KAP 8 UTFALL
8.1 BETYDNING AV UTFALLET, OG ETTERTANKE
O início da história de Medeia está directamente associado à viagem dos Argonautas. De facto, da sua infância pouco mais sabemos que a genealogia. Assim, seguindo a sinopse de Griffiths106, pode-se apresentar a seguinte “biografia”:
1. Medeia na Cólquida. Chegada dos Argonautas e roubo do Velo de Ouro; 2. Chegada à Hélade como esposa de Jasão. Aqui, Medeia rejuvenesce
Éson;
3. Morte de Pélias, causada por Medeia;
4. Fuga de Medeia e Jasão para Corinto. Dá-se, então, o episódio do infanticídio e do homicídio da princesa coríntia;
5. Medeia foge para Atenas, onde é acolhida por Egeu. Aí, tenta matar Teseu;
6. Por último, foge para o Oriente. Depois da morte, recebe morada nos Campos Elísios, onde se casa com Aquiles.
Segundo Hesíodo107, Medeia é filha de Eetes e de Idia, sendo neta de Hélio108. Este autor refere superficialmente o papel de Medeia na saga dos Argonautas. Diz apenas que Jasão, depois de cumprir as árduas tarefas que lhe foram impostas por Pélias e Eetes, a levou da Cólquida, tornando-a sua esposa; deste par amoroso nasceu Medeio. O que desperta alguma curiosidade é que, segundo Hesíodo, todo este percurso cumpriu os desígnios traçados por Zeus109. Como veremos n’ As Argonáuticas, a divindade que comanda toda esta trama, a fim de vingar a afronta por parte de Pélias, é Hera.
Uma outra fonte literária relevante é Píndaro. Encontramos, neste autor, uma descrição mais desenvolvida do mito de Medeia. Na Pítica IV, que celebra a vitória de Arcesilau, Medeia surge nos versos iniciais como uma voz profética. Posteriormente, na mesma Ode, Píndaro culpa Afrodite pelos actos ilícitos de Medeia. De facto, é Jasão quem detém a arte do encantamento, arte essa que aprendeu por intermédio da própria
105 Nesta parte, farei uma síntese das fases do mito. Contudo, analisarei apenas o que se refere a Medeia enquanto habitante da Cólquida, por ser este o momento explorado por Apolónio. Assim, poderei aludir aos infanticídios (ou a outros momentos), quando considerar pertinente para a compreensão de uma determinada ideia.
106 Griffiths (2006) 7. 107 Th. 956-962.
108 Vide Árvore genealógica de Medeia, p. 78. 109 Th. 992-1002.
deusa do amor. Existe uma diferença entre eles: Jasão sabe usar as fórmulas, mas Medeia conhece as poções, completando-se, assim, um ao outro.110
No verso 233, o poeta emprega o adjectivo ξείνας, estando Medeia ainda na Cólquida. Por este exemplo pode ver-se que a personagem feminina era bárbara, no sentido helénico do termo, ou seja, uma pessoa não-grega. Esta figura é de tal forma alheia ao mundo helénico que, mesmo estando na sua pátria, é classificada como “estrangeira”. Apesar de o autor referir alguma interferência da personagem no curso dos acontecimentos, o papel de Medeia é reduzido aos conselhos e poções que dá a Jasão, tendo um papel menor que n’ As Argonáuticas.
A derradeira vez, que Píndaro nomeia a filha de Eetes, fá-lo em clara alusão à morte de Pélias. Aqui, o poeta não responsabiliza Afrodite (porque já o fez), mas exprime a vontade da própria rapariga de seguir Jasão. O rapto não foi efectivamente um acto violento, mas antes voluntário111.
Se analisarmos dois versos da Olímpica XIII, reparamos que existe uma alteração de registo. O poder de decisão de Medeia é salientado a par da sua quota-parte no sucesso da empresa dos Argonautas. Com efeito, sem ela, os heróis teriam perecido:
καὶ τὰν πατρὸς ἀντία Μήδειαν θεµέναν γάµον αὐτᾷ,
ναῒ σώτειραν Ἀργοῖ καὶ προπόλοις· (O. XIII, 53-54)112 E Medeia que, em oposição ao pai, se decidiu por
boda própria,
Tornando-se assim a salvadora da nau Argo e da sua tripulação.113
No século do expoente máximo da tragédia grega, Eurípides cria a sua Medeia, encenada a 431 a. C. A acção passa-se em Corinto. O mito é conhecido: Jasão anuncia o casamento com a princesa do reino e rejeita Medeia, sua primeira esposa. Esta, como vingança, prepara um ardil que provoca a morte da recente noiva e mata também os filhos que teve do marido. Ao longo dos seus discursos, Medeia lembra que dispensou auxílio aos Argonautas, traindo a sua família.
110 P. IV, 213-223. 111 P. IV, 250. 112
Uso a edição C. M. Bowra.
Através dos passos atrás referidos, verifica-se que as acções de Medeia se relacionam com a chegada da tripulação da Argo. Antes disso, Eetes não teria motivos para prever o que a filha iria planear. Com efeito, as circunstâncias que envolvem a chegada e partida de Jasão impelem Medeia para um estatuto itinerante que nunca mais a abandonará. A fuga da Cólquida é apenas a primeira de tantas outras, motivadas por algum crime executado pela própria, e os destinos escolhidos são locais onde nunca encontrará a nacionalidade. Como disse Krevans “from Colchis to Thessaly to Corinth to Athens to Persia she flees, eternally unable to take root in the Greek mythic landscape – a heroine not of foundation but of annihilation”.114 A própria condição feminina e capacidades obscuras excluem-na da sociedade, porque não corresponde aos parâmetros gregos da mulher. Triplamente estrangeira (por trair a família, perdendo a legitimidade de uma pátria; por nunca permanecer em nenhum outro país; enfim, por ser uma mulher que desafia as convenções sociais), Medeia encontra uma derradeira e inesperada morada no Hades, onde não é punida pelos crimes cometidos. Em vez de receber os suplícios eternos, termina nos Campos Elísios (local privilegiado no mundo inferior post mortem), junto de um dos inquestionáveis heróis da mitologia grega, Aquiles.115