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Research Design

4.2 The Models

Antes do transporte e da distribuição, preparam-se inúmeros objetos e sistemas técnicos para essa circulação: caixas térmicas, aeroportos e nós logísticos, veículos refrigerados etc.

O processo consiste no emprego de caixas térmicas para o transporte de alguns tipos de imunobiológicos a -20 ºC, com gelo seco; para aqueles que demandam temperaturas entre 2 ºC e 8 ºC, usa-se gelo reciclável.

Muitas vacinas são transportadas por despacho aéreo, em caixas de isopor identificadas e relacionadas a seu destino num documento chamado Detalhamento da Carga; os documentos de organização e regulação são, respectivamente, a Nota

de Fornecimento de Material e o Controle de Recebimento de Imunobiológicos (MANUAL DE REDE DE FRIO, 2011).

No caso do modal rodoviário, os veículos refrigerados podem transportar todos os tipos de imunobiológicos (bacterianos e virais), pois são equipados com um termostato ajustável. Na Nota de Fornecimento de Material, constam os dados referentes à carga. Em caso de longas distâncias, o transporte é feito em caixas térmicas com gelo (seco ou reciclável), que pode ser trocado durante o percurso, se necessário (MANUAL DE REDE DE FRIO, 2011).

Os imunobiológicos são distribuídos para os estados por via terrestre, em veículos refrigerados da CENADI. Para lugares mais distantes ou de difícil acesso, usa-se transporte aéreo, realizado por empresas especializadas. Da instância estadual para a regional ou municipal, o transporte também é por via terrestre, em veículos próprios, do serviço público ou particulares, observando-se a temperatura de conservação e o tempo previsto para o deslocamento em despacho aéreo.

Os diferentes encadeamentos mostram que essa lógica de fluxos materiais relativos ao transporte das vacinas é importante para o entendimento das dinâmicas do espaço geográfico no período atual:

A racionalização geográfica do processo produtivo depende, em parte, da estrutura mutável dos recursos de transporte, das matérias- primas e das demandas do mercado em relação à indústria, e da tendência inerente à aglomeração e à concentração da parte do próprio capital. No entanto, essa tendência exige, para sustentá-la, a inovação tecnológica (HARVEY, 2006, p. 50).

Nesses dados, vemos a transferência tanto de capitais como de ordens e informações (fluxos imateriais), garantindo os níveis de organização necessários para articular lugares e agentes geograficamente dispersos (CASTILLO; FREDERICO, 2010). São as ordens informacionais provenientes da OMS para o Ministério da Saúde, a compra de produtos e sua distribuição que ativam a articulação desses agentes.

Nas Figuras 4 e 5, vemos os esquemas de distribuição e a hierarquia em que se realiza a logística da rede de frio.

Figura 4 – O trajeto da vacina da produção à vacinação

Fonte: Manual de Rede de Frio (2011).

Figura 5 – Fluxograma da rede de frio de imunobiológicos

Fonte: Manual de Rede de Frio (2011).

Cabe ressaltar que muitas vacinas são destinadas a regiões com pouca infraestrutura de transporte. Nesse caso, cabe ao Estado encontrar soluções para

distribuir as vacinas e realizar a campanha de vacinação; assim, ele se responsabiliza por criar fixos que:

[...] atraem e criam fluxos [...] o subsetor governamental orienta os fluxos econômicos e humanos e determina sua viabilidade e direção [...] de um modo geral, os fixos necessários ao exercício das formas mais complexas de cooperação (estradas, por exemplo) são criadas pelo Estado (SANTOS, 2008b, p. 102).

Pode-se fazer uma comparação entre a logística do Estado para a vacinação – desde a produção da vacina em instituições públicas ou sua compra de corporações farmacêuticas até sua distribuição para os postos de vacinação – e a logística das indústrias:

[cuja] força de fazer fluir o produto através das vias de transporte existentes depende, para cada firma, da rentabilidade do uso. Em função do tipo de produção e das condições técnicas, econômicas e financeiras do respectivo processo produtivo, cada firma é diferentemente exigente e diferentemente capaz de rentabilidade (SANTOS, 2008b, p. 78).

Já o Estado não segue a lógica do lucro, pois o que rege a distribuição de vacinas é sua função social, o que o leva a não renunciar à distribuição em dada área, mesmo que haja dificuldades de acesso ou infraestruturais. Assim, no caso da distribuição de vacinas pelo Estado, seu oligopólio espacial (SANTOS, 2008b, p. 78) pode ser notado sobretudo nas porções do território não rentavelmente utilizáveis, diferentemente das mais bem equipadas com infraestruturas.

A logística praticada pelas corporações tem atributos com maior densidade técnica, que pode levar a uma maior fluidez em todos os lugares onde está o mercado consumidor, além de integrar racionalmente os fluxos materiais e imateriais, para assim reduzir o custo da própria logística e assegurar a qualidade dos produtos. No caso das campanhas de vacinação no Brasil, cujas vacinas são fornecidas pelo Estado – especificamente pelo PNI, que faz parte do Ministério da Saúde –, a logística dessas corporações é territorialmente “restrita”, pois os imunobiológicos a serem distribuídos por todo o território se concentram na CENADI, na cidade do Rio de Janeiro. Daí partem as remessas, em transportes multimodais organizados e regulados pelo Estado.

Para compreender a logística desse produto e seus matizes, não podemos deixar de pensar a totalidade do espaço, onde transcorrem a produção, a circulação, a distribuição e consumo. Logo, como realidade, o espaço é:

[...] é uno e total. É por isso que a sociedade como um todo atribui, a cada um dos seus movimentos, um valor diferente a cada fração do território, seja qual for a escala da observação, e que cada ponto do espaço é solidário dos demais, em todos os momentos (SANTOS, 2008b, p. 86).

Essa percepção leva à preocupação com a rede urbana envolvida nessa dinâmica. A ação de vacinação se dá sobretudo nos postos de saúde, nas cidades:

Essa trama multifacetada de serviços dos mais diversos níveis e matizes pode ser vista como um objeto técnico inserido no tecido urbano e ocupando parcelas do solo como equipamento urbano (GUIMARÃES, 1994, p.148).

[...] Somente esse aspecto da rede de serviços saúde já lhe confere um atributo intrínseco à vida urbana. Os serviços de saúde são articulados aos centros nervosos de redes cada vez mais extensas de serviços de produção e consumo urbanos. [...] A rede de saúde pode ser compreendida como um sistema interconectado que funciona por meio da circulação de pessoas, mercadorias ou informações (GUIMARÃES, 2001, p. 157).

Dados que também concorrem para o entendimento global do funcionamento da logística das vacinas são a acessibilidade e a mobilidade como atributos do território. A primeira se dá por fatores extrínsecos, ou seja, por condições climáticas e topográficas. Por exemplo, em regiões de regime pluvial mais frequente ou mais volumoso ou em períodos de seca, como no norte do Brasil, há vacinação quando que se pode trafegar por rios. Já a mobilidade se deve a fatores intrínsecos, resultantes do poder econômico e de capitalização, que modificam o espaço de fluxos e transformam uma cidade ou região mais acessíveis por meio de infraestruturas de transporte, como é o caso das novas estradas estaduais e federais no Nordeste, em particular, no estado de Pernambuco recentemente.

Assim, quando o alcance das ações das corporações passa de regional a global, conforma-se um circuito espacial produtivo, e, no caso do da vacina, ele envolve todas as escalas: a global, a nacional e a local. Mais que um elemento técnico ou um mecanismo que promove a movimentação da produção, o circuito é um dado da política das empresas e dos Estados e, portanto, fundamental para se compreenderem as mudanças espaciais e sociais que estabelecem, bem como sua função quando se considera a totalidade do período técnico-científico-informacional.

3 O PAPEL DOS DIFERENTES AGENTES INDUTORES DA