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5. Regression analysis

5.4 Multiple regression

É fundamental observar que esses princípios, apesar de estarem intimamente relacionados, comunicando-se e influenciando-se mutuamente, não necessitam, obrigatoriamente, acontecer de forma simultânea e dependente. Ao pensar dessa forma, corre-se o risco de uma recaída no pensamento linear de causa e efeito e de banalização dos conceitos. Pode também haver diferentes níveis de complexidade, ao mesmo tempo em que, mesmo sendo abordados individualmente, esses princípios acontecem.

Para explorar os princípios da complexidade, utilizar-se-ão mais amiúde as contribuições de Maria Cândida Moraes (2008), principalmente em sua incursão pelos princípios da ecologia da ação, da enação e da ética, de Humberto Mariotti

(2007) e de Morin (1999, 2000, 2007), não necessariamente nesta ordem, entremeados por outros pensadores.

Com Maria Cândida Moraes serão trazidos, além dos sete operadores cognitivos iniciais, os princípios da enação, da ecologia da ação e da ética, assim como os princípios epistemológicos da interdisciplinaridade, da transdisciplinaridade e da subjetividade, considerados de fundamental importância para o trabalho pedagógico e a formação do professor.

De Mariotti (2007), a base será o texto produzido sobre os operadores cognitivos, um dos capítulos de seu livro.

O primeiro princípio, sistêmico-organizacional, diz respeito à relação das

partes com o todo e ao movimento próprio dessas relações. Não se pode conhecer o todo sem conhecer as partes, ao mesmo tempo em que o todo pode ser maior ou menor do que a soma das partes, pois sofre influência das emergências. Morin (2007, p. 85) exemplifica a questão com a tapeçaria contemporânea.

Ela comporta fios de linho, de seda, de algodão e de lã de várias cores. Para conhecer esta tapeçaria seria interessante conhecer as leis e os princípios relativos a cada um desses tipos de fio, entretanto, a soma dos conhecimentos sobre cada um desses tipos de fio componentes da tapeçaria é insuficiente para se conhecer esta nova realidade que é o tecido, isto é, as qualidades e propriedades próprias desta textura, como, além disso, é incapaz de nos ajudar a conhecer sua forma e sua configuração.

Dessa forma, para uma melhor compreensão de determinado fenômeno é preciso fragmentar, analisar e, ao mesmo tempo, sintetizar, contextualizar. Ir do geral para o particular e vice-versa. Compreender os fenômenos como sistemas.

Também é preciso compreender que ainda que inicialmente haja uma relação aparentemente linear entre causa e efeito em fenômenos mais simples, se houver repetições e interações constantes, os resultados podem ser inesperados. Os fenômenos complexos estão sujeitos às emergências dos próprios sistemas, que podem ser definidos como “conjuntos organizados de partes diferentes, produtor de qualidades que não existiriam se as partes estivessem isoladas umas das outras.” (MORIN, 2000, p. 21).

Essas propriedades, contudo, são ampliadas pelos processos de autoprodução e auto-organização, ou auto-eco-organização dos seres vivos. A

desenvolve-se mediante sua interação com a cultura, ao mesmo tempo em que devolve ao meio outra cultura, a linguagem, a tecnologia.

O princípio hologramático considera que não somente as partes estão no

todo, mas também o todo se encontra nas partes. Para Morin (apud MARIOTTI,

2007), “o indivíduo é o ponto do holograma que contém a totalidade da sociedade e da espécie, mas mesmo assim continua singular e não pode ser reduzido a essa totalidade.” Aqui podemos encontrar o triangulo da vida proposto por D’Ambrósio: o indivíduo, o outro (sociedade) e a natureza; ou de Guattari: meio ambiente, relações sociais e subjetividade humana.

Cuándo puedo estar seguro de que soy yo quien pienso por mí mismo y no es la sociedad la que por medio de su noosfera piensa por mi? La respuesta es bien sencilla: nunca. (CIURANA, 2008).

Sobre a relação entre as partes e o todo, Mariotti (2007) apresenta outros pensadores que haviam chegado às mesmas conclusões, tanto nas ciências sociais e humanas como no campo das ciências da natureza. Associa a complexidade à teoria do caos de Edward Lorenz, que por sua vez está relacionada ao princípio de Mach, do físico austríaco Ernst March, e mesmo a Einstein. Exemplifica com Montaigne, que dizia que “todo homem traz consigo a inteira humana condição.” Cita Goethe, que afirmava que “os homens trazem dentro de si não apenas a sua individualidade, mas a humanidade inteira, com todas as suas possibilidades” e que “o universal e o particular coincidem: o particular é o universal que se manifesta sob diversas condições”.

Para Morin (2000), o princípio hologramático pode ser encontrado na biologia, pois o patrimônio genético está presente em cada célula individual, sendo cada uma delas uma parte do organismo global. Encontra-se também na física, com a teoria dos fractais e do caos; e na sociedade, na relação entre os indivíduos e as informações que circulam. (MORAES, 2008).

O princípio retroativo está diretamente relacionado aos processos

autorreguladores, introduzidos por Norbert Wiener (MORIN, 2000) e rompe com a noção de causalidade linear afirmando que a causa age sobre o efeito e este retroage sobre a causa. Esse fenômeno é conhecido por feedback, refletindo a

causalidade fechada, não espiralada. Segundo Morin (2000, p. 33), esse movimento retroativo propicia a correção do desvio e a estabilização do sistema, mas pode,

também, amplificar as reações. Teremos, então, o processo de autorregulagem instalado.

Para que as relações mantenham-se harmoniosas, é necessária a interação entre as pessoas por meio da troca de informações, possibilitando a definição de comportamentos individuais e grupais. Se alguém foge ao modelo consensual de convivência, seus companheiros podem dar-lhe feedbacks sob a forma de críticas,

ou aconselhamentos. É preciso evitar-se o exagero ou a uniformidade da atitude que pode levar justamente ao efeito contrário, a comportamentos defensivos e improdutivos. Esse feedback, se finalizado como processo, pode conduzir à estagnação; ou, se utilizado recursivamente, levar à transformação.

É preciso, portanto, incentivar o debate e a aceitação da diversidade e da pluralidade para a manutenção da circularidade produtiva. (MARIOTTI, 2007). Mas é preciso ultrapassar esse segundo “ângulo de causalidade” (MORIN, 2007, p. 87). Há um terceiro ângulo, que é a causalidade recursiva.

O princípio da recursividade está diretamente relacionado às interações entre

causa e efeito, ao processo de autorregulação, mas vai além: liga-se ao processo de auto-organização, “caracterizado por uma espiral evolutiva do sistema [...] possui natureza autopoiética, ou seja, autoprodutora de organização em si, autoprodutora daquilo que a produz” (MORAES, 2008, p. 100). “No processo recursivo, os efeitos e produtos são necessários para o processo que os gera. O produto é produtor do que o produz.” (MORIN, 2007, p. 87).

Dependendo dos processos em sinergia, essa causalidade circular pode produzir novas emergências, a partir de processos auto-eco-organizadores regeneradores do próprio sistema ou criadores de novos sistemas emergentes. (MORAES, 2008, p. 101).

Pelo princípio da auto-eco-organização, os sistemas vivos produzem e

organizam a si próprios. São, portanto, autoprodutores e auto-organizadores, como as células do organismo que ao longo da vida morrem e são substituídas por outras. Assim, os sistemas vivos são autoprodutores de si. No entanto, para manter essa condição eles dependem de elementos que estão no ambiente e da convivência com mais seres vivos de sua própria espécie e de outras. Paradoxalmente, os seres vivos são ao mesmo tempo autônomos e dependentes. (MARIOTTI, 2007).

Assim, a autonomia não pode ser concebida sem dependência ecológica, pois quanto mais autonomia se desenvolve, mais dependências são criadas. O ser humano é produto de um processo de reprodução, mas esse processo só pode continuar se cada um, como indivíduo, acoplar-se para continuar o processo.

A sociedade é produto das interações entre indivíduos, mas é constituída de suas emergências, de sua cultura e de sua linguagem, que retroagem sobre os indivíduos e assim os produzem como indivíduos, provendo-os com a linguagem e a cultura. (MORIN, 2005). Portanto, nas sociedades humanas, os indivíduos desenvolvem sua autonomia na relação com a cultura e com o próprio meio ambiente.

Somos uma mistura de autonomia, de liberdade, de heteronomia e, eu diria mesmo, de possessão por forças ocultas que não são simplesmente as do inconsciente trazidas à luz pela psicanálise. Eis uma das complexidades propriamente humanas. (MORIN, 2007)

Na mesma direção, Félix Guattari (2007) propõe que, ao invés de sujeito, se fale em componentes de subjetivação, que trabalham, de certa forma, por conta própria.

Esses vetores de subjetivação não passam necessariamente pelo indivíduo, o qual, na realidade, se encontra em posição de ‘terminal’(...) Assim, a interioridade se instaura no cruzamento de múltiplos componentes relativamente autônomos uns em relação aos outros e, se for o caso, francamente discordantes. (Ibid., p. 17).

Esse pensamento caracteriza o princípio dialógico, que permite conceber a

coexistência entre opostos, reconhecendo a possibilidade de manutenção dos antagonismos sem a necessidade de exclusão de um ou de outro. O dialogismo incentiva a conversa entre conceitos complementares na formação de fenômenos complexos. É consequência e causa, também, dos movimentos de retroação e recursão.

Há contradições que não se resolvem e que nem sempre precisam ser resolvidas, pois fazem parte da complexidade natural do mundo e de seus fenômenos. São situações paradoxais e tentar resolvê-las por eliminação de um ou de outro seria desperdício de energia mental. (GUATTARI, 2007).

O princípio dialógico não é a resposta a esses paradoxos, mas uma forma de encará-los, pois considera a complementaridade dos antagonismos e o jogo produtivo, por vezes vital, desses antagonismos complementares. (MORIN, 2005).

A reintrodução do sujeito cognocente no processo de conhecer, na ciência, é

outro princípio importante que resgata “o sujeito, autor de usa história e co-autor de construções coletivas, reintegrando-o ao processo de construção do conhecimento”. (MORAES, 2008, p. 106). Um sujeito reconstrutor do conhecimento. “Um sujeito que não se caracteriza somente por sua subjetividade, mas por ser ao mesmo tempo alguém capaz de pensar, de objetivar, de produzir um imaginário comum e de construir sua realidade” (NAJMANOVICH, apud MORAES, 2008, p. 106). Um sujeito que não é evidente, pois não basta pensar para ser, há outras maneiras de existir que se instauram fora da consciência. (GUATTARI, 2007).

O espírito (atividade psíquica), o cérebro (atividade nervosa encefálica) e a cultura (linguagem, saberes acumulados) são interdependentes em um movimento recursivo, dialógico. “O espírito, que depende do cérebro, depende de outra maneira, mas não menos necessariamente, da cultura.” (MORIN, 2005 b., p. 85).

A esses princípios Moraes (2008) acrescenta o princípio ecológico da ação,

do próprio Morin (2000), o princípio da enação, de Varela, e o princípio ético.

A ação implica a tomada de decisão, ao mesmo tempo em que representa um desafio. Parece simplificar, porque “frente à alternativa, tomada a decisão, corta-se sem piedade.” (MORIN, 2005 b., p. 79). Como exemplo, Morin cita o caso de Alexandre, o Grande, que ao ver-se diante de um nó elaborado por Górdio, no séc. VIII a.C., que não havia sido desatado com os dedos durante 500 anos, apesar das várias tentativas, sem piedade, o cortou. Daí deriva a expressão "cortar o nó górdio", que significa resolver um problema complexo de maneira simples e eficaz. (WIKIPEDIA).

Toda decisão, portanto, implica incerteza e risco, e isso inclui a consciência dos desafios filosóficos ou políticos. Nesse sentido, estratégia é ação, pois a partir de uma decisão inicial, prevêem-se alguns cenários para a ação, cenários esses que poderão ser modificados diante dos acasos e de novas informações obtidas ao longo do caminho. A estratégia procura eliminar ao máximo o acaso, mas ao mesmo tempo procura utilizá-lo. Como o campo da ação é aleatório e incerto, ele impõe uma consciência sobre a possibilidade de acasos, derivas e bifurcações e uma “reflexão sobre sua própria complexidade.” (MORIN, 2007, p. 80).

Por vezes, a partir do momento em que se empreende uma ação mesmo que com uma intenção, ela passa a interagir com outras ações e fenômenos do meio ambiente e pode vir a torna-se algo não pensado inicialmente ou até mesmo contrário ao que se intentou. É um constante movimento de ir e vir. Em outras palavras, “toda ação é sempre ação ecologizada por causa de processos de inter- ação, de retro-ação, de co-operação existentes.”5 (MORAES, 2008, p. 107).

La sociedad es una máquina organizacional en la que los actores sociales actúan de forma muchas veces imprevisible. Se trata de actores-sujetos- estrategas situados dentro de contextos ecologizados. Desde el momento en que los actores sociales interactúan el resultado de la acción individual no depende solamente de la intención del actante. Una cosa es el resultado y otra la intención. Esto lo ha explicado muy bien Edgar Morin cuando afirma que toda apuesta que hagamos en política debe tener siempre en cuenta un principio de incertidumbre ineliminable. (CIURANA, 2000, grifo do autor).

O princípio da ação ecologizada traz a consciência de que o ser humano como “máquina não trivial” (MORIN, 2007) é imprevisível, pois é permeado pelas emoções, pelos valores, pela ética. Esse princípio chama a atenção para o fato de que determinado acontecimento pode ter sido ocasionado por uma palavra, ou por um gesto ou por uma ação realizada muito tempo atrás, uma condição inicial.

O princípio da enação, de Varela, está intimamente relacionado ao conceito de autopoiese, de Maturana. A expressão enação corresponde à tradução do termo

inglês enaction, proposto por Varela para substituir a representação como categoria

cognitiva privilegiada. Vem do verbo enact, que significa efetivar ou atuar, daí ter

sido traduzido também como atuação. (ACCIOLY,2006).

Enação significa, portanto, o “conhecimento incorporado na trama de relações recíprocas entre o ser que observa e o mundo que o circunstancia.” Nesse sentido, ação e cognição, ser e fazer são indissociáveis. O sistema cognitivo integra um mundo existente, mas mutante, transformador, no qual “indivíduo e meio são instâncias que se co-implicam.” (DEMO, 2002, p. 92).

Para Varela (apud MORAES, 2008, p. 108) “toda ação cognitiva é uma ação perceptivamente guiada, pois percepção e ação são inseparáveis nos processos cognitivos e evoluem juntas.”

Mais uma vez, sujeito e objeto não podem ser dissociados; o sujeito não pode ser visto independente de seu meio, embora sejam unidades distintas, da mesma

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Nesse parágrafo, o hífen é propositadamente utilizado para destacar as ações conjuntas, dependentes umas das outras e simultâneas.

forma que a cognição não está desvinculada da experiência física, emocional e mental. O conhecimento não é construído pela subjetividade ou pela objetividade somente, mas pela intersubjetividade. Assim, “a cognição não é a representação de um mundo pré-dado por uma mente pré-dada, mas antes é o enativamento de um mundo e de uma mente na base de uma história da variedade de ações que o ser humano exerce no mundo.” (VARELA, 1997, apud DEMO, 2002, p. 92).

Por último, o princípio ético é considerado como componente fundamental em

todas as relações humanas e, consequentemente, vem permeando as ações educacionais, o respeito ao outro, às diferenças, ao produto da coletividade. Supõe a valorização das ações coletivas e de solidariedade, sem abandonar-se à singularização do sujeito. (MORAES, 2008).

Uma ética que, segundo Guattari (apud ROLNIK, 1990), “ao invés de ser uma ‘ética do ideal’, de uma sociedade sem conflitos, seja uma ‘ética do real’”, onde a solidariedade seja um valor, mas a alteridade singular dos sujeitos e da coletividade seja respeitada.

Os diversos níveis de prática não só não têm de ser homogeneizados, ajustados uns aos outros sob uma tutela transcendente, mas, ao contrário, convém engajá-los em processos de heterogênese. (...) Convém deixar que se desenvolvam as culturas particulares inventando-se, ao mesmo tempo,outros contatos de cidadania. Convém fazer com que as singularidades, a exceção, a raridade funcionem junto com uma ordem estatal o menos pesada possível. (GUATTARI, 2007, p. 35, grifo do autor).