Para que a criança brinque é fundamental que sinta confiança, que se encontre num ambiente tranquilizador. Tempo, espaço e material são igualmente necessários mas os companheiros e os adultos à sua volta são essenciais e estes últimos devem valorizar a actividade do brincar e a sua importância no desenvolvimento físico, mental e social da criança.
Os primeiros parceiros das brincadeiras do bebé são os adultos, nomeadamente os pais que lhes vão incutindo algumas noções, nomeadamente a noção de prazer ao manusear alguns objectos. Os pais vão entusiasmando o bebé a observar os objectos, a tocar-lhes e a utilizá-los.
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Mais tarde, e como refere Ferland (2006), os pares tornam-se “modelos e motivadores para a criança”, ou seja, a criança vai-se interessando por tudo o que os outros fazem, inclusive pelos materiais que vê os outros a brincar e acaba também por querer experimentá-los se considerar que os outros estão a tirar prazer dos mesmos.
O autor refere ainda, que é graças aos parceiros de brincadeira das crianças que as suas competências sociais vão sendo desenvolvidas. Ferland considera também que quando as crianças brincam juntas, estamos perante uma “mini-sociedade” onde cada criança aprende as regras de vida em grupo, nomeadamente partilhar o material e o espaço de brincadeira, ocupar o seu lugar, esperar pela sua vez, respeitar os outros, gerir as suas emoções quando por exemplo está zangada, entre outras. O autor acrescenta que se estas aprendizagens forem realizadas durante a brincadeira e o contacto frequente com outras crianças serão todavia aprendizagens mais fáceis e agradáveis.
A criança ao brincar com outras crianças da sua idade, para além de ser uma experiência estimulante é também uma experiência útil para aprender a viver em sociedade e o facto das crianças frequentarem o Jardim-de-infância é muito importante no desenvolvimento e partilha dessas mesmas experiências.
Teresa Sarmento e Manuela Fão (2005) referem que o brincar e o jogar promovem a relação da criança com o meio inclusive a família e a interacção da criança com o adulto, com outras crianças e com a comunidade de uma forma geral, é fundamental no desenvolvimento infantil.
Ferland (2006) refere que não são só os companheiros que têm importância no desenvolvimento das competências sociais das crianças enquanto brincam, mas os adultos são igualmente importantes e o autor considera que estes devem acompanhardiariamente a criança a brincar e valorizarem esta actividade reconhecendo a sua importância para o desenvolvimento e crescimento da criança.
A criança quando brinca com parceiros “aprende a viver em sociedade e descobre o prazer de partilhar actividades com os outros”. Numa brincadeira associativa, a criança desenvolve as suas competências sociais, designadamente o esperar pela sua vez, o partilhar, o ter o outro em consideração, entre outras. Como refere Michel Lemay, as actividades lúdicas, nomeadamente o brincar e jogar, são “mediadoras da comunicação com os nossos semelhantes”, daí a importância em a criança brincar com os pais e com as outras crianças para desenvolver as várias aptidões (in Ferland, 2006, p. 149).
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Na voz das crianças podemos reconhecer que os pais e os amigos do Jardim-de-infância e do ATL, onde são desenvolvidas as Actividades de Animação Sócio Educativa /Actividades de Prolongamento de Horário, são quem fazem parte das brincadeiras das crianças no dia-a-dia e com quem elas partilham as suas experiências e desenvolvem as suas competências. As crianças revelam que brincam muito com os “amigos na escola e com a minha mãe e o papá” afirma MR: F3, “Em casa ao futebol com a minha mãe, o meu pai, o avô, o meu irmão”, diz GS: M4, “Com a mamã porque o papá está a fazer a comida e vai trabalhar muito e brinco com os meus amigos na escola no recreio”, afirma IS: F5, “Com a mamã às escondidas e com os meus amigos na escola”, diz MA: F6.
No entanto, na voz de algumas crianças percebemos que a grande parte das suas brincadeiras são desenvolvidas sozinhas, “Sem ninguém. Não tem mais ninguém na minha casa”, afirma FL: M3, “Sozinho a fazer jogos” diz DP: M4, “Com ninguém, sozinho”, afirma RS: M5, “Com o papá e com a mamã brinco pouquinho. Ela só brincava quando eu era mais criança”, diz MC: F6. Com estas afirmações das crianças poderemos reconhecer que o brincar não estará a ser valorizado pelos pais e também poderão ser consequência de vivermos numa sociedade em que de acordo com um estudo, Babies and Bosses6 produzido em 2004, em
Portugal desde o ano 1980 até 2002 a percentagem de famílias em que os dois trabalham tem aumentado e isso leva a que o tempo que as famílias despendem com os filhos, por exemplo, em brincadeiras também vá diminuindo, produto de uma maior preocupação por parte das mesmas com o nível económico. Daí que afirmações como estas, “Com a minha mãe e o meu pai brinco pouquinho porque eles têm muito trabalho para fazer”, diz MS: F6 e ainda “a minha mãe está sempre a dormir porque vem cansada do trabalho e às vezes acorda de mauhumor”, remata CR: F6, poderão continuar a surgir se as famílias não reservarem tempo para se divertirem com os filhos e valorizarem a brincadeira reconhecendo-lhe a máxima importância sem terem como alvo as aprendizagens da criança.
Ferland, relativamente ao direito à infância e ao brincar, refere que no contexto social e familiar esse direito “é muitas vezes esquecido, não por má vontade mas por falta de reflexão sobre o sentido e a importância desta fase do desenvolvimento”. O autor levanta algumas questões que permitem ao leitor reflectir sobre a importância de deixar as crianças descobrirem o mundo através do prazer, uma vez que essa é uma forma bela de iniciarem a vida (2006, p. 39).
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A partir desta análise chegamos à conclusão que os amigos e os pais são aqueles com quem a criança partilha as suas brincadeiras no seu dia-a-dia. Contudo, é visível nas respostas das crianças, e elas manifestam essa percepção, de que nem sempre os pais estão disponíveis ou dispostos para brincar com elas, devido à sua profissão. Isso implica que a criança nesses momentos brinque sozinha e a partilha de emoções/saberes seja nula.