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2.2 De konkurransebegrensende klausulenes innholdsmessige skranker

2.2.1 Konkurranseklausul

Lázaro Ferro é um transformista natural de Cuba com especialização em dança contemporânea. Em 2004 imigrou para Portugal, cumprindo um contrato de dois anos como animador do casino da Póvoa de Varzim. A partir de 2006 Lázaro começou a trabalhar em várias discotecas, apresentando-se com diferentes estéticas performativas que variavam entre o striptease e a “dança robot”. Seguidamente fixou-se no Porto na agora extinta discoteca Moinho de Vento, onde fazia um “papel masculino” com nome artístico de “Latchi”, num estilo análogo ao de Vítor Hugo no Finalmente Club. A partir de 2009 mudou-se para Lisboa, trabalhando atualmente como lojista num estabelecimento comercial.

Embora tivesse anteriormente frequentado o Finalmente Club, foi só com a sua vinda para Lisboa que Ferro passou a participar com maior frequência na rúbrica “Lugar às Novas”. Numa fase inicial fez alguns números que faziam parte do seu repertório anterior; porém, a certa altura Lázaro Ferro sentiu necessidade de fazer algo diferente e explorar novas estéticas performativas. Chegou a apresentar-se como transformista tradicional, mas a sua fisionomia condicionou o sucesso do seu boneco; por outro lado, Lázaro sentia que o papel de mulher era limitado. Foi neste contexto que criou o “Shantal de Cuba”, uma personagem andrógena que pode ser enquadrada na estética do

                                                                                                                         

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Entrevista a João Velosa “Nyma Charlles”, transformista no Finalmente Club (27 de julho de 2013 no café Baiana, Avenida da Liberdade, Lisboa, 17:00).

drag queen:

“Quando olhava para os transformistas não me via a fazer o que eles fazem; não me via estar vestido de mulher. Por outro lado também achava que estar a fazer de homem era muito limitativo; queria explorar coisas novas. Sentia-me preso naquela roupa de homem, na personagem de homem e queria fazer mais, libertar-me um pouco mais ... mas sem chegar à mulher. Ser mulher implicava também ficar limitado à imagem feminina. Por isso adotei um género diferente; um género livre: posso fazer a música de um homem como de uma mulher … eu tenho essa liberdade por ser um personagem andrógeno; é aberto e não está limitado a nada. Ao fazer de andrógeno posso fazer o que eu quero e do jeito que eu quero. Sem esquecer a repercussão que poderá ter no publico, é claro”132.

Para Lázaro Ferro “Shantal de Cuba” o “Lugar às Novas” tem um papel primordial para os processos de criação e moldagem da sua personagem. É aí que ele testa diferentes estéticas performativas até chegar àquilo que constitui para ele e para o público um ideal performativo: “foi no Finalmente que me dei a conhecer, foi onde me testei e reinventei com artista”133. O “Lugar às Novas” torna-se assim num autêntico barómetro através do qual Lázaro percebe o que funciona e o que não funciona com o público. O transformista vai mais longe ao usar o Finalmente Club e, em particular, o “Lugar às Novas”, como um espaço privilegiado para se dar a conhecer ao público em geral, e por conseguinte, alcançar novas oportunidades de trabalho:

“O Finalmente é uma montra onde me apresento ao público e a possíveis interessados que depois contratam os meus serviços. Por essa razão eu não me importo de receber muito pouco pela performance que lá faço todas as semanas. Quando me contratam e eu peço o cachet que o meu trabalho vale, as pessoas dizem “mas para o Finalmente tu vais de borla”... eu respondo que sim, que vou quase de borla porque ir lá não é trabalho mas sim um gosto pessoal. E depois sei que a minha exposição naquele espaço acaba por trazer mais hipóteses de trabalho. Quem precisa de espetáculos deste tipo onde vai procurar? Ao Finalmente, naturalmente. Ao atuar lá as pessoas ficam a conhecer o meu trabalho e depois contratam-me para outros sítios”134.

Neste sentido, para Lázaro Ferro o Finalmente Club é uma espécie de montra onde apresenta ao público o seu trabalho. Cada número seu estreado no “Lugar às Novas” é

                                                                                                                         

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Entrevista a Lázaro Shantal “Shantal de Cuba”, transformista (Lugar às Novas) (23 de maio de 2013 na Praça Martim Moniz, Lisboa, 16:20).

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Ibidem. 134

um investimento com propósitos de projeção para outras salas de espetáculos. Apesar de ganhar pouco monetariamente no Finalmente Club, Lázaro Ferro acaba por colher muito mais com as oportunidades que lhe são oferecidas por dirigentes de discotecas de norte a sul do país, oportunidades decorrentes da sua exposição naquele espaço.

Quando pedi a alguns dos transformistas para que partilhassem casos que considerassem paradigmáticos do “Lugar às Novas”, todos eles referenciaram o caso de “Shantal de Cuba”. Salientaram, em particular, as diferentes mudanças performativas que o artista atravessou, desde o papel de bailarino masculino até à personagem andrógena que atualmente o caracteriza. João Velosa “Nyma Charlles” é particularmente entusiasta em relação à estética performativa de Shantal de Cuba:

“O Shantal é um caso diferente. Ao contrário da maioria dos que fazem o “Lugar às Novas” ele faz um trabalho muito bem feito e estruturado. Sendo o Finalmente considerado a catedral do transformismo, quem lá se apresenta é porque realmente vale alguma coisa. O Shantal percebeu logo isso e teve a esperteza de se reinventar. De repente apareceu um Shantal com uma outra produção, com uma outra maneira de estar em palco. Começou a investir num novo produto, e quando se investe e o produto é bom, há sempre alguém que o compra. Por essa razão ele começou a ter muito trabalho para fora. Depois teve a esperteza de ancorar o seu boneco na dança, que é a grande essência dele, diferenciando-o de todos os outros que estejam no mesmo sistema. Usa a dança como eu uso a minha formação em teatro, por exemplo. Ele é a prova de que se não tiveres mais nada para dar a não ser vestires-te de mulher, acabas por morrer”135.

Em suma, o “Lugar às Novas” é um espaço privilegiado para a apresentação de novos artistas emergentes. É um espaço aberto ao público onde transformistas, transsexuais ou apenas curiosos se podem apresentar em público e colocar a sua criatividade à prova. O facto de este ser um formato aberto a qualquer pessoa faz com que o “bom” e o “mau” (segundo valores dos transformistas residentes e do público) coabitem numa complexa amálgama valorativa, apesar de o “mau” acabar por ser, em parte, a estética mais valorizada pelos clientes. Estes procuram o “Lugar às Novas” para poderem troçar dos artistas em ascensão, numa situação análoga ao que acontece em programas de televisão tais como o Ídolos136, que tem como um dos seus objetivos

                                                                                                                         

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Entrevista a João Velosa “Nyma Charlles”, transformista no Finalmente Club (27 de julho de 2013 no café Baiana, Avenida da Liberdade, Lisboa, 17:00).

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Concurso de televisão em formato competição criado por Simon Fuller com o objetivo de encontrar o cantor(a) preferido(a) do público, o “ídolo”. Em Portugal o programa “Ídolos” está licenciado para o canal de televisão SIC.

centrais fazer entretenimento através das más performances daqueles que os seus produtores chamam “os cromos dos ídolos”. Por outro lado, não podemos restringir esta rúbrica a um único propósito de ridicularização, na medida em o “Lugar às Novas” é um estratégico espaço de projeção para outros estabelecimentos. Esta última perspetiva encontra o seu paradigma no caso de Lázaro Ferro “Shantal de Cuba”, transformista que usou esta rúbrica para construir a sua personagem e como um meio privilegiado para chegar ao público e aos dirigentes de outros espaços, numa espécie de montra performativa através do qual se apresenta com um produto, podendo a posteriori conseguir contratos de trabalho em outros espaços.

No que respeita ao futuro do formato, Fernando Santos, diretor artístico do Finalmente Club refere que:

“O “Lugar às Novas” encontra-se numa situação difícil. Há quem me surpreenda pela positiva, porém há muito pouco trabalho, cada vez são menos as casas que adotam este tipo de espetáculo. Se me contratassem para dirigir um espetáculo grande, com 15-20 pessoas, eu teria no “Lugar às Novas” alguns elementos que aproveitaria. Agora muitos deles têm vícios e são muito mal dirigidos. Eu também não toco muito nesse assunto com eles, primeiro porque não me perguntam, depois porque acho que não vale a pena. Afinal, não há trabalho”137.

Fernando Santos pretende continuar a manter o formato acessível ao publico, proporcionando assim a possibilidade para que transformistas amadores se testem em público. Assim sendo, o Finalmente Club, além de ser uma sala de espetáculos, é também uma autêntica escola de transformismo que tem no “Lugar às Novas” uma espécie de estágio onde os amadores se constroem como artistas sob o atento escrutínio dos profissionais.