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MULIGE VEIER VIDERE

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KAP 8 UTFALL

9.3 MULIGE VEIER VIDERE

que estrutura o poema. De facto, começamos com Apolo e, mesmo depois da sua ausência estratégica, volta-se ao local de partida, sob o patrocínio da entidade impulsionadora da expedição.

4.5 Apolo e Jasão

A relação entre Apolo e Jasão não se constrói à semelhança da de Medeia e Hécate. Se tivermos em conta a genealogia de ambos, verificamos que não coincidem. De facto, Jasão descende de um deus, que não Apolo. O laço que os une consiste, portanto, numa espécie de contrato/aliança que se manifesta ao longo da obra.

Se Hécate e Medeia se foram revelando aos poucos, o carácter de Jasão e Apolo adapta-se às circunstâncias. Este traço comum caracteriza a sua presença n’ As Argonáuticas. A versatilidade de um corresponde à adaptabilidade do outro. A figura de Apolo, neste poema, afasta-se daquela transmitida pelos poemas homéricos. Na Ilíada, Apolo é essencialmente um deus guerreiro, o que fere de longe e luta por Tróia, tendo um papel verdadeiramente interventivo. Na obra em análise, Apolónio procura as qualidades menos conhecidas, embora não esquecendo as tradicionais. Nesta tentativa de reavivar a epopeia, a diversidade de atributos, que nos reportam para diferentes situações e áreas de actuação, orna o poema de matizes variados. Em vez de um deus naturalmente participativo, assistimos a uma espécie de troca de favores: Apolo age consoante os sacrifícios e preces de Jasão. A intervenção mais significativa de Febo prende-se com o facto de, à semelhança da Ilíada, ser o motor e o responsável por uma determinada inflexão dos acontecimentos. Ao contrário de Hécate, que ensinou Medeia a praticar as suas artes, Apolo cria uma aliança com Jasão, distanciando-se quando não é solicitado.

Contudo, a relação entre os dois manifesta-se também pela sua aparência (um factor que não se encontra na dicotomia Hécate/Medeia). Quando Jasão é comparado a Cízico, a imagem daí proveniente lembra-nos a figura de Apolo, o deus permanentemente jovem. Por outro lado, assumindo a saga dos Argonautas como um ritual de passagem, em que Jasão enfrenta as dificuldades decorrentes do processo de abandono da juventude e entrada na idade adulta, Apolo surge como o protector que

acompanha de perto esse mesmo processo de amadurecimento (uma característica presente já em Hesíodo, que pode ser subentendida em Apolónio de Rodes).

Finalmente, a dicotomia Apolo/Jasão contribui para a tripartição estrutural d’ As Argonáuticas. No primeiro bloco do poema, constituído pelos livros 1 e 2, Jasão e Apolo surgem lado a lado, correspondendo também à parte da obra em que o deus aparece com maior frequência. O livro 3 (a segunda parte da obra) é marcado pela ausência de Apolo e por uma mudança de atitude de Jasão. As entidades invocadas são essencialmente femininas e/ou ctónicas, o que relega Apolo para um plano acessório. O último livro culmina no hibridismo de temáticas, que pode corresponder ao culminar do hibridismo de géneros: mantêm-se temas como o do amor e magia, surge o assassinato, a viagem de regresso, a rota típica de uma Odisseia e o regresso da luz apolínea.

C

ONCLUSÃO

Como concluir uma dissertação sobre uma obra literária? Com a certeza de que muitas questões ficaram ainda por responder, mas que outras tantas se levantaram e foram esclarecidas.

Apolónio escreveu um poema de forma e conteúdos riquíssimos. Vimos que a macroestrutura do texto é tripartida. Porém, o mito constrói-se mediante dicotomias. A primeira que podemos assinalar é a do claro/escuro ou dia/noite, personificada nas figuras de Apolo e Hécate. O jogo de luz que o autor consegue transmitir concilia-se com o significado do momento: quando a luz inunda os heróis, estes vêem claramente; quando a noite se impõe, as figuras revelam-se difusas. Episódio paradigmático deste facto é o da batalha contra os Dolíones. Não será demais lembrar que os Argonautas e os Dolíones se opõem somente porque a noite os impediu de se identificarem. Com a chegada do sol, a verdade é desvendada.

Por outro lado, a batalha contra os Berbícios ocorre durante o dia. Sem equívocos, claramente motivados, os Argonautas lutam contra um povo não civilizado, pelo menos segundo a óptica grega. Âmico representa a brutalidade, a aberração de um rei que, independentemente de quem sejam os homens que aportam no seu território, desafia o transeunte para um combate, afastando-se do ideal de hospitalidade que encontramos já em Homero (e já vimos em Apolónio no episódio de Lemnos, por exemplo). Todos os defeitos civilizacionais são visíveis e claros, por isso o confronto final entre as duas hostes é legítimo.

Paradigma ainda do papel da escuridão n’As Argonáuticas é o episódio do abandono de Héracles. Tífis, o timoneiro, zarpa do local onde estavam à noite. A falta da luz solar faz com que não se aperceba de que deixou para trás dois companheiros (Héracles e Polifemo). Mais uma vez, os Argonautas são ludibriados pela paisagem nocturna.

Assim, a luminosidade é símbolo de revelação e racionalidade e Apolónio usa este artifício para pintar de diferentes tons a tela do seu poema. Recordemos ainda o momento em que Apolo intervém na viagem já no último livro. O deus, mediante os

raios luminosos do seu arco, revela o caminho. A escuridão corresponde, por sua vez, à ausência de luz. Quando existe um, o outro desaparece. Hécate surge e com ela a noite. Os contornos deixam de ser límpidos e entra em cena essa arte pouco percebida, e de alguma forma temida, que é a magia. Precisamente por se afastar da sobriedade do que é racional, a feitiçaria é a aliada da noite.

Um outro par pode ser encontrado em Jasão e Medeia, que figuram a dicotomia homem/mulher. O que distingue, numa primeira fase, estas duas personagens é o seu género. Jasão é o jovem adulto, que lidera uma expedição e já manifestou a sua masculinidade antes mesmo de chegar à Cólquida, no episódio de Lemnos. Medeia, por sua vez, é uma rapariga que cumpre os seus deveres de sacerdotisa e, até à chegada de Jasão, de filha (de tal forma que Eetes não desconfia dela). Como mulher, é ardilosa e deixa-se mover pelas emoções. Já Jasão é mais ponderado, às vezes estático, não impulsivo. A manha feminina de Medeia revela-se sobretudo nos seus monólogos e no momento em que finge querer salvar o herói apenas para aplacar o coração da irmã. Quando decide ajudar o Argonauta, ela refere que abordará Calcíope, numa tentativa de justificar o acto que está tentada a cometer.

Uma outra dualidade visível n’ As Argonáuticas é representada por Héracles e Orfeu. Aqui, como vimos, o que está em causa é uma tipificação do herói. O primeiro simboliza a robustez, a força física que se move pela sua brutalidade. Já o segundo, seduz, atrai e comove pela sua música, pela sua harmonia e, em última instância, pela capacidade de comunicar. A estrutura física de Orfeu pouco importa, atendendo a que o seu instrumento é a melodia; da mesma maneira, não são destacados os dotes eloquentes de Héracles, mas apenas os físicos.

Contudo, estas dicotomias não são estanques. No primeiro caso, apesar de Apolo deixar de dominar a partir do livro 3, o facto é que aparece em momentos fulcrais do poema. Da mesma maneira, por vezes, o papel de homem/mulher confunde-se com o de Medeia/Jasão: Medeia é a seduzida e não o contrário; é ela que doma os touros, como bem demonstra o sonho que teve antes de ajudar Jasão. Por outro lado, o herói é profícuo em palavras e seduz com as mesmas, chegando mesmo a confundir os companheiros relativamente ao seu estado de espírito: um ardil que não veríamos deslocado numa figura feminina183. Por último, Héracles, apesar de toda a sua força

183 Nyberg refere precisamente a alternância de papéis entre Medeia e Jasão, dizendo que “male and female roles shift constantly in the Argonautica; there aro no fixed positions as in the Homeric poems, especially the Iliad. Jason changes from manipulated to manipulator, just as Medea passes from the

física e atitude perante as mulheres de Lemnos, age impulsivamente quando Hilas é capturado. O guerreiro, provavelmente o mais forte de toda a expedição, sucumbe porque não contém a sua emoção. Dos elementos destes pares, apenas Orfeu mantém as suas características de maneira mais permanente.

Apolónio consegue criar matizes semânticos através da conjugação de diferentes aspectos opostos entre si. Além de usar figuras paradigmáticas, o autor emprega vocabulário correspondente a cada situação e a cada tipo de herói. Existem ainda episódios que apresentam uma estrutura dicotómica, mas numa relação simétrica. O catálogo dos nautas é um exemplo deste facto. A parte introduzida por Orfeu e a outra por Héracles têm sensivelmente o mesmo número de heróis, cujas funções são também distribuídas pelas respectivas partes (e. g. ambas as partes têm o mesmo número de áugures).

A paragem no território de Cízico constrói-se também de maneira semelhante. Como refere Levin, existem “two Argonautic arrivals in Dolonia and two departures, two sets of sacrificial rites, two mountain climbs, two armed clashes.”184 A acompanhar estes momentos está o contraste entre dia e noite.

A própria história dos Argonautas divide-se em dois movimentos proporcionais: a viagem de ida e de regresso. A maior dualidade que existe na obra é a que junta Pélias e Eetes, o Ocidente e o Oriente, o civilizado e o bárbaro, o cidadão e o estrangeiro. Existem dois mundos simétricos que se opõem, mas que se complementam. Por isso, Medeia “contamina” o mundo de Jasão, da mesma maneira que ele interfere no seu. Por outro lado, os Fríxidas marcam o ponto de encontro entre estas duas realidades. São eles o meio pelo qual Jasão e os companheiros entrarão na Cólquida e de lá sairão. É quando se misturam estas realidades opostas que surge a terceira parte da obra, concretizada no último livro.

Apolónio cria hibridismo de significados, de estruturas e de géneros. Ler As Argonáuticas revela-se uma experiência literária peculiar, que pela sua riqueza desperta e despertará ainda a curiosidade e o gosto de futuros leitores.

resourceful helper to the abandoned and dependent woman, ἀµηχανία. Yet there is a constant ambiguity in their relations to each other.” Nyberg (1992) 132.

184

B

IBLIOGRAFIA

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