A pesquisa foi realizada a partir de uma abordagem quanti-qualitativa. Pode-se afirmar que a preocupação central de pesquisa possui caráter qualitativo, ao propor um método de análise de efetividade relacionado à necessidade de garantir determinados recursos para a população e à mobilização de capacidades institucionais para que isso aconteça. Já o caráter quantitativo está presente na opção pelo uso do orçamento como atributo destacado de análise e na ênfase ao fator “escala” como aspecto-chave de classificação da efetividade das iniciativas analisadas. Não se trata, contudo, de uma abordagem estatística dos dados coletados diretamente pela pesquisadora, como se mostrará a seguir.
Foram utilizadas como fontes de dados suporte bibliográfico para a construção das categorias e modelos de análise, e material documental e bibliográfico para o levantamento das evidências empíricas. A construção das categorias de análise se referenciou em
bibliografia relacionada ao desenvolvimento de políticas de inclusão digital no Brasil e em outros países, bem como em abordagens no campo da análise de políticas públicas e instituições, conforme especificado no marco conceitual apresentado nos Capítulos 1 e 2.
Para o levantamento de evidências empíricas, foram utilizados, principalmente, registros oficiais, tais como documentos dos programas e projetos de apoio a telecentros implantados pelo governo federal entre 2000 e 2010, instrumentos legais, normas, projetos, apresentações, editais, relatórios de atividades, pesquisas realizadas por órgãos governamentais acerca das iniciativas, balanços do governo, dados contidos nos sistemas de gestão governamental (SIGABrasil, SIGPlan, ONID) e relatos contidos em blogs, listas de discussão, comunidades, fóruns e outras ferramentas de troca de informações por meio digital. Outras fontes secundárias consultadas foram teses, dissertações e monografias elaboradas a respeito das iniciativas estudadas. Subsidiariamente, foram utilizadas atas e anotações de reuniões, notícias publicadas em revistas e sites especializados.
Apenas como apoio à contextualização do objeto, foram apresentados dados estatísticos da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e das pesquisas anuais “TIC Usuários e Domicílios”, do Centro de Informações do Comitê Gestor da Internet Brasil (Cetic.BR).
Na coleta de dados empíricos, as fontes documentais e bibliográficas referentes às iniciativas analisadas foram organizadas de modo a permitir identificar com quais dados cada uma contribuiu para a construção das informações pertinentes à análise, bem como o grau de confiabilidade e eventuais restrições advindas das características da fonte.
As fontes documentais e bibliográficas foram classificadas como: a) fontes oficiais:
a.1) normas: leis, decretos, portarias, editais e respectivos anexos;
a.2) bases de dados oficiais: SIGA, SIGPlan, Portal da Transparência, ONID; a.3) relatórios anuais de gestão: Prestação de Contas do Presidente da República (Balanço Geral da União – BGU), relatórios de gestão dos ministérios e autarquias;
a.4) registros próprios das iniciativas: atas de reuniões, documentos propositivos, relatórios, informativos e comunicados veiculados pelos sites e endereços de e- mail oficiais das iniciativas e de seus parceiros institucionais;
b) relatórios de pesquisas específicas: documentos contendo os resultados de projetos de mapeamento, avaliação, sistematização e/ou a análise das iniciativas contratadas pelos órgãos gestores perante universidades e pesquisadores, ou realizadas diretamente por instituições oficiais, como o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea);
c) fontes acadêmicas: dissertações de mestrado, teses de doutorado, trabalhos de conclusão de curso, artigos e pesquisas científicas sobre as iniciativas;
d) fontes jornalísticas: matérias, artigos, colunas e análises publicadas em revistas e sites jornalísticos, além de livros de caráter jornalístico em que as iniciativas são relatadas;
e) relatos: textos produzidos por participantes das atividades propostas pelas iniciativas ou delas decorrentes, publicados em wikis, sites, blogs, listas e fóruns de discussão online, ou recebidos por correio eletrônico.
As fontes documentais foram consideradas suficientes para a análise pretendida. A maior parte da documentação coletada estava disponível na internet e em arquivos em meio digital recolhidos ao longo do período como parte da atividade profissional da pesquisadora. Outros foram obtidos entre gestores, coordenadores e profissionais que participaram da implementação das iniciativas analisadas. O conjunto de documentos colhidos por tipo e suporte está descrito no Anexo I.
As fontes oficiais foram consideradas fundamentais para a captura de dados da presente pesquisa. Isso porque a análise proposta se concentra nos aspectos institucionais de execução das políticas públicas em questão e em seu processo de institucionalização. Sendo assim, a informação registrada nos documentos oficiais possui especial relevância. Foram, principalmente, as fontes oficiais que permitiram sistematizar informações sobre o desenho das iniciativas, o orçamento destinado a cada uma delas, a alocação do orçamento para cada um dos aspectos de efetividade considerados e a trajetória das iniciativas analisadas sob o ponto de vista da institucionalização dos programas.
Por outro lado, sabe-se que nem sempre os dados presentes nas fontes oficiais refletem fielmente o que se passa no mundo real. Essa ressalva é de especial importância no que se refere aos registros de metas físicas quantitativas apresentados nas fontes oficiais utilizadas. Isso porque os gestores responsáveis pelo preenchimento dessas informações tendem a utilizar critérios variados para a contabilização de resultados, nem sempre explicitando tais critérios
nos documentos oficiais produzidos. Considerações específicas sobre as bases de dados oficiais (SIGPlan, SIGA, Portal da Transparência) e relatórios gerados a partir dessas bases (BGU) são apresentadas mais adiante neste Capítulo.
Já as pesquisas contratadas, fontes acadêmicas e jornalísticas, se, por um lado, puderam auxiliar na captura de dados nem sempre presentes nos documentos oficiais, por outro, foram também produzidos com objetivos específicos, por autores com pontos de vista, grau de acuidade e conhecimento heterogêneos acerca do objeto. Além de analisar o perfil e a experiência prévia dos autores e instituições envolvidas, foi importante, nesses casos, buscar dados complementares que auxiliaram na confirmação das informações relatadas.
Uma fonte inovadora de dados para a presente pesquisa foram plataformas de conversas e colaboração online utilizadas pelas iniciativas para a comunicação entre os participantes e as equipes que conduziam os trabalhos, para a realização de atividades de formação à distância ou como comunidades de relacionamento. Esse material possui uma riqueza específica no caso das iniciativas de inclusão digital, tendo em vista que o uso de suportes digitais interativos faz parte de suas estratégias de ação.
Duas bases de conversas dessa natureza foram analisadas a partir de análise semântica para identificar temas recorrentes, posições institucionais e conflitos entre lógicas institucionais, conforme será detalhado mais adiante. Avaliou-se que essas bases consistem numa fonte interessante a ser explorada como dado de pesquisa, uma vez que trazem registros dos momentos vividos, com pontos de vista e elementos que as análises a posteriori dificilmente conseguem capturar, mesmo quando baseadas em entrevistas.
Além das fontes documentais, foram realizadas entrevistas com três informantes- chave, dirigentes governamentais responsáveis pela política pública e pelas iniciativas exemplares escolhidas para análise em maior profundidade. Neste caso, foram selecionados os titulares da Secretaria responsável pela execução da iniciativa que acompanharam a implantação das ações ao longo do período considerado, além do coordenador dos programas de inclusão digital perante a Presidência da República no período 2007-2010. Tais entrevistas serviram de reforço aos dados colhidos nas fontes documentais, não trazendo informações novas. Sua principal contribuição à pesquisa consistiu, justamente, na compreensão do processo de institucionalização das iniciativas a partir da percepção dos dirigentes acerca dos processos. O roteiro das entrevistas consta no Anexo II.
Também foram analisadas entrevistas em estado bruto realizadas por outros pesquisadores com participantes das iniciativas e cedidas a esta pesquisa. O acesso a esse material não trouxe dados significativamente novos à análise pretendida, apenas reforçou informações contidas no material documental utilizado como fonte principal de pesquisa.