2, António Marques 1,2, Carlos Campos 1,2, Mª Jõao Trigueiro 1,2, & Nuno Rocha1,2
1 Laboratório de Reabilitação Psicossocial da FPCEUP/ESTSPIPP; 2 Escola Superior de
Tecnologia da Saúde do Porto - Instituto Politécnico do Porto
As alterações motoras são consistentemente observadas na esquizofrenia, embora estudos nesta área com recurso a ferramentas válidas de análise cinemática do movimento sejam ainda escassos (Kent et al., 2012; Putzhammer & Klein, 2006; Walther & Strik, 2012).
Verificar se os indivíduos com esquizofrenia apresentam alterações na coordenação motora, comparativamente com indivíduos sem diagnóstico, bem como analisar se a presença dos sinais neurológicos subtis (SNS) motores se encontra correlacionada com o funcionamento executivo e psicopatológico na esquizofrenia.
Participaram 29 indivíduos (13 com diagnóstico de esquizofrenia e 16 sem diagnóstico) equivalentes em termos de idade, género, escolaridade e índice de massa corporal. Para a recolha de dados utilizou-se a Positive and Negative Sindrome Scale (PANSS), o subteste do Vocabulário (WAIS-III edição), o teste da fluência verbal, a Brief Motor Scale (BMS) e o sistema de parametrização do movimento em tempo real – Biostage.
Encontraram-se alterações na coordenação motora nos indivíduos com esquizofrenia, recrutando estes um padrão motor menos desenvolvido e com menor individualização das componentes, comparativamente com os indivíduos sem a perturbação. Verificou-se também que o grupo de pessoas com esquizofrenia é caracterizado por uma alta prevalência dos SNS motores (média BMS = 6,01), estabelecendo este domínio uma relação boa com o desempenho verbal (rho Spearman=-0,62) e uma relação forte e positiva com todos os domínios psicopatológicos da PANSS (rho Spearman=0,74).
A compreensão da existência das alterações motoras como parte intrínseca da esquizofrenia é fundamental, permitindo o desenvolvimento de práticas mais efetivas na área da saúde e reabilitação.
Maria de Fátima Marques Sá
Laboratório de Reabilitação Psicossocial da ESTSP/FPCEUP [email protected]