4 EMPIRI (OG DRØFTING)
4.1 Innledende informasjon om informantene
4.1.2 Noen funn fra innledende kartlegging i Multiconsult
As subjetividades que emergem de forma complexa e não determinista das ecologias digitais contemporâneas, apesar de se experienciarem como autônomas e agirem conforme essa percepção, como vimos não o são totalmente, posto que falta- lhes a autoconsciência das teias de mediações que fomentam suas tendências perceptivo-cognitivo-comportamentais, a dos pressupostos axiomáticos de sua autopercepção e também a dos processos e tensões que permeiam as redes e que contribuem para (re)configurar os sujeitos que delas participam.
Como já mostrado, as redes digitais são também um terreno de disputas econômicas, políticas e ideológicas entre interesses e projetos divergentes. Nesse processo dialético, sustenta Rüdiger (2011), assumem configurações específicas que definem tendências dominantes e, simultaneamente, encerram possibilidades alternativas. É por isso que, segundo o autor, as figuras em que se expressaria atualmente a cibercultura seriam “um vetor do projeto tecnológico moderno de controle e exploração racional da existência tanto quanto uma forma social de resistência” (RÜDIGER , 2011, p. 287), com uma clara hegemonia detida pelo primeiro elemento.
Esta afirmação parece ser referendada pela generalização da prática da vigilância de indivíduos por parte de poderes políticos e econômicos constituídos por meio do acesso a suas interações digitais e pela concentração nas mãos de poucas grandes corporações dos meios de acesso à comunicação digital, fenômeno que Slavoj Žižek (2012) denomina de privatização da nuvem ou privatização do intelecto geral. Por outro lado, fenômenos como o movimento internacional pelo software livre1.; o movimento hacker; o movimento pelo copyleft14; o
surgimento das chamas Dark Internet15 e Deep Web16; entre outros,
parecem apontar para a emergência entre os atores envolvidos na dialética que permeia as redes digitais de uma consciência da necessidade daquilo que Raymond Williams (2011) preconizava: de que a “recuperação” dos meios de produção – incluindo os de produção comunicativa – expropriados pelo capital privado não envolve apenas a luta pelo fim da privatização deles, mas a busca permanente da instituição de novos modos de produção.
1. Entende-se por software livre todo programa computacional que disponibiliza o código fonte que o gera, permitindo que qualquer usuário possa livremente alterá-lo ou adaptá-lo para novos usos, con- trariando a lógica comercial que limita as possibilidades de controle dos softwares por parte dos usuários, vinculando seus usos a um leque de opções predeterminadas. O movimento pelo software livre é um movimento internacional composto por pessoas e organizações que desenvolvem, compartilham e alteram livremente programas de computador, contrastando a lógica das grandes corporações da informática que privatizam o conhecimento tecnológico impondo- lhes finalidades comerciais.
14 O copyleft é uma forma de garantir a livre difusão de obras intelectuais, que se opõe ao conceito de propriedade intelectual. Pressupõe como única exigência a autorização por parte do autor para a livre repro- dução de sua obra, implicando que qualquer pessoa possa divulgá-la sem fins comerciais. O conceito de copyleft baseia-se na lógica de livre compartilhamento da informação que emergiu das redes digitais. 15 A Dark Internet é constituída por servidores de rede inalcançáveis
por quaisquer meios convencionais, o que dificulta sua localização e, consequentemente, reduz as possibilidades de interceptação de interações digitais realizadas por meio deles.
16 A Deep Web são conteúdos da Internet não encontráveis por meio dos mecanismos de busca padrão.
Numa passagem que parece profética dessa busca dos movimentos ciberculturais alternativos contemporâneos, o intelectual britânico escreveu que na luta pela democratização dos meios de comunicação
deveria prevalecer muito mais a instituição do que a recupe- ração, pois eles [os modos de produção comunicativa] terão de incluir os elementos transformadores do acesso e extensão em uma ampla gama social e intercultural sem precedentes (WILLIAMS, 2011, p. 86).
Marx – como lembra Terry Eagleton (2005), discípulo de Williams – inscrevia nas próprias dinâmicas e estruturas existentes a possibilidade de transformação dessas últimas. Por isso, se a cultura que mantém e reproduz o capitalismo conteria sementes para a sua superação, a cibercultura que mantém e reproduz no ciberespaço as dinâmicas sócio-econômico-po- lítico-culturais hegemônicas apresentaria o potencial de nos estimular, “vez por outra, a pensar diferente a cogitar novos cenários” (RÜDIGER, 2011, p. 288).
Umas das principais condições para que a criatividade expressa pela multidão que emerge de agenciamentos digitais possa realmente instituir e não apenas manifestar/reproduzir é portanto, a meu ver, a auto-observação consciente dos mecanismos de subjetivação que a perpassam, que pode originar a percepção de seus condicionamentos estruturais e sua reconfiguração (não sua eliminação, impossível dada a imanência das teias das quais somos parte), produzindo a condição (re)criadora de “livre necessidade” concebida por Spinoza e reproposta por Negri (199.):
A liberdade, insiste Spinoza, [...] não consiste “no livre-arbítrio mas na livre necessidade” – em outras palavras, então, não na ignorância das causas que a determinam, não na “ficção de liberdade”, mas sim na consciência de seu movimento. Neste ponto, a liberdade então não é mais um resultado, mas também não só um pressuposto formal: é um sujeito. [...] A livre necessidade é a atualidade do processo constitutivo que se torna explícita como potência ontológica dinamicamente estendida (NEGRI, 199., p. 246-247).
A estreita relação que percebi nas manifestações de junho de 201. entre subjetividades rebeldes e mecanismos dominantes de subjetivação, portanto, não implica necessariamente que uma micropolítica digital efetivamente alternativa aos dispositivos contemporâneos de produção de subjetividade seja inconce- bível. Para além da autoconsciência individual e coletiva das complexidades inerentes às redes, penso ser possível a partir da própria (poli)lógica rizomática e aberta delas a emergência de modos alternativos de subjetivação e de outras lógicas de constituição – não apenas de uso – das tecnologias digitais.
Neste sentido, acredito que uma concepção do digital a partir da teoria ator-rede, proposta por Bruno Latour (2008; 2012) para ampliar o conceito de social, ajude a traçar pistas de reflexão. A antropologia de Latour (2008) concebe o humano, o não humano e as representações como híbridos, conjuntos indis- sociáveis de elementos simultaneamente materiais e simbólicos sem características inerentes, que se reconfiguram reciproca- mente o tempo todo dentro de múltiplas redes de associações. Nessa perspectiva, não há sujeitos e objetos, homem e natureza, realidade e representações: os sujeitos são codefinidos pelos objetos e vice-versa, o humano é codefinido constantemente pelo não humano e as representações são emergência e elemento constitutivo desse devir incessante.
Se considerarmos que, nessa perspectiva, a sociedade “tem características de redes, assim como as têm os textos e a natureza” (SANTAELLA; LEMOS, 2010, p. .7-.8), e que essas redes não são compostas por elementos fechados com características independentes em recíproca interação, mas por atores híbridos humanos, não humanos, materiais e simbólicos que se codefinem o tempo todo em seus múltiplos agenciamentos, e se entender- mos que as atividades dos atores “consistem em fazer conexões e alianças com novos elementos de uma rede e, com isso, ser
capazes de redefinir e transformar os componentes dessa rede” (SANTAELLA; LEMOS, 2010, p. .8), podemos incluir nesse processo a própria dialética entre forças materiais (que, nessa perspectiva, são simultaneamente sociais e simbólicas) e de outras “naturezas” (como mostrei, todas hibridas) envolvidas na configuração das teias de interações digitais. Isso transforma esses elementos de estruturas, forças e materialidades, com a carga semântica de rigidez que tais termos implicam, em atores cujo status e nível de participação na definição dos arranjos temporários das redes são os mesmos de todos os demais atores envolvidos.
Para Latour (2012), uma rede define o poder de cada ator de determinar que outros façam coisas inesperadas. E acrescenta:
a distinção entre humanos e não humanos, habilidades cor- porificadas e descorporificadas, personificação e maquinação é menos interessante do que as cadeias ao longo das quais competências e ações são distribuídas (LATOUR, 1992 apud SANTAELLA; LEMOS, 2010, p. 49).
Lúcia Santaella e Renata Lemos (2010) sintetizam a princi- pal consequência dessa perspectiva teórica para o pensamento sobre o digital:
Uma das grandes lições que as tecnologias da inteligência vêm nos dando é que, quando as aplicações tecnológicas chegam às mentes e mãos dos usuários, estes produzem desvios mais ou menos drásticos no planejamento originalmente esperado. O uso, portanto, flexibiliza o programa. Os processos bottom-up (de baixo para cima) refinam e trazem resultados que não estavam previamente codificados (SANTAELLA; LEMOS, 2010, p. 49-50).
Não se trata simplesmente de novos usos sociais e cul- turais das tecnologias digitais não programados pelos deten- tores do poder tecnológico, como quer Lemos (2010). Trata-se da instituição de novas lógicas estruturantes das formas de acesso ao digital (como, por exemplo, a já mencionada do
software livre) por parte de sujeitos proprioceptivos, isto é, conscientes – pelo menos em certo grau – dos condicionamen- tos das ecologias das quais participam e, por isso mesmo, em condição de estimular mudanças estruturais17.
Na perspectiva sobre o digital aberta pela teoria ator -rede, em articulação com o conceito negriano de multidão, os indivíduos, as tecnologias e as lógicas e possibilidades que as estruturam são produtos instáveis de seus inter-agenciamentos. Isso mantém uma porta sempre aberta para a propriocepção que produz livre necessidade, para a diferença, o desvio e a
17 Um exemplo de resultados não previamente codificados pelas forças sociais – que, na perspectiva latouriana, não aparecem como estru- turas rígidas, mas híbridos de fronteiras fluídas incessantemente renegociadas – que projetaram e disponibilizaram a infraestrutura material e os serviços de acesso a redes digitais é o que aconteceu durante as amplas mobilizações sociais, articuladas pelas redes sociais da Internet, que sacudiram o Egito no início de 2011 e que levaram à derrubada do regime do ditador Hosni Mubarak. Como mostra um artigo publicado no portal Admirável Mundo Virtual (http://wp.cli- crbs.com.br/admiravelmundovirtual) em fevereiro daquele ano, após a eclosão dos protestos massivos: “a Internet virou alvo do governo, que tentou impor um controle sobre as informações que circulavam no país e apelou para o bloqueio quase total da rede dois dias depois do início dos levantes – companhias de telefone celular também registraram a interferência oficial. A tentativa de aplacar a revolta popular, como se nota pelo desfecho, não surtiu efeito. Enquanto isso, as medidas restritivas levaram os egípcios a recorrer a tecnologias ‘retrô’. Modems discados restabeleceram, ainda que precariamente, o uso da Internet; aparelhos de fax e rádios amadores foram usados na comunicação e disseminação de informações, especialmente com novos locais e horários para protestos” (CLICRBS, 2014). Novas redes erguidas com tecnologias analógicas, mas baseadas na lógica pluridirecional e interativa das digitais, e formas de acesso “antigas” não previstas pelas empresas que implantaram e programaram a infraestrutura material da Internet naquele país emergiram da ecologia de agenciamentos entre “artefatos, técnicas, programas, rotinas, subversões e inovações” (SANTAELLA; LEMOS, 2010, p. 50) que configurou aquele momento da Primavera Árabe.
emergência de subjetividades não encaixáveis nas tendências perceptivo-cognitivo-relacionais e nas formas de autopercepção dominantes na contemporaneidade.