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A Revista Cruzada, ao longo da década de 1960, apresentou períodos de certa constância na sua diagramação, especialmente no que diz respeito à confecção das matérias de capa e ao número total de matérias publicadas74. Com exceção das edições que contemplaram um número especial, fazendo referência a algum tema específico, as edições regularmente apresentavam um número total que variava entre seis a nove matérias. A capa seguiu com o mesmo padrão (excetuando-se também as edições especiais), ou seja, o nome da Revista na parte superior, trazendo, logo abaixo, o título de sua matéria correspondente, já desenvolvida na própria capa com continuidade, muitas vezes, na página seguinte. Na passagem dos anos

72 A manifestação anticomunista no contexto do golpe será tratada com mais vagar no 4º capítulo. 73Sobre o ―silêncio anticomunista‖ dos católicos no período pós-golpe militar, ver em Bett, 2010 e 2014

74 Até a edição de número 21, de dezembro de 1961, as capas eram realçadas com alguma coloração, passando a

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de 1962 para 1963, a Revista recebeu alguns incrementos gráficos, trazendo uma melhor qualidade que permaneceu inalterada até a última edição de 1967. Abaixo, a título de ilustração, a última edição de 1962 e, em seguida, a primeira edição de 1963:

Com relação à periodicidade, majoritariamente, a Revista era editada ininterruptamente entre os meses de março até dezembro. No entanto, em determinados períodos, até três edições deixaram de ser publicadas, sendo os motivos da interrupção não explicitados de forma direta, mesmo que, por vezes, tenham sido publicadas chamadas solicitando um número maior de assinantes (melhor maneira para a revista se sustentar), indicando que o motivo dessa interrupção pudesse ser a questão financeira. Além disso, cabe salientar, a Revista, conforme o modelo da sua congênere brasileira, não abria espaço para publicidades, sendo financiada pela venda das suas edições nas ruas de Buenos Aires (na Calle Florida) ou em caravanas pelo interior do país, pelos seus assinantes e, quando essas alternativas não supriam todas as necessidades, acabava recebendo aporte financeiro advindo do próprio corpo de editores.

No período compreendido entre março de 1960 até dezembro de 1967, a Revista comportou um número de aproximadamente 43 autores, destacando-se, em quantidade de artigos publicados, os seguintes: Cosme Beccar Varela (24), Carlos Dias Velez (16), Andrés

Asbouth (10), José Luis Bravo (10), Manuel Gondra (8), Jorge Lablanca (7), Plinio Corrêa de Olveira (7), Alberto Garcia Vieyra (6), Rodrigo de Nájera (5), Augusto José Padilla (5), Juan Carlos Claussen (4), Félix Douforq (4). Cabe destacar que, nesse mesmo período, o número de matérias assinadas como ―Editorial‖ ou ―Cruzada‖ foi de aproximadamente 110. Não é possível determinar com precisão quem foram os principais autores desses textos (possivelmente os editoriais foram escritos pelas principais lideranças do grupo, a saber: Cosme Beccar Varela, Carlos Dias Velez, Andrés Asbouth, José Luis Bravo, Jorge Lablanca)75, mas essa supremacia numérica pode indicar a existência de um núcleo fechado e homogêneo, responsável pela manifestação do pensamento da entidade para as mais diversas questões (políticas, sociais, religiosas) e que, necessariamente, acabavam por bem representar os demais membros.

Após essas informações inicias e, de certa forma, parciais da Revista argentina, que podem subsidiar o entendimento da sua dimensão no tocante à sua organização e representatividade enquanto um veículo de comunicação, informação e doutrinário, o próximo passo a ser dado na análise consiste em articular a estrutura gráfica com a forma com que a questão comunista permeou suas páginas. Em outras palavras, buscar-se-á responder o ―como‖ do anticomunismo divulgado, conforme as questões já apresentadas na parte introdutória da seção.

Assim como na sua coirmã Catolicismo, as matérias de capa da Revista argentina podem dar uma ideia significativa sobre o quanto questões relacionadas ao comunismo pesavam em termos de importância para o grupo. No levantamento realizado em todas as edições disponíveis da década de 1960 - que totalizam um número de 55 (cinquenta e cinco) - em 50 (cinquenta) destas, portanto, aproximadamente 91%, a matéria da capa trouxe algum tipo específico de manifestação anticomunista, seja como tema central (por exemplo, a edição número 037, de 1962, intitulada ―Terminar con Cuba Roja‖), seja como tema subsidiário ao tema central (por exemplo, o número 044, de outubro de 1963, que trouxe na matéria de capa toda uma crítica ao governo de Arturo Illia, relacionando esse com o comunismo). A tabela abaixo (Tabela 3) demonstra, por ano, esses números:

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Tabela 3

Ano Número de matérias de capa com conteúdo Anticomunista.

Número de matérias de capa com título Anticomunista. Número total de edições 1960 5 1 5 1961 7 4 8 1962 7 1 7 1963 7 4 9 1964 8 1 8 1965 6 2 6 1966 5 3 6 1967 5 2 6

Tabela produzida pelo autor com base na Revista Cruzada

Um aspecto relevante a ser mencionado, especialmente a partir da constatação dessa primazia da presença de conteúdo anticomunista nas matérias de capa, é que todas elas eram assinadas pelo editorial, sinalizando, portanto, a vontade de demonstrar que o posicionamento anticomunista era uma prerrogativa de toda a entidade e não simplesmente de algum articulista isolado.

Além disso, outro dado quantitativo que merece ser mencionado, e que pode contribuir nesta aferição da presença do anticomunismo em Cruzada, diz respeito à proporcionalidade da totalidade das matérias que mencionaram algum tipo de contrariedade em relação ao comunismo. No interregno de anos já mencionado, é possível fazer um levantamento que indica a presença de um total de 300 matérias (incluindo as seções fixas)76 dos mais diversos articulistas e das mais variadas temáticas. Deste total, 200 matérias, portanto, aproximadamente 67% apresentaram em suas linhas algum tipo de manifestação anticomunista. Cabe destacar, ainda, a existência de aproximadamente 19 edições em que todas as suas matérias (ou, em alguns casos, em torno de 90% da revista) mencionavam questões sobre anticomunismo enquanto que, por outro lado, é possível encontrar apenas uma edição (número 064 de agosto-setembro de 1966)77 que não trouxe qualquer matéria de cunho anticomunista.

76 Estas seções, assim como as ―cartas dos leitores‖, não apresentaram uma permanência regular nas páginas da

Revista, sendo publicadas de uma forma não criteriosa.

77 Provavelmente esse ―silêncio‖ em relação ao comunismo se deve ao fato da proximidade com o golpe militar

Tabela 4

Ano Número de matérias com conteúdo Anticomunista. Número total de matérias. % Número total de edições. 1960 22 30 73 5 1961 37 54 68 8 1962 29 44 66 7 1963 34 46 74 9 1964 26 43 60 8 1965 19 27 70 6 1966 15 25 60 6 1967 18 31 58 6

Tabela produzida pelo autor com base na Revista Cruzada

O alto índice de manifestação anticomunista na Revista argentina, que, se comparado aos números da Revista brasileira, superam em mais de 10 pontos percentuais, possibilitam concluir que, ao contrário do relativo ―silêncio historiográfico‖ sobre o tema, o anticomunismo foi, sim, uma das questões candentes e presentes no cenário político do país, na década de 1960. A relativa regularidade da manifestação anticomunista, ao longo dos anos 60, permite a mesma constatação dos dados apresentados na Revista Catolicismo, ou seja, que a luta anticomunista da Entidade argentina não pode ser resumida enquanto um comportamento circunstancial, determinado por situações, acontecimentos ou contextos específicos, mas fazia parte das ações pautadas por toda uma concepção de mundo e religião, como se poderá verificar, especialmente no quarto capítulo, a forma combativa que também era direcionada para o governo militar, instaurado em junho de 1966.

Antes de passar para a próxima parte do capítulo, é preciso mencionar que os dados apresentados nas tabelas indicam a potencialidade com que o tema do comunismo foi tratado nas Revistas Catolicismo e Cruzada, sendo constantemente alvo das mais diversas construções textuais, pelos mais diferentes autores, nas mais diferentes formas e contextos. Nesse sentido, é importante mencionar que, no que pese a expressividade dos números apresentados, a ―questão comunista‖ não foi o único ―problema‖ que ocupou esses grupos na década de 1960, mas, de fato, questões como liberalismo, reforma agrária, divórcio, universidades, peronismo (específico do caso argentino) e a própria ―Revolução‖, de um

não faria sentido repercutir questões comunistas quando o objetivo declarado da ―Revolução‖ e a sua proposição se deu em função da ―ameaça comunista‖.

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modo mais geral, também foram alvos de inúmeras inserções. Por outro lado, também é verdade que, por vezes, todas essas questões puderam ser tratadas de modo simultâneo, interligadas umas nas outras, mas com o anticomunismo presente como pano de fundo, tornando mais complexa, justificada e embasada, tanto na teoria, quanto na prática, a luta anticomunista. São esses aspectos que serão apresentados e analisados nas próximas seções do capítulo, os quais possibilitarão, ainda mais, conhecer o ―como‖ do anticomunismo, ou seja, a partir de quais aspectos foi delineada a regularidade discursiva anticomunista, em ambas as Revistas católicas.