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Antes de tecermos algumas considerações a respeito da melancolia, cabe efetuarmos uma distinção importante em relação à paranoia e à esquizofrenia, enquanto tipos clínicos da psicose.

Se na paranóia o desejo materno permanece enquanto um significante ideal, fazendo o Outro emergir como o duplo igual e rival, na esquizofrenia o desejo da mãe encontra-se ausente e diante desse vazio o sujeito se esfacela. Na neurose:

S2 = “Nome-do-pai” / S1 = significante desejo da mãe / X = qualquer coisa que possa significar o desejo da mãe

S2 . S1 = S2

[

I / x

]

S1 x

I (inconsciente) lembra que S1 foi recalcado em virtude da substituição significante. X, o falo, no sentido de qualquer coisa que possa preencher a falta materna.

Na paranóia, há a foraclusão do Nome-do-Pai, mas há uma sustentação via o significante Ideal (I), já que o desejo da mãe não foi metaforizado:

𝑆1 𝑋 → 𝐼

Na esquizofrenia, além da foraclusão do Nome-do-Pai encontra-se ausente o significante do desejo da mãe, de modo que sobra ao sujeito a identificação com uma incógnita, a partir da qual o sujeito não pode constituir tampouco a experiência corporal primária.

X (?)

Nesse sentido, em termos freudianos, enquanto que a paranóia se refere a uma regressão ou fixação no Estádio do Espelho, o ponto da esquizofrenia se encontra em momento anterior, referente à desorganização corporal, da pura parcialidade pulsional: o auto-erotismo, assim como aponta Freud na análise do caso Schreber. Se na paranoia, no caso Aimée, a construção delirante dá assento ao imaginário, na esquizofrenia o real encontra-se completamente escancarado, e as alucinações e emancipações corporais se revelam uma tentativa de cura a outro tipo de organização, da qual não trataremos aqui – o autismo.

“O investimento nas palavras, a alucinação, o delírio e a arte são tentativas espontâneas de cura promovidas pelo sujeito na esquizofrenia... Mas cura de quê, se eles são considerados, como diz Freud, a própria doença? São tentativas de cura

do autismo, da radical exclusão do discurso como laço social. O autismo é a situação em que o esquizofrênico se encontra; fora de qualquer laço, isolado, p ois seu investimento todo retorna sobre si mesmo, concentrando o próprio gozo em seu corpo. Todas as manifestações consideradas patológicas do esquizofrênico são tentativas de estabelecer o vínculo com os outros ou, segundo Freud, com os objetos.” (Quinet, 2006, p.53)

Ao contrário da paranóia em que o Outro é consistente, na esquizofrenia ele é como um fantasma percebido através das alucinações - vozes que falam incansavelme nte através de uma cadeia significante estilhaçada – como se os significantes aparecessem na boca do sujeito à sua revelia, sem sentido ou por muitas vezes, impregnados de significação.

No caso da melancolia, não é difícil encontrarmos tanto questões persecutórias, quando o Outro é extremamente consistente, quanto fenômenos de corpo que atestam o

despedaçamento do sujeito frente um reflexo praticamente inexistente. Observamos isso em Althusser, a partir da cadeia delirante identificatória que se desliza de Lucienne Berger até Hélène, como as perseguidoras que abusam e violentam, e na relação fragmentada com a imagem corporal, como um morto-vivo, e na sexualidade auto-erótica através da descrição minuciosa dos vegetais. Porém, há uma questão particular de tais fenômenos na melancolia, porque eles se referem a um luto: a dor da existência.

Em Luto e Melancolia (1915), Freud aponta o luto como uma experiência de dor, que, apenas cinco anos mais tarde, associará à pulsão de morte. Do ponto de vista econômico, a dor corresponde à submissão do aparelho psíquico à grande excitação diante da perde de um ideal, no caso um objeto de grande investimento libidinal. Segundo Berta (2007), a dor do luto consiste em um rompimento no Simbólico a partir de uma invasão de gozo, em que se perde o que poderia fazer função de véu frente a castração.

A invasão de gozo está associada a incidência do supereu através do sentimento de culpa, o qual Freud atribuirá a origem aos crimes fundantes da ordem cultural: o incesto e o parricídio. A economia de gozo sustenta a culpa superegóica, quando, diante da perda de um ideal, o sujeito se defronta com a impossibilidade, com a castração. No entanto, se no luto neurótico o sujeito se identifica parcialmente com o objeto, e mantém com aquele que se foi uma separação entre a vida e a morte, na melancolia o sujeito permanece como um morto-vivo, tal como se define Althusser – nem morto, nem vivo.

Se no campo da psiquiatria a melancolia se tornou, e esse panorama ainda não se alterou, categorias nosográficas que não param de se multiplicar, de transtorno bipolar, lipemania, hipocondria moral à mania-depressão, segundo Quinet (2006), Freud a caracteriza de maneira suscinta, como uma depressão profunda marcada pelas auto- acusações, pelas auto-injúrias e pelo desejo de auto-punição, colocando-a em série com a

esquizofrenia, a partir de manifestações em comum, como a hipocondria e os distúrbios de linguagem.

Então, Freud (1913) define a melancolia ao tratar da incorporação do objeto perdido, que se faz a partir da identificação à mercê das pulsões parciais, pelos cheiros, pela voz, pelo olhar, por um detalhe; na melancolia, o eu se identifica totalmente com o objeto, o lugar do luto, sem que o processo de introjeção seja metaforizado. No caso, Freud apontará que há na melancolia uma introjeção não metaforizada do pai – luto eterno pelo pai morto, pelo vazio que fora deixado, vazio da própria existência do sujeito.

Quinet (2006), denomina, apropriadamente, a dor do melancólico como uma hemorragia a escorrer pelo furo que a foraclusão do Nome-do-Pai efetua no simbólico, ou, em outras palavras, o luto melancólico é pelo pai, não o pai-morto, mas o vazio que este deixa e que é incorporado, definindo o próprio ser do sujeito – um vazio.

“Ao contrário da negação na neurose – que, dialeticamente, nega afirmando e afirma negando, e cujo mecanismo de Verneinung é um índice do recalque -, a negação na melancolia é um índice da foraclusão do Nome-do-Pai: é uma negação da própria existência do que é negado. Trata-se de uma negação que abole, zerifica. Eles não têm nome, não têm idade, não nasceram, não têm pai nem mãe”. (QUINET, 2006, p. 194).

Althusser e o luto impossível

Vejamos então como a questão desse luto impossível de se realizar aparece no caso de Althusser. Primeiro, a questão da morte imbricada ao desejo familiar, o qual ele nomeia por desejo especulativo.

De certo, temos esse ponto inaugural que é receber o nome do tio, Louis: é o homem que a mãe amava, mas que morrera. Retomemos a tabela que trata da escanção delirante

do nome, que ele efetua, a partir da qual poderemos tratar de alguns fenômenos elementares da melancolia.

Nomeação sujeito/ação Designação

Louis

Lui ele, o tio morto

Lui ele, o Outro que ordena Althusser Oui sim, ao desejo materno

Ouis Eu ouço, eu gozo

Louis(e) A amante do pai

Althusser Sobrenome foracluído

Louis, é um sim ao desejo materno, é o significante-mestre (S1) que comparece exteriorizado com toda a sua consistência através das exigências superegóicas, o Outro que ordena, entre o pai e a mãe, nas alucinações: “(faça-a) feliz!”, “agora, meu filho, você é um homem!”, “você é jovem demais para amar!”. A resposta a esse mandato é eu ouço, eu gozo, da posição de objeto de desejo do Outro, para ser abusado, violentado, estuprado, sodomizado.

Se o luto melancólico é da ordem da impossibilidade de elaboração de um vazio, então é o luto por algo que não morreu, e que de algum modo ainda vive sob a forma de um fantasma assustador. É o Pai da Horda, aquele que diante de Lucienne Berger soube ocupar junto dela o lugar de Louis, ele o morto, mas que Louis que não o próprio Althusser que na sombra do tio morto nunca pudera existir? Temos então a dimensão do pai desarticulada em relações triangulares, sem a dialetização fálica, pois, com o ato de assumir o lugar do irmão, o pai deixava “tudo em família”.

Primeiro triângulo, é o pai que goza, que come a mãe, o pai lobo que uiva durante a noite, como um lobo à procura de sua presa. É o que amedronta Althusser durante as

noites e que comparece no real, na escuridão do banheiro para despregar a glande do filho; na escuridão, é o pai que atua a voz materna: quando sai do jantar, ordena a Althusser que faça sua mãe feliz – faça-a (ela, a mãe, feliz). Althusser é o que a mãe deseja, sendo essa a face terrível da mãe: a mulher que invade seu quarto, que o proíbe de se enamorar de Simone, que expõe o púbico de Althusser para o público, a que “coloca a mão em cima”.

Louis Charles (o lobo)

Lucienne (a mãe)

Segundo triângulo é o pai estuprador, aquele que rouba, violenta e priva a mãe de trabalhar. Aqui a mãe assume a face-mártir, com a qual Althusser se identifica na relação especular, como a “chaga aberta que sangra” e que padece ao empalhamento, o i de Louis que é escutado como a estaca que pode ferir, tal qual na alucinação das Cruzadas. Nesse sentido, se Althusser é mártir como a mãe, ele pode assumir seu lugar junto ao pai, não como a esposa, mas como a mante, Louis(e) – é o objeto de desejo do pai: faça-a feliz, faça ela, papel de mulher.

O empuxo-à-mulher está articulado ao empuxo-à-gozar. A articulação do Nome-do- Pai ao significante fálico, pelas etapas lógicas de ser/não ser e ter/não ter o falo materno, é no jogo das posições – identificações – em relação ao significante da falta (o falo) que o sujeito se revela frente à castração: como homem ou mulher. Esse duplo efeito da castração, a inclusão da falta no Outro e a inscrição do sujeito na partilha sexual, não se

opera com a foraclusão do Nome-do-Pai, e o sujeito fica à parte do discurso, à parte da inscrição no conjunto dos sexos.

O empuxo-à-mulher, característico da estrutura psicótica, nos é apontado por Freud na leitura do caso Schreber, através do lugar de mulher que o presidente assume em seus delírios. Ao ser nomeado para o Tribunal de Apelação, a crise de Schreber é sucedida pela construção delirante de que ele deveria, primeiro, ser a mulher-objeto para abuso de todos os homens; se ele não é o falo materno, e diante de um pai castrador, lhe resta se identificar a essa posição – a mulher que se empresta como falo ao homem para que possa reaver o que a mãe deseja. Do lado da mulher, sem acesos ao significante fálico, não podendo se perceber como homem, Schreber restaura a experiência de satisfação primordial, como o que preenche a falta do Outro, agora encarnado na figura de Deus – aquele que escolheu Schreber, dentre todos os homens, para ser A MULHER de Deus. Em seu delírio o presidente se reassume como “Sua majestade, o bebê”. Deus aparece como o Outro que goza e que, enquanto instancia superegóica, dita a Schreber de maneira terrorífica o que deve ser feito.

Louis(e) Charles

Lucienne

Althusser ao se ver refletido no espelho não conseguia ver nada mais do que uma “fraca menininha”, lugar diante da mulher que amava, Hélène: “ela, uma mulher, naquele

cena em que presencia a avó materna urinando em pé, “tal como um homem”: sem a dialetização fálica, fica a questão se ela é um homem ou uma mulher, ou, “eu sou um homem ou sou uma mulher” – mulher-homem, morto-vivo.

Um terceiro momento dessa relação é quando o pai assume o papel de cúmplice, esse que ensina Althusser a “passar a perna”, primeiro traço da possibilidade de construção de uma estabilização pelo delírio de “ser o pai do pai”. No entanto, é o pai zerificado, a figura transparente que adentra a cabana, e de cujo contorno só se pode apreender o charuto da marca do dirigível que se incendeia e despenca ao mar. É o sobrenome foracluído, Althusser, a introjeção de um vazio que é o próprio sujeito.

Cúmplice de quem então? Da mãe: a cena da briga entre as mulheres, na qual o homem nada faz, mas apenas indica “ela tem um revólver”.

Mulher ameaçada Homem

Mulher com o revólver

“Duas balas no cano para minhas filhas e uma terceira ao alcance da mão para mim”,

é o primeiro registro da morte, reeditada na cena da briga. A morte é o significante que articula a constelação delirante de Althusser, o qual carrega o temor de perder um corpo, mas que já não existe. No desejo especulativo, ela era um nada, um vazio, como ele diz:

Uma tampa para o vazio

Quinet (2006) realça a qualidade do objeto perdido, do qual Freud trabalha no desencadeamento melancólico, como semelhante ao processo de luto:

“Freud chama essa pessoa que morreu de objeto, mas não se trata do objeto pulsional (o objeto a). Se essa perda é da ordem de um ideal, o que temos em jogo é u m significante-mestre que poderia ser sustentado por alguém, ou um significante idealizado [...] Quando esse significante é perdido – ou a sua sustentação -, ele não pode mais ficar nesse lugar, e a melancolia é desencadeada, pois o sujeito se vê diante desse “furo no psiquismo”. (p. 205).

Nesse sentido, o que se perde é um significante que é o ideal de eu, o traço deixado pelo Outro a partir do qual o sujeito pode se situar frente o que esse Outro deseja, o eu ideal. O eu ideal, a imagem narcísica, é constituído através do ideal do Outro e com a perda do significante que o sustenta, e no caso da melancolia, a imagem com a qual o sujeito se identifica estilhaça, desmorona e advém o empuxe-à-gozar superegóico avassalador.

Segundo Berta (2007), Freud nos aponta três momentos para tratar do processo de elaboração do luto: 1) uma escolha amorosa, ou seja, a eleição de um significante ideal sobre o qual o sujeito possa se sustentar; 2) há a perda de objeto, a partir de uma decepção ou do desaparecimento do objeto pela morte; 3) o sujeito redireciona sua libido, ao retirar o investimento do objeto perdido para um outro ideal. Na melancolia, algo de outra ordem é desencadeado no terceiro momento, o da elaboração, quando ao se identificar com o objeto perdido, como diz Freud, “a sombra do objeto cai sobre o eu”.

Segundo Pommier (1998), em sua análise singular da melancolia de Althusser, nos aponta que a perda do ideal colocava o filósofo frente a esse lugar de desaparecido,

quando assumia o amor de outro, o tio morto, tomando para si as consequências desse drama que era foracluído – ele era o noivo morto, alguém que fora amado no lugar de outro e por uma coisa que não era. O lastro do desejo especulativo comparecia, através desse nome: dar o nome de um morto a um vivo, demandando ao sujeito que ocupe tal lugar dando conta desse amor que se dirigia a um cadáver.

Diante desse desejo de morte, é preciso recriar algo que faça véu, algo que possa tamponar tal vazio, o da própria existência – essa tampa é o ideal. O primeiro momento da edificação desse ideal, pela interpretação delirante, é a criação de “Jacques Althusser”, que é uma reconstrução do pai potente totêmico, enquanto uma estabilização pelo imaginário. É a cena alucinatória da jacquerie, com Pierre Berger como a primeira invenção da série ser “pai do pai”, através da impostura, disso que está no lugar de outra coisa.

Jacques, a invenção althusseriana, é fragmento da jacquerie, e remete à figura do avô: o que ensina a semear, a plantar, que perpetua a vida, incluindo Althusser no conjunto dos homens, onde poderia ser reconhecido dentre “verdadeiros homens”. Segundo Pommier (1998), o artifício da impostura é uma defesa contra o desejo especulativo que impedia Althusser de “existir por ele mesmo”, contra o que sentia como da ordem do abuso e do estupro frente as demandas parentais. Althusser só poderia existir por meio de tais imposturas, e a sucessão de fracassos de cada impostura, alternadas com crises depressivas, caracteriza o ciclo maníaco-melancólico.

Se na metáfora paterna há uma articulação entre o eu ideal e o ideal de eu, na psicose, com a foraclusão do Nome-do-Pai isso não ocorre. Temos a série de invenções do pai, ato de se dar um pai imaginário, que ao fim do delírio seria ele próprio, o filho: 1º) Pierre Berger, o avô que semeia; 2º) Sr. Richard, que podia exercer o papel da mãe que Althusser amava e que o amava reciprocamente; 3º) Dr. Zeghers e Robert Daël, no campo de

concentração, onde pôde exercer a vocação melancólica de desaparecido (morto-vivo ); 4º) Marx, “pensar em seu lugar o que ele deveria ter pensado”. A invenção do pai é uma proliferação significante, a megalamonia da criação do centro de estudos, o CEMPIT, onde Althusser é um mártir a salvar a mãe, a irmã e Hélène, a face do objeto a como causa do desejo. É como o kruppier, objeto agalmático do pôquer, aquele que dá as cartas e se faz causa do jogo. No entanto, a missão impossível fracassa quando a imitação, o fundamento do artifício da impostura atinge o seu limite, e o personagem da série paterna desaparece, evocando o luto permanente.

“Não é esta a solução elegante que propõe com... “Pai do pai”? Não é que se inventa bruscramente um pai: ele mesmo representa a esse Pai do pai que está inventado, e põe assim em cena as duas instâncias da paternidade necessárias para fazer cesar as auto - acusações. Fazaer nascer de um lado e matar de outro: entre o surgimento do pai inventado e o enterro do pai morto o sujeito assume um risco extremo, o da queda em abismo quando de certo modo estes dois pais cruzam seu olhar15”. (POMMIER, 1998,

P. 128)

No mito da horda, o pai está morto e assim permanecerá para todo o sempre. No entanto, no caso da neurose, o pai imaginário comparece como uma invenção sintomática, quando ganha os atributos daquele que sabe sobre o desejo materno. Na psicose, o pai é inventado para ser morto, porém com a introjeção total, quando o sujeito se identifica com o ideal, apresenta-se a problemática do destino de um cadáver.

A incorporação pela imitação, das vozes, dos gestos, da letra, dos cacoetes do pai inventado, permite à Althusser assumir uma existência, quando se localiza em uma cadeia

15 Do original em espanhol: “No es esta la solución elegante que propone con… “Padre del padre”? No es que se

invente bruscamente un padre: él mismo representa a ese Padre del padre que está inventado, y pone así en escena las dos instancias de la paternidad necesarias para hacer cesar las autoacusaciones. Hacer nacer de un lado y matar del otro: entre el surgimiento del padre inventado y el entierro del padre y a muerto el sujeto asume un riesgo extremo, el de la caída en abismo cuando en cierto modo estos dos padres cruzan sus miradas”. (p. 128)

geracional, pois, a imitação efetua uma passagem da figura do professor à figura do pai. Segundo Pommer (1998), a imitação consiste na incorporação do que o próprio sujeito inventou, de modo que, ao atravessar o espelho dessa relação narcísica, a ponto de se tornar perfeitamente aquele que fora imitado, o melancólico só pode encontrar o mesmo vazio do qual partiu. Do lugar de sombra de um ideal, o sujeito passa a ser o próprio ideal, a partir de uma injunção de eu ideal com ideal de eu – ao final, resta um cadáver que é o próprio sujeito.

“Pois bem, agora que se inventou um novo pai, ainda é preciso resolver, simultaneamente, o problema do cadáver anterior [...] conjuntamente com ele, u m bricolagem que comporte os pais, capaz de resolver o problema do pai já morto e ao mesmo tempo de propulsar sobre a cena um novo pai a se matar. É fácil encontrar o pai a se matar: é o pai objeto da provocação (por isso, a melancolia se inverte em júbilo e as auto-acusações se interrompem, pelo menos até sua realização). Mas, onde pode se encontrar o que já está morto? Pois bem, Althusser mesmo irá cumprir este papel, posto que o introjetou na fase precedente16”. (POMMIER, 1998, p.128)

Concomitante aos episódios maníacos, observa-se um período de intensa produção e publicação, quando identificado ao objeto agalmático, Althusser se debruça sobre uma produção de conhecimento capaz de dar conta de salvar o marxismo: ser o pai do pai, pai de Marx, pai dele mesmo, ele mesmo pai, ele mesmo ser salvo. No entanto, o pólo maníaco concluído efetuava inevitavelmente um giro ao pólo melancólico: através do assassinato do pai inventado, que descambava ao suicídio, e pelas publicações.