As brincadeiras das crianças, ao longo das últimas décadas, foram sofrendo alterações. Ferland (2006) propõe que cada um de nós regresse à sua infância, reflicta e responda a algumas questões para tomar consciência das diversas transformações que forram ocorrendo ao longo dos tempos. As questões apresentadas por Ferland são as seguintes:
Quando era criança, tinha tempo para brincar? Qual era a sua brincadeira preferida?
Qual é a brincadeira preferida do seu filho? Brincava muitas vezes ao ar livre? E o seu filho? Os seus pais organizavam as suas brincadeiras?
89
De acordo com o autor, nas respostas a estas questões poderão ser visíveis diferenças entre as brincadeiras que eram feitas há alguns anos atrás e as que são feitas actualmente pelas crianças durante a sua infância. O autor acrescenta ainda que actualmente as crianças talvez brinquem menos e passem mais tempo diante de jogos de computador, talvez tenham menos tempo para brincar e um horário mais estruturado.
Ferland aponta vários factores que contribuíram para esta mudança, nomeadamente, questões relacionadas com a segurança, os brinquedos que cada vez aparecem mais sofisticados, as famílias que também sofreram alterações e o seu quotidiano, que como refere o autor “assemelha-se a um turbilhão, em que é difícil conciliar trabalho e família: os dias dos pais e os das crianças são trepidantes e muito estruturados, deixando pouco espaço para as brincadeiras livres” (2006, p: 37).
As crianças, quando questionadas sobre as suas brincadeiras preferidas, dão relevo aos jogos de computador, “Gosto de brincar no computador a fazer jogos”, afirma MB: F3, “Gosto de brincar no computador, na Play Station”, diz a MC: F6, e também manifestam preferência por brincadeiras ao ar livre e que impliquem movimento, nomeadamente, o correr, “Ao futebol, luta livre, às escondidas, às apanhadinhas e correr”, afirma DV: M6, “brincar na praia a fazer castelos na areia” diz CR: F6, “Ao futebol, ao lençinho vai na mão e às escondidinhas e de correr e às apanhadinhas”, remata MA: F6.
Algumas crianças gostam mais de brincar com brinquedos que não são mais do que personagens criadas e que traduzem-se em brinquedos e acessórios comercializados a nível internacional e que os media tratam da sua divulgação ao ponto de cativarem as crianças e as famílias para a sua aquisição, nomeadamente algumas bonecas com as quais as crianças manifestam mais prazer em brincar, “Brincar às Winx, às barbies, às fadas e às princesas e com as Polly” refere RM: F4, “à Hello Kitty e com as barbies”, acrescenta a LS: F3, “Ao homem de fogo que queima toda a gente e é mau” afirma RS: M5, “Às Winx, às pequenas sereias, às fadas”, refere MO: F6. Há crianças que valorizam mais as diversões do parque infantil, e afirmam que gostam de brincar “no parque ao escorrega”, afirma JP: M3, “andar nos cavalos da escola e no baloiço”, acrescenta RC: M3.
Também as brincadeiras ao faz-de-conta são muito apreciadas pelas crianças, “brincar às mães e aos pais”, afirma MR: F3, “na casinha das bonecas” diz MS: F4, “aos cozinheiros que é fazer comida”, acrescenta MR: F4, e “brincar na casinha e com os bebés”, afirma IS: F5.
90
Ferland refere que o brincar é o “lugar das fantasias, das soluções irracionais e da desenvoltura”. O autor defende que a criança ao usar as suas habilidades criativas decide “o que é a realidade, transforma-a e adapta-a aos seus desejos.” Acrescenta ainda que a criatividade da criança é uma “espécie de bricolage intelectual que coloca lado a lado elementos variados para criar uma ideia nova, pode ser vista como imaginação em acção” (2006, p. 44).
Ao longo da brincadeira a criança descobre novas vias de prazer ao criar diversas combinações de objectos, ideias e palavras. Ela dá vida aos objectos e até faz falar os animais. A brincadeira oferece à criança “uma liberdade de acção que permite a eclosão de um pensamento criativo” (Ferland, 2006, p. 44).
Os locais onde as crianças manifestam mais prazer em brincar, de uma maneira geral, são: a própria casa, o parque infantil, a rua e algumas crianças referem o recreio da escola (escola é o nome que algumas crianças atribuem ao jardim-de-infância) e a Casa das Janelas Verdes. As crianças preferem os seus brinquedos para brincar e gostam de brincar ao ar livre, daí que quando fazem referência à escola (Jardim-de-infância), elas exprimam preferência pelo espaço do recreio, ou seja, espaço exterior e não espaço interior.
Assim, na voz das crianças, podemos reconhecer os locais que lhes dão mais prazer em brincar e por conseguinte onde se sentem mais felizes, “No meu quarto na minha casa”, afirma FL: M3, “Em casa na sala”, acrescenta LS: F3, “No parque e na escola porque tem o parque que tem muitas coisas para brincar ”, diz RS: M5, “No parque, nos baloiços e no escorrega”, acrescenta MA: F6, “Na rua porque há relva e flores e eu apanho flores para a minha mãe”, afirma BS: F5, “Na Casa das Janelas Verdes porque tem muitos jogos para eu fazer e eu escolho e arrumo”, diz DP: M4.
Actualmente as crianças sentem necessidade de brincar ao ar livre, no exterior e isso poderá ser resultado de cada vez mais as crianças permanecerem em instituições que lhes tendem a institucionalizar os tempos, a ser tudo muito estruturado e organizado sem deixar margem de liberdade de escolha para a criança.
Segundo Ferland (2006) o brincar ao ar livre é muito importante e proporciona às crianças novas experiências que seriam impossíveis de realizar num espaço interior. Os acessórios de jogo ao ar livre, como os baloiços, escorrega, entre outros, oferecem igualmente experiências novas à criança e favorecem os jogos/habilidades motoras uma vez que convidam a criança a mexer-se e a deslocar-se.
91
A percentagem dos pais em que os dois trabalham, tem aumentado ao longo dos tempos, e isso leva as famílias à procura de instituições para ocuparem os tempos dos seus filhos e implica que estes, por conseguinte, passem menos tempo com eles e brinquem menos de forma mais livre. Por outro lado, existindo na nossa sociedade uma elevada preocupação com o sucesso, verifica-se uma tendência para cada vez mais bombardear as crianças com actividades estruturadas e que funcionem como uma preparação para a escola. Isso leva a que as crianças manifestem preferências por contextos onde se sentem mais livres e menos pressionadas, como é o caso dos parques infantis e até mesmo da rua onde em outros tempos eram desenvolvidas as brincadeiras.
Concluindo, podemos reconhecer na voz das crianças que actualmente as brincadeiras preferidas e os locais eleitos pelas crianças para brincar não são os mesmos do que à alguns anos atrás e isto deve-se também ao impacto que os média têm na vida da criança e às questões relacionadas com a segurança que hoje em dia se colocam. Podemos acrescentar que a globalização também tem o seu impacto na selecção quer das brincadeiras quer dos brinquedos que as crianças manipulam no seu dia-a-dia. Um aspecto que se destaca, e que de certa forma é transversal nas respostas das crianças, é a importância atribuída ao brincar ao ar livre, às brincadeiras que impliquem movimento e ainda ao espaço casa para brincar. O facto da criança permanecer demasiado tempo nas instituições leva a que sinta saudades de brincar em casa com os seus brinquedos e com a sua família, se esta se dispusesse a tal prazer e necessidade.