Ao mergulharmos na história da sétima arte, veremos que as primeiras imagens são de uma filmagem documental que registrou a saída dos operários de uma fábrica, registro histórico feito pelos Irmãos Lumière. Desde os primórdios do cinema, somos testemunhas de que uma das definições do filme documentário surge da possibilidade de registrar, documentar a realidade, característica que confere ao documentário certa legitimação de um fato. Portanto, fazer documentários está associado a filmar o real, sem truques e de forma verdadeira tal qual ela se apresenta diante das câmeras. É comum ouvirmos que um filme documentário é a mais pura verdade. Essa interpreta- ção de que documentário é sinônimo de verdade tem origem no registro in loco feito pelos filmes documentários. Muitos veem o filme documentário como a mais pura expressão da verdade, quando na realidade sabemos que o documentarista é antes de tudo um mediador da realidade que ele vê e transpõe para as telas do cinema. Conhecer o processo de produção de uma obra documental é perceber que o simples registro no local dos fatos não garante a verdade dos acontecimentos e que a verdade pode ser facilmente manipulada. A pesquisadora Manuela Penafria (1999)apresenta uma reflexão sobre o registro da realidade ao afirmar que – o filme documentário é aquele que, pelo registro do que é e acontece, constitui uma fonte de informação para o historiador e para todos os que pretendem saber como foi e como aconteceu. É nesta perspectiva que o documentário Mais que um filme legendado foi realizado.
Em relação ao filme documentário, Bill Nicholls (2005), em seu livro – Introdução ao documentário, chama a atenção para o fato de que definir o documentário implica uma série de questões: Se o documentário fosse apenas uma reprodução da realidade, esses problemas seriam bem menos graves. Teríamos simplesmente a réplica ou cópia de algo, mas o documentarista e sua equipe imprimem sua visão do fato ao compor uma obra audiovisual.
Nos filmes documentários essas histórias são contadas em geral a partir do ponto de vista de quem dirige o filme, mas devemos considerar que um documentário possibilita diversos posicionamentos, seja do seu diretor ou dos personagens que fazem parte da história. De acordo com Fernão Pessoa Ramos (2008), as asserções do documentário são enunciadas através de estilos diversos, variando historicamente. Há sempre uma voz que enuncia no documentário, estabelecendo asserções.
Dessa forma, compreendemos que as escolhas técnicas (enquadramentos, movimentos de câmera e ângulos de captação) e estéticas (luz, composição, montagem e finalização), bem como as estratégias de abordagem do diretor, são tão determi- nantes da voz em um filme, quanto os depoimentos e falas dos personagens. Buscamos em Nichols (2005), o entendimento do termo – voz no documentário:
Por voz refiro-me a algo mais restrito que o estilo: aquilo que no texto, nos transmite o ponto de vista social, a maneira como ele nos fala ou como organiza o material que nos apresenta. Nesse sentido, – voz não se restringe a um código ou carac- terística, como o diálogo ou o comentário narrado. Voz talvez seja algo semelhante àquele padrão intangível, formado pela interação de todos os códigos de um filme, e se aplica a todos os tipos de documentário (NICHOLS, 2005, p. 50).
De fato, se o cinema documentário faz uso de uma série de procedimentos técnicos e discursivos para transmitir sua interpretação da realidade seria, portanto, inadmissível des- prezar a importância do que seus personagens têm a dizer e o peso que essas falas têm sobre a voz enunciada em um produto audiovisual não ficcional. Essa voz é necessariamente construída na interação das subjetividades que permeiam a produção do filme documentário, ou seja, nos contatos pré- vios, na entrevista, na montagem e finalização da obra. Ao dar voz aos surdos e construir uma obra audiovisual onde eles se sentiram representados e incluídos no processo de construção do filme, a equipe de produção estava não apenas mediando a
realidade, mas sendo parte dessa realidade, uma vez que houve uma imersão na comunidade a fim de construir dialogicamente um discurso sobre a realidade dos surdos na cidade do Natal.
A partir de uma análise intersubjetiva e prática, além de uma revisão teórica do tema, buscamos com este estudo refletir sobre o processo de inclusão de pessoas com deficiência nas produções audiovisuais, especialmente em obras nas quais há uma participação efetiva dessas pessoas. Além do protagonismo, nos interessa investigar o processo de produção na prática, as diversas pontes que se ligam e os desafios que esses produtores enfrentam até a consolidação da obra.
Neste estudo, o interesse pela análise de um projeto que apresenta recursos de acessibilidade comunicacional no cinema também está associado à necessidade do desen- volvimento de pesquisas nessa área, principalmente pelo fato de haver uma escassez de estudos no tocante ao gênero documentário. Muito embora haja diversas obras já audio- descritas e com uso de LIBRAS, inclusive acessíveis através da Internet, são limitadas as análises qualitativas sobre a produção e recepção desses produtos midiáticos.
Nosso percurso se vale de experiências práticas e obser- vação. Como corpus da análise escolhemos o documentário Mais
que um filme legendado, 2009, do qual participamos ativamente
da equipe e do processo de produção, em todas as suas fases. O estudo se volta especificamente para o processo de produção e finalização desta obra, que teve uma proposta inédita de incluir pessoas surdas como atores e, além disso, o mergulho da equipe de produção em um universo diferente, necessário no processo de entendimento do cotidiano das pessoas surdas, o que também é alvo da análise.