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Na obra intitulada ―Imaginação Social‖ (1985), o filósofo polonês Bronislaw Baczko27 fornece um estudo relevante no que diz respeito ao desenvolvimento da noção de Imaginário

Social, a qual, é preciso salientar, insere-se no conjunto de transformações epistemológicas

que acompanharam a emergência da História Cultural (Martins, 2005). Dentro da historização proposta pelo autor28, a parte que interessa para esse trabalho diz respeito aos suportes teóricos que podem ser considerados aqueles que proporcionaram maior relevância no desenvolver da sua própria noção de imaginário, quais sejam, a teria de Emile Durkheim e de Max Weber29.

De Durkheim, Baczko coloca em evidência duas noções que vão dar sentido para a forma como constrói a noção de imaginário, ou seja, a noção de consciência coletiva – e o modo como esta interfere e assegura a coesão social – e a noção de representações coletivas – e a forma como estas, nas palavras do autor, ―exprimem sempre, num grau qualquer, um estado do grupo social, traduzem sua estrutura atual e a maneira como ele reage frente a tal, ou a tal acontecimento, a tal perigo [...]‖ (1985, p. 306). Portanto, consciência coletiva – e a ideia de pertencimento a um grupo social –, e representações coletivas – entendidas enquanto aquilo que dá sentido e operacionaliza o pertencimento ao grupo social –, ambas, na perspectiva de Durkheim, sintetizam uma parte importante da abordagem referente ao imaginário proposto pelo teórico polonês.

Outra parte referente à abordagem do imaginário é encontrada por Baczko no aporte teórico de Max Weber, especialmente a noção de redes de sentido, entendidas enquanto marcos de referência pelas quais os agentes sociais baseiam suas condutas, as quais demarcam todo um sistema de representações coletivas, que, invariavelmente, produzem e são produtoras de sentido para o grupo social. Para Baczko, então, estas redes de sentido que dão o suporte às ações dos atores sociais sempre serão resultantes do imaginário social.

27 Bronislaw Baczko nasceu em 1924, em Varsóvia. Filósofo, dirigiu o Departamento de História da Filosofia

Moderna da Academia Polaca das Ciências, de 1955 a 1968.

28Ver o subcapítulo intitulado ―Elementos para uma História‖ (Baczko, 1985, p. 299).

29 Não se pode esquecer que a noção de imaginário proposta por Baczko também é tributária da noção de ideologia na perspectiva marxista, especificamente quando se leva em conta a problemática da dominação.

Nestes termos, invariavelmente as noções apresentam algumas similaridades: têm sua eficácia determinada através da crença de um grupo; a condição de aceitação perpassa necessariamente pelo sentido que provocam em quem os recebe; não se configuram em reflexos do real, mas sim do seu ―outro‖. Entretanto, na medida em que a noção de ideologia também possui um sentido ―negativo‖ ou ―crítico‖ (sobre os sentidos da noção de ideologia, ver: Thompson, 1999), que confere à classe dominada um status de passividade na produção das ideias, essa perspectiva se afasta da noção de imaginário, uma vez que esta última, como poderá ser visto no decorrer desta apresentação, não funciona apenas como um reforço de sistemas de dominação vigentes, mas como uma corrente transformadora, colocando os ―dominados‖ como elementos ativos na produção de imaginários. (ESPIG, 1998)

De forma bastante esquemática, é possível considerar que Baczko fundamenta a sua noção de imaginário englobando as noções acima descritas. Na visão do teórico polonês, para se pensar na noção de imaginário, é preciso levar em conta a coletividade e as suas especificidades: identidades, hierarquias, posições, crenças, lugares sociais. Imaginário social, portanto, se configura como ―uma das forças reguladoras da vida coletiva [...] uma peça efetiva e eficaz do dispositivo de controle da vida coletiva e, em especial, do exercício de autoridade do poder. Ao mesmo tempo, ele se torna o lugar e objeto dos conflitos sociais.‖ (1985, p. 309-310). Para Rodeghero (2003, p. 29), que também trabalhou com a noção de imaginário na perspectiva de Baczko, o imaginário assume a função de ser uma poderosa força de instauração ou legitimação social, além de propor estereótipos e paradigmas apresentados enquanto verdades, definindo posturas como legítimas e desqualificando aquelas consideradas inconcebíveis.

Ao se referir aos ―conflitos sociais‖, Baczko deixa posto outro fundamento a partir do qual pauta a sua noção de imaginários, ultrapassando, de certo modo, a questão simplesmente da coletividade. Ao considerar a ideia de conflito uma mola propulsora e, ao mesmo tempo, resultado da formação de um imaginário, inevitavelmente, o autor está indicando e estabelecendo que as construções identitárias (nós versus eles) também fazem parte do processo, especialmente operando através de oposições que estruturam aquilo que denomina de força afetiva. Nesse sentido, afirma: ―quando uma coletividade se sente agredida pelo exterior [...] ela põe em marcha, como meio de autodefesa, todo o seu dispositivo imaginário, a fim de mobilizar as energias dos seus membros, unindo e guiando suas ações‖ (1985, p. 310).

Até este momento foi apresentado um dos modos possíveis de se compreender a construção da noção de imaginário na perspectiva proposta por Baczko, especialmente levando em conta a interdependência das noções até aqui trabalhadas, quais sejam:

consciência coletiva, representações coletivas, conflitos sociais e identidade. Entretanto, à

medida que a sua teoria avança para o que ele denomina de ―Case-studies‖ (1985, p. 314), é possível encontrar algumas considerações nas quais o autor parece deixar posto uma ―dupla dimensão‖ na noção de imaginário social em relação, especialmente, à noção de

representações. Parece residir, neste aspecto, algumas tensões e, ao mesmo tempo, algumas

saídas para o emaranhado conceitual entre a noção de imaginário e representações (as quais tentar-se-á superar posteriormente colocando no debate alguns aspectos teóricos de Chartier). Ou seja, Baczko parece deixar implícito que as representações coletivas não podem se equivaler aos mesmos suportes encontrados na noção de imaginário, pois elas acabam sendo

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parte (e apenas uma parte) do todo (imaginário) e este todo não pode ser reduzido àquela parte. Em que pese esse duplo dimensionamento, o autor esclarece o fato de que são as

representações do mundo social que movimentam ou que, de certo modo, comandam o imaginário. Em uma palavra parafraseando Baczko: Quando uma sociedade aciona seu dispositivo imaginário ela o faz através da produção de discursos, nos quais e pelos quais se efetua a reunião de representações coletivas do contexto sociocultural do segmento social em que são difundidas (grifos meus). Por isso, parece ser imprescindível a necessidade de

compreender os meios acionados para a construção do imaginário, bem como os meios que fazem com que um determinado imaginário possa ser inteligível para aqueles que o recebem. Nesse sentido, então, a ideia é, a partir dos aportes teóricos de Chartier, buscar essas relações fundamentais entre o imaginário e a sua forma de inteligibilidade no ambiente social.

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No trabalho intitulado ―O Mundo como Representação‖, Roger Chartier (1991)30 pincela alguns comentários sobre as mutações do trabalho historiográfico sofridas após o início dos anos 1970, mostrando que elas tiveram muito a ver especialmente em relação aos princípios de inteligibilidade que governavam os procedimentos dos historiadores. Três eram essenciais, segundo o autor: o projeto de uma história global, capaz de articular num mesmo apanhado os diferentes níveis da totalidade social; a definição territorial dos objetos de pesquisa, geralmente identificados com a descrição de uma sociedade instalada em um espaço particular (uma cidade, uma província, uma região) – que era a condição de possibilidade da coleta e do tratamento dos dados exigidos pela história total –; o primado conferido ao recorte social considerado capaz de organizar a compreensão das diferenciações e das partilhas culturais. Neste sentido, o historiador francês aponta que os historiadores tentaram pensar os funcionamentos sociais para além de um escopo hierarquizado das práticas e das temporalidades sem que fosse dada preferência a um conjunto particular de determinações, buscando nas representações uma tentativa para decifrar o funcionamento social.

Representações e, diga-se de passagem, tudo aquilo que elas carregam consigo: modo pelos

quais os indivíduos dão sentido ao mundo que é o deles.

30 Desde de 2007, Roger Chartier é professor do Collège de France onde desenvolve o projeto ―Escritas e

Assim como Baczko, Chartier também vai fundamentar a sua teoria (não somente, mas também) nos aportes teóricos nas perspectivas de Durkheime Marcel Mauss31, enfatizando a articulação entre três modalidades de relação com o mundo social:

[...] de início, o trabalho de classificação e de recorte que produz configurações intelectuais múltiplas pelas quais a realidade é contraditoriamente construída pelos diferentes grupos que compõem uma sociedade; em seguida, as práticas que visam a fazer reconhecer uma identidade social, a exibir uma maneira própria de ser no mundo, a significar simbolicamente um estatuto e uma posição; enfim, as formas

institucionalizadas e objetivadas em virtude das quais "representantes" (instâncias

coletivas ou indivíduos singulares) marcam de modo visível e perpétuo a existência do grupo, da comunidade ou da classe. (Chartier, 1991, p, 183)

Da articulação das três modalidades acima destacadas, Chartier coloca em questão uma particularidade da sua noção de representações que se caracteriza por ser fomentadora de duas vias possíveis na construção de identidades sociais: uma que consiste em considerar as identidades sociais resultantes das representações impostas pelos sujeitos que detêm o poder de classificar e nomear e a aceitação ou resistência dos grupos que as recebem. A outra via consiste em considerar as representações constructos específicos de cada grupo, ou seja, a capacidade de reconhecer a sua existência a partir de uma demonstração de unidade (Chartier, 1991, p. 183). É a partir dessas duas vias que o historiador francês passará a dar importância à noção de lutas de representações, pois é através delas que grupos buscam impor as suas concepções de mundo social, os seus valores e o seu domínio (ou tentativa de) aos seus adversários.

Retomando as categorias de Paul Ricoeur de ―mundo do texto‖ e ―mundo do leitor‖, Chartier parte em busca daquilo que denominou como determinações históricas de produção de sentido através das práticas de escuta ou de leitura. Coloca em destaque os dispositivos materiais e formais pelos quais os textos atingem os leitores, indicando, nesse sentido, o ato operatório que caracteriza as apropriações, central, no seu entender, àqueles que se debruçam sobre a História Cultural. Enfatiza, nesse sentido, a necessidade de se voltar a atenção ―para as condições e os processos que, muito concretamente, sustentam as operações de produção do sentido‖ (1991, p. 180). Apropriações, em Chartier, diz respeito, então, ―uma história social dos usos e das interpretações, referidas a suas determinações fundamentais e inscritas nas práticas específicas que as produzem‖.

31 Chartier também é tributário dos aportes teóricos de Marx, Max Weber, Norbert Elias, Michel de Certeau, e

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Aqui, nesse ponto, é necessário retomar algumas questões que podem esclarecer ao menos dois dos pontos de tensão entre os projetos intelectuais de Baczko e Chartier. Se, para Baczko, as representações são molas propulsoras na construção e transformação dos

imaginários sociais; se as identidades são definidas por representações que dão mobilidades

aos conflitos, que também caracterizam os imaginários, e estes sim são os objetos de disputa, para Chartier as representações são as instâncias maiores dos objetivos de lutas, pois a dominação (ou a tentativa de), na visão do historiador, se dá a partir do modo como um grupo tenta impor as suas representações sobre seus adversários, ela (tentativa de dominação) é proposta através das lutas de representações. De outra parte, a fundamentação weberiana que Baczko sustenta a sua noção de rede de sentido, pela qual um grupo se faz reconhecer enquanto grupo (sentido em suas práticas), acaba por se aproximar e, ao mesmo tempo, distanciar daquilo que Chartier propõe em sua teoria. Eles se aproximam na forma a partir da qual o reconhecimento dos grupos necessariamente deve ser pautado pela caracterização de sentido dos atores sociais em suas práticas. Entretanto, o distanciamento se configura na medida em que o sentido das práticas para Chartier parte, em primeira instância, do modo como os atores sociais se apropriam dos códigos do mundo social para posteriormente o reconfigurar, o que, de certo modo, inverte a proposta de Baczko, que coloca como a força propulsora da produção de sentido justamente o imaginário.

Para além dessas tensões, também existe um componente em comum entre as noções de representações e imaginários que consiste no status que ambas conferem ao sentido da realidade social. Esse componente em comum surge, obviamente, a partir dos questionamentos (quase inevitáveis) quando o historiador se depara com análises ancoradas nas proposições da História Cultural, bem como a partir da polêmica que esses estudos proporcionaram no âmbito historiográfico32, especialmente para posturas mais radicalizadas: afinal, imaginários e representações se estabelecem através do real? São oposições ao real? São reflexos do real? É possível a aproximação com o real através dos imaginários e das

representações? Ou, imaginários e representações são componentes do real? É bem verdade

que parte de algumas respostas sobre estes questionamentos já puderam ser observadas quando se acompanha o modo como os autores construíram seus aportes teóricos. Entretanto, em face das disputas e discussões surgidas no campo historiográfico acerca destas questões, tem-se a pretensão de buscar uma sistematização das respostas, aspirando, com isso, não uma

32 Sobre uma das facetas do debate, ver o posicionamento de Ciro Flamarion Cardoso (2000), que coloca

Chartier enquanto um dos teóricos que manteve posições ―pós-modernas‖, e o posicionamento de Francisco Falcon (2000), que estabelece uma diferenciação entre as representações na perspectiva ―moderna‖ e ―pós- moderna‖, compreendendo tanto Chartier quanto Baczko como representantes da tradição iluminista (moderna).

resposta definitiva, mas apenas contribuir para alguns esclarecimentos que serão pertinentes para o desenvolvimento analítico da tese.

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Começando por Chartier e retomando a sua noção de representações coletivas ao identificá-las enquanto classificações, divisões e delimitações que organizam as categorias de percepção do real que são, ou que devem ser, apreendidas pelo mundo social, elas (representações coletivas) indicam a potencialidade de se pensar, conforme apontou Pesavento (2005, p. 39) ―enquanto matrizes geradoras de condutas e práticas sociais, dotadas de força integradora e coerciva, bem como explicativa do real.‖ Nesse enfoque teórico específico, as representações indicam as possibilidades de trazer à tona os embates e as disputas político-ideológicas dos grupos, uma vez que, conforme visto anteriormente, são através das lutas de representações que esses grupos buscam impor as suas concepções de mundo social aos seus ―outros‖. Daí a possibilidade de se pensar que as representações não são contrárias e nem se opõe ao real, mas elas, conforme Carvalho (2005, p. 151), se constituem através de várias determinações sociais para, em seguida, tornarem-se matrizes de classificação e ordenação do próprio mundo social, do próprio real.

Em relação ao imaginário, também é preciso deixar posta a ideia de que ele constitui outro real, e não o seu contrário. Conforme bem salientou Pesavento (2005, p. 50), ―o mundo, tal como o vemos, apropriamo-nos e transformamos é sempre um mundo qualificado, construído socialmente pelo pensamento. Esse é o nosso ‗verdadeiro‘ mundo, mundo pelo qual vivemos, lutamos e morremos‖. Portanto, nesta perspectiva, o imaginário existe em função do real que o produz e do social que o legitima, não pode, neste sentido, estar deslocado da realidade uma vez que ele pode ser acionado para transformar a realidade, conforme os exemplos anteriormente trabalhados por Baczko. Daí, a necessidade de se trabalhar com a noção de imaginário, evidenciando a sua capacidade de existência real, inscrito em práticas e lutas reais.

Levando em conta que os dois teóricos, ao menos em parte, estão partindo (não somente) da mesma matriz teórica (Durkheim), especialmente na consideração da questão das

representações coletivas, é possível afirmar que ambos estão chegando ao mesmo lugar

percorrendo caminhos diferentes (imaginário = representações)? Ou, de fato, conforme coloca Baczko, o imaginário acaba sendo uma instância maior em relação às representações? Ou, na perspectiva de Chartier, são as representações o objeto maior das lutas? Para todas essas perguntas, dependendo da posição que se coloca o prisma teórico, é possível dizer que

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cabe tanto a resposta positiva quanto negativa, sem cair em contradição. O que deverá mudar, obviamente, são os resultados de pesquisa, em que lugar se quer chegar. Neste sentido, entende-se que se pode fazer uma história das representações na mesma medida que se pode fazer uma história do imaginário sobre determinado objeto sem que uma invalide ou contradiga a outra. Entretanto, o esforço analítico da tese está centrado na ideia de propor uma operacionalização que tenha por premissa inicial uma articulação entre as duas noções em questão, entendendo que esta sistemática poderá redimensionar os resultados da pesquisa.

É preciso deixar claro que deve ser ponto primordial haver uma completa interdependência entre a ―dimensão‖ do imaginário e a ―dimensão‖ da representação. Este aspecto está fundamentado, obviamente, nas assertivas (das quais este estudo compartilha) que colocam o imaginário como constitutivo de representações e estas sendo constituintes dos imaginários. Contudo, é preciso ressaltar, também deve ser considerado o fato de que a forma como está posto/construído algum imaginário em determinado contexto social, indubitavelmente, influenciará na dinâmica da construção/embates das representações dos sujeitos ou grupos envolvidos, o que, de certo modo, esse movimento também acarretará, possivelmente, na reconfiguração do imaginário. Pode-se dizer, neste sentido, que o caminho teórico aqui pretendido se configura em uma via de mão dupla, mas que, por vezes, essas mãos se interligam, cruzam, e reconfiguram o traçado. Antes de qualquer tipo de hierarquização entre as noções apresentadas, bem como qualquer tipo de fusão, a aposta se configura justamente na complementaridade, sem negar, entretanto, as tensões.