KAP 4. SKAL VOLDTEKTEN ANMELDES?
7.4 DELTAKELSE OG RETTIGHETER
N’As Argonáuticas de Apolónio de Rodes, Hécate surge somente a partir do livro 3, altura em que aparece também Medeia. Nos primeiros versos em que é referida, Apolónio apresenta-a apenas como “Hécate” ou como “filha de Perses”97, sem qualquer conotação mais sombria (apesar de essa dimensão ser manifesta ainda antes da época Helenística, como já vimos). Este dado espelha o respeito de Apolónio de Rodes pela genealogia apresentada por Hesíodo, alguns séculos antes.
94 ἐκ τοῦ οἱ πρόπολος καὶ ὀπάων ἔπλετ’ ἄνασσα (v. 440). 95 Uso a tradução portuguesa de Américo da Costa Ramalho. 96 χαῖρ’ Ἑκάτα δασπλῆτι (v. 14).
Um momento fulcral para a compreensão do seu papel no poema é constituído pelos versos 529 a 533. Pela fala de Argo, ficamos a saber que a própria deusa ensinou (δάε) a Medeia a arte de usar φάρµακα. Depois, o Argonauta enumera os poderes desta magia: por intermédio da sua aprendizagem, Medeia pode apagar o fogo, conter rios, parar as estrelas e controlar o movimento da lua98. De novo está patente a linha de leitura hesiódica: o fogo arde na terra, o rio representa o elemento aquático e as estrelas o celeste. Esta triplicidade é a mesma que Zeus atribui a Hécate, na Teogonia. A referência à sua faceta lunar remete-nos para a uma qualidade típica também de Ártemis. Deste modo, em poucos versos, Apolónio dá-nos uma visão genérica dos atributos de Hécate, cingindo-se à tradição mitológica precedente.
A primeira referência clara às qualidades nocturnas da deusa aparece no verso 847 e, mais especificamente, nos versos 860 e 861. Nestes casos, Apolónio emprega nomes diferentes: Daíra99 (no primeiro caso) e Brimo, ambas divindades infernais. No último exemplo, Brimo é invocada por Medeia, quando é descrita a maneira como conseguiu a planta para fazer a mistura que entregará a Jasão. Trata-se de uma planta especial que tem de ser apanhada à noite, depois de a feiticeira ter envergado vestes negras, de se ter banhado sete vezes e ter invocado sete vezes Brimo. As palavras empregues por Apolónio são as seguintes:
τῆς οἵην τ’ ἐν ὄρεσσι κελαινὴν ἰκµάδα φηγοῦ Κασπίῃ ἐν κόχλῳ ἀµήσατο φαρµάσσεσθαι, ἑπτὰ µὲν ἀενάοισι λοεσσαµένη ὑδάτεσσιν, ἑπτάκι δὲ Βριµὼ κουροτρόφον ἀγκαλέσασα, Βριµὼ νυκτιπόλον, χθονίην, ἐνέροισιν ἄνασσαν, λυγαίῃ ἐνὶ νυκτὶ σὺν ὀρφναίοις φαρέεσσιν· (3, 858-863) Como a seiva negra de um carvalho nas montanhas, ela misturou algo numa concha cáspia para fazer a sua poção, sete vezes se lavou com água corrente, e mais sete invocou Brimo, que protege os jovens, a noctívaga Brimo, ctónica, rainha entre os mortos, que vagueia pela noite sombria, com um manto negro.
98 τοῖσι καὶ ἀκαµάτοιο πυρὸς µειλίσσετ’ αὐτµήν / καὶ ποταµοὺς ἵστησιν ἄφαρ κελαδεινὰ ῥέοντας, / ἄστρα τε καὶ µήνης ἱερὰς ἐπέδησε κελεύθους. (3, 531-533)
99 Numa nota do seu comentário ao livro 3 d’ As Argonáticas, Hunter esclarece que Daíra se trata de um nome de culto a Hécate. Contudo, “elsewhere Daira (Daeira) is a chthonic deity associated with Eleusis and often identified with Persephone (hence the gloss κούρην). This name is, therefore, one element in the extensive syncretism of Persephone, Hecate and Artemis found in the later part of this book”. Hunter (1989) 188.
A dualidade claro/escuro é expressa de modo evidente. O primeiro atributo corresponde àquele que também Hesíodo referiu; o segundo expressa o carácter nocturno de Hécate. Deste modo, ela é protectora dos jovens, por um lado, e rainha dos mortos, por outro. Existem dois elementos que se repetem: a palavra Brimo e o número sete100. A repetição do nome acentua a espontaneidade da invocação e apela à participação do leitor ou do ouvinte na cerimónia do ritual.
O templo de Hécate é um importante cenário da obra. É aqui que Medeia e Jasão se encontram pela primeira vez. O local escolhido mostra a ligação intrínseca que existe entre os dois seres femininos. De novo se pode verificar a harmonia e coerência do conjunto do poema. O templo é o cenário do episódio em que Medeia entrega a substância a Jasão e lhe descreve como deve aplicá-la. Tudo se conjuga para sublinhar o apelo à protecção de Hécate: o próprio ponto de encontro e o facto de Medeia ser discípula e sacerdotisa da deusa.
Uma outra imagem poderosa de Hécate surge depois de Jasão lhe ter dedicado um sacrifício. Alertado por Medeia, ele não olha para trás, mesmo depois de ouvir o barulho de cães a ladrar. É então que aparece a deusa, para receber o que lhe fora ofertado. Qualificada como δεινὴ θεός, surge do mundo inferior com uma “tiara” de cobras enroladas em galhos de árvores, trazendo tochas e deixando soar os latidos dos cães ctónicos.101 O facto de não poder ser contemplada lembra o mito de Orfeu. Este, quando foi buscar Eurídice ao Hades, não resistiu e olhou para trás, para confirmar que trazia a mulher certa, desrespeitando a ordem expressa de Perséfone. O resultado foi o esperado: perdeu a oportunidade de devolver Eurídice ao mundo dos vivos. Assim, também as pretensões de Jasão não seriam atendidas se ele não contivesse a curiosidade. Por outro lado, se cumprir todos os conselhos de Medeia, sabemos que os seus pedidos serão atendidos.
Esta é a figura que Apolónio faz transitar para o livro seguinte. A caracterização de Hécate vai sendo revelada à medida que o seu papel na trama se torna mais pertinente. É ela a divindade adjuvante, que não só recebe o primeiro olhar dos amantes, mas também patrocina a tarefa de Jasão. O livro 4 não é tão rico em imagens da deusa, mas não deixamos de sentir a sua presença, ou porque é referida directamente, ou porque são nomeadas outras deusas com ela identificadas.
100 Segundo Hipócrates, o número sete é místico e fonte de vida. Por exemplo, se uma criança nascer dentro de sete meses, sobreviverá; determinadas doenças são curáveis se tratadas num período de tempo, cujo número central é o sete. Carn. 19.
101 O ritual de Jasão, explicado por Medeia, e a descrição da deusa são narrados entre os versos 1201 e 1224.
No passo em que Medeia encanta o dragão para roubar o Velo de Ouro, invoca o Sono e Hécate.102 Por outro lado, o delito tem lugar à noite, ambiente propício, não só ao acto em si, como também às divindades invocadas. A deusa é novamente chamada “rainha ctónica, que vagueia pela noite”. A partir deste momento, Hécate receberá sempre o atributo νυκτιπόλος, em sintonia com a crescente transformação de Medeia.103
A penúltima nomeação de Hécate atribui-lhe a maternidade de Cila104, um monstro marinho que representará um dos obstáculos da viagem de regresso dos Argonautas. Depois disto, Medeia invoca-a, juntamente com Hélio, quando apela ao auxílio de Arete. Toma Hécate como sua testemunha, ao dizer que não quer abandonar ou trair a sua Pátria, alegando que o medo das consequências dos seus actos a impeliu a fugir. Estas palavras assim proferidas atestam o papel de Hécate na trama: testemunha de todos os actos de Medeia (desde o seu primeiro encontro com Jasão), a deusa, mediante um determinado ritual, atende aos pedidos que lhe são dirigidos.
Apesar de Hécate surgir apenas nestes contextos, existem duas alusões relevantes à sua figura. A primeira prende-se com o facto de Absirto ser assassinado no templo de Ártemis. Como já vimos, a relação entre Ártemis e Hécate advém das suas genealogias, por serem primas. Por outro lado, ambas estão relacionadas com a Lua, cuja manipulação é descrita por Apolónio como um dos atributos transmitidos por Hécate a Medeia.
A outra figura que apela à presença de Hécate é Dicte. Quando os Argonautas são confrontados com a hostilidade do gigante de bronze, Talo, Medeia invoca aquela divindade infernal. A associação é imediata, pois tanto Hécate como Dicte nos remetem para o Hades.
Todas estas referências a Hécate ou a divindades aparentadas têm no poema um determinado significado, que poderá ser melhor apreciado depois de percebermos a intrínseca relação que existe entre Hécate e Medeia.
102 4, 146-148.
103 Esta relação entre Medeia e Hécate será desenvolvida na outra secção deste capítulo. 104 4, 828-829.