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Louis Althusser nasceu em 16 de outubro de 1918, na reserva florestal do Bois de Bologne, próximo a Argel Argélia, ex-colônia francesa. Pierre Berger, seu avô, ao pegá- lo nos braços, garante: “esse não é como os outros, Louis é um caraparte5” – palavras que, segundo Althusser, o perseguiram por toda a vida.

Durante o parto, o pai de Althusser estava ausente, já há nove meses, e assim se manteve até março de 1919, pois combatia na frente francesa durante a Grande Guerra. Nesse período, viveu com a mãe ao lado dos avós maternos, provenientes de Madagascar. Pierre Berger fez carreira de guarda florestal no Bois de Bologne, Madeleine Nectoux, sua avó, ficava sozinha por dias, isolada na cabana florestal do parque. Diante de recorrentes insurgências árabes, Madeleine dormia a noite toda com uma espingarda sobre os joelhos: “duas balas no cano para minhas duas filhas, e uma terceira ao alcance da mão para mim”. O relato da avó compõe uma série de lembranças infantis de Althusser, sob a forma de angústias de morte: “havia assim, em minha cabeça de criança, ameaças de morte, e, quando minha avó me contava esses episódios dramáticos, tratava-se de minha própria mãe, de sua morte. Naturalmente, tremi de medo durante muito tempo (ambivalência), como se eu tivesse desejado inconscientemente essa morte” (p.38).

O sobrenome Althusser é transmitido pelo pai. Os avós paternos, de origem alsaciana, optaram pela França em 1871, após a guerra entre Napoleão III e Bismarck, e foram deportados para a Argélia, com os dois filhos: Louis e Charles.

As famílias, os Berger e os Althusser, viam-se freqüentemente, e, como os filhos possuíam idades parecidas, os pais decidiram por casá-los: Louis, o caçula e “mais educado”, com Lucienne, “a mais preparada”, e Charles, “o mais rebelde”, com Juliette, “a mais animada”.

Louis e Lucienne mal ficaram noivos e os irmãos foram convocados para lutar na guerra: Louis na aviação e Charles na artilharia. Em princípio de 1917, Charles retorna ao Bois de Bologne, anuncia que o avião de Louis fora abatido em combate, e então propõe a Lucienne “ocupar junto dela o lugar de Louis”. Althusser justifica a escolha do pai: “afinal, minha mãe era bela, jovem, e desejável, e meu pai amava realmente o irmão Louis... minha mãe ficou sem dúvida transtornada pelo anúncio da morte de Louis, que ela amava profundamente, a sua maneira, mas se sentiu atônita e desconcertada pela inesperada proposta de Charles. Mas, afinal de contas, a coisa ficava em família” (p.41). A cerimônia de casamento aconteceu rapidamente, e após alguns dias, Charles partiu novamente para a guerra. Althusser relata a cena de núpcias tal como a fantasia fundamental do coito parental violento: “parece que minha mãe conservou uma tripla recordação atroz – a de ter sido violentada em seu corpo pela violência sexual do marido, a de ver dilapidadas por ele, numa noite de farras, todas as suas economias de solteira... meu pai decide irrevogavelmente que minha mãe tem de abandonar de imediato seu trabalho de professora” (p.42). Segundo Althusser, o pai mantivera uma amante, Louise (gravem este nome), desde os tempos de namoro com a tia Juliette, uma moça pobre a qual teria abandonado repentinamente às vésperas do casamento, e cujo nome tinha sua pronúncia proibida naquela família.

Lucienne é para Althusser uma mãe-mártir, que sangra como uma chaga, uma mãe sofredora, destinada a uma dor eterna, martirizada dentro de casa pelo próprio marido, e, portanto, uma masoquista, mas também uma sádica em relação ao tio, pois havia aceitado

que seu pai tomasse o lugar de Louis, e em relação ao filho, Althusser, que também havia recebido esse nome, Louis, e que, por isso, queria sua morte – o Louis que ela amava, morrera.

Pois então Althusser recebeu ao nascer esse nome, Louis, pelo qual manteve por ao longo de sua vida, um horror: era muito curto, e na fonética francesa entonava uma só vogal, além de, como se não bastasse, terminar em um i agudo capaz de feri-lo (tal como na alucinação da estaca, mais adiante). A história de Althusser se inicia com um trabalho de escansão de nome e sobrenome.

Louis. Oui, um sim contra o qual se revoltava, sim não a seu desejo, mas ao desejo materno. Louis, esse nome que dizia ele, lui. Pronome de terceira pessoa, lui, um terceiro anônimo, o sujeito indeterminado que convoca Althusser. Lui, o pronome que faz alusão ao homem que está às suas costas: lui, c´était Louis (ele, era Louis), o tio a quem a mãe amava, e não a ele, Althusser. Louis, que se transforma em Louise, a amante. “Esse nome foi desejado por meu pai, em memória ao irmão Louis, morto no céu de Verdun, mas sobretudo por minha mãe, em memória daquele Louis que ela amara e não deixou, a vida inteira, de amar” (p. 42). E Althusser, um sobrenome transmitido por um pai, mas um sobrenome-de-pai foracluído.

Nomeação sujeito/ação Designação

Louis

Lui ele, o tio morto

Lui ele, o Outro que ordena Althusser Oui sim, ao desejo materno

Ouis Eu ouço, eu gozo

Louis(e) A amante do pai

Lembranças encobridoras

Althusser trata de “lembranças encobridoras” que marcaram sua infância, que ele vê ou acredita ver, e que são apresentadas como marcas inaugurais.

A primeira cena refere-se ao pai. A mãe, com os seios quase descobertos, está com Althusser nos joelhos, quando a porta da casa florestal se abre, e surge uma silhueta alta e magra, com um longo charuto preto do Dixmude6 à boca.

Althusser associa o pai a figura de um imperador romano: marcado pelo sexo e pela morte, um homem poderoso, sensual que “amava o vinho e as carnes sangrentas com a mesma força que amava as mulheres” (pg. 48). "... durante a via inteira ele se calou sobre si mesmo, e eu nunca me atrevi a interrogá-lo, a fazê-lo falar de si. Aliás, teria ele me respondido? Devo confessar que durante muito tempo odiei meu pai por ele fazer minha mãe sofrer aquilo que eu vivia como sendo um martírio para ela e, portanto, também para mim [...] Meu pai ´governava´ assim: sem jamais realmente se fazer ouvir, maneira talvez de deixar seus colaboradores diante de uma responsabilidade que eles sabiam estar sancionada, mas não definida explicitamente. Não haviam se esquecido dele, de quem falavam com uma admiração que beirava a devoção: ninguém era como ele. Um “caraparte” (pg. 45).

Quem fora Charles Althusser para Louis Althusser? Um homem autoritário, mas que por sua origem pobre, tinha sido a única “personalidade” a não entrar no jogo das pessoas de elite e das autoridades da época. Um homem de personalidade, que dizia tudo em público, mas que para Althusser e a irmã não dizia nada, e que, em vez de liberá-lo em seu desejo, o aterrorizava com seu silêncio – ou com seus uivos.

6 Dixmude era um dirigível alemão, cedido à França como reparação de guerra, mas que acabou se

As noites eram angustiantes para Althusser, que se perturbava com os roncos que o pai emitia, vividos como “gritos de lobo caçando ou acuado”, dos quais nunca esquecera. A voz do pai não era perturbadora apenas durante a madrugada: as cenas de refeição são descritas a partir do confronto entre pai e filho, o qual, para provocar o pai, insistia em tomar a defesa da “mãe-mártir” – a partida do pai porta afora era acompanhada de “fautré”, de um desaparecimento pela noite e da angústia de abandono: “ele abandonaria minha mãe, nos abandonara (minha mãe parecia indiferente): partira para sempre? Ia voltar ou desaparecer para sempre? ” (p. 47). Fautré, neologismo francês criado por Althusser, entre faute (mancada), outré (ultrajado) e foutre (foder).

Pai terrível, mas ao mesmo tempo, cúmplice. “Uma vez ou outra levou-me ao estádio, onde adorava entrar sem pagar... Eu ficava fascinado por sua arte de `passar a perna´... Mau exemplo que me deixou uma terrível recordação, à entrada de um estádio de tênis. Meu pai entrou sem pagar, como de costume. Eu, atrás dele, não pude entrar. Deixou-me sozinho. Mas, mais tarde, eu iria me inspirar seriamente em sua arte de `passar a perna´ (p.48).

Os jogos são descritos por Althusser em clima de tumulto, entre os membros da assistência técnica, sendo que em duas ocasiões houve troca de tiros, que deixavam Althusser apavorado, pois eram, em sua certeza, destinados a ele. O episódio dos tiros é associado à uma passagem escolar, a respeito das Cruzadas: as cidades eram saqueadas, destruídas, os habitantes mortos pelo corte das espadas, cujo sangue jorrava pelas ruas. “Empalava-se também grande número de nativos. Eu sempre via um deles, repousando sem qualquer apoio sobre a estaca que penetrava lentamente pelo ânus até dentro de seu ventre e até seu coração, e só então ele morria, em meio a sofrimentos atrozes. Seu sangue corria ao longo da estaca e das pernas até o chão. Que horror! Era eu então transpassado pela estaca (talvez por esse Louis morto que estava atrás de mim) ” (p. 48).

Contígua à lembrança, uma alucinação. “Uma vítima estava trancada dentro da imagem de uma virgem de aço munida de alto a baixo de longas pontas finas e duras que lhe transpassavam lentamente os olhos, o crânio e o coração. Era eu que estava fechado na imagem da virgem de aço. Que maneira atroz de morrer lentamente! Tremia longamente e sonhava com isso à noite” (p.49).

O pai de Althusser retornara da guerra com uma série de fotos de artilharia: “o víamos sempre ereto diante de gigantescos canhões”. O pai diante do qual Althusser permanecia aterrorizado também fora o pai que lhe ensinara a atirar – o que será fundamental para a construção do delírio suicida. Certa vez, aos 9 anos, fora com o pai ao clube militar onde deu o primeiro tiro, com um fuzil de guerra; o estrondo do disparo o deixou aterrorizado e, apesar de não ter acertado o alvo, deixara o pai orgulhoso.

Quando da aprovação no concurso de bolsas para o Liceu, Charles Althusser perguntou ao filho o que ele gostaria de gratificação pela conquista. Prontamente, sem hesitação, teve sua resposta: uma carabina nove milímetros da indústria de armas Saint-Étienne – a contragosto da mãe. Desde então, Althusser se tornara excelente no tiro, o qual praticava no quintal do avô, em Bois-de-Velle, tentando acertar passarinhos.

Uma vez, decidiu caçar galinhas. “De bastante longe (uns vinte metros) recebi um belo galo vermelho perto da cerca. Atirar com minha funda e, aterrorizado, vi o galo, atingido em pleno olho, pular de dor, bater violentamente a cabeça no chão e fugir aos soluços. Meu coração ficou palpitando durante horas” (p. 49). O terror em matar não consistia numa inabilidade em acertar o alvo, mas estava vinculada a certeza de que, caso fosse ele mesmo o alvo, o tiro seria certeiro. O ato de atirar poderia então precipitar o suicídio, o qual os delírios persecutórios de que todos queriam terão a função de barrar.

Então, a carabina nove milímetros desaparece não apenas das lembranças encobridoras de Althusser, mas de toda sua autobiografia. “Quanto a essa carabina, eis o que me aconteceu. De início eu só a utilizava para me exercitar em alvos de papelão, com os quais conseguia me sair bem. Mas um dia que estávamos numa pequena propriedade, Les Raves, que meu pai achara por bem comprar numa colina inacessível, percorri os bosques com minha carabina na mão, à procura de alguma presa volátil. Subitame nte avistei uma polinha e atirei: ela caiu, eu a procurei, em vão, nas samambaias secas, no fundo eu estava convencido de ter errado o alvo, ela só caíra por esperteza, para escapar de mim. Continuei meu caminho e de repente me veio a idéia, sem que eu tivesse refletido e, com mais razão ainda, sem que eu soubesse por quê, de que, afinal de contas, eu poderia tentar me matar. Dirigi então o cano da arma contra minha barriga e ia apoiar no gatilho quando uma espécie de escrúpulo me reteve, nunca soube por quê. Abri então a culatra: havia uma bala lá dentro. Como podia estar ali? Eu não a tinha enfiado ali. Mais uma vez, tratara-se de morte: mas, dessa vez, diretamente da minha” (p. 50).

Um pai autoritário tal como um imperador romano, ao mesmo tempo cúmplice, mas que, em sua função, encontra-se zerificado, tal qual na lembrança da silhueta vazia. Embora Charles Althusser tenha se presentificado, algo da ordem funcional não se inscreve. Questiona-se Althusser: “Tive eu realmente um pai? Sem dúvida, eu tinha seu sobrenome e ele estava ali. Mas, em outro sentido: não. Pois jamais ele interferiu em minha vida para orientá-la, um mínimo que fosse, jamais me iniciou na sua que poderia ter me servido de introdução, fosse à defesa física, às brigas dos meninos, fosse, mais tarde, a virilidade” (p. 50). Assim, Althusser sentia-se convocado a ser Louise, a mante do pai: “..., mas toda vez que eu o deixava, lançava-me, diante de minha mãe silenciosa, uma simples frase que não exigia comentário nem resposta: Faça-a feliz. Faça-a? ”.

“Faça-a feliz! ”, o mandato do imperador, que o ordena a fazê-la gozar. Faça-a feliz, faça ela, a mãe, feliz. “Faça-a”, faça ela, a mulher – faça o papel da mulher, que diante da mãe-mártir, casta, virgem, só poderia caber à amante: Louis (e).

Mãe-Mártir e o princípio do artifício

Althusser está em Marseille, saindo com a mãe do apartamento em que moravam na rua Sébastopol. Pegam um atalho, uma rua larga de muros altos, em cuja calçada

direita avistam duas mulheres e um homem. As mulheres brigavam ferozmente entre si, agredindo-se fisicamente, enquanto o homem, imóvel, as observava sem esboçar qualquer esforço em intervir. Quando passaram perto do trio, o homem alerta calmame nte : “cuidado, ela tem um revólver”. Lucienne Berger continuou a caminhar, sem esboçar nenhuma preocupação com a cena dramática a qual de presenciar. Diante da reação, advém o seguinte pensamento: “estava claro para mim que eu deveria intervir. Mas eu era um covarde. Relações singulares deveriam imperar entre minha mãe e eu, minha mãe e a morte, meu pai e a morte, eu e a morte” (p. 50).

Lucienne Berger fora uma linda mulher na juventude, onze anos mais jovem do que Charles Althusser, com o qual teria se casado muito jovem, ainda adolescente. Durante a adolescência, quando ainda morava em Argel, tivera uma amiga que se tornou médica, mas que morrera precocemente por conta de uma tuberculose. Assim como o filho, nomeado por conta de um tio morto, Lucienne decidiu, tal como descreve Althusser, por “um novo nome de morte”, em homenagem à amiga morta: Georgette.

Se Althusser bem se considerava muito especial para a mãe, porque “era a primeira criança de seu corpo, e um menino, seu orgulho”, sentia-se preterido pelo pai em relação à irmã, na qual o pai assumia, para ele, um personagem incestuoso, tal como o pai gozador

do mito da horda primitiva: “meu pai tinha por minha irmã uma queda que me revoltava, eu desconfiava abertamente de suas tentativas incestuosas quando ele a colocava sobre os joelhos de um medo que modo que me parecia obsceno” (p. 51).

Althusser era o orgulho de uma mãe sufocante, pelo controle excessivo dos corpos, pelas fobias e pelos atos invasivos, os quais o deixavam mortificado. Sentia que a mãe o invadia, “estuprava”, “castrava”.

Invadido, por conta do uso que Lucienne fizera do corpo de Georgette, quando por exemplo, certa vez, durante o banho da filha, dirige-se a Althusser: “Está vendo? Sua irmã é um ser frágil, ela é muito mais exposta aos micróbios do que um menino” – apontando para os genitais da criança – “você só tem dois buracos no corpo, ela tem três” (pg. 51).

“Estuprado e castrado” por conta das bisbilhotices maternas em sua intimidade, sobretudo pela pouca discrição em relação a sua sexualidade. Como quando da primeira polução noturna, aos treze anos: sentiu um prazer profundo, uma ardência, seguida por um sentimento de tranquilidade, sem saber muito bem o que acontecera com seu corpo, mas que deixou grandes manchas opacas nos lençóis. Já tomando café, é convocado pela mãe a comparecer ao quarto, onde, estendendo os lençóis e apontando para as manchas, ela pronuncia: “Agora, meu filho, você é um homem! ”.

Para Althusser, Lucienne se permitia a vasculhar seus lençóis, suas cuecas, a tocar por vezes seu sexo, como se a pertencesse: “Eu era assim estuprado e castrado por minha mãe que, por sua vez, se sentiu estuprada por meu pai. Realmente, não saíamos de um destino familiar. E que essa obscenidade e esse estupro fossem praticados por minha mãe, que evidentemente se violentava contra a sua natureza para cumprir o que julgava ser o seu dever (ao passo que deveria ser meu pai a desempenhar esse papel), finalizava o quadro

de horror” (p. 53). Uma mulher fóbica, cheia de medos, “principalmente medo do sexo, do roubo e do estupro, ou seja, medo de ser agredida em sua integridade corporal e de perder a integridade problemática de um corpo ainda despedaçado” (p. 52). Uma mártir, tal como Althusser se vira refletido na imagem da virgem atravessada por estacas, enclausurada para ser exposta em uma redoma de vidro - a angústia do despedaçamento corporal vivenciada através do corpo materno, espelho que refletia sua imagem enquanto morto-vivo diante do Outro.

Sobretudo, uma mãe que o amava como um morto, porque ele recebera ao nascer um nome, Louis, morto, o qual ela nunca deixou de amar – quem ela amava de fato. Althusser era um fantasma aos olhos da mãe: “Quando me olhava, provavelmente não era a mim que ela via, mas, às minhas costas, no infinito de um céu imaginário para sempre marcado pela morte, um outro, mas esse outro Louis cujo nome eu carregava, mas que eu não era, esse morto no céu de Verdun e no puro céu de um passado sempre presente. Eu era assim como que atravessado por seu olhar, eu desaparecia para mim nesse olhar que me sobrevoava para se juntar na morte longínqua ao rosto de um Louis que não era eu, que jamais seria eu” (p. 54).

Se a morte era um destino, o desejo de uma mãe fóbica, e que, tal como diz Althusser, “ diante dela e longe dela eu me sentia sempre arrasado por não existir por mim mesmo e para mim mesmo”, em dado momento, ela foi substituída, ou mais apropriado, em contiguidade, a mãe-mártir fora deslocada. Seria Hélène uma nova mãe-mártir? Ou seria o próprio Althusser? O que teria então impedido a realização desse destino, a própria morte? Althusser realizara seu destino em Hélène?

Os afetos sentidos são recompostos por Althusser pelo que denomina de lembranças encobridoras, as quais identificará como alucinações, a partir de um traço que se tornou destino: um pai a ser cobrado pela impossibilidade de intervir diante de uma mãe violenta,

pronta a aterrorizar um filho batizado com o significante da morte. “Em meu caso, a morte era a morte de um homem que minha mãe amava acima de tudo, além de mim. Em seu `amor´ por mim, alguma coisa me transiu e me marcou desde a primeira infância, fixando por muito tempo o que deveria ser meu destino. Não se tratava mais de um fantasma, mas da própria realidade de minha vida. É assim que, para cada um, um fantasma se torna vida” (p. 54).

Estava condenado pela mãe a viver enquanto o outro de um morto, que ainda não estava morto, posta sua consistência de “palidez” diante do desejo materno. Sob a ambivalência de amar e se apavorar, Althusser decide então tentar seduzir a mãe para que ela consentisse sua existência – “essa mãe que eu amava com todo o meu corpo amava um outro através de minha presença como pessoa, isto é, um ser presente como pessoa através de minha ausência como pessoa - um ser de quem eu só saberia mais tarde que estava morto havia muito tempo” (p. 56). Pela interpretação delirante, para seduzir essa mãe, Althusser deveria se tornar o homem morto que ela amava, ou seja, seduzi-la realizando seu desejo!

Esta foi uma tarefa possível e impossível para Althusser. Impossível, porque era questionável se poderia se tornar um homem, quando nas lembranças de sua imagem diante de um espelho, ainda criança, só visualizava uma pessoa magra, mole e muito