4 EMPIRI (OG DRØFTING)
4.9 Miljø og miljøetikk
A tradição da pesquisa em/sobre a comunicação mos- tra que a presença dos media alterou substancialmente nosso modo de vida, nossas experiências enquanto indivíduos e como coletividade. Perguntar-se sobre o que os meios fazem conosco e o que nós fazemos com eles é uma provocação clássica dos estudos da mídia, que se mantém não esgotada em suas possíveis respostas. Isso revela a complexidade da questão, bem como a dinamicidade que os processos da comunicação possuem. Quem deseja vislumbrar traços no caminho des- sas elucidações é instigado a descer mais profundamente nas variantes que permeiam nossa relação com a mídia. E conosco não foi diferente: este foi o intento quando nos propusemos a fazer uma incursão tomando como objeto o fenômeno1
da midiatização (FAUSTO NETO, 2008; SODRÉ, 2002).
Já não é mais novidade falar que vivemos em uma socie- dade “midiatizada”, isto é, uma sociedade na qual a presença das mídias e de sua cultura no cotidiano do indivíduo é intensificada, de modo que os meios e as dimensões imbricadas neles pas- sam a ser elementos integrantes do processo de estruturação
1 “MEMÓRIAS MIDIATIZADAS: percepções sobre ciências reconfiguradas a partir do consumo midiático”, Dissertação de Mestrado (2011), produzida sob orientação da profa. Dra. Kênia B. F. Maia.
da sociedade e da elaboração da realidade (noção do real). O fluxo da informação e o processo de produção e apropria- ção de sentidos são reconfigurados no curso deste fenômeno, desdobrando-se em diversas práticas sociais.
Fausto Neto (2008, p. 2) afirma que a midiatização “resulta da evolução de processos midiáticos que se instauram nas sociedades industriais”. Esses processos dizem respeito à con- vergência de fatores sociotecnológicos, principalmente nas últimas três décadas, que produziram profundas e complexas alterações na nossa constituição societária. O autor fala da disseminação de protocolos técnicos em toda a extensão da organização social e da intensificação da transformação de tecnologias em meios de produção, circulação e recepção de discursos. Para ele, o que precisamente distingue esta sociedade midiatizada de sua precedente é o protagonismo dos meios nos modos de estruturação e funcionamento das dinâmicas sociais:
Já não se trata mais de reconhecer a centralidade dos meios na tarefa de organização de processos interacionais entre os campos sociais, mas de constatar que a constituição e o funcionamento da sociedade – de suas práticas, lógicas e esquemas de codificação – estão atravessados e permeados por pressupostos e lógicas do que se denominaria a “cultura da mídia”. Sua existência não se constitui fenômeno auxiliar, na medida em que as práticas sociais, os processos interacio- nais e a própria organização social, se fazem tomando como referência o modo de existência desta cultura, suas lógicas e suas operações (FAUSTO NETO, 2008, p. 4).
Sodré (2002), por sua vez, compreende a midiatização em termos de uma “qualificação virtualizante” da vida. Observando a passagem do que denomina “mídia tradicional ou linear” para as teletecnologias e/ou comunicação em rede, verifica a mudança de paradigma de uma comunicação centralizada, vertical e unidirecional para um universo de novas possibili- dades no bojo da hipermídia, a exemplo da interatividade e do multimidialismo. Possibilidades essas que, para o autor, se realizam e se evidenciam em uma tendência à virtualização.
Tudo isto, associado a um tipo de poder designável como ‘ciberocracia’, confirma a hipótese, já não tão nova, de que a sociedade contemporânea (dita “pós-industrial”) rege-se pela midiatização, quer dizer, pela tendência à virtualização ou telerrealização das relações humanas, presente na articulação do múltiplo funcionamento institucional e de determinadas pautas individuais de conduta com as tecnologias da comu- nicação. A estas se deve a multiplicação das tecnointerações setoriais (SODRÉ, 2002, p. 21).
Dessa forma, Sodré (2002, p. 25-26) menciona a existência de um “quarto bios”. Recuperando aqui as ideias aristotélicas em relação às dimensões da existência, a quarta – e hodierna – ambiência seria precisamente a midiática, companheira da vida contemplativa (bios
theoretikos), política (bios politikos) e do prazer (bios apolaustikos). Em
suma, o autor expressa a “afetação das formas de vida tradicionais por uma qualificação de natureza informacional”.
Estamos tomando aqui, quanto à midiatização, o pensa- mento de autores que exprimem uma onipresença da realidade midiática (SANTAELLA, 2002) em nosso contexto. Isso representa a intensificação da cultura midiática no ordinário da vida em sociedade; esta sendo alinhada ao virtual, à convergência digital.
Mas o que o indivíduo “faz” inserido nessa cultura, que o tece e por ele também é tecida? Nossa relação com os meios e sua cultura pode ser compreendida pelo viés do consumo:
Consumimos a mídia. Consumimos pela mídia. Aprendemos como e o que consumir pela mídia. Somos persuadidos a consumir pela mídia. [...] Consumimos objetos. Consumimos bens. Consumimos informação. Mas, nesse consumo, em sua trivialidade cotidiana, construímos nossos próprios significa- dos, negociamos nossos valores e, ao fazê-lo, tornamos nosso mundo significativo (SILVERSTONE, 2005, p. 150).
Consumo este onde os elementos midiáticos dos quais o indivíduo se apropria entrelaçam-se com outros de sua experiência. Sobre estes outros, evocamos atores de natureza não midiática, provenientes do contexto (relações sociais diretas e indiretas; grupo ou setor socioeconômico, dentre outros) e da subjetividade (aqui, nos será válido pôr em relevo mais adiante a dimensão da memória).
Ainda sobre estes “outros”, é importante deixar claro: estamos recuperando a perspectiva das mediações de Martín- Barbero. Elas são elementos constituintes de nossa experiência; são dimensões intrínsecas ao viver em sociedade, que possuem um efeito engendrador de nossa forma de vida. Mediações são “as estruturas de construção de sentido às quais o receptor está vinculado” (MARTINO, 2009, p. 179) e abarcam aspec- tos como história pessoal, cultural de grupo, relações sociais imediatas e capacidade cognitiva, para dar exemplos. A mídia, por sua vez, também é uma mediação2. Assim, as mediações
nos valem como uma espécie de “pano de fundo” sobre o qual as apropriações do conteúdo midiático se debruçam; aí, também se articulam. Estes mecanismos estão diretamente relacionados com a construção de nossas visões de mundo.
A perspectiva das mediações mantém íntima relação com a teoria sociocultural do consumo, principalmente em García Canclini (1999). Entendido como o conjunto de processos socioculturais em que se realizam a apropriação e os usos dos bens, o consumo é uma prática social, emuladora de produção de sentido e ressignificação à medida que é também uma media- ção nas trocas objetivas e simbólicas entre os indivíduos. Esta caracterização enxerga nossas práticas de consumo como algo mais do que simples exercícios de gosto, caprichos e compras irrefletidas, segundo os julgamentos moralistas, ou atitudes individuais (GARCÍA CANCLINI, 1999, p. 77).
Assim, do ponto de vista da recepção, consideramos mais adequado aproximarmo-nos de nossa problemática cônscios de estarmos diante de processos complexos de negociação, assi- nalados por continuidades e descontinuidades, cujo horizonte compõe-se pela coexistência da cultura midiática com outras for- mas de cultura, formando um envoltório cultural heterogêneo, híbrido (GARCÍA CANCLINI, 2006). Tal postura apresenta-se mais
2 Daí um trocadilho: a mediação da mídia seria uma “midiação” (POLITSCHUK; TRINTA, 200.).
consoante com uma percepção bem equilibrada: nem desmerece ou desvaloriza a força simbólica do campo midiático, nem reduz a capacidade crítica e proativa dos sujeitos receptores:
Precisaremos examinar a mídia como um processo, como uma coisa em curso e uma coisa feita, e uma coisa em curso e feita em todos os níveis, onde quer que as pessoas se con- greguem no espaço real ou virtual, onde se comunicam, onde procuram persuadir, informar, entreter, educar [...] Entender a mídia como um processo – e reconhecer que o processo é fundamental e eternamente social – é insistir na mídia como historicamente específica. [...] Entender a mídia como processo também implica um reconhecimento de que ele é fundamentalmente político ou talvez, mais estritamente, politicamente econômico (SILVERSTONE, 2005, p. 16-17).
Vale ressaltar que, à sombra de Silverstone (2005), estamos concebendo mídia para além dos suportes técnicos. Ela é um ente social que diz respeito às construções de sig- nificados, valores e práticas (WOLF, 2005), e por isso mesmo está relacionada à experiência do indivíduo, à tessitura dos modos de vida em sociedade, nas suas diversas esferas de socialização. Ela é ambiência (SODRÉ, 2002), é mediação (MARTÍN-BARBERO, 2006); é fenômeno sociocultural em con- tínuo, se articulando e dialogando com outras dimensões (política, econômica, histórico-conjuntural etc.).
Para completar nosso horizonte conceitual, acrescentamos a dimensão da memória. Tomada sob a ótica da história de vida, ela diz respeito ao acervo pessoal de registros de nossa experi- ência como um todo, ainda que essa se desdobre em múltiplos episódios, tais como as faces de um diamante que é perpassado por um feixe de luz. Trata-se de uma “instância reconstituidora do passado”, que habita dentro de nós (SARLO, 2007, p. 28).
De acordo com Maurice Halbwachs (2004), a experiência da memória não é estritamente individual, pessoal. Nossas impressões podem se apoiar não somente sobre nossa lembrança, mas também sobre as dos outros. Teríamos então, na evocação
do lembrar, uma experiência partilhada. Nossas lembranças permanecem coletivas mesmo que tratemos de momentos onde somente nós estivemos presentes, por que “nunca estamos sós”: levamos os outros dentro de nós (HALBWACHS, 2004, p. .0). Logo, o ato de lembrar é coletivo e pessoal ao mesmo tempo, onde o indivíduo entra e sai de grupos sociais.
No âmbito desses grupos pelos quais passeamos sociocul- turalmente, expomos nossas percepções, nossas visões de mundo e também internalizamos algo da percepção coletiva com a qual tivemos contato. Fazemos trocas simbólicas. Em nós, estão ver- dadeiros “palimpsestos”, isto é, tramas de textos entrecruzados cuja procedência mescla fontes midiáticas e não midiáticas, que se inscrevem na memória dos sujeitos (BONIN, 2006, p. 1.4). Por isso mesmo, a memória apresentou-se como um operador teórico: por meio de discursos produzidos em seu âmbito, alcançarmos empiricamente a midiatização e o consumo midiático.