4. ECONOMETRIC PROCEDURE
4.1 VAR MODEL
A negação do foco no professor e a tentativa de superação do conceito de educação enquanto uma transmissão de uma bagagem cultural fez emergir diversas abordagens que assumiram seus primeiros espaços em cenários que visavam distanciar a educação das velhas influências tradicionalistas.
Dentre essas abordagens, a corrente humanista de ensino, fortemente influenciada por nomes como Rogers e Neill, assume destaque justamente por colocar o sujeito no centro do processo, principalmente por atribuir-lhe papel fulcral na elaboração do conhecimento. Desse modo, é a essa visão que se deve a concepção de ensino centrada no aluno e não no professor.
O que é de mais interessante, nesse prisma, é a ênfase dada às relações interpessoais e ao desenvolvimento que essas relações proporcionam. O objetivo é o de desenvolver a personalidade dos alunos com embasamento na construção e na organização da realidade de cada um. A vida interna e o autoconhecimento têm prioridade no desenvolvimento para que os alunos saibam lidar com as realidades individual e grupal.
O professor deixa de ser o detentor do saber para assumir papel de orientador de ensino, pois o conteúdo passa a surgir da interação com o meio e desse modo, ao mestre é dada a função de criar os caminhos para que os infantes aprendam.
Nessa visão de ensino, o provisório ganha força e é determinante, pois, de acordo com ela, estaríamos num movimento constante de descobertas de nós mesmos, do outro e do mundo. E se a (re)descoberta é constante, os modelos educacionais não podem ser prontos, eles são sempre o limiar de um vir a ser.
Mizukami expõe o que está no miolo desse pensamento do seguinte modo: O homem não nasce com um fim determinado, mas goza de liberdade plena e se apresenta como um projeto permanente e inacabado. Não é um resultado, cria-se a si próprio. É, portanto, possuidor de uma existência não condicionada a priori. (1986, p. 38)
O posicionamento de Franchi (2006) dialoga com o que Mizukami expôs:
já não se pode pensar a educação como a transmissão de uma herança cultural, nem como a transferência de informações e conteúdos” (p.45).
Vemos, com isso, que o universo subjetivo é determinante, do mesmo modo que as relações oriundas da interação também o são. As emoções e as percepções são essenciais no desenvolvimento de cada sujeito que não pode ser entendido como uma instância já pronta sobre a qual recaiam todas as expectativas de que ele seja um sujeito ideal. Ao contrário, há, no homem, uma provisoriedade fundamental e constitutiva.
Contudo, as estruturas sociais das quais somos partes integrantes e determinantes, dificilmente nos conduzem a desenvolver a liberdade de que de precisamos para nos mantermos sujeitos antropológicos no sentido lato do termo. Se, de um lado, não se questiona que à autonomia intelectual é atribuído o poder de tomada de decisões e de solução de problemas, de outro, não se nega que as relações interpessoais (a dependência do outro) também são condicionantes no processo de desenvolvimento de cada indivíduo.
A nosso ver, a discussão pode ser levada para um nível mais profundo na medida em que cremos que só a equilibração oriunda da atividade da linguagem dá aos humanos condições de relações interpessoais de maior qualidade. E quando falamos em equilibração nos referimos ao alto grau de centralização do qual cada ser humano é capaz e essa regulagem nos permite traçar melhores teias de relacionamentos. Trata-se do autoconhecimento conduzindo um humano a enxergar a humanidade dentro de si. É a autenticidade gerando alteridade.
Retornando à visão humanística do ensino, essa crê que o conhecimento sempre é inacabado, dinâmico e está vinculado ao experimento, haja vista que o homem seria dotado de uma curiosidade inata que o levaria a aprender. Conhece-se aquilo que se experimenta e, nesse caminho, a percepção só pode ser de ordem subjetiva, pois a experiência é primordialmente pessoal, o que faz com que a realidade também o seja.
A educação centrada no sujeito dá-lhe a responsabilidade de aprender e gera uma polêmica ideológica dentro do ensino, pois o professor passa ser coadjuvante defronte a uma velha guarda que o tomava como protagonista no processo de ensino-aprendizagem. E essa polêmica recorrente de uma má interpretação também de ordem ideológica. Quando há uma aposta no sujeito, estabelece-se que cada
relação interpessoal é única. O ensino bem sucedido depende da inter-relação entre o caráter individual do aluno e o caráter individual do professor.
A nosso ver, o que essa filosofia educacional deixa como um bonito projeto pedagógico é a premissa de que só a mudança gera conhecimento, isto é, quando o sujeito vai para o centro, o conceito de unicidade toma espaço privilegiado e valoriza a busca continuada da autonomia em oposição à heteronomia herdada do pensamento tradicional. Assim, a sala de aula seria um espaço que forneceria um encontro premeditado e consciente de sujeitos que visam ao crescimento por meio de mudanças proporcionadas pelos experimentos escolhidos pelos próprios alunos cujo resultado maior seria a autodescoberta e a autodeterminação.
Tal pensamento, se levado às últimas consequências, extinguiria todo risco de manipulação dentro de um sistema educacional. Seja do estado para com o professor seja do professor para com o aluno, seja do aluno para com ele mesmo. Disso resultaria um aprendizado que tornaria a dúvida, a incerteza, a perplexidade em ferramentas valiosas. Logo se abdicaria da medida de experiências em função da aproximação de experiências, de modo que ao professor não caberia mais a obrigação de ter métodos e estratégias bem consolidadas de ensino, haja vista que cada aula, cada interação com um aluno seria considerado um fenômeno único e irreprodutível.
A ideia de que cada sujeito tem o dom da autoconstrução e de uma capacidade incessante de se autorregular e de se autoavaliar, num nível superficial de análise, é piamente aceita na comunidade acadêmica, porém, quando a discussão se aprofunda e se começa questionar a valia dos recursos de aula (visuais, auditivos e o próprio livro), a polêmica se instaura por colocar em dúvida a real valia e serventia do ensino formalizado.