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Moderne tekniske systemer som kulturminnefaglig utfordring

Já o espectro radiofônico do país é o mais abrangente e de acesso facilitado. É preciso lembrar que o rádio em Timor-Leste está vinculado à sua história, às lutas de ocupação, violência e resistência (BORGES, 2003, p. 17) e é o meio de comunicação mais popular.

As notícias dos movimentos de libertação, após a data histórica de 25 de abril de 1974, eram veiculadas pelo rádio sob a forma de comunicados da Junta de Salvação Nacional, segundo Luís Cardoso (2002, p. 96), assim como se esperava a publicação de discursos políticos no Jornal A Voz de Timor:

Os programas radiofônicos partidários, que no início tinham uma feição de programas de divertimento, passaram a autênticos relatos de futebol (...) com insultos a atletas, árbitros e demais parentes. Estalou a guerrilha radiofônica.

Em quase todas as fotografias de bases guerrilheiras que encontramos na obra de José Mattoso A Dignidade (2005, p. 123), o aparelho de rádio sempre aparece em destaque, indicando como a escuta do veículo era relevante.

Segundo o diretor do Centro Rádio Comunidade - CRC, o invasor indonésio controlava a mídia oficial e perseguia os meios focados no movimento de resistência. Uma rádio clandestina das FALINTIL - Forças Armadas de Libertação Nacional de Timor-Leste, sobreviveu até o final de 1999. Hoje, ela serve ao público para divulgar músicas e notícias.

Durante o período de transição pós-referendum, de 1999 a 2002, quando Timor esteve sob a administração da UNTAET - Administração Transitória das Nações Unidas para Timor

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Leste - e que oficialmente não tinha preferência pela língua a ser adotada-, a Rádio UNTAET FM reservou espaço para transmissões nas quatro línguas que utilizava, a saber: inglês, indonésio, português e tétum. Contudo, tentou fechar as rádios comunitárias, que funcionavam sem “autorização”, gerando protestos da Rádio Falintil (RÁDIOS COMUNITÁRIAS, 2001, p. 9), cujo resultado foi a permissão vitalícia para todas estas rádios.

Tendo iniciado sua vida profissional no rádio na época da UNTAET, a Diretora da RTTL, Ana Paula Rodrigues (2006)76 comenta sobre a transição lingüística que vivencia na organização da mídia timorense:

Muitas línguas é uma herança, é uma riqueza e baseado também na Constituição da República – porque a língua indonésia e inglesa é língua de trabalho. Por causa dos recursos humanos. Tempo anterior, tempo UNTAET, temos aí quatro línguas: tétum, português, indonésio e inglês. Mas depois transferência de poder de 2002 até a data, tentamos, mas ainda não conseguimos, porque em termos de recursos humanos, não temos capacidade para isto.

O rádio se faz presente em vários pontos do território e tem audiência em localidades distantes e de difícil acesso77. Existem hoje no país dezesseis emissoras comunitárias emitindo em FM que cobrem parte importante do território e transmitem principalmente nas línguas tétum e indonésia, tendo introduzido o português mais recentemente em parte de sua programação, com o apoio dos Ministérios da Agricultura, Saúde e Educação. Há também registro de uma rádio experimental operando por alto falantes que iniciou sua programação recentemente na comunidade de Vila Mau-Meta, na ilha de Ataúro. Incentivada pelo Pe. Francisco (Chico) Moser, que já desenvolveu esta prática na periferia de Fortaleza (AMARANTE, 2004, p. 45), este sistema tem sua origem nas chamadas “radiadoras”, muito comuns nas cidades do interior do nordeste brasileiro antes do aparecimento da televisão e que transmitia apenas músicas e informações de utilidade pública. A maioria delas, nascidas por iniciativa das associações de bairro, contou com o apoio de setores mais avançados da Igreja Católica, reunidas em diversas Pastorais, no momento de progressão das CEBs - Comunidades Eclesiais de Base, que propunha uma igreja participativa.

Há também outras rádios que emitem em inglês, emissoras de ondas médias, como a Rádio Timor Kmanek, da comunidade católica, cujas transmissões ocorrem em AM e FM; a

76 Entrevista concedida à autora em 3 de fevereiro de 2006, em Díli, Timor-Leste.

77 As estradas que serpenteiam as encostas das montanhas apresentam inúmeros perigos como desabamentos

freqüentes e transportes coletivos precários, daí a importância dos meios de comunicação como o rádio. Estudos realizados pelo Instituto Internacional Republicano (IRI), em 2003, demonstram que a vasta maioria da população de Timor-Leste (63%) obtém informação política a partir da rádio, enquanto que um estudo de 2002, conduzido pela Fundação Ásia, aponta para 67%.

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Rádio Voz da Esperança (ex-FALINTIL - Forças Armadas de Libertação Nacional de Timor- Leste); uma emissora evangélica; a Rádio Hakambia; a Rádio Livre Klibur; a RDP Internacional (Rádio Difusão Portuguesa), um serviço da BBC, bem como a emissora oficial, Rádio Timor Leste, da RTTL, da rede de Rádio e Televisão Timor Leste, presente em 12 Distritos do país, que emite em AM e FM na capital, Dili, e nos Distritos de Aileu, Ainaro, Baucau, Bobonaro, Ermera, Liquisa, Lautem, Manatuto, Oecusse, Same, Suai e Viqueque. Pode-se, igualmente, captar emissoras estrangeiras em FM da Austrália e de Portugal (AMARANTE, 2006(b), p. 172).

Recentemente, um serviço de radiodifusão educativa, em português, foi ativado na Universidade Nacional de Timor-Leste – UNTL, com o apoio da Embaixada do Brasil: a Rádio Timor, onde se divulgam diversos programas para difusão da cultura brasileira.

Conforme a Lei das Telecomunicações vigente desde os tempos do governo de transição78, e atualizada após 2002, estão previstos no país três tipos de serviços: o público, o privado/comercial e o comunitário. Porém, não existem rádios privadas e desconhece-se a publicidade neste veículo.

Poucas pessoas, no entanto, tiveram a oportunidade de conhecer um meio de comunicação particularmente local, como a Irmã Vera Lúcia Palermo (2009), quando viveu em Laclubar, região onde se nota o isolamento a que estão sujeitos muitos timorenses:

Outra coisa que me chamou atenção é que o chefe de suco para dar o recado para as pessoas manda alguém subir em cima do telhado e anunciar - e o povo escuta. De vez em quando, a gente via um homem falando em cima do telhado e eles escutam. Lá só quem tinha TV era o pároco (...). Quem traz notícias de Dili são as angunas – notícias de boca – de Dili, de Manatuto. Lá, não podemos receber telefone. Mas para o telemóvel, subíamos nas montanhas de Maubere para captar.

Este meio tão performático de emissão da voz convive harmoniosamente com as ondas sonoras do rádio, apesar das dificuldades técnicas da recepção, como bem observa a religiosa brasileira:

Em Laclubar, eles ficam mais isolados. Eu passei muito tempo sem ver luz. Depois, das seis da tarde até meia-noite, um dia sim, dia não. Eles fazem umas antenas lá do jeito deles e ouvem rádio. De Portugal, da Indonésia, sobretudo – e a timorense. Quando teve o atentado com o Ramos Horta, a aldeia ouviu no rádio. Nós nunca conseguimos fazer essa antena. Agora, os timorenses sabem tudo pelo rádio. De TV, eles não têm e os que têm, assistem filmes da Indonésia.

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Nas feiras livres, a oferta de pequenos transmissores à pilha é significativa e a população ouve rádio em todos os transportes coletivos, nas “angunas”79 e “microletes”80.

Não é raro ouvirmos canções brasileiras dos anos 1970, como se o tempo ali tivesse parado, bem como músicas mais recentes de nosso repertório. E como os timorenses gostam muito de cantar, e o fazem lindamente com vozes melodiosas, elas têm uma ampla repercussão.

Este fenômeno já se fazia sentir antes de 1975, como conta Luís Cardoso (1998) cuja juventude foi marcada pelos sons locais e importados que penetravam na ilha através do rádio:

Enquanto adormecia, ouvia lá longe os solos de violino do Abril Metam 81 e as violas

batendo o compasso certo duma valsa ou o tom jocoso e romântico dos brasileiros Teixeirinha e Roberto Carlos, mais a melosa country americana. Uma mistura de música de explodir os corações. (...) À noite juntava-me aos demais parentes em redor da telefonia para ouvir as encaloradas dedicatórias de amor, desprezo ou ameaças de concorrência embrulhadas com músicas dos sempre Teixeirinha e Roberto Carlos (...). (2002, p. 63-4)

O autor recorda também, canções de amor européias, como as de Gianni Morandi, Non sono digno de te, (2002, p. 82) que “incendiava a rádio todas as noites e era escutada até a exaustão no programa de música a seu gosto”, bem como “canções proibidas de um tal Zeca Afonso – Grândola, vila morena – cantadas por oficiais estudantes (...) e gemidos duma mulher imitados por um cantor, bas fond das discotecas lisboetas, na tal música francesa, Je t´aime moi non plus”.

Com a extensão da eletricidade, esta influência tornou-se mais presente, segundo Cardoso, o que evidencia o ecletismo de estilos (p. 90):

Grupos musicais eletrificados cantavam rock e faziam dançar o iêiê (...) como os Cinco do Oriente e Ué-Lulik, que imitavam os Creedence Clearwater Revival, os Rolling Stones, os Beatles e cantavam algumas canções timorenses com batidas renovadas. Na rádio ouvia-se Amália (...)

Para além da palavra, lembra Arlindo Machado (1986, p. 120), os sons ouvidos no rádio evocam o consciente e o inconsciente, uma vez que se “abre a possibilidade de socializar as nossas subjetividades individuais ou grupais, principalmente através da música”, criando conexões coletivas em toda a sociedade para uma melhoria das propostas de comunicação.

79 Espécie de pequenos caminhões com bancos de madeira nas laterais da carroceria, que lembram nossos “paus-

de-arara” descobertos.

80 Pequenas peruas com abertura lateral, onde são colocados bancos para comportar um grande número de

passageiros.

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O rádio também marcou a vida de Filomena Soares (2006), desde o primeiro aparelho receptor que recebeu de presente do pai, nos tempos de sua infância:

Rádio é um aparelho, é um meio de comunicação. Mas se ele fosse uma pessoa, se ele fosse um homem, era meu marido - que eu gostei desde quando eu conheci (...). É muito difícil para nós para ter aparelho como rádio, gira-discos, gravadores. O meu pai conseguiu comprar um rádio. Quando passei, tirei a minha 4a classe, meu pai ofereceu-

me um rádio, um rádio para mim. Então, com esta rádio, eu gostei, né?

Este poder do rádio de sensibilizar as pessoas há muito foi divulgado por Marchal McLuhan que lhe atribuía qualidades particulares (1964, p. 336-7):

As profundidades subliminares do rádio estão carregadas daqueles ecos ressoantes das trombetas tribais e dos tambores antigos. Isto é inerente à própria natureza deste meio, com seu poder de transformar a psique e a sociedade numa única câmara de eco.

De todas as mudanças que se operaram no veículo desde seus primórdios, o autor acrescenta (1964, p. 342) o poder do rádio de “retribalizar” a Humanidade e de reverter “o individualismo ao coletivismo”, fenômeno que se inverte nos dias atuais no Ocidente com a escuta cada vez mais solitária dos sons radiofônicos pelo fone de ouvido. Porém, em Timor- Leste, ainda se observa uma escuta coletiva, tanto em locais públicos quanto residenciais:

Na minha casa tenho um rádio que funciona com muitos programas. Um rádio médio. Fica mais na sala porque nós não temos uma casa grande. Na sala, é mais confortável para que todos possam ouvir, tenham acesso. Meu filho gosta de ouvir rádio, mas só gosta as músicas. Ele gosta mais das músicas da Indonésia. E a pequenina também gosta, na Rádio Timor, que está influenciada muito com as músicas brasileiras e as indonésias.

Os estudantes de teologia que entrevistamos enfatizam a importância do rádio em suas vidas. Avelino Neves e Abril Lopes (2008) afirmam, em unanimidade, que gostam do veículo para se informar e ouvir reflexões que ajudam a aprofundar a espiritualidade, ou programas com dedicatórias musicais e mensagens, nas emissoras RTL e RTK. A Rádio Timor Kmanic tem grande audiência durante o programa “Manhã Alegre”, que pertence á diocese e tem por missão transmitir mensagens de paz e justiça à população (DE PASSAGEM por Timor-Leste, 2007). Avelino se refere também a um programa especial, que trata diretamente com a comunidade e a ela beneficia (2008): “Eu gostava muito de ouvir a consulta, uma psicóloga timorense que falava sobre as pessoas que estão com problemas e dava solução”.

Para Luiza da Silva (DE PASSAGEM por Timor-Leste, 2007), é através do rádio que as informações se divulgam mais rapidamente:

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A rádio é importante para dar informação à população sobre o que acontece em Timor- Leste; os principais fatos que estão acontecendo pelo país... Se algo acontece na capital, Díli, a população dos Distritos também poderá acompanhar.

Contudo, após o referendum, o país não vivenciou o mesmo processo de reivindicação de uma comunicação participativa como nos tempos das emissoras clandestinas da guerrilha, diferenciando-se de muitos países da América Latina e da Europa, onde foram colocadas em cena inúmeras rádios que desbravaram um território de luta contínua pela democracia para democratizar a palavra. Ali, entre os anos 2001-03, através de muitos projetos financiados por organismos internacionais, incrementou-se a instalação de estúdios e equipamentos de transmissão radiofônica comunitária em diversos Distritos, tendo sido igualmente oferecidas capacitações a comunicadores voluntários (AMARANTE, 2006 (b), p. 171).

Nota-se, porém, clássicos entraves para a participação das comunidades na construção desses novos meios de comunicação, entre eles a sustentação dos projetos, a manutenção das estruturas e a organização interna. Um dos grandes desafios também reside na escolha da grade de programação das emissoras, no fortalecimento de redes locais, regionais e nacionais para intercâmbio de experiências, de recursos e melhores possibilidades de negociação com o Estado e outras organizações sociais e instituições nacionais e internacionais. Com a restrição do uso da eletricidade e a irregularidade de financiamentos, a continuidade desses serviços radiofônicos tem sido prejudicada.

É inegável como as estações de rádio comunitárias, a exemplo de muitas ONGs em atividade no território da ilha, podem contribuir na educação social sobre a democracia participativa e novos modos de gestão democráticos, desconhecidos pela maioria dos timorenses. Afinal, uma rádio local bem concebida, que está próxima dos acontecimentos de uma cidade, será sempre mais ouvida do que outra rádio de contexto mais regional ou administrativo distante, na qual o público se reconhece menos, lembra Kouchner (1994, p. 107).

As mulheres foram incentivadas a participar desses veículos incrementando a produção de programas informativos.

Pode-se perceber que, apesar do veículo constituir uma fonte primária de informações, há muitos desafios para garantir uma boa qualidade e variedade de programação. É que a grande maioria dos comunicadores de Timor, que acabam de reconquistar a cidadania, ainda não se sentem preparados para elaborar matérias que dizem respeito aos temas cotidianos de extrema importância em suas vidas, tais como educação, segurança, igualdade de participação

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das mulheres, informações de utilidade pública, educação e serviços sociais em nível nacional e local.