2.4 Hydrologisk ekspertise
2.4.2 Nedbørfelt som geografisk ramme – oppsummering
Encontra-se registrado nos documentos sobre a resistência timorense125 que a mulher,
mãe e companheira, assumiu pesadas responsabilidades durante a ocupação daquele país, participando em várias frentes: na condução da resistência, na luta armada, no comando de operações ou na ligação com a Frente Clandestina. Porém, seus testemunhos são escassos.
As jovens que lutaram pela independência e tiveram participação política na reconquista do território tornaram-se mulheres. Muitas abraçaram uma carreira, casaram-se, tiveram filhos e algumas delas, hoje, são vozes mediatizadas que atuam nos meios de comunicação, principalmente no rádio, como jornalistas ou apresentadoras de jornais, mantendo o idealismo que sempre permeou suas vidas. Diariamente divulgam preciosas informações, reafirmando a existência de outra realidade: a das profissionais da mídia, como as jornalistas Rosa Alves e Filomena Soares, às quais se juntam Inês Martins e Ana Paula, respectivamente produtoras, locutoras e diretora da RTTL – Rádio e Televisão de Timor- Leste. Outras, como Maria Genoveva da Costa Martins e Adalgisa Ximenes são ativas no
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Parlamento, deslocam-se a muitos cantos do país, contribuindo para um debate de idéias que têm marcado a vida de tantas mulheres distantes do centro mais urbanizado, transformando- as em políticas públicas. Há ainda educadoras que viveram tempos difíceis, como Eugênia Neves, que prossegue seus estudos de pós-graduação fora de casa.
Na vida de todas elas, no tempo presente, a memória dos acontecimentos está sempre impregnada de emoções, reminiscências de um passado que se refaz no relembrar, como na tecelagem do táis, quando um emaranhado de fios transforma-se em imagens, motivos de cores mescladas na criatividade da obra pronta.
É sempre complexo falar de memória, pois a tendência atual é considerá-la apenas uma reminiscência do passado inspirador. Porém, lembra-nos Ulpiano Menezes (2007, p. 32), “o tempo da memória é o presente, mas ela necessita do passado”. Retomamos aqui uma definição trazida por Jerusa Pires Ferreira em um de seus vários textos sobre o tema e que sintetiza estas relações de tempo (2004(a), p. 1):
Quando falamos em memória, queremos dizer muita coisa. Ato memorial, em seus processos, implicando o lembrar em muitas gradações, e o esquecer, que também pode ser regulação ou ato restaurador. Estamos pensando ainda, ao falar de memória, na diversidade cognitiva e afetiva que memória implica, enquanto conceito, procedimento.
Enquanto Eclea Bosi (2007, p. 48) considera a anamnese, a reminiscência, como uma espécie de iniciação, a revelação de um mistério, para Jerusa Pires Ferreira ela é a “memória em narração”, uma “memória revificada” (2007(a), p. 110), que “é movimento, é transformação, é alguma coisa que vai entre o que você guarda e o que você esquece o tempo todo...”.
A partir da organização do que a memória evoca, nesse vai e vem do lembrar e esquecer, como um tecer, a vida é traduzida em palavras que tomam corpo, forma e cor em todos os ambientes onde a energia da voz repercute. Memória é trama de muitos fios superpostos, tramas paralelas, horizontais como linhas da vida que não desfiam, mas desfilam com seu brilho ou opacidade.
No tempo presente, existiria, segundo Fausto Colombo (p. 17) uma obsessão pela memória, uma mania arquivística que permeia a cultura e a evolução tecnológica. Buscam-se suportes cada vez menores e espaços infinitos para se armazenar informações passadas e presentes, numa tentativa de oferecer ao homem atual uma proteção contra o esquecimento.
Porém, essa informação, lembra Bosi (2007, p. 45) só suscita interesse enquanto novidade e só tem valor no instante que surge, para se esgotar no instante em que se dá e se
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deteriora: “Que diferente a narração! Não se consuma, pois sua força está concentrada em limites como a da semente e se expandirá por tempo indefinido”.
No mesmo sentido caminha o pensamento de Jesús Martín-Barbero (1998 (a), p. 33), para quem haveria uma “desvalorização da memória” nos dias atuais, quando a informação, volátil, toma a dianteira. O autor considera que os adultos ressentem essa perda como uma mutilação. Mas a juventude vê o fenômeno como um sinal de seu tempo e se identifica com ele: “Um tempo que projeta o mundo da vida sobre o presente, um presente contínuo cada vez mais efêmero”.126 Esse tempo passa velozmente, sem ter tempo para criar raízes, principalmente nos ambientes nômades das cidades, no imediatismo da convergência das mídias.
Ao discorrer sobre cultura e memória no pensamento de Lótman, Jerusa Pires Ferreira (1994-5, p. 118) afirma que a história intelectual da humanidade pode ser considerada “uma luta pela memória”. Contudo, para o autor citado (apud PIRES-FERREIRA, 2007(a), p. 109):
A cultura não é como uma organização que surja aleatoriamente em um ambiente, mas trata-se de um complexo sistema de signos que transmitem e são decodificados. E só parece haver memória se houver um certo grau de intersecção, de troca, de reconhecimento.
Por esta razão - e para que não se percam os referenciais -, há necessidade de se legitimar a palavra feminina com tudo o que ela comporta de dúvidas, inquietudes, questionamentos, vivências e ideais.
O espaço do relembrar é amplo e significativo: família, guerrilha, ideais, casamento, profissão, tudo o que direciona a vida, sem mistérios. Reconstituir a história dessas mulheres, através de suas narrativas é vivificar a memória daquilo que foi sonhado e está sendo construído, é unir o presente ao passado, à vida social, profissional e pessoal.
Há muitas histórias silenciadas e a das mulheres é uma delas, como lembra Michelle Perrot. Mas ao narrar elas alteram a direção dos fios, outro enredo se nos impõe.
Se em inúmeras sociedades tradicionais as mulheres atuaram como narradoras, segundo Perrot, em Timor-Leste esta tarefa é marcadamente masculina. Assim, trata-se de uma ação relevante esta de ouvir, transcrever e analisar os relatos femininos que permitem não apenas avaliar que lugar elas ocuparam e ocupam na sociedade em tempos de guerra e de paz, mas também conhecer novos pontos de vista que são sempre reveladores de mudanças, como ressalta Carla Garcia (1998, p. 17):
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Reler o passado através do olhar feminino implica que este passado pode ser lido de maneiras múltiplas, que os fatos contados pela tradição histórica não são totais, que as mulheres têm uma outra verdade a descobrir sobre elas mesmas e demonstram a tentativa de não submeter a experiência feminina à categoria de análises fechadas, mas construí- las a partir da experiência social feminina.
O feminismo, desde seus primórdios, pontua Perrot (1989, p. 17-8), “desenvolveu uma imensa interrogação sobre a vida das mulheres obscuras” e, para a autora, “na falta de testemunhos escritos, buscou-se fazer surgir o testemunho oral”. Daí a preocupação em tornar visível, acumular dados, evidenciar o papel das mulheres nos acontecimentos públicos, instituir lugares da memória, pois enquanto “forma de relação com o tempo e com o espaço, a memória, como a existência da qual ela é o prolongamento, é profundamente sexuada”.
Houve muitas reticências, ao longo dos anos, para se ouvir as mulheres. Françoise Héritier, ao evocar Dominique Godineau, lembra que (2004, p. 64), “a voz das mulheres é tumulto, ruído informe, quando vem do povo (...) Incomoda com o seu barulho e o conteúdo não é ouvido”. A palavra feminina, ressalta Perrot (1989, p. 15) sofreu um certo refluxo no século XIX, “desqualificada pelas formas de comunicação modernas, os sucessos retumbantes da escrita: correspondência, cartões-postais, diários”. Ao mesmo tempo, perdeu- se uma função tradicional e houve ruptura de certas formas da memória.
Outros silêncios marcaram o curso de nossa história. Claude Filteau, em seu texto Miron et le partage du sensible (2009, p. 103) lembra que na República de Platão, os artesãos foram excluídos do espaço político comum porque tinham que se dedicar exclusivamente ao trabalho. A palavra desses trabalhadores, “confinada ao espaço doméstico, fica longe da palavra audível, por conseqüência, longe da palavra que possui um valor político e confere uma humanidade àqueles que são reconhecidos”127. Há, portanto, muita semelhança com a situação das mulheres que vivem silenciadas no lar.
Interessa-nos saber o que as timorenses, outrora guerrilheiras, guardam na memória sobre os anos de resistência e que ainda não foi escrito. O que as faz diferentes dos homens que lutaram para que o país fosse enfim uma nação independente e livre? Como se colocaram no mundo profissional? De que modo a ocupação indonésia marcou, demarcou o território feminino – já que a luta sempre foi uma maneira de adentrar no campo masculino e a imagem de guerreiros por séculos foi fixada e associada à essência do ser homem? Que sensibilidades moveram aquelas que penetraram neste território e experimentaram tantas rupturas em suas vidas e destinos? Foram muitas as indagações e extensas as respostas.
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Dedicamos algumas horas de escuta atenta a como elas disseram, ao que disseram – o signo – em atitude de muito respeito pelas palavras que nos revelaram o significado que tudo isso teve em suas vidas, em que direção elas se projetam para nos mostrar o lado objetivo e o subjetivo. Os relatos, na visão de Mihail Popp, citado por Jerusa Pires Ferreira (2010, p. 85) podem ser considerados “como um ato semiótico, observando a convergência e divergência entre categorias, e determinando a significação de cada categoria como um signo” e isso, no entender da autora, “se configura no sentido da apreensão entre o que alguém nos diz, comunica, revela ou fascina”. E como exemplo, cita que até mesmo o brilho nos olhos do narrador que se lembra transmite-nos um pouco desta iluminação: “De pronto, a memória reacende-se num fluxo ininterrupto que nos desperta associações contínuas ou há algo no seu dizer que vai ter a força que suspeitávamos e que se faz imantar como limalhas”. E foi desta maneira que captamos a palavra das mulheres timorenses.
Embora nesse rememorar de tempos difíceis os indonésios sejam citados, não há aqui intenção de análise ou reflexão sobre suas atitudes ou particularidades relativas à ocupação, duradoura fonte de sofrimento. Pretendemos simplesmente captar o significado da memória social a partir das mulheres que deram sentido à própria luta, à vida, se voltaram à causa coletiva. Evocamos aqui o pensamento de Eclea Bosi (2007, p. 43) quando discorre sobre a função social da memória, trazendo-nos a idéia de que “a arte da narração não está confinada nos livros, seu veio épico é oral. O narrador tira o que narra da própria experiência e a transforma em experiência dos que o escutam”.
Os relatos que ouvimos são histórias únicas, pessoais, onde a palavra aparece em toda sua extensão e importância, através da voz que fala ao microfone, organiza a informação, reivindica mudanças, se faz ouvir e narra. As memórias das mulheres trazem esperança de futuro, onde a palavra feminina se consolida, anima, conforta e dá lições.
Nesse tempo de um relembrar projetivo, atemo-nos às idéias de Jerusa Pires Ferreira que embasam nossa proposta (2007(a), p. 110):
Pensar a memória como um ato político é situar-se em uma relação entre seu presente e um passado móvel – não um passado congelado, mas um passado que propõe muitas interpretações e não apenas uma versão, que propõe criação, projeção. Memória do futuro. Assim, essa preocupação com a memória é que constrói, também, a idéia desse jogo de memória e esquecimento, e que lida com a própria idéia projetiva do passado a partir das concepções visionárias ou transformadoras.
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