3. METHODOLOGY
3.5. I NTERVIEWS
Buscaram-se métodos de avaliação da acessibilidade no meio físico dos hotéis que possibilitassem a classificação da acessibilidade, mas que também permitissem a comparação com outros estabelecimentos similares.
a) Métodos usados no Brasil
Sansivivero e Dias (2008) apud (GUIA SÃO PAULO ADAPTADA, 2001) relatam uma pesquisa realizada em São Paulo usando critérios definidos pelo próprio guia – que avaliou os aspectos de acessibilidade arquitetônica de 12 hotéis, verificando os itens estacionamento, acessos e áreas de circulação. Na avaliação, foram considerados aspectos positivos e negativos relacionados a esses itens. Foram considerados como aspectos positivos: banheiros adaptados; restaurante com circulação favorável; acesso por elevador a todas as áreas do hotel; acessos planos para as salas dos centros de convenções; maçanetas das portas rebaixadas e anfiteatro com lugar para cadeirantes. Como aspectos negativos, foram apontados: vaso sanitário baixo; box do banheiro com as barras de apoio posicionadas aleatoriamente; acesso para a piscina por escada; balcão de atendimento da recepção alto e o acesso principal com degraus. No relato sobre o método, não é apresentada uma referência normativa que permita avaliar a conformidade da acessibilidade do hotel.
As mesmas autoras realizaram uma pesquisa em três hotéis de luxo em São Paulo, usando uma metodologia na qual a avaliação era realizada com a participação de acompanhantes deficientes visuais e cadeirantes, com o objetivo de obter a opinião tanto do avaliador quanto dos potenciais usuários daqueles ambientes. Os cadeirantes foram escolhidos por ser o grupo que configura maior desvantagem e partindo-se do princípio de que, se as medidas de acessibilidade
atenderem a esse segmento, decerto atenderão àqueles que apresentam apenas mobilidade reduzida. Os deficientes visuais indicaram como medidas positivas: elevadores com mensagem de voz; informação em Braille na botoeira do elevador e no corrimão de escadas e rampas; a existência de piso tátil; identificação em Braille dos itens disponíveis no frigobar; a papelada de informação do quarto incluindo tarifário e cardápio também em Braille e a possibilidade de alojamento para cão- guia.
A participação dos cadeirantes consistiu em responder a uma entrevista individual feita pelos avaliadores, em que ficou evidente que nem todos os participantes tinham o mesmo critério de avaliação para a acessibilidade hoteleira. A entrevista contemplou cinco questões: a primeira procurou identificar uma experiência marcante vivenciada pelo entrevistado, tanto positiva quanto negativa. Ficou constatado que as experiências negativas apresentaram maior frequência. Todas as experiências positivas apontavam para a acessibilidade arquitetônica como um diferencial marcante. As outras questões abordadas foram o processo de reserva e os procedimentos de check in e check out, todavia nada marcante foi registrado. Quando indagados sobre a qualidade do hotel, responderam que, para eles, qualidade era acessibilidade ao meio físico e que hospitalidade era acessibilidade com algo mais, usando essa expressão para se referir a respeito, atenção, educação e boa vontade da parte dos empregados do hotel (SANSIVIERO; DIAS, 2008).
O que se conclui, em relação a esse método usado por Sansiviero e Dias, é que ele permite identificar as necessidades e as dificuldades enfrentadas pelos deficientes visuais e cadeirantes sem, contudo, possibilitar a avaliação quantitativa da acessibilidade do hotel através de um indicador numérico que permita a classificação e a comparação da acessibilidade entre diferentes hotéis.
Silva, Ceolin e Bins Ely (2007) realizaram uma pesquisa no setor hoteleiro, com o objetivo específico de avaliar a adequação de um dormitório adaptado, usando como padrão a NBR 9050 (ABNT, 2004) e o Manual de Turismo e Acessibilidade do Ministério de Turismo (BRASIL, 2009). O método utilizado foi estruturado de acordo com Dischinges e Bins Ely (2006), que definem os quatro importantes componentes de avaliação da acessibilidade do ambiente construído como sendo: a) orientação – que é a condição de compreensão do espaço; b) deslocamento – a possibilidade de deslocar-se de forma independente ao longo dos
percursos horizontal e vertical; c) uso – que permite a utilização dos equipamentos e a participação nas atividades com segurança, conforto e autonomia; d) comunicação – a troca de informações entre pessoas ou entre pessoa e equipamentos de tecnologia assistiva. Foi realizado o levantamento das dimensões do dormitório e do mobiliário para avaliar se a área era suficiente para o cadeirante realizar manobras, usar a cama e as cadeiras. Observou-se que, no banheiro, as barras de apoio tinham altura, dimensões e posições inadequadas, que os comandos do chuveiro e da torneira eram inadequados para as pessoas com mobilidade reduzida nos membros superiores e que o banco do box do chuveiro, por ser estreito e sem estabilidade, não oferecia segurança para o usuário. Essas situações mostraram que as adaptações realizadas não eliminaram as barreiras de forma satisfatória, porque os meios técnicos de acessibilidade não estavam em conformidade com a norma de referência.
Segundo Pinto e Szucs (2006), a acessibilidade não se restringe a colocar rampas e corrimões, mas também a acessar a informação, realizar as atividades da vida diária e interagir com outras pessoas, com autonomia, liberdade e individualidade, considerando a diversidade que pode ser encontrada no universo hoteleiro, que recebe hóspedes cegos, obesos, estrangeiros (não conhecedores da língua), analfabetos, idosos, pessoas muito altas ou muito baixas, crianças, mulheres grávidas, pessoas com membros engessados, entre outras restrições. O sistema de informação existente nos hotéis, em geral, pode confundir qualquer pessoa que precise se movimentar no ambiente. Os elevadores dão a sua parcela de contribuição para a confusão, principalmente para os deficientes visuais, quando não têm indicação em Braille na botoeira nem mensagem de voz para indicar o andar. A conclusão que se chega é que as soluções são geralmente parciais e deixam a desejar tanto no aspecto da acessibilidade ao meio físico quanto na transmissão da informação, devido ao desconhecimento das normas bem como à falta de fiscalização, o que é reforçado pela falta de visão do empresariado do setor hoteleiro por não perceber o nicho de mercado representado por esse segmento, principalmente pela sua capacidade de incrementar a taxa de ocupação no período de baixa estação (PINTO; SZUCS, 2006).
Esses métodos que são usados para avaliar a acessibilidade de hotéis conseguem mostrar as necessidades e as dificultadas enfrentadas pelos hóspedes com deficiência ou com mobilidade reduzida, sem informar se há conformidade com
a legislação ou fazer uma avaliação quantitativa que estabeleça um indicador numérico capaz de classificar e comparar a acessibilidade entre diferentes hotéis.
b) Método usado na Espanha
Além dos métodos mostrados que são usados no Brasil, apresentamos um método resultante de uma pesquisa que foi realizada na Espanha, usando uma amostra que representou 45% dos estabelecimentos hoteleiros de quatro e cinco estrelas daquele país. O método foi estruturado a partir de critérios definidos pela Comisión de Cumunidades Europeas para avaliar a acessibilidade de instalações residenciais, que serviu de ponto de partida para definir os padrões de acessibilidade usados nesse estudo, que foram os seguintes:
Padrão A: É o mais exigente por ser destinado ao uso autônomo por pessoas usuárias de cadeira de rodas e também requerer certas características específicas para as pessoas com deficiências sensoriais;
Padrão B: É similar ao padrão A, porém não requer ajudas sensoriais; Padrão C: Permite o uso por pessoas em cadeira de rodas, de forma
não autônoma, pois requer alguma ajuda.
Padrão D: Permite o uso por pessoas com deficiência, usando muletas ou bengalas.
Cada um desses padrões determina, portanto, quem pode utilizar o hotel. Os requisitos básicos a serem avaliados para cada caso são: a entrada, o saguão, o elevador e o apartamento. Caso satisfaçam a um padrão determinado (A, B, C ou D), o hotel será considerado apto para ser usado pelas pessoas que correspondem a esse padrão, como também para os padrões inferiores. A pesquisa mostrou que somente 0, 7% ou três dos 431 hotéis avaliados cumpriam as exigências do padrão que permitia o uso autônomo por pessoas usuárias de cadeira de rodas, sem, contudo, atender às pessoas com deficiência sensorial. Vale ressaltar que, aproximadamente, 45% dos hotéis pesquisados não atendiam a nenhum dos padrões estabelecidos. Isso significa dizer quer não atendiam sequer aos usuários de muletas. É importante considerar, porém, que esses requisitos constituem um limiar básico que torna possível a sua utilização em cada caso e que há, ainda, uma
segunda classificação, que é baseada no grau ou qualidade da acessibilidade para cada padrão sendo classificada como: alta, média e baixa (LOPEZ, et al., 2002).
O nível é considerado baixo quando só atende aos requisitos básicos de acessibilidade do padrão correspondente, como: entrada principal, saguão, elevador e apartamento. O nível médio atende aos requisitos básicos anteriores e também aos serviços: estacionamento, sala de descanso e restaurante ou cafeteria. O nível alto, além de atender ao básico e ao médio, contempla o banheiro público do saguão e as salas de reuniões. Outras características e serviços foram considerados complementares devido à falta de homogeneidade entre os hotéis avaliados, a saber: entorno urbanístico, piscina, outras zonas e outros serviços (LOPEZ, et al., 2002).
Esse método inclui entrevistas com os hóspedes. De acordo com as entrevistas realizadas com as pessoas com deficiência e os idosos, a maioria dos elementos consultados se encontra entre os níveis muito importante e imprescindível. Através dessas entrevistas, foi estabelecido um escore que define um grau de importância para cada aspecto de acessibilidade que deve estar presente no estabelecimento hoteleiro. No Quadro 9, estão indicadas as deficiências que são beneficiadas pela acessibilidade do meio físico.
Quadro 9 – Importância dos elementos de acessibilidade
ELEMENTO DEFICIENTES VISUAIS DEFICIENTES NÃO CADEIRANTES DEFICIENTES CADEIRANTES Entrada acessível 6, 1 7, 6 8, 6 Apartamento acessível 6, 7 7, 6 8, 5
Banheiro público adaptado (*) 7, 1 7, 3 8, 2
Elevador adaptado 6, 1 7, 4 8, 7
Entorno urbanístico acessível 7, 1 7, 4 7, 9
Saguão acessível 5, 6 7, 1 8, 1
Banheiro privado adaptado 5, 0 7, 2 8, 2
Restaurante acessível 6, 1 6, 6 7, 3
Cafeteria acessível 6, 1 6, 2 6, 8
Estacionamento acessível 3, 0 6, 2 6, 6
Adaptações auditivas 7, 1 3, 6 3, 8
Adaptações visuais 5, 7 3, 8 4, 1
Fonte: Encuesta de “Accesibilidad y Edificación”. Proyecto ACCEPLAN apud (LOPEZ et al., 2002).
Adaptado por Antonio Gualberto (2013); (*) Banheiro do saguão
Significado da escala: 0 = Nada; 3 = Pouco; 6 = Muito; 10 = Imprescindível.
Esse método espanhol apresenta uma forma de avaliação que permite apontar, através de um valor numérico, a importância que cada elemento de acessibilidade representa para as pessoas deficientes que, nesse caso, foram definidas como: deficiente visual, deficiente não cadeirante e deficiente cadeirante. Esses valores compõem uma escala com significado que varia de 0 a 10 com a seguinte distribuição: 0 = nada; 3 = pouco; 6 = muito; 10 = imprescindível. Esses números são estabelecidos a partir da análise de valor dos usuários entrevistados. O método permite, ainda, classificar o hotel através do seu enquadramento em um dos padrões qualitativos A, B, C e D.