A sumária descrição das noções de ultramontanismo e integrismo católico, efetivada a partir de uma perspectiva mais geral e abrangente, servirá para abrir caminho para o próximo objetivo nessa sistematização que consiste em apresentar algumas assertivas sobre a forma com que o ideário integrista, ao longo do século XX, se consubstanciou nos grupos responsáveis pelas Revistas católicas objetos desse estudo. Pretende-se caracterizar aquilo que pode ser considerado como uma revitalização – já em meados da década de sessenta – dos pressupostos integristas do início do século XX, mas com objetivos diferenciados, suscitados, por um lado, pela inflexão católica ocorrida a partir das Encíclicas Sociais do Papa João XXIII e da realização do Concílio Vaticano II, por outro, pelo crescente processo de secularização e laicização que nesse momento já permeava as sociedades do Brasil e Argentina. Nesse sentido, Zanoto (2007, p. 48) salienta que o catolicismo integral acabou se estruturando a partir do confronto com elementos externos, mas também internos da Igreja, especialmente com outras correntes do próprio catolicismo, como catolicismo social e liberal. Portanto, é possível afirmar que a lógica desse conflito redimensionará a forma combativa dos integristas e alcançará seu ápice na década de 1960.
Dentro dessa proposta, parece pertinente considerar o método de análise conceitual estabelecido por Giorgi e Mallimaci (2012), quando afirmam a necessidade de entender o dispositivo integrista (a análise se refere ao caso argentino, podendo ser estendida ao brasileiro), recusando a sua homogeneidade, mas observando-o como uma ferramenta conceitual que permita dar conta da pluralidade de articulações políticas e religiosas, as quais postulam como elemento comum à intenção global da participação do público no processo de ―recristianização‖ da sociedade, em todos seus aspectos. Mais do que uma simples advertência teórico/metodológica, os autores sinalizam para a observação das diversas formas com que o ideário integrista acabou sendo recepcionado, interpretado e colocado em prática pelos mais diversos setores e grupos católicos, bem como apontam que essa pluralidade pode existir até mesmo internamente, dentro de um mesmo grupo. Também a respeito desse aspecto, Scirica (2012) sublinha a necessidade de se considerar as delimitações das continuidades e rupturas do ideário integrista, especialmente no contexto da guinada social (ou à esquerda como quer parte da historiografia) provocada por alguns setores do catolicismo na década de 1960, ou seja, momento em que os integristas radicalizaram suas posturas tendo como base o diálogo e aproximação de grupos católicos com o marxismo.
a) O Integrismo no Brasil
No Brasil, o impulso do catolicismo integral remonta aos anos 20 com a fundação do Centro D. Vital, por Jackson Figueiredo. De acordo com Júnior (2009, p. 10), este instituto exerceu grande influência no desenvolvimento da Igreja e da política, uma vez que buscou, em setores da classe média alta, a formação de uma inteligensia católica ―capaz de fazer frente ao anticlericalismo, ao ateísmo e à indiferença religiosa das elites republicanas.‖ O instituto reuniu vários intelectuais católicos como, por exemplo, Alceu Amoroso Lima, Gustavo Corção e, inclusive, Plinio Corrêa de Oliveira, três personalidades que vão se tornar os expoentes do processo de radicalização católica no Brasil:
[...] de um lado, Alceu Amoroso Lima, que tenderia para posições liberais, e de outro, Gustavo Corção e, especialmente, Plinio Corrêa de Oliveira, que, com seu ideário marcado estritamente pela insígnia do contra-revolucionarismo, levariam aos últimos termos os elementos mais marcantes da antimodernidade católica no Brasil (Caldeira, 2009, p. 92).
Além disso, o contexto teológico do início do século XX no Brasil foi marcado pela tentativa de recristianização empreendida pela Igreja Católica, a partir de movimentos impulsionados pela Ação Católica e pelas Congregações Marianas. Conhecida pelos estudos históricos como ―neocristandade‖, essa nova fase da Igreja Católica brasileira se caracterizou pela organização de grupos de pressão em relação às demandas junto ao Estado, especialmente a questão da educação, visando, estrategicamente, atingir as elites.61 Este processo de ―reconquista do mundo para Cristo‖, de acordo com Zanotto (2008, p. 63), foi impulsionado pelo Vaticano ao estar ―fundamentado na proposta doutrinária tradicional e ancorada na atuação agressiva do proselitismo leigo‖.
Foi nesse contexto de intensificação do apostolado dos leigos e de devoção mariana que se formaram os futuros líderes e colaboradores da Revista Catolicismo e da própria TFP, notadamente Plinio Corrêa de Oliveira e dois sacerdotes, então padres à época, Antônio Castro Maier e Geraldo de Proença Sigaud. Em 1933, Plinio assumiu a direção do jornal ―O legionário‖ (1933-1947), publicação oficiosa do arcebispado de São Paulo e das congregações marianas, que se caracterizou pelo combate ao progressismo encarnado no protestantismo, espiritismo, maçonaria e no comunismo.
61 Conforme Rodrigo Caldeira (2009, p. 89), ―o modelo da neocristandade teve seu apogeu entre os anos de 1930
e 1945, período do governo de Getúlio Vargas. Os interesses característicos da Igreja da neocristandade pautavam-se especialmente pela influência católica no sistema educacional, na moralidade católica, no antiprotestantismo e no anticomunismo. A cosmovisão católica que se constituiu durante o período enfatizava a separação e a diferença entre a Igreja e o mundo.‖
60
A Revista Catolicismo foi fundada em 1951, pelo então Bispo de Campos, RJ, D. Castro Mayer, o qual articulou e forneceu orientação para a criação do denominado ―Grupo de Catolicismo‖, composto essencialmente pelos membros e colaboradores do grupo ―Legionário‖. É possível considerar que a criação de Catolicismo respondeu à emergência do ideal tradicionalista e integrista posto em movimento ainda no início do século XX. Esse movimento foi encabeçado tanto por alguns atores que compunham os quadros hierárquicos do catolicismo quanto por atores que se engajaram nos quadros do apostolado dos leigos, inseridos na tentativa da Igreja no processo de recristianização da sociedade. Nesse sentido, a criação da Ação Católica Brasileira (1935), por D. Sebastião Leme, foi o movimento que possibilitou orquestrar, de maneira institucional, a participação dos leigos no apostolado da Igreja.62
Plinio Corrêa de Oliveira foi um dos principais atores desse contexto, especialmente no sentido de sua representatividade enquanto um leigo intensamente engajado no campo de atuação do catolicismo. Conforme já referido, Plinio foi o diretor de ―Legionário‖ e foi responsável por orquestrar um modelo de ação dos leigos concentrando seu ideal em duas obras específicas, a saber, ―Em defesa da ação católica‖ (anos 40) e ―Revolução e Contra- Revolução‖ (fins da década de 50). Leituras, portanto, que dentre seus objetivos, se destacava a vontade de denunciar uma série de ―erros‖ da atuação leiga, centrados especificamente no laicismo, liberalismo e ―igualitarismo‖ (ZANOTTO, 2012).
Após alguns anos no ostracismo, em virtude do radicalismo suscitado pela obra ―Em defesa da Ação Católica‖63, o grupo de católicos do ―Legionário‖ passou por um processo de revitalização e prestígio que foi consequência das promoções dos padres Mayer e Sigaud às condições de bispo coadjutor de Campos e bispo de Jacarezinho, respectivamente. A Revista
Catolicismo reuniu, então, importantes representantes do tradicionalismo católico nacional,
tornando-se um dos principais veículos de divulgação das ideias de Plinio, D. Sigaud e D. Castro Mayer e outros colaboradores e articulistas. Mais do que simplesmente uma revista de cultura católica, Catolicismo serviu como ponto aglutinador do grupo que, em 1960, fundou a
62 Conforme Zanotto (2012, p. 20), o movimento da Ação Católica surgiu em resposta à solicitação do Papa Pio
XI (1922-1939), através da Encíclica Ubi Arcano Dei, de dezembro de 1922.
63 A partir da posse de Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta no arcebispado de São Paulo, em 1943, o
Grupo de Legionário passou a sofrer uma diminuição do seu espaço de atuação, muito em função do radicalismo suscitado pela obra ―Em defesa da Ação Católica‖ e o seu brado de alerta contra o ―progressismo‖ em setores católicos. Como consequência, o número de paróquias em que se vendia o Legionário diminuiu, Plinio perdeu o cargo de Presidente da Junta Arquidiocesana da Ação Católica, Mons. Antônio de Castro Mayer, um dos mais importantes colaboradores, passou de vigário geral da Arquidiocese para vigário-ecônomo da paróquia de São José de Belém e o Pe. Geraldo Proença Sigaud, fiador político do grupo e propugnador do livro, foi removido para a Espanha, além de alguns redatores do jornal perderem seus cargos no movimento católico. (CALDEIRA, 2005)
Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), instituição que, juntamente com a Revista (a Revista se tornou órgão oficial da TFP somente na década de 1980), marcou definitivamente o campo de luta ―contrarrevolucionária‖ no catolicismo brasileiro e mundial, sendo a bandeira anticomunista seu principal mote combativo, como será demonstrado no transcurso do capítulo.
Nos anos 1960, especialmente, o processo de combate ao comunismo pelos mais diversos grupos e instituições ganhou novas configurações, muito em função (mas não somente) de todo um processo de intensificação da secularização e laicização e modernização pela qual passou o ―mundo‖ ocidental, além das próprias transformações ocorridas no ―mundo‖ comunista com a vinda à tona dos crimes de Stalin (1956). No âmbito do catolicismo brasileiro, notadamente nos setores tradicionalistas, é possível evidenciar que a forma de combater o comunismo e suas possíveis ―conexões‖ também acabou ganhando uma nova roupagem imbricada com todo um processo de renovação do catolicismo mundial a partir da repercussão (e apropriações) das denominadas ―Encíclicas Sociais‖ do Papa João XXIII, como também da realização do Concílio Vaticano II, processos que, de certa forma, implicaram no temor de uma crescente onda progressista (e ideário marxista) no catolicismo, seja no setor hierarquizado ou leigo.
b) O Integrismo na Argentina
No caso argentino, o impulso fundamental para a arregimentação e consolidação do ideário integrista pode ser remetido para o início dos anos de 1930, especialmente no contexto de derrocada do presidente Hipólito Yrigoyen (1930) pelo Exército, marcado pelo esgotamento da influência liberal, que acabou coincidindo com o apogeu do ideário da
neocristandade, impulsionado a partir de Roma. De acordo com Ghio (2007, p. 65), o projeto
de recristianização do mundo difundiu um ideal de cruzada, visando ―devolver a la Iglesia Católica la centralidad perdida com la modernidad‖. Até este momento, o catolicismo argentino carecia de maior expressividade junto às decisões política, muito em função da secularização do contexto de preeminência liberal.
A realização dos ―Cursos de Cultura Católica‖ pode ser considerada como um dos fatores que cooperaram para a penetração do pensamento integrista em parte dos intelectuais e clérigos do catolicismo argentino. Criados em 1922, os ―Cursos‖ objetivavam a formação intelectual de diversos dirigentes (homens) de famílias tradicionais. De acordo com Giorgi e Mallimaci (2012), o antiliberalismo, o autoritarismo e o militarismo se configuram nas principais características daqueles que aderiam aos postulados dos cursos. O contexto de
62
apogeu dos ―Cursos‖ foi o fim da década de 20, momento em que exerceram uma influência decisiva sobre uma nova geração de intelectuais, os quais, de acordo com Ghio (2007, p. 58), ―protagonizarían el resurgimiento de un catolicismo fuertemente tributario de las diversas corrientes antidemocráticas que circulaban en Europa.‖ José Zanca (2006, p. 22) estabelece o grau de importância dos ―Cursos‖ especialmente na forma como congregou diferentes matizes do pensamento conservador à época, formando o que o autor chama de ―subjetividade comum‖, responsável por cimentar ―un conjunto de redes interpersonales que por diferentes caminos construyeron criterios de análisis comunes y una opinión pública católica‖. Atuando dessa forma, os ―Cursos‖ forneceram as bases para a recepção do renascimento do catolicismo europeu (neocristandade) fornecendo o terreno de legitimação das intervenções militares na vida política da Argentina:
Ambas corporaciones – el Ejército cristianizado y la Iglesia militarizada – autopercibiéndose como la encarnación de la nacionalidad agredida, de una nacionalidad hispanizante ‗anterior a la Patria misma‘, constituirán las instituciones visibles desde donde se intentará reformular la estructura del Estado y de la sociedad. (Ghio, 2007, p. 63)
Edificado sob os conceitos de ―humanismo integral‖ e ―revolução Cristã‖ e orientado na perspectiva conservadora e tradicionalista, o integrismo na Argentina caracterizou a maioria dos católicos até o advento do peronismo, em 1946. Duas instituições tiveram um papel central na consolidação do integrismo no catolicismo argentino: A Ação Católica e a Revista Critério.
A Ação Católica Argentina, criada em 1931, e que tinha como objetivo aumentar e organizar a participação dos leigos na expansão da influência da Igreja Católica, desde o início seguiu uma linha integral, convertendo-se em um veículo de tendências antidemocráticas. Sua administração fortemente centralizada seguiu o modelo italiano, buscando, com isso, evitar a fragmentação que caracterizou a organização dos leigos no início do século XX. Neste sentido, é possível considerar a Ação Católica Argentina como uma organização central de reunião dos leigos, obtendo um aporte substancial de quadros políticos e dirigentes sociais (GHIO, 2007). Horácio Verbitsky (2008) assinala que, nesse período, os quadros da Ação Católica influenciaram, inclusive, as Forças Armadas. Conforme o autor, ―formada por una elite disciplinada, la Acción Católica envió a sus cuadros a movilizar las masas, en este caso castrenses. Cada Cristiano debía ser un soldado, con la misión integral de combatir por el Reino de Cristo‖.
Criada em 1928, por um grupo de intelectuais oriundos dos Cursos de Cultura Católica, a revista Critério ocupou um papel central na formação ideológica dos quadros hierárquicos e dos leigos católicos na Argentina, tendo como base a difusão do ideário antiliberal e antidemocrático. O objetivo primordial da revista era ―restituir a la Iglesias su posición privilegiada dentro de la sociedad con fin político preciso: bogar por la construcción de un orden nuevo, que reemplace a la democracia, legitimando el poder de un sector social sobre el resto de la sociedad‖ (Ghio, 2007, p. 78). Nesse sentido, a revista foi um dos principais meios de influência do integrismo, especialmente em núcleos de oficias do Exército, profissionais da classe média e alta, bem como em setores da Ação Católica. Conforme apontou Ghio (2007, p. 68), ―el contenido de sus artículos es la mas clara demonstración del grado de derechización a que se había llegado los medios católicos nacionalistas‖.
Um dos principais idealizadores e impulsionadores da Ação Católica Argentina foi o sacerdote Antônio Caggiano, o qual pode ser considerado um dos primeiros expoentes do catolicismo argentino a se destacar nesse contexto de consolidação do ideário integrista. Além de seu trabalho à frente da Ação Católica, Caggiano foi designado, em 1933, Vigário Geral do Exército, promovido a Cardeal em 1946, designado Arcebispo de Buenos Aires e Primado da Argentina em 1959 e, em 1961, foi designado pelo Papa Vigário Castrense (Forças Armadas). É consenso na historiografia que Caggiano tornou-se uma figura chave do catolicismo argentino no século XX, estando estreitamente articulado com as Forças Armadas e com grupos tradicionais e conservadores do catolicismo, pautando sua atuação nos ideais integristas e num arraigado anticomunismo.
Diferentemente do golpe militar de 1930 - que significou o restabelecimento de forças conservadoras, afastadas do poder em função do auge do liberalismo -, o golpe de 1943 foi articulado com um dos objetivos de refundar a Argentina, tendo como base o princípio de legitimidade centrado no corporativismo católico, especialmente em função do crescimento das organizações dos leigos nas duas décadas anteriores. Amplamente apoiado pelo catolicismo, o novo processo político marcou definitivamente a aproximação dos grupos integristas com o poder político, estando à frente de ministérios, secretarias e intervenções federais nas províncias. É importante salientar, ainda, que na campanha para as eleições presidenciais Perón se utilizou amplamente de um discurso que o identificava enquanto um candidato católico e nacionalista, gerando grandes expectativas nestes setores (GHIO, 2007).
Foge dos objetivos deste trabalho aprofundar a relação entre Perón e a Igreja Católica no período, entretanto, cabe destacar que após alcançar a presidência do país, em 1946, se
64
estabeleceu aquilo que pode ser considerado como uma nova etapa nas relações entre catolicismo e o poder político. As reações dos grupos católicos frente à aproximação do movimento peronista, junto aos sindicatos, desenharam um novo quadro no catolicismo argentino: existiram grupos que se distanciam de Perón, julgando a aproximação com os sindicatos uma forte inclinação ao comunismo e, outros grupos, seguiram junto com Perón, demarcando a adesão do partido justicialista aos postulados do catolicismo social. Entretanto, a postura do governo de Perón em relação ao catolicismo é considerada ambígua. Ao mesmo tempo em que o peronismo se convertia em um canal permanente de participação para militantes católicos, produzia um efeito secularizador, preferindo conservar as lealdades partidárias antes do aprisionamento da hierarquia da Igreja (GHIO, 2007).
A partir de 1950, a disputa da hegemonia ideológica entre o peronismo e Igreja Católica se intensificou, muito em função da confluência entre a ―doutrina social da Igreja‖ e a ―doutrina nacional justicialista‖. Perón se apropriava abertamente das referências da tradição social cristã, mas prescindia da intermediação da Igreja. Para José Ghio (2007, p. 141), ―las referencias al ‗cristianismo‘ del justicialismo, en lugar del ‗catolicismo‘, indicaban la necesidad de parte de Perón de no reconocer ninguna autoridad institucional que se interpusiera entre él, su doctrina y la masa‖. De novembro de 1954 até junho de 1955 várias decisões governamentais64 no âmbito do catolicismo agudizaram ainda mais o conflito Perón/Igreja, culminando com a destituição de Perón, em setembro, através de um golpe de Estado com total apoio da alta cúpula do catolicismo argentino.
Segundo Spinelli (2005, p. 53), com o triunfo revolucionário antiperonista, inaugurou- se uma nova etapa no contexto argentino em que se pretendeu erradicar o peronismo da política e da sociedade, buscando estabelecer a ordem política sobre novas bases, que proporcionassem garantias de uma efetiva democracia65. Ao reconstruir o panorama político do período pós-Perón, Horácio Verbitsky diagnosticou a incapacidade dos novos governantes e dos grupos que se uniram na frente golpista - incluindo aí a própria Igreja Católica - de subtrair a influência do partido que, majoritariamente, alcançava os mais diversos setores da sociedade argentina. Foi um período em que os católicos se utilizaram de diversos movimentos para ocupar uma posição central nas decisões políticas, ou ―recatolizar a
64 São exemplos dessas decisões: Supressão da Direção Nacional de Ensino Religioso, regulamentação das
subvenções a estabelecimentos educativos privado-católicos, lei que permitia a instalação de prostíbulos, projeto de mudança constitucional referente à separação entre Igreja e Estado.
65 Para se ter uma ideia do quão fragmentada se encontrava a sociedade argentina naquele contexto, para ficar
somente nos grupos antiperonistas, a historiografia pertinente ao tema aponta a existência de pelo menos três matizes de antiperonismo, quais sejam um antiperonismo tolerante, um antiperonismo radicalizado e um antiperonismo otimista. Independente da linha seguida pelos antiperonistas, um aspecto entre eles existia em comum, ou seja, de que a ―desperonização‖ da sociedade era necessária (SPINELLI, 2005).
sociedade‖ (Verbitsky, 2008, p. 53), já que haviam perdido consideravelmente seu poder de influência durante a vigência do governo de Perón.
É neste cenário de profundos embates políticos e ideológicos, em parte impulsionados pela questão peronista, que surgiram novas frentes (grupos, entidades e associações) marcadas pelo ideário integrista, que, na verdade, acabaram sendo organizadas por sujeitos que transitaram pelos setores tradicionalistas católicos desde a década de 30, e que acabaram por renovar e receber novo impulso combativo a partir do processo polarizado em torno do peronismo. Em 1955, por exemplo, surge a Revista Combate, profundamente antiperonista; em 1956, a Revista Cruzada; Ciudad Católica se constitui em 1959; em 1962, é fundado o Ateneu da República66, importante organização que congregou boa parte dos católicos nacionalistas da Argentina, os quais formaram o espectro ditatorial do governo do General Onganía. De acordo com Giorgi e Mallimaci (2012, p. 135), a ditadura ―cívico-militar- católica‖ de Onganía ―constituye un acontecimiento propicio para estos grupos de católicos que, socializados políticamente en la matriz del catolicismo integral, se ven seducidos a formar parte de gobiernos de facto.‖
É consenso na historiografia argentina67, portanto, que o golpe militar de 1966 e seu projeto de assentar as bases em uma ―nação católica‖ foi recebido com muita simpatia pelos católicos, especialmente por setores da alta cúpula da Igreja e grupos integristas, muitos dos