Mediante os aportes teóricos apresentados, que serão operacionalizados no decorrer analítico da tese, e levando em consideração as fontes de pesquisa – que em sua totalidade se configuram em textos (jornalísticos, manifestos), entrevistas, reportagens, obras literárias, cartas pastorais, bem como, e principalmente, as matérias das Revistas editadas pelos grupos de Catolicismo e de Cruzada – torna-se pertinente esmiuçar alguns procedimentos metodológicos que serão utilizados e que pautarão a articulação das fontes de pesquisa com a teoria. Mesmo que as Revistas não se configurem neste trabalho como objeto da pesquisa e, sim, enquanto fontes, isso não exclui que sejam explicitadas algumas caracterizações, cuja importância fundamental desse procedimento se define pela própria apresentação de como as mesmas atuavam nos respectivos países, em diferentes contextos.
Antes disso, entretanto, cabe uma advertência metodológica: esta pesquisa está concentrada em analisar, unicamente, as questões discursivas das Revistas, de seus autores, editores e articulistas, enfim, exclusivamente os textos emissores. Não é objeto da pesquisa o estudo da recepção desses textos, mesmo que se possam formular algumas hipóteses a partir do próprio ato da sua enunciação.44 Isso deve ser considerado à medida que, conforme alerta Claudio Elmir (1995, p. 23), ―a recepção pode não realizar o desejo daqueles que emitiram determinado juízo sobre alguma questão‖. Ou seja, a pertinência dessa diferenciação (entre o discurso emissor e do receptor) consiste em evitar conclusões que levem em conta as ―relações que o leitor empírico na sua leitura extensiva não estabeleceu com o texto, ou com as ideias‖, com base na leitura que o pesquisador realiza em suas fontes.
Em segundo lugar, deve ser levado em conta que o desenvolvimento analítico não será restrito somente à lógica interna dos textos (discursos, temas, conteúdos, enunciados, representações), mas, também, se concentrará na disposição gráfica, no uso de imagens, bem como na intensidade com que foram divulgados (textos), visando identificar a forma como foram construídas as estratégias argumentativas e as intencionalidades de seus autores, as quais tinham como objetivo, em última instância, conduzir o leitor a uma interpretação específica. Ainda que esses pressupostos permitam observar algumas categorias de análises a serem desenvolvidas no transcurso da pesquisa, é preciso considerar, conforme ensinou Moraes (2007), para além da dinâmica textual e estrutural das matérias, os contextos históricos e as situações concretas em que os dados analisados foram produzidos.
44 De acordo com Celi Pinto (1989), a noção de interpelação pode contribuir para uma efetiva análise sobre a
recepção de um discurso. Cunhada inicialmente por Althusser, a noção prima, justamente, em esclarecer as posições de sujeitos construídas nos discursos, as quais estão em estreita articulação com a efetividade/capacidade de assujeitamentos, quando dois discursos entram em campos de disputas (PINTO, 1989). Em outros termos, o ―sucesso‖ interpelativo se estabelece quando um discurso exerce poder sobre outro, que passa, sem sofrer qualquer tipo de sanção negativa, a se identificar com o discurso do primeiro. No entanto, a capacidade de o poder ser exercido pelo discurso está associada à sua capacidade ―de responder a demandas, de se inserir no conjunto de significados de uma sociedade, reconstruindo posições de sujeitos‖ (1989, p. 36). Desse modo, a condição de permanência de um discurso pode estar relacionada à efetividade com que o poder é estabelecido na condição de criar novos sujeitos ou, nas palavras de Celi Pinto (1989, p. 42), ―o êxito da interpelação se revela na capacidade de um discurso ocupar espaços no mundo das significações que constitui os sujeitos aos quais se dirige‖. Em outras palavras, um discurso que não interpela é um discurso vazio, que não atinge, que não é ―recebido‖ e ―percebido‖ (grifos meus). Em que pese a importância que está sendo dada aos discursos enquanto ―agentes‖ de interpelações, é necessário esclarecer que o modo como o processo é entendido não se restringe apenas ao sentido do fluxo estabelecido a partir (grifo meu) dos discursos, mas sim entende-se que o processo de assujeitamento é equacionado de maneira relacional. Ou seja, é preciso levar em conta a ênfase proporcionada na articulação (grifo meu) – entre sujeitos e discursos –, pois, no entendimento de Stuart Hall (2000), da mesma forma que o sujeito pode ser convocado para assumir certas posições-de-sujeitos, ele também necessita investir em tal posição.
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Por outro lado, a lógica interna das matérias também será pauta de apreciação. De acordo com Jorge Pedro Sousa (2006), os textos impressos45 surgem integrados em um espaço que é organizado em função de princípios de design: o layout, cuja finalidade primeira se constitui em atrair o leitor, para, posteriormente, organizar, articular e hierarquizar os conteúdos, ou seja, existe toda uma intenção nessa organização. Por isso, alguns aspectos do
contexto gráfico serão levados em conta na análise discursiva aqui proposta, de forma a
complementar as questões trabalhadas com os textos (conteúdos) propriamente ditos46.
Ao se prestar atenção no design e na sua interligação com o texto verbal, deve-se observar, segundo Sousa (2006), como se procedeu a ênfase gráfica dos conteúdos, ou seja, de que forma os editores propuseram aumentar ou diminuir a importância que foi dada a alguma matéria, ou de parte dela, nos periódicos focos da análise. Deste modo, cabe ressaltar que, em algumas passagens da tese, as questões do contexto gráfico serão destacadas para demonstrar a forma como elas foram projetadas e qual foi a sua importância na caracterização e arregimentação do discurso anticomunista. Dentre essas, serão ressaltadas a dimensão das matérias47, a sua localização na página48 na própria revista, as matérias de capa (e de contracapa) e suas chamadas49, as matérias nas quais o conteúdo do texto foi associado a fotografias50 e o destaque que foi dado na grafia, especialmente dos títulos51.
Como forma de melhor caracterizar a própria atuação dos periódicos em questão, todas as questões acima serão levadas em conta. Conforme apontou René Zicman (1985, p. 90) ao se referir ao tratamento de fontes impressas, ―toda pesquisa realizada a partir da análise
45 Mesmo que o autor esteja referindo-se a textos jornalísticos, algumas de suas considerações também podem
ser aplicadas às análises de revistas, como é o caso desta tese.
46 Em diversas passagens do texto da tese a questão do contexto gráfico será mencionada de forma a realçar
algumas das intencionalidades dos editores das Revistas Catolicismo e Cruzada.
47 Uma matéria que ocupa muito espaço parece ter mais importância do que uma que ocupa pouco espaço.
(SOUSA, 2006).
48 De acordo com Sousa (2006, p. 710), ―uma matéria posicionada no topo da página e/ou à direita parece ser
mais importante do que uma que esteja em rodapé e/ou à esquerda. Também é possível que uma matéria seja posicionada ao centro, rodeada de matérias nas margens. Neste caso, a matéria central adquire maior peso simbólico, especialmente se a sua dimensão ultrapassar bastante as matérias posicionadas nas margens‖.
49 Uma matéria ou somente uma chamada de capa assume, necessariamente, um grau de importância maior do
que se fosse relegada para o corpo do periódico. (SOUSA, 2006)
50 Jorge Pedro Sousa (2006, p. 714) salienta que as fotografias contribuem decisivamente para enfatizar matérias
e para atribuir sentidos de um acontecimento, visto que depende do contexto em que a imagem é obtida e do contexto discursivo no qual a mesma é inserida. Assim, explica o autor: ―Indicadores verbais e não verbais (gestos, objectos presentes nas fotografias, espaços entre os personagens, olhares, gestos, etc.) fazem parte do contexto da foto; o espaço onde a fotografia é inserida pode considerar-se o contexto do discurso, englobando o texto que lhe está associado e o design‖.
51 ―Os títulos podem ser enfatizados graficamente de diversas maneiras: uso de carregado, itálico, cor,
MAIÚSCULAS, tamanho e largura dos caracteres (corpo dos caracteres), texto em negativo, etc. Quanto mais enfatizado for um título, maior é a importância da matéria. O carregado, a cor, o sublinhado, o itálico, as MAIÚSCULAS, as letras de tipo e corpo diferente, etc. permitem destacar uma matéria ou partes de uma matéria‖. (Sousa, 2006, p. 715)
de jornais e periódicos deve necessariamente traçar as principais características dos órgãos de imprensa consultados‖. Alguns dados objetivos relativos às atuações das Revistas Catolicismo e Cruzada serão abordados no primeiro capítulo, entretanto, é pertinente, nesse momento, explicitar de que forma esses periódicos serão entendidos nesta pesquisa, em qual tipologia de imprensa se enquadram.
Retomando a primeira advertência metodológica, de que o interesse desta pesquisa ficará restrito aos discursos dos emissores, é importante que seja colocada qual foi a perspectiva de alcance (público) e influência que pode ser depositada nos discursos emitidos por Catolicismo e Cruzada. Não se tem dados concretos que possam demarcar qual foi a tiragem exata (número de exemplares distribuídos ou vendidos) das respectivas Revistas na década de 60, mas, a partir de algumas caracterizações, empreendidas pela historiografia pertinente – que enfocou as formas de atuações de seus Grupos de Editores/colaboradores/articulistas – sabe-se que elas atingiam um público variado e leigo (vendas ou distribuição em praças e ruas públicas) como também atingiam um grupo especializado e restrito, notadamente assinantes dos periódicos ou simpatizantes das suas concepções. Tem-se em mente, nesse sentido, que Catolicismo e Cruzada, por mais que possuíssem a capacidade (e intencionalidade) de ―agendar‖52 temas específicos em seu público receptor, isso não pode dar a garantia de uma condição de influência plena. É o que alguns teóricos das comunicações denominam de ―exposição seletiva‖, ou seja, ―as pessoas tendem a ler, ver ou escutar aquilo com que de antemão já estão de acordo e as pessoas com quem concordam‖ (Sousa, 2003, p. 495).
Por outro lado, levando em conta a complexidade que envolve a recepção dos textos, tanto pelas diferentes formas de apropriações quanto pela suposta variedade de sujeitos receptores (como é o caso das fontes desta pesquisa), ainda cabe inserir mais um elemento que coloca em evidência outro processo que dinamiza a relação emissor/receptor, e que pode contribuir na caracterização dos periódicos deste estudo. Trata-se de considerar que todo discurso, necessariamente, por algum motivo, poderá ser objeto de resistência.
52 Conforme Sousa (2006, p. 501), a hipótese do Agenda Setting ou do Agendamento, destaca que os meios de
comunicação ―têm a capacidade (não intencional nem exclusiva) de agendar temas que são objecto de debate público em cada momento [...] existem efeitos cognitivos directos, pelo menos quando determinados assuntos são abordados e quando estão reunidas certas circunstâncias‖. Para Mauro Wolf (2003), essa hipótese ocupou considerável posição dentro das mudanças das ―novas tendências de pesquisas‖ dos mass media, as quais tiveram como premissa os estudos dos efeitos de comunicação a longo prazo. Trata-se dos postulados teóricos que indicaram a passagem dos ―efeitos limitados‖ aos ―efeitos cumulativos‖, implicando considerar a mídia não apenas como transmissora de significados, mas, efetivamente, desempenhando uma função que incide diretamente sobre a construção da realidade.
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Se anteriormente foi mencionado que o grau de influência de um discurso é condicionado pela ―exposição seletiva‖, também é pertinente destacar que essa mesma ―exposição seletiva‖ pode resultar no fenômeno oposto, ou seja, as pessoas, de antemão podem ler, ver ou escutar aquilo com que de antemão não estão de acordo.53 É o que Sousa (2006, p. 495) classifica como mecanismos de defesa contra a persuasão: ―Percebe-se, assim, que os meios de comunicação não são os únicos agentes que influenciam as decisões das pessoas e que, por vezes, nem sequer são os mais poderosos desses agentes‖.
No caso das revistas Cruzada e Catolicismo, esse mecanismo de defesa pode ser perfeitamente perceptível na medida em que diversas matérias causaram desconforto em grupos/sujeitos que responderam, contra argumentaram, não foram passíveis às tentativas de persuasão imposta. Disso resulta que, mesmo que Catolicismo e Cruzada tenham aglutinado um conjunto de indivíduos tornando-os projetos coletivos, ―por agregarem pessoas em torno de ideias, crenças e valores que se pretende difundir a partir da palavra escrita‖ (De Lucca, 2005, p. 140), elas também se propuseram a atuar como agentes de informação, opinião, argumentação, buscando persuadir e convencer os receptores (público em geral) das suas teses e interpretações.
Os estudos que se empenham em decodificar os processos de comunicação salientam que os periódicos que apresentam, dentre suas propostas, um continuado esforço em persuadir, acabam sendo portadores de algumas características. Conforme Mauro Wolf (2003, p. 33-42), o sucesso da persuasão, necessariamente, se configura a partir de dois fatores: as características relativas ao público (quem recebe), bem como as características relativas à mensagem. Pelo modelo de análise empreendida, são os fatores relativos à mensagem que interessam na tese. A partir de um conjunto de pesquisas sobre o tema, Wolf apresenta as quatro principais: pesquisas que se concentram em investigar qual é a importância da
credibilidade do comunicador (pode existir apreensão do conteúdo, mas a escassa
credibilidade da fonte seleciona a sua aceitação); a importância conferida à ordem da
argumentação; à integralidade das argumentações; e, à explicitação das conclusões. Não é o
caso de discorrer acerca dos resultados de todas essas pesquisas, tendo em vista que esse procedimento fugiria dos propósitos desta tese, entretanto, cabe destacar que, em seu conjunto, elas indicam a complexidade (e difícil determinação) que envolve qualquer tentativa de medir efetivamente o resultado da persuasão.
53 Lazarsfeld, Berelson e McPhee, citados por Sousa (2006, p. 499), colocaram em evidência que a motivação e o interesse podem variar em função das pessoas. Uma exposição prolongada a um determinado tema que vá de
encontro das crenças, ideias e expectativas de uma pessoa pode ter por efeito a resistência à mudança e o reforço
Por outro lado, é possível apontar quando as mensagens são investidas da referida intencionalidade, quando apresentam, com certa regularidade, aquilo definido como
procedimentos de persuasão. Tanto em matérias informativas ou opinativas esses elementos
podem ser encontrados. São procedimentos que tendem a facilitar a persuasão, mas que não definem, por si só, o seu sucesso. Van Dijk, citado por Sousa (2006, p. 701), enumera alguns procedimentos: uso de referências que possam sustentar os argumentos e tornar verídicos os relatos; menção das causas dos acontecimentos (que podem ser outros acontecimentos); integração dos diferentes fatos e acontecimentos em um encadeamento de causas e consequências e em estruturas narrativas conhecidas; inserção dos novos acontecimentos em modelos e enquadramentos familiares aos leitores; uso de argumentos e conceitos conhecidos; construção dos textos de maneira a se obterem emoções fortes do receptor; elaboração dos textos de forma que o leitor se convença da superioridade de determinados argumentos, referenciando, mas memorizando, argumentos contrários; e, citação de especialistas e outras fontes credíveis que ajudem a sustentar os argumentos.
Todos os procedimentos supracitados podem ser encontrados tanto na Revista
Catolicismo quanto na Revista Cruzada, especialmente nos textos que transmitiam questões
referentes à manifestação anticomunista. Invariavelmente as matérias (tanto as de cunho informativo quanto opinativo) revestiam-se de inúmeras referências (especialmente de outros textos católicos – notadamente Encíclicas Papais); relacionavam acontecimentos de ordem política com causas específicas inseridas na luta anticomunista; utilizaram-se, muitas vezes, de textos apelativos, dramáticos e finalistas; apresentavam as teses dos opositores, desconstruindo pari passu suas argumentações, enfim, articularam diversos procedimentos (ao longo da tese esses aspectos serão ressaltados) com vistas a persuadir seus leitores ―indecisos‖, ao mesmo tempo em que se dedicavam a deslegitimar as argumentações de seus oponentes ou adversários.
Conforme já mencionado anteriormente, não é objetivo deste trabalho verificar se
Catolicismo e Cruzada efetivamente tiveram ―sucesso‖ (convencimento) nesse processo (persuasão), mas importa demarcar a intensidade com que ele foi praticado por ocasião dos
discursos anticomunistas. No primeiro capítulo da tese, especialmente, serão apresentados
alguns dados quantitativos que poderão esclarecer a permanência da manifestação anticomunista nas Revistas Catolicismo e Cruzada. São números que atestarão a sua regularidade e a constância, elementos essenciais para o desenvolvimento de um estudo qualitativo que seja pautado em fontes impressas. Nesse sentido, conforme sentenciou Claudio Elmir (1995, p. 23), ―a regularidade, a constância da ideia encontrada é muito
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importante. E só é possível perceber regularidade na medida em que o pesquisador possa ter acesso a uma série de discursos que é a condição do estabelecimento da regularidade, da repetição‖. Portanto, como será possível verificar no desenvolvimento da tese, o anticomunismo foi objeto de uma regularidade discursiva no período examinado, tanto na Revista Catolicismo quanto na Revista Cruzada.
Uma última intervenção, referente às questões metodológicas, consiste em esclarecer que esta tese não se configura em um trabalho de pesquisa de cunho essencialmente comparativo, em que pese se estar trabalhando com duas Revistas, duas realidades políticas, e dois países. Entretanto, é preciso salientar que algumas ferramentas da metodologia comparativa serão utilizadas, não como guia principal, mas como suporte analítico, até mesmo pela forma através da qual elas podem contribuir para o entendimento do fenômeno anticomunista no Brasil e Argentina, a partir das revistas Catolicismo e Cruzada.
Desta forma, em relação à metodologia comparada, estar-se-á seguindo as tipologias de Charles Tilly54, as quais abrangem uma abordagem comparativa individualizadora, ou seja, aquela que identifica ―as propriedades comuns a todos os casos examinados (semelhanças) de modo a identificar muito claramente a singularidade de cada caso‖, como também uma abordagem diferenciadora que consiste em ―submeter os diversos casos que estão sendo examinados a um certo conjunto de variáveis – alguns traços ou questionamentos que serão escolhidos para efetuar comparações – de modo a tirar conclusões sobre os diferenciais de cada caso examinado.‖ (Barros, 2007, p.19)
Assim, buscar-se-á abordar o objeto proposto (anticomunismo católico) mediante a análise das propriedades comuns (semelhanças) encontradas na Revista brasileira e argentina, de forma que se possa identificar a(s) singularidade(s) de cada caso, como também uma abordagem diferenciadora que buscará interrogar o objeto a fim de apreender suas diferenças, em termos de suas práticas e significados, no recorte temático e cronológico específico já mencionados55.
Com esses aportes metodológicos buscar-se-á examinar como um mesmo ―problema‖ (anticomunismo) atravessou as realidades do Brasil e Argentina e esclarecer sobre os muito ―em comuns‖ que estas duas sociedades possuíam. Uma das vantagens desse modelo de
54 Sobre as perspectivas comparatistas segundo Charles Tilly, ver em Barros (2007).
55 Segundo Neyde Thelm e Regina Maria da Cunha Bustamante, o novo rumo assumido pela História
Comparada tem possibilitado um olhar mais abrangente, e ao mesmo tempo pontual, acerca dos objetos interrogados. Ainda segundo as autoras, uma análise que rompa e desmistifique generalizações explicativas, mediante o confronto de singularidades e heterogeneidades imersas em situações e/ou casos comuns de investigação, pode contribuir para que o pesquisador se aproxime de forma mais segura e eficiente da problemática que pretende analisar. (Thelm; Bustamante, 2007, p. 08 - 09).
empreendimento, segundo Barros (2007), é a possibilidade que ele oferece ao historiador de perceber as influências mútuas, as inter-relações e as causas externas e internas de um mesmo fenômeno. Contribuirá, portanto, para desvelar não somente os aspectos políticos e sociais, como também culturais, as próprias maneiras de perceber, representar e combater um ―inimigo‖ que andou rondando (aos olhos dos grupos tradicionalistas) a sociedade Latino- Americana: o comunismo.
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Levando em conta as especificidades das fontes (Revistas dirigidas por Grupos católicos integristas, tendo o anticomunismo como uma das principais pautas publicitárias), o recorte espacial e cronológico (Brasil e Argentina na década de 60), as lacunas de pesquisas ainda abertas, as questões relativas aos marcos teórico e metodológico, bem como o resultado da análise das fontes, a tese foi dividida e organizada em quatros capítulos.
O capítulo de abertura foi estruturado de modo que possa apresentar as Revistas a partir de quatro eixos temáticos específicos: 1) os referenciais teóricos de atuação de seus líderes e articulistas que caracterizaram a prática das próprias Revistas; 2) os aspectos organizacionais e gráficos dos mensários, incluindo uma análise quantitativa da presença anticomunista. E, por fim, uma última investida de cunho qualitativo que foi dividida em duas etapas: 3) a primeira identifica como se deu o desenvolvimento de uma sociabilidade
anticomunista entre os periódicos (e seus editores/redatores/articulistas) e 4) uma segunda que
coloca em evidência a forma como foi empreendido e desenvolvido aquilo entendido como um dispositivo de saber anticomunista, ou seja, quais os elementos foram necessários mobilizar na consolidação de uma pedagogia anticomunista com fins a explicar e esclarecer sobre o comunismo e suas possibilidades. Com essa estrutura de análise, o capítulo sustenta a hipótese de que o comunismo (e todas as possíveis vinculações) foi objeto de uma ―regularidade discursiva anticomunista‖ e se consubstanciou em um dos seus principais ―inimigos‖ a ser combatido no contexto da década de 1960 pelos grupos das Revistas