2.1 Formålsparagrafenes ordlyd
2.1.2 Demokrati som en kritisk-konstruktiv dannelse
O espaço teatral nas encenações do Grupo de Teatro da Vertigem, não evolui por via de um palco único, através das transformações produzidas pelas mudanças de cenário, pela intervenção das luzes e a incorporação de elementos ou dispositivos cênicos, ou a ação dos atores. Todos esses procedimentos naturais do teatro convencional tomam outras diretrizes nas encenações do grupo. Os diferentes lugares cênicos nos quais se desenvolve a ação dramática são os espaços interiores dos prédios escolhidos: o jardim, as escadas, os corredores os muros. Cada espaço, com sua característica particular determina a ação, como também a posição que deverão adotar os espectadores para assistir essa cena. O espaço mostra sua fisionomia e às vezes é re-adaptado com algum aparelho técnico ou re- significado pela incidência da luz. Mas é a característica própria de cada lugar cênico que é aproveitada ou escolhida em função da cena: o real se faz presente com toda sua força material e simbólica através de grades, escadas, corredores escuros, muros e salas deterioradas. Como se disse, não existe uma evolução do espaço cênico, o que evolui é a história, a trama do argumento que apresenta um fio condutor e estrutura a unidade do espetáculo junto com a arquitetura como um todo. Mas cada lugar cênico que apresenta sua independência formal é um bloco independente, um compartimento que se manifesta sem uma continuidade com a resolução espacial anterior ou posterior. O espaço é parcelado e o espetáculo se distribui em cada uma dessas parcelas possibilitando o aproveitamento particular de suas condições espaciais.
O estreito, o alto, o fechado, o transparente, o inclinado, o horizontal, o vertical o interior, o exterior serão características que se explorarão em função das possibilidades de cada reduto cênico. Assim, o espectador tem consciência que está realizando um percurso por um hospital ou um presídio, mas desconhece o que vai acontecer no trânsito até o próximo lugar cênico. As alterações das diferentes possibilidades espaciais se modificam entre uma cena e a outra, porque o espaço que manifesta suas diferenças em cada reduto é aproveitado com suas características particulares. As diferentes cenas que acontecem em lugares diferentes possuem características também distintas, o que leva a percepção a se acomodar constantemente. Isso faz com que os códigos espetaculares sejam re-atualizados no decorrer do espetáculo, levando o público a se posicionar de maneiras diferentes frente às distintas cenas. Neste sentido, o espaço nas encenações do grupo é usado de forma
fragmentada, acentuando o sentido esquizóide presente na cultura pós-moderna, o que acentua a força do instante.
Essa característica “esquizofrênica” do espaço se dá porque ao invés de evoluir de uma unidade núcleo, como no caso do espaço cênico das salas convencionais, se reinicia em cada novo lugar onde a cena se instala com uma força renovada. Cada lugar cênico não tem passado nem futuro, é ele próprio na contundência desse instante, apresentando-se aos espectadores que o consumirão completamente no encerramento da cena: nada relativo à cena que está se desenvolvendo fica para o futuro da representação, nem cada lugar cênico mantém contas pendentes com os lugares cênicos das cenas anteriores. Neste sentido o espaço teatral se apresenta como um labirinto com diferentes compartimentos que se constituem como locais da ação quando o espectador ingressa e fica reduzido a cinza, quando a cena finaliza e o espectador o abandona.
O lugar cênico nas encenações do Grupo Teatro da Vertigem é um território sem fronteiras entre espectadores e atores, entre representação e realidade: a realidade material das grades, a realidade histórica da prisão, a realidade simbólica desses espaços que estão presentes no imaginário das pessoas, se misturam com a ficção dramática gerando um processo de hibridação com a produção de novos signos. Cada um dos elementos que constituem os espaços cênico, teatral e de ficção se re-contextualizam com a presença simultânea de ficção e realidade e intensificam sua força como signo, já que se re-definem na troca com o espectador e dentro deste novo intercâmbio simbólico que a concepção teatral do grupo impõe. O público não sabe com o que vai se encontrar, porque a construção da cena não está padronizada, não pertence a nenhum cânone estético hegemônico, e quando começa a entender as regras dos novos códigos espetaculares a cena muda, e com ela também suas leis internas.
A tendência esquizofrênica da pós-modernidade a que Jamenson faz referência, também pode ser experimentada nas representações do GTV, já que a ruptura com a continuidade leva a viver a experiência do instante como aquela onde se concentra tudo, onde se potencia a intensidade do espetáculo por pertencer a um presente puro não relacionado no tempo.
Os diferentes espetáculos do GTV parecem propor que o público perca o sentido da sua situação ou tenha dificuldade momentânea de perceber seu lugar no processo da cena: o
público perde sua identidade por momentos já que não sabe, frente a determinadas cenas, se deve ser ator ou espectador do que está ocorrendo.
Em Apocalipse 1.11, em algumas transições de cena, por exemplo, o público é levado por personagens mediante a força a abandonar o lugar cênico que ocupava, para se colocar em outros espaços. A ação se realiza de forma tal que o público é colocado no papel de um actante que participa da ação dramática.
Os limites que asseguram o lugar de privilégio do espectador como observador intocável da ação dramática são quebrados. Se o simulacro, por definição, é uma simulação que apaga os limites entre o verdadeiro e o falso, entre ficção e realidade, a função espectador é construída como simulacro dentro das encenações do GTV, o que não deixa de produzir uma divisão no sujeito. O espectador, neste sentido não encontra sua identidade de espectador em função dos velhos códigos e é impulsionado a viver uma experiência esquizofrênica já que constantemente está precisando recompor seu papel dentro do funcionamento do espetáculo.