A finalização do ataque ocorre quando este, a partir da organização que estabeleceu anteriormente através da circulação da bola e dos jogadores, tenta ultrapassar a defesa levando-a a cometer erros, utilizando para o efeito diferentes meios tácticos individuais ou de grupo, para conseguir romper o equilíbrio ataque / defesa, possibilitando a um dos seus elementos condições favoráveis para rematar à baliza do adversário.
O rendimento das equipas na finalização é habitualmente analisado através de diversos indicadores, como por exemplo o local onde ocorre a finalização bem como os meios tácticos que antecedem a finalização, para além da eficácia do remate e da zona da baliza para onde a bola é dirigida.
Relativamente à eficácia do remate, esta é habitualmente associada à localização, sendo igualmente considerada a eficácia referente à totalidade dos remates efectuados, independentemente do local. Assim, nas denominadas estatísticas oficiais das competições, habitualmente são divulgadas as eficácias do remate por zonas (de seis metros, de nove metros, das pontas, de contra-ataque, de sete metros e do remate em penetração) e ainda a eficácia total referente à relação entre o número total de golos marcados e o número total de remates efectuados, sendo que esta há já muito tempo se mantém acima dos 50%, como refere Czerwinski (1998).
Com os resultados oficiais das últimas principais competições internacionais de seniores masculinos, elaborámos um quadro que permite verificar que as zonas onde são finalizadas as sequências ofensivas parecem relacionar-se com o resultado do remate, já que a eficácia na finalização obtida de cada uma das zonas é diferente, conforme é possível observar no Quadro 19.
Quadro 19 – Eficácia do remate, por zonas e situações de finalização, nas últimas grandes competições internacionais de seniores masculinos (valores médios)
CE 2000 CE 2002 CM 2003 CE 2004 CM 2005 Eficácia total no remate 54% 53% 53% 54% 55% Eficácia no remate de 6 metros 73% 64% 64% 71% 56% Eficácia do remate da ponta 52% 54% 55% 54% 54% Eficácia no remate de 9 metros 40% 38% 39% 37% 38% Eficácia no remate de 7m 71% 69% 71% 71% 73% Eficácia do remate de contra-ataque 73% 76% 71% 74% 75%
As eficácias mais elevadas são obtidas no remate em penetração aos seis metros, no remate de contra-ataque e no remate efectuado na sequência do livre de sete metros, contrariamente ao remate de nove metros onde a eficácia é menor.
No entanto, em termos relativos e considerando as diferentes zonas e situações, é dos nove metros, ou seja da primeira linha, que as equipas finalizam maior número de vezes (ver Figura 14).
0,0% 5,0% 10,0% 15,0% 20,0% 25,0% 30,0% 35,0% 40,0% 45,0% CE 2000 CE 2002 CM 2003 CE 2004 CM 2005 6 m Ponta 9 m 7 m Contra-ataque Penetração
Figura 14 – Proporcionalidade da finalização por zonas, em cada uma das competições consideradas Legenda: CE- Campeonato da Europa; CM- Campeonato do Mundo
Antón Garcia (1991), relativamente ao Campeonato do Mundo de 1990, obteve valores muito semelhantes no respeitante à distribuição dos remates por zonas, embora não tenha considerado o remate em penetração: primeira linha – 44%; ponta- 14%; sete metros – 9%; Contra-ataque – 13% e dos seis metros – 20%. A eficácia do remate por zonas, ainda relativamente ao Campeonato do Mundo 1990 e segundo o mesmo autor, registou valores aproximados aos registados nas competições acima mencionadas: sete metros – 75%; primeira linha – 34%; Pontas – 53%; Contra-ataque – 73% e seis metros – 63%.
Os meios tácticos individuais e de grupo, utilizados previamente à finalização, foram já objecto de diferentes estudos (Antón Garcia, 1991; Barbosa, 1999; Gomes, 2002; Mortágua, 1999; Prudente, 2000).
Sendo propiciadores de situações de finalização mais favoráveis, os meios tácticos individuais e de grupo são utilizados diferentemente consoante a situação de jogo, nomeadamente a relação numérica, a zona do terreno de jogo, o método de jogo e a forma de organização defensiva utilizada pelo adversário.
Barbosa (1999), considerando diferentes meios tácticos (individuais, de grupo, combinações tácticas em situações especiais e esquemas tácticos), verificou quais os
mais utilizados nas situações de relação numérica de igualdade, superioridade e de inferioridade.
Num total de 692 meios tácticos utilizados registou que os meios tácticos de grupo foram os mais utilizados em igualdade (66%), superioridade (66%) e em inferioridade numérica (68%), sendo os meios tácticos individuais utilizados em igualdade, superioridade e inferioridade com valores de 34%, 35% e 32% respectivamente.
As combinações tácticas em situações especiais (livres de nove metros e jogo aéreo) apenas ocorreram em situação de jogo em igualdade numérica e com um valor baixo de 0,7%.
Em superioridade numérica, o meio táctico individual mais utilizado foi o remate, através da iniciativa do jogador com bola, enquanto as penetrações sucessivas e a Entrada à segunda linha, foram os meios tácticos de grupo predominantemente utilizados nesta situação de jogo.
Em igualdade numérica, a desmarcação foi o meio táctico individual mais utilizado, enquanto em relação aos meios tácticos de grupo, as penetrações sucessivas e a Entrada à segunda linha foram também as mais utilizadas.
Em inferioridade numérica, o “um contra um” foi o meio táctico individual mais utilizado e a Entrada à segunda linha, bem como as penetrações sucessivas, foram os meios tácticos de grupo privilegiados.
Prudente (2000), num estudo sobre a concretização do ataque em superioridade numérica, obteve registos em que as penetrações sucessivas, com valores entre 31,4% e 34,9%, foram o meio táctico mais utilizado, seguidos do passe picado (18,6% -21,6%) e do bloqueio (15,7%- 18,6%).
Numa análise aos meios tácticos utilizados pelas diferentes equipas, participantes no Campeonato do Mundo de 1990, Antón Garcia (1991) observou um valor médio de utilização das penetrações sucessivas de 13,5% por equipa, sendo o cruzamento o meio táctico mais utilizado com uma média de 36,8%. Neste estudo, a cortina e o bloqueio, com 19% e 16% respectivamente, foram o segundo e terceiro meio táctico mais utilizado.
Ao estudar a organização da fase ofensiva em equipas portuguesas de alto rendimento, Mortágua (1999) comparou os meios tácticos utilizados nas sequências ofensivas com remate e as terminadas sem remate. Constatou, em ambos os casos, que
de sequências, enquanto os meios tácticos individuais eram predominantes, tanto nas sequências com remate (53,3%), como nas sequências sem remate (56,1%). Os meios tácticos de grupo foram utilizados em 44,7% das sequências com remate e 41,7% das sequências sem remate. O remate espontâneo, a finta e a desmarcação foram, por esta ordem, os meios tácticos individuais mais utilizados, sendo a desmarcação/assistência o meio táctico de grupo mais utilizado, seguido das penetrações sucessivas e do cruzamento.
Ao analisar o jogo em inferioridade numérica durante o Campeonato do Mundo de Seniores masculinos, Gomes (2002) comparou os meios tácticos utilizados em situação de jogo de inferioridade numérica com os utilizados em situação de igualdade e superioridade (ver Quadro 20).
Quadro 20 – Percentual de utilização dos diferentes meios tácticos, mais utilizados, em diferentes relações numéricas (Gomes, 2002)
Meios Tácticos Jogo em igualdade 6x6 Jogo em superioridade 6x5 Jogo em inferioridade 5x6
Passe de ruptura 29% 39,2% 29,7%
Entrada à 2ªlinha 20,8% 2% 8,1%
Penetrações sucessivas 9,8% 29,4% 5,4%
1x1 (um contra um) 19% 13,7% 48,6%
Cruzamento 12,6% 9,8% 8,1%