Data and Unit of Analysis
6.2 Multivariate Regression Results
6.2.4 Model Performance
Segundo a OMS (2005b), a doença é um “agravo, independentemente de origem ou fonte, que represente ou possa representar um dano significativo para seres humanos”. E foi com base nessa definição que o Regulamento Sanitário Internacional,5 da OMS, declarou a epidemia de Influenza A H1N1 uma emergência de saúde pública de importância internacional (ESPII).
A OMS interpreta e regula ações nos Estados, já que, segundo seus documentos, “o fato de considerar doenças infecciosas como ameaças para a segurança mundial e nacional oferece a possibilidade de obter uma direção política de alto nível para apoiar a planificação intersetorial necessária” (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2005a).
Além de agente regulador, a OMS é também parte fundamental do circulo de cooperação, fomentando a produção e distribuição de vacinas por meio de campanhas pelo globo; ela regula ações ligadas à saúde desde a escala global até a nacional e local, nos Estados nacionais.
Dessa forma, o atual Regulamento Sanitário Internacional (RSI) produziu um direito da emergência de caráter multilateral, ativando o direito internacional ligado à saúde e o direito dos Estados, e, além da cooperação internacional para combate à proliferação de doenças, há uma dinâmica complexa que autoriza a OMS:
[...] [a] tomar iniciativas independentemente da vontade dos Estados (e, particularmente da vontade de um ou mais Estados onde se verifica uma ameaça à saúde), apoiada não em instâncias deliberativas intergovernamentais, mas em comitês de especialistas, recrutados de maneira autônoma (e inclusive opaca) pela organização [...] É importante enfatizar os variados interesses econômicos ligados à OMS, sobre alguns de seus Estados, sobre os “técnicos” e “especialistas”, e também sobre as organizações sociais (VENTURA, 2001, p. 38).
As doenças têm um lugar especial na trajetória da civilização, “obrigando todas as instituições humanas a confrontá-las; por exemplo, as doenças infecciosas”6 (SIGERIST, 2011, p. 58). Por conseguinte, elas “condicionaram a existência humana dizimando populações, estimulando conflitos, infectando combatentes, promovendo êxodos, propiciando miscigenação, fortalecendo ou enfraquecendo povos” (UJVARI, 2009, p. 8).
Disseminada por vários países do planeta e tratada como epidemia, a Influenza A H1N1 se propagou potencialmente em 2009, e foi intensamente difundida por todos os meios de comunicação, que expunham o perigo do novo
6 Infecção é a penetração, multiplicação e/ou desenvolvimento de um agente infeccioso em
determinado hospedeiro; doença infecciosa são as consequências das lesões causadas pelo agente e pela resposta do hospedeiro manifestada por sintomas e sinais e por alterações fisiológicas, bioquímicas e histopatológicas (BIBLIOTECA [...]. s/d).
vírus, que, tendo surgido da América do Norte, se espalhou pelo planeta. Houve ações intensas – tanto midiáticas quanto estatais, privadas e de toda a sociedade – para contê-la; com algum sensacionalismo, a doença promoveu o consumo de produtos como álcool gel, máscaras e antivirais como o Tamiflu (UJVARI, 2011), ainda que, na época, não se soubesse quão contagioso era o vírus ou qual era seu grau de letalidade. Assim, além do específico das vacinas, esse evento pode ser relacionado aos vários circuitos espaciais produtivos, que são ativados e estimulam o consumo de diversos produtos ligados à cura ou à prevenção dessa pandemia.
Os alertas dos governos e da OMS quanto à pandemia levaram ao fechamento de escolas, com adiamento de viagens e da volta às aulas; em julho de 2009, o Ministério da Saúde declarou que a pandemia da Influenza A H1N1 atingira o Brasil. O fato levou ao aumento das filas nos hospitais e também à produção de medicamentos para combater a doença em regime de urgência, devido a sua gravidade e às dúvidas sobre ela (COMMITTEE […], 2010). No desenrolar dos acontecimentos, a ciência médica e biológica puderam atuar mais especificamente e conhecer melhor os aspectos desse vírus, identificando pessoas com mais risco de desenvolver as formas graves da doença. (O Influenza A H1N1 tem alguma relação com o vírus da gripe espanhola.)
A origem do Influenza data do século I, quando se acreditava que as infecções decorriam da inalação de miasmas,7 e sua transmissão aumentava no inverno. No século XV, acreditando na influência dos fenômenos astrológicos no ambiente terrestre, os italianos pensavam que a gripe surgia por influência (influenza, em italiano) das estrelas (PORTER, 2004, p. 25).
Na primeira metade do século XIX, o aumento do fluxo comercial entre países levou à necessidade do uso de gelo para que os produtos chegassem bem a lugares mais distantes. O estadunidense Frederic Tudor ampliou seus negócios em Nova York vendendo gelo (abundante na cidade) e exportando produtos congelados para o Caribe, o sul dos EUA, a Europa e a Índia. Logo, outros comerciantes adotaram a mesma técnica, o que desencadeou um aumento significativo dos vagões e navios
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Chamavam-se miasmas as emanações de substâncias nocivas à saúde, de matérias pútridas que poderiam ser a causa de algumas doenças.
refrigerados. O incremento dessa técnica elevou, em número de bens e mercados, a exportação e importação, principalmente de carne de gado bovino e suíno e aves.
Com o aumento da demanda de diversos países por diversos tipos de carne, as fazendas passaram a aplicar métodos da monocultura e a confinar animais, “sendo artificializada a interação entre animais e vegetais nesses espaços, que não tinham as mesmas características rurais de outrora” (UJVARI, 2011, p. 28).
Na segunda metade do século XX, um novo incremento das técnicas para o aumento da produção, como o uso de tratores e fertilizantes (feitos de materiais das fábricas de explosivos, ociosas após o fim da Segunda Guerra Mundial), intensificou a comercialização de produtos agropecuários e a aglomeração de animais cercados, cujos alimentos passam a ser rações baseadas em milho. E assim entendemos o “encontro, em cada lugar, das condições históricas, econômicas, socioculturais, políticas, geográficas [...] A técnica é o tempo congelado e revela uma história. O uso dos objetos através do tempo mostra histórias sucessivas desenroladas no lugar e fora dele” (SANTOS, 2008a, p. 48).
Essas técnicas de domesticação de animais para a crescente dinâmica de um comércio internacional ensejaram o desenvolvimento de microrganismos que se adaptavam e mutavam com muita facilidade nesses aglomerados cercados, sendo responsáveis por epidemias em diferentes sociedades, que acompanharam migrações e fizeram parte de sua história (como varíola e sarampo) (UJVARI, 2011a). As hipóteses mais aceitas sobre a origem do vírus Influenza indicam que ele se desenvolveu e acometeu os humanos mais intensamente desde a criação de animais no século XIX, persistindo até hoje. Há também a hipótese de que alguma ave aquática migratória o tenha eliminado em suas fezes e, assim, ele tenha chegado a alcançar o homem e sido o vírus responsável pela pandemia da Influenza A H1N1 (UJVARI, 2011a, p. 25), já que as aves são reservatórios desse vírus, que pode se replicar sem que elas adoeçam. O Influenza pode acometer equinos, baleias, aves, porcos e seres humanos, e há uma hipótese de que a gripe espanhola8 se tenha originado de um vírus dessas aves.
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A denominação “gripe espanhola” pode ter origem na ideia equivocada de que a doença se originou na Espanha e/ou ali tenha feito o maior número de vítimas. Há outra explicação, ligada à neutralidade da Espanha na Primeira Guerra Mundial, que não censurava as notícias sobre a existência da gripe
Em 1917 e 1918, o vírus Influenza também atingiu os porcos da América do Norte, nos quais permaneceu, com sintomas leves, durante o século XX; isso acabou dando nome à gripe suína. Com a intensidade da troca de mercadorias e dos fluxos, uma mutação (proveniente de outros continentes) do RNA9 desses vírus tornou-os mais potentes, e eles lograram atingir o homem; é possível que sua disseminação entre seres humanos tenha dado origem à gripe suína de 2009 (UJVARI, 2011).
O reconhecimento de que o Influenza A H1N1 e o da gripe espanhola são o mesmo vírus decorre de um experimento na década de 1990, em que pesquisadores dos EUA recuperaram o RNA do vírus da gripe espanhola do tecido pulmonar preservado de um esquimó enterrado em solo frio (UJVARI, 2011, p. 38).
Assim, é importante ressaltar que, antes da pandemia de Influenza A H1N1 (cujo ápice foi em 2009), houve outras pandemias no século XX, com maiores morbidade e número de mortes (Quadro 15).
Quadro 15 – Pandemias do século XX
Características das três pandemias do século XX pandemia (data e nome) área de emergência subtipo de vírus Influenza taxa estimada de mortalidade estimativa de mortalidade no mundo grupo etário mais afetado 1917-1919
gripe espanhola incerta H1N1 3% 20-50 milhões
adultos jovens 1957-1958
gripe asiática
China
meridional H2N2 < 0,2% 1-4 milhões crianças
1968-1969 gripe de Hong Kong
China meridional H3N2 < 0,2% 1-4 milhões todos os grupos Fonte: Strengthening [...] (2011).
epidêmica, daí a conclusão de que a moléstia matava mais naquele país. Uma das diversas hipóteses sobre o surgimento da doença aponta os campos de treinamento militar no interior dos EUA, mas, de todo modo, foi a maior epidemia da história, tendo causado cerca de 20 milhões de mortes em todo o mundo (contra 8 milhões da Primeira Guerra Mundial). Pelo menos 600 milhões de pessoas adoeceram com a pandemia. Entre março de 1918 e maio de 1919, a gripe espanhola teve três ciclos mundiais. O segundo e o terceiro período da influenza espanhola duraram de agosto de 1918 a janeiro de 1919; os outros dois não foram graves. Estudos sugerem que, em 1818, o vírus mutante da gripe humana passou a se assemelhar ao da gripe animal (suína), o que explicaria a virulência da doença, pois a resistência do organismo das pessoas contra esse vírus seria praticamente nula (BERTUCCI, 2004, p 122).
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RNA é a sigla para ácido ribonucleico, que é o responsável pela síntese de proteínas da célula. O RNA é formado geralmente em cadeia simples, e suas moléculas são muito menores que as do DNA.
Em 2009, estimativas de modelagem matemática dessa pandemia (STRENGTHENING [...], 2011) apontaram a possível infecção de 200 milhões de pessoas no mundo. Em agosto de 2010, quando a doença entrou num período pós- pandêmico, anunciou-se o resultado de cerca de 18.500 mortos em consequência da Influenza pandêmica A H1N1, e se concluiu que o número de mortes atribuíveis ao vírus pandêmico poderia ser significativamente maior, pois, quando “autolimitada” (menos potente), os sintomas da Influenza A H1N1 2009 são semelhantes aos da gripe sazonal: febre, tosse, dor de cabeça, dores no corpo, dor de garganta, corrimento nasal, náuseas, vômitos e diarreia. A maioria dos pacientes se recupera em uma semana, sem tratamento. A propagação do vírus parece ser semelhante à da doença sazonal: por meio de gotículas de aerossol ou liberadas na fala, na tosse ou em espirros.
Além da preponderância da doença autolimitada, a gripe pandêmica H1N1 2009 produziu um espectro de doenças que inclui complicações graves ou fatais. A principal causa das doenças grave foi pneumonia viral associada a lesão pulmonar grave, que resultou em insuficiência respiratória e, por vezes, colapso circulatório e insuficiência renal.
Há uma diferença entre a gripe pandêmica A H1N1 e a gripe sazonal, que consiste na maior ocorrência daquela em pessoas mais jovens. Uma possível razão para essa distribuição etária incomum é a semelhança entre o vírus da gripe pandêmica H1N1 2009 e o da gripe espanhola. Talvez os idosos de hoje tenham maior proteção contra o vírus 2009 por ter sido expostos à gripe espanhola nos primeiros 60 anos do século XX (UVJARI, 2011).
A Figura 8 ilustra a mutação do vírus e sua transmissão entre aves, suínos e humanos, e podemos ver como a mutação atinge vários tipos de hospedeiro.
Figura 8 – Mutação do vírus e sua transmissão entre aves,
suínos e humanos
Fonte: Strengthening [...] (2011, p. 28). Tradução e adaptação da autora.
A denominação “gripe suína” levou especialistas a um questionamento sobre saúde animal, pois, enquanto circulava entre humanos, o vírus não incidia em animais. Esse nome também tinha implicações no comércio de suínos vivos e sua carne, tendo levado ao sacrifício de porcos em grande escala.
Não há dados demonstrando o aumento do risco de infecção por exposição a porcos ou a derivados de carne suína. Em junho de 2009, em conjunto com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e a OIE, incluindo virologistas da gripe de saúde pública, a OMS encontrou um nome aceitável; a partir daí, adotou-se o nome “pandemia de gripe A 2009 vírus H1N1”.