O Andebol é um jogo desportivo colectivo de cooperação / oposição, de participação simultânea, jogado num terreno comum e num ambiente de instabilidade e incerteza que obriga a constantes adaptações e tomadas de decisão pelos jogadores. Caracterizado ainda por uma grande complexidade de movimentos, realizados com e sem bola, executados em regimes variáveis de velocidade e força, determinados pela colaboração com os companheiros de equipa e pela luta directa com o adversário (Cercel, 1990).
O jogo desenrola-se num terreno rectangular de 40 m x 20 m, dividido ao meio pela linha de meio campo, com duas balizas, bem como duas áreas delimitadas pela linha final e por uma linha quase em semicírculo colocada a seis metros de cada uma das balizas, que constituem áreas restritivas onde apenas o guarda-redes está autorizado a permanecer e se pode movimentar. Existe ainda uma linha marcada a tracejado, a 3 metros da linha de cada área de baliza, designada como linha de lançamento livre. A zona entre estas duas linhas é de acesso restrito, nos momentos da marcação de lançamentos livres, devendo os jogadores atacantes manter-se obrigatoriamente fora dela até que a bola saia da mão do lançador.
Os restantes jogadores para além do guarda-redes, designados como jogadores de campo, disputam a bola e o espaço de jogo, com o objectivo de a levarem a uma posição de onde possam rematar eficazmente, de modo a cumprirem o objectivo do jogo que é o de introduzir a bola na baliza adversária, fazendo-a ultrapassar na totalidade, a linha de baliza situada entre os postes, marcando golo.
Para tal, os jogadores podem passar a bola entre si utilizando as mãos, ou progredir com ela utilizando o drible, respeitando o regulamento que os impede de caminhar com a bola na mão mais do que três passos, de tocá-la com a parte do corpo abaixo do joelho, de permanecer com ela nas mãos mais do que três segundos, ou de
O jogo começa com a bola atribuída, por sorteio, a uma das equipas, que de imediato começa, através da cooperação entre os seus elementos, a tentar aproximar- se da baliza adversária e a ocupar as zonas eficazes de remate, de modo a pontuar marcando golo. Em simultâneo, os elementos da equipa contrária tentam, em primeiro lugar, impedir a progressão e a conquista de espaços perto da sua baliza, ao mesmo tempo que procuram conquistar a bola para contra-atacar e por último, defendem a sua baliza em cooperação com o seu guarda-redes.
Apesar da restrição na utilização das zonas delimitadas pela linha de 6 m, denominadas áreas de baliza, as acções de jogo podem desenrolar-se por cima das duas áreas, através do designado “jogo aéreo”, em que os jogadores recebem e rematam após a recepção da bola no ar e antes de tocarem no solo, desde que a impulsão tenha tido lugar também no exterior da área de baliza, aumentando assim a área útil de jogo.
Cada equipa é composta por 14 jogadores, dos quais apenas sete permanecem no terreno de jogo, sendo um guarda-redes e seis jogadores de campo, enquanto os outros sete se sentam no banco de suplentes. Poderá ocorrer um número ilimitado de substituições sem necessidade de interrupção do jogo, o que permite manter um ritmo elevado ao longo de toda a partida; permite igualmente substituições defesa/ataque sem interrupção do jogo, e uma gestão do plantel pelo treinador durante o mesmo. Os jogadores envolvidos nas substituições têm de sair e entrar no terreno de jogo, sempre pela zona de substituições da sua equipa, uma zona entre a linha de meio campo e uma outra, de 15 cm colocada na linha lateral e situada a 4,45 m da primeira.
Os jogadores suplentes, para entrarem no terreno de jogo, têm de aguardar que os jogadores que eles estão a substituir já o tenham abandonado. Esta zona de substituições limita a utilização de jogadores especialistas na defesa e as substituições defesa/ataque sem, no entanto, impedir tal procedimento. A actual zona, reduzida a uma faixa de 4,45 m a partir da linha de meio campo, foi o resultado da alteração de regras ocorrida no início dos anos setenta (anteriormente as substituições podiam ser feitas em qualquer zona da linha lateral, no meio campo defensivo de cada equipa), alteração efectuada visando combater a utilização excessiva de jogadores especialistas na defesa, criando mais dificuldade nessas substituições, e por outro lado fomentando a formação multilateral de jogadores, com óbvios resultados na qualidade do jogo.
A partida tem a duração de dois períodos de trinta minutos cada, com um intervalo de dez minutos, podendo cada equipa solicitar um Time – Out ou tempo de
paragem de um minuto em cada período de jogo, com excepção dos prolongamentos onde não se aplica. A contagem do tempo só é interrompida obrigatoriamente, durante os Time – Out solicitados pelos treinadores, ou quando assinalados pelo árbitro com o objectivo de ser prestada assistência a um jogador, ou quando exista uma exclusão, desqualificação ou expulsão, aquando de um sinal de apito do cronometrista ou delegado técnico e ainda quando sejam necessárias consultas entre os árbitros (Regra 2.8 das Regras de Jogo).
O Time – Out, que só pode ser solicitado quando a equipa está de posse da bola, permite uma intervenção mais eficaz do treinador junto da equipa que dirige, constituindo um momento do jogo de Andebol onde todas as capacidades do treinador são colocadas à prova, já que, segundo Oliveira (2000), o treinador terá de demonstrar, em situação de stress competitivo e num reduzido período de tempo:
1) Se tem conhecimentos técnico-tácticos profundos para transmitir as soluções imediatas face às razões que o levaram a solicitar o desconto de tempo.
2) Se domina a arte de saber comunicar.
3) Se controla as suas emoções para que o seu discurso transmita a intenção que pretende.
4) Se é capaz de antecipar as acções do adversário.
O guarda-redes é o único que pode permanecer dentro da área de baliza, podendo utilizar qualquer parte do corpo para interceptar a bola, enquanto aí estiver. Pode igualmente sair desta área, tornando-se jogador de campo, sujeitando-se às regras dos restantes jogadores enquanto aí permanecer.
Esta possibilidade é utilizada pelas equipas, durante o jogo, de duas maneiras distintas: por um lado, a colocação do guarda-redes fora da área de baliza, quando a sua equipa está ao ataque, condicionando deste modo os possíveis passes longos do contra-ataque adversário e saindo da área para jogar com os seus colegas, recebendo um passe, quando existe marcação individual com pressing, resolvendo assim a situação de dificuldade na obtenção de linhas de passe e progressão da sua equipa; por outro lado, em situações especiais de jogo, nomeadamente instantes finais da partida, quando a sua equipa está a perder, sendo substituído por um jogador de campo, que passa a ser designado como guarda-redes (no respeito pelo regulamento,
nomeadamente em relação ao equipamento e cor do mesmo), podendo assim a sua equipa atacar com sete jogadores de campo.
Sendo um jogo de contacto e de luta directa, as regras punem severamente o contacto não regulamentar com os adversários, de modo a defender a integridade física dos praticantes, tendo as sanções um carácter progressivo quando a acção é dirigida principalmente ou exclusivamente ao adversário e não à bola. Isto significa que, para além do lançamento livre ou do lançamento de sete metros, existe também a aplicação de uma sanção disciplinar. Esta começa pela advertência verbal, passa pela advertência com amostragem do cartão amarelo, exclusão temporária por dois minutos, desqualificação por acumulação de três exclusões, desqualificação directa e por fim a expulsão definitiva, dado que a conduta anti desportiva também é sancionada de modo progressivo (Regra 8.3).
A aplicação desta regra tem implicações profundas no jogo, ocasionando constantes alterações da relação numérica entre as equipas ao longo da partida, sendo frequentes as situações de jogo 6x5, 5x6 e 5x5, (Mraz, 1988; Prudente, 2000), para além do 6x6 e de outras relações menos frequentes e marca de forma muito clara o jogo de Andebol.
As dimensões do campo de 40 m x 20 m e o tamanho da bola que tem de 58 cm a 60 cm de circunferência, o que permite o agarrar da mesma com uma só mão, favorecem a possibilidade das acções de jogo passarem rapidamente de uma área para outra, permitindo situações de finalização em número elevado em cada uma das balizas e contribuindo para a velocidade e espectacularidade do Andebol. De acordo com Antón Garcia (2005) e Taborsky & Sevim (2004), o número médio de golos marcados por jogo ultrapassa neste momento os 54 golos, o que significa um número de remates superior a cem (100), em média, num jogo com uma duração de 60 minutos.
Os jogadores dispõem-se no terreno de jogo no ataque, ocupando postos específicos, e envolvendo a organização defensiva adversária, de modo a garantir uma circulação da bola rápida e segura a toda a largura da frente de ataque, circulação de bola que é utilizada para criar situações de ruptura, facilitadoras do remate à baliza, desde que feita com continuidade, fluidez.
O guarda-redes, os extremos ou pontas, os laterais, o central e o jogador pivot são exemplos de postos específicos que os sete elementos de uma equipa ocupam quando estão a atacar, i.e., quando cooperam entre si de modo a ultrapassar a oposição
dos adversários para conseguirem alcançar o objectivo do jogo: colocar a bola dentro da baliza do adversário.
Devido a uma maior proximidade, bem como à forma como o jogo se organiza, prioritariamente em situações de jogo 1x1, 2x2, 3x3, 1x2 e 2x1, existem diferentes redes de cooperação privilegiadas dentro de uma equipa: ponta e lateral do mesmo lado; ponta, lateral e central; central e laterais; central e pivot; central, pivot e lateral; lateral e pivot; ponta e pivot. Estas relações de comunicação estabelecem-se, ainda que sempre dependendo do sistema defensivo contrário, com diferentes proporcionalidades entre os diferentes postos específicos, conforme refere Antón Garcia (2005):
1) Central-lateral esquerdo (30%); Central-lateral direito (30%); Central- extremo direito (10%); Central-extremo esquerdo (10%); Central-pivot (20%).
2) Lateral-central (35%); Lateral-lateral contrário (20%); Lateral-extremo do mesmo lado (25%); Lateral-extremo do lado contrário (5%); Lateral-pivot (15%).
3) Extremo-lateral do mesmo lado (50%); Extremo-central (20%); Extremo- lateral contrário (10%); Extremo-pivot (15%); Extremo-extremo contrário (5%).
4) Pivot-central (30%); Pivot com cada lateral (20%); Pivot com cada extremo (15%).
Estes dados confirmam a afirmação de Lago Peñas y Martin Acero (2005), quando classificam o Andebol como uma modalidade “segmentar” (modalidades em que os episódios de duelo são imediatos, ocorrendo sempre no espaço defensivo da equipa que não possui a bola), em que as interacções entre os jogadores, nalguns casos, correspondem a um vínculo predeterminado, como por exemplo entre os extremos e os laterais e entre os laterais e o central, sendo o vínculo esporádico no caso do pivot, dado que interage ora com o central, ora com o lateral e interage ainda com o extremo.
Se os atacantes pretendem que o jogo seja fluido, sem quebras de fluxo de jogo, os adversários procuram, no mínimo, interromper o fluxo de jogo, jogando nos limites do regulamento e forçando o ataque a parar, obrigando a um jogo mais
posicional, facilitador dos comportamentos na defesa, sejam eles mais ofensivos ou mais defensivos.
O jogo “mais posicional”9 e sem circulação de jogadores é mais fácil para a defesa, porque assim esta necessita de recorrer menos a trocas de marcação, e portanto, com inferior probabilidade de cometer erros. Este comportamento defensivo activo, de “atacar o ataque”, típico do Andebol actual, justifica que mais de 60% das acções de remate aconteçam com uma oposição defensiva directa, inclusive nos remates das pontas, que em alguns casos ocorre com carga e contacto do adversário (Antón Garcia, 2005).
O método de jogo ofensivo mais utilizado pelas equipas, qualquer que seja a relação numérica existente, é o ataque organizado (Barbosa, 1999; Czerwinski, 1991; Mortágua, 1999; Prudente, 2000), embora se possa constatar um aumento da utilização do contra-ataque. Isto acontece porque a recuperação da bola, após êxito total do ataque adversário, continua a ser maioritária dentro das diferentes formas de recuperação da mesma (Mortágua, 1999; Prudente, 2000), ou bastante elevada. (Sousa, 2000) registou um valor de 44,1%, de sequências defensivas que terminam com golo sofrido, no caso do grupo de equipas classificadas nos primeiros quatro lugares do Campeonato da Europa de 2000 e de 52,9% no caso de Portugal durante a mesma competição.
Tal facto significa que, maioritariamente, o jogo decorre entre uma equipa que ataca de forma organizada com os seus elementos ocupando os diferentes postos específicos, nomeadamente as quatro posições fundamentais (ponta direita, ponta esquerda, lateral direito e lateral esquerdo) e uma equipa que defende, já organizada com um sistema defensivo devidamente estruturado, com os jogadores colocados nas suas posições iniciais.
Esta situação, a que se junta um comportamento activo da defesa, que ao invés de apenas defender a sua baliza “ataca o ataque”, obriga a um comportamento ofensivo não posicional, com os jogadores a mudarem de postos específicos (utilizando as permutas, as entradas e a circulação de jogadores) e em que a transformação do sistema atacante constitui um meio de alcançar eficácia no ataque (Antón Garcia, 2000; Herrero, 2002).
9 JOGO DE ATAQUE POSICIONAL- aqui referido por oposição a um jogo de ataque dito de circulação. Referente à fase de jogo do ataque em que a equipa com bola defronta uma defesa organizada em sistema, e os seus jogadores mantêm-se na sua posição inicial de actuação (posto específico no ataque) até final da sequência ofensiva.
Neste aspecto, a relação numérica influencia o comportamento no ataque. Assim, em superioridade numérica simples ou grande, aumenta a utilização do jogo mais posicional, enquanto em igualdade e em inferioridade, aumenta a circulação dos jogadores, bem como as transformações do sistema de ataque.
A entrada de um jogador de primeira linha ou de um extremo, para o interior da defesa contrária constitui o modo mais utilizado para realizar essa transformação, de um sistema 3:3 num sistema 3:3-2:4.
O jogo decorre numa alternância de situações ataque/defesa e de ataque/contra-ataque. Ataque organizado face a uma defesa organizada e estruturada, no início do jogo e em todos os momentos após interrupção, por falta cometida pelos defensores, assim como, na maior parte das vezes, após ataque finalizado com golo, apesar da alteração das regras de 1997 e 2001 favorecer as situações de contra-ataque através da reposição rápida da bola após golo.
Alternância de situações de ataque/contra-ataque, quando a bola é recuperada pelo guarda-redes após remate para fora e sobretudo, quando a recuperação da bola é efectuada pelos jogadores de campo, de uma forma activa: roubo de bola, intercepção e ressalto defensivo ganho Prudente et al. (2005).
Sequências de jogo em que ocorre ataque/contra-ataque/contra- ataque/ataque/defesa, são uma realidade de um Andebol jogado a grande velocidade, em que as situações de golo iminente sucedem numa e noutra baliza, constituindo momentos espectaculares para o público.
Apesar de utilizarmos os termos tradicionalmente aceites nos JDC, de ataque e defesa, relacionados com o facto de uma equipa estar ou não de posse da bola, estamos de acordo em que esta concepção não traduz por completo a realidade do jogo, já que a equipa que tem a bola, aquela que “ataca”, também “defende” a posse da bola, como sublinha Antón Garcia (2002), protegendo-a, desmarcando-se de forma adequada, situando-se em redor dos sucessivos portadores da bola para garantir a continuidade do jogo, bloqueando para garantir (defender) espaço livre para o portador da bola progredir ou rematar, posicionando-se no terreno de modo a poder contrariar um contra-ataque adversário. Quando não tem a bola, a equipa “defende”, atacando o portador da bola, atacando as linhas de passe mais próximas do mesmo, antecipando-se na ocupação de zonas de penetração, ou seja, atacando o espaço, ocupando-o.
No decorrer do jogo, os jogadores realizam tarefas cooperando com os colegas de equipa e em oposição com os adversários. Desenvolve-se assim um sistema de inter-relações que, originado no jogo, conduz à necessidade de utilização permanente de acções de forma inteligente, face à variabilidade de situações de jogo (Medina, 2003).