A concepção de espaço teatral que Artaud propõe no teatro e seu duplo se afasta, como já se mencionou, das diretrizes convencionais do espaço italiano. A disposição frontal é transformada por uma envolvente onde a ação cênica se desenvolve em todos os pontos do espaço, inclusive por sobre a cabeça do espectador, abrindo eixos de percepção que até o momento não tinham sido explorados. Nos anos sessenta alguns grupos de teatro como o Living Teather levaram ao terreno da prática a interpretação que fizeram das propostas artaudianas e a partir daí o espaço teatral experimentou transformações inusitadas que colocaram a experiência teatral muito mais perto do sensível que do racional: o público envolvido pela ação se transforma em parte dela. Ou seja, que a grande batalha de Artaud contra o texto, contra o teatro de autor, que para ele era a causa que definia a tendência logocêntrica do teatro do ocidente, é recuperada por aqueles que defendiam a idéia de um teatro sem distâncias físicas entre atores e público, onde o espaço se organize em função de uma dinâmica da ação que aponta a uma percepção também dinâmica.
Se a experiência urbana nas cidades contemporâneas é a de um percurso por um labirinto onde a pessoa perde o rumo por se enfrentar com situações sempre imprevisíveis,
onde a adaptação é constante e os papéis são múltiplos, o espaço teatral nas diferentes propostas do Grupo da Vertigem, coloca ao espectador, como no caso das cidades pós- modernas, numa função ativa dentro do espetáculo. O espaço não mostra de forma clara qual é o lugar reservado para o espectador. O espaço se constrói como um labirinto imprevisível que apresenta cada um dos lugares, das diferentes cenas, com suas regras diferentes. Em alguns lugares do espaço teatral o público permanece em pé, escolhendo o ângulo e a distância sobre a qual vai se posicionar em relação à cena. Em outros lugares, ao contrário, o público é conduzido até cadeiras de onde assistirá a cena, ou a corredores estreitos onde tem que permanecer em pé e se apertando com os outros espectadores. Entre uma cena e a outra o público transita na arquitetura do espaço indo ao encontro da situação dramática seguinte, que espera o trânsito dos espectadores como no caso dos mistérios medievais. A certeza de um lugar fixo, a segurança da poltrona da sala convencional não forma parte da concepção espacial dos espetáculos do GTV. O trânsito dos espectadores coloca-os numa situação de mudança constante e o destino é sempre diferente no sentido da resolução espacial das cenas: o espaço mantém sempre sua imprevisibilidade no sentido de se negar a revelar uma estrutura lógica de funcionamento.
Neste sentido, aparece a inexistência de uma lógica de funcionamento que produza uma certa tranqüilidade, de forma a fornecer uma estrutura sobre a qual cada espectador possa construir seus mecanismos de defesa e a percepção do trabalho deixa de se localizar principalmente no racional. O sentido latente do risco que o espectador experimenta através da falta de clarezas e certezas que se desprendem dessa organização espacial, orienta a experiência da percepção em direção ao sensível: o corpo do espectador é um corpo alerta que interage com os diferentes códigos teatrais, mas está obrigado a pisar a sangue que cai das feridas abertas de Jó, subir as escadas acompanhando como procissão religiosa o percurso da personagem, estabelecer, enfim, uma dinâmica real dentro do itinerário do espetáculo que apaga as fronteiras espaciais com o trabalho do ator, deslocando também o processo perceptivo do aparelho intelectual ao introduzir o espectador numa experiência de trânsito. O fato de não saber qual vai ser o funcionamento espacial da próxima cena, faz do espectador um sujeito que entra num jogo de constantes adaptações e que tem que re- estruturar a cada momento sua posição em relação ao objeto artístico. O espectador que participa do jogo cerimonial do GTV entende que a representação simbólica que lhe é
oferecida não é um todo homogêneo, senão uma realidade fragmentada cujas tensões, em determinada coordenada espacial, apresenta valores diferentes e frente aos quais tem que se adaptar para sintonizar o código que cada cena, com seu lugar cênico particular, estão propondo-lhe. Isto faz com que o público tenha que perceber que atitude cada cena está solicitando.
O espaço teatral nas representações do GTV reafirma a inexistência de um ‘sujeito’ único – totalizante no público como acontece via-de-regra nas salas, porque a própria ordem caótica dos espaços da encenação implica na reafirmação do espectador como indivíduo particular que constrói seu próprio ângulo de leitura do espetáculo desde a concepção da encenação.
O espaço teatral como um todo: igreja, presídio, hospital, que outorga coerência semântica ao espetáculo e re-atualiza seu conteúdo simbólico é dividido e fragmentado em blocos independentes que possuem suas próprias regras de funcionamento. O que liga as diferentes cenas que se desenvolvem em diferentes lugares do espaço teatral, é o percurso dos espectadores que acompanham em peregrinação os acontecimentos dramáticos. O público, colocando à disposição seu compromisso físico, através dos deslocamentos e re- acomodações constantes, participa do jogo cênico e deixa seu rol de observador para se transformar em testemunha das situações dramáticas. Quando uma pessoa se transforma em testemunha de um fato, fica envolvido no processo judiciário assumindo uma participação que será avaliada pelo tribunal, para decidir o futuro do processado. A testemunha não fica de fora da situação, não é um observador distante, é alguém que deixa de ser um observador descomprometido para entrar no universo da ação do processo e se transformar em participante ativo.
O funcionamento do espaço nos espetáculos do Grupo da Vertigem faz que o público se aproxime e acompanhe a ação apagando as fronteiras espaciais com o ator e também faz que o público assuma um compromisso vital com o espetáculo: não pode ficar afastado da ação, seu corpo se relaciona com o espaço teatral e ao construir um percurso real que o conecta com a materialidade da arquitetura, fica envolvido no jogo da representação que ainda respeitando seu papel dentro do espetáculo, abre o espaço para que ele tenha um contato direto. O Grupo da Vertigem toma um espaço social, reconduz sua força simbólica e ao fazê-lo parte de uma construção espetacular que é devolvida à
sociedade que agora no papel de espectadores percorrem suas instalações acompanhando o destino de personagens teatrais. Assim o público, como testemunha das peripécias das personagens, assume um compromisso físico que realimenta a relação simbólica que ele tinha com o espaço - e que forma parte do jogo de construção de sentidos - numa troca entre suas velhas experiências com esses espaços e aquela que o espaço na sua nova função espetacular consegue fazê-lo vivenciar.
O espaço teatral promove uma experiência sensível, aproveitando a história simbólica do edifício que se mistura com a história ficcional e abrindo trilhas para um percurso físico que coloca ao espectador frente a situações de adaptações constantes e frente a estados de alerta que re-atualizam o ideal Artaudiano.
Essa lógica do espaço que compromete o espectador pareceu proliferar em experiências cênicas contemporâneas tais como, por exemplo, no trabalho da Organización La Negra (Argentina), La Fura Dels Baus (Espanha), Pesce Crudo (Itália), (E)xperiência Subterrânea (Argentina), o que permite dizer que esse funcionamento que se observa na perspectiva do Teatro da Vertigem pode ser considerado uma tendência exploratória que tem repercussões em diferentes sistemas teatrais. (CARREIRA: 2003).
O espetáculo contemporâneo deixa um espaço aberto para a exploração do público, o que produz, como já foi enunciado no capítulo primeiro, a cerimônia, uma aproximação ao rito, ao apagar, por momentos, as fronteiras que separam o lugar destinado ao público do lugar da ação dramática e transformar o espetáculo num evento onde todos estão envolvidos na ação. O espaço cênico deixa de ser um espaço com limites rígidos, para se definir como uma criação dinâmica, flexível e com capacidade de metamorfoses. Isto é, um lugar entendido como lugar de acontecimentos, que implica para o espectador readaptações constantes, risco e surpresa. O espaço teatral pós-moderno é, nas encenações do GTV, como também nas dos grupos mencionados, uma caixa de surpresas que envolve o espectador através da dinâmica do espetáculo, levando-o a viver uma experiência que é fundamentalmente corporal.