2.2 De konkurransebegrensende klausulenes innholdsmessige skranker
2.2.2 Kundeklausul
2.2.2.3 Andre forretningsforbindelser
“Sou eu que escolho o repertório, principalmente do “espetáculo da casa”, aquele que é o mais elaborado, com números de conjunto, que tem uma temática unificada, etc. Como conheço bem as pessoas que trabalham comigo sou eu que escolho todos os números, depois escolho o que acho que pode ficar bem nelas e de que modo me podem vir a surpreender138”.
Como já foi referido anteriormente, a escolha do repertório a ser apresentado no Finalmente Club está a cargo do diretor artístico, Fernando Santos. Quando perguntei aos transformistas se existia um repertório que eles considerassem ideal para o espetáculo de transformismo, as respostas foram inequívocas: “Para mim não”, referiu Marco Ferreira “Samantha Rox”, “desde que a música me entre no ouvido e se gostar do ritmo e da batida, eu faço... eu não vou necessariamente pela letra”139. João Velosa “Nyma Charlles” apresentou uma resposta semelhante ao responder: “Não. Eu acho que temos de ser versáteis e conseguir fazer um pouco de tudo”140. Apesar das diferenças estilísticas de cada um dos transformistas, existem alguns pontos que os une. Procederei em seguida à análise do repertório recolhido na semana de 20 a 26 de maio de 2013 (Vide ANEXO B).
Apesar dos meus informantes terem enunciado como ideal a imitação pormenorizada do artista original, só dois dos transformistas é que procuram uma estética apresentacional enformada sob este ideal: Fernando Santos “Deborah Krystal” e Jenny Larrue. Um dos bonecos que faz parte do repertório de Krystal é a cantora Isabel Pantoja; para Jenny Larrue é a cantora Whitney Houston. A escolha destes personagens decorrem de fatores como as parecenças físicas dos transformistas com as cantoras, não só faciais como as curvaturas corporais (que podem, por sua vez, ser moldadas ou
138
Ibidem. 139
Entrevista a Marco Ferreira “Samantha Rox”, transformista no Finalmente Club (18 de maio de 2013 no Café Baiana, Avenida da Liberdade, Lisboa, 16:30).
140
Entrevista a João Velosa “Nyma Charlles”, transformista no Finalmente Club (27 de julho de 2013 no café Baiana, Avenida da Liberdade, Lisboa, 17:00).
adaptadas com recurso a enchumaços). Nestes casos todos os pormenores performativos dos “originais” são imitados ao pormenor: desde a roupa, aos movimentos, às expressões faciais, ao modo de andar, entre outros. Existe assim uma pretensão de criar uma réplica perfeita do “original”. Esta especialização num determinado artista é reconhecida pelos transformistas e pelo público, de tal modo que Krystal chegou a ser desafiada a interpretar no encore dos seus espetáculos a canção “Veneno” de Isabel Pantoja – uma das suas imagens de marca. Jenny Larrue tem por sua vez a seu cargo as interpretações de cantoras afro-americanas, que, além de Whitney Houston, incluem outros artistas como a Rihanna, Beyoncé ou até mesmo o clássico Shirley Bassey.
Um outro ponto a ter em conta para a análise performativa não se cinge apenas na especialização em “artistas” mas também em repertórios ou géneros musicais. Por exemplo, Fernando Santos “Deborah Krystal” e Vítor Hugo têm a seu cargo números hispânicos: Krystal faz um número de uma sevilhana pertencente ao repertório de Garcia de Triana (descrito no capítulo 3) enquanto Vítor Hugo faz bulerias e canções de artistas associados a esse repertório, entre eles David Bisbal, David Bustamante e Marc Anthony. Nestes casos a especialização nada tem a ver com a parecença física dos transformistas mas sim com o seu gosto pessoal e formação profissional dos artistas, não esquecendo que, em ambos os casos, existe uma especialização em dança de Flamenco (Vítor Hugo) ou uma longa experiência decorrente de uma tournée pela Península Ibérica (Fernando Santos).
Uma outra estratégia performativa que procura trazer autenticidade à performance do transformismo diz respeito ao recurso a gravações ao vivo dos artistas originais. Este meio contribui para a criação da ilusão entre os espectadores de que se trata, efetivamente, de uma performance ao vivo; nestes casos os transformistas apresentam-se em palco com um microfone. Alguns exemplos em que esta técnica foi utilizada incluem a interpretação de Jenny Larrue de “I Have Nothing” (Whitney Houston) ou a interpretação de Samantha Rox de “On a Night Like This” (Kylie Minogue). As palmas e os gritos do público que integram estas gravações auxiliam a criação de culminâncias no decorrer dos shows, apesar de, em alguns casos, se perceber que a densidade do ruído proveniente do público é desproporcional ao que seria normal ouvir no limitado espaço do Finalmente Club.
Ao contrário de Jenny Larrue e de Deborah Krystal, Samantha Rox e Nyma Charlles apresentam uma estética performativa “alternativa” resultante da
impossibilidade de criarem um boneco o mais parecido possível com o original. Para o efeito procuram criar uma mescla performativa que misture os gestos da cantora original com gestos pessoais; noutros casos abandonam por completo o original. Esta tendência é particularmente notória nas escolhas de Rox, em exemplos como “Don’t Leave Me This Way” ou “Last Dance” em que, ao invés de apresentar uma caracterização próxima à das artistas originais (Thelma Houston ou Donna Summer respetivamente), Rox apresenta- se com algumas alusões gerais à disco sound, como as perucas afro, roupa colorida ou óculos de sol. Nestes casos não se trata necessariamente de referenciar o artista original mas sim as características associadas ao imaginário do género musical; ou seja, Samantha Rox não interpreta a Donna Summer mas sim a disco sound.
Nyma Charlles adota, por sua vez, a estratégia de apresentar músicas ou artistas cuja imagem ou sonoridade não seja tão conhecida do público:
“Estou sempre a pesquisar novas músicas. Não quero ser óbvio e apresentar coisas que toda a gente está farta de ver na televisão ou na rádio. Eu procuro coisas que sejam desconhecidas do público porque se formos todos a bater na mesma música acho que não tem piada nenhuma. Até posso achar uma música engraçada mas se eu souber que dois ou três já estão a faze-la eu desisto completamente”141.
As suas interpretações de “I’m Only Crying” de Infernal, “Mr. Perfect” de Helena Paparizou e “Invincible” de Carola procuram surpreender o espectador através do recurso a artistas cuja probabilidade de serem conhecidos do público é muito baixa. O último exemplo é particularmente interessante, na medida em que se trata de uma canção concorrente ao Festival da Eurovisão de 2006 pela Suécia. A Eurovisão é um espaço favorecido para encontrar músicas que não sejam tão conhecidas pelo público em geral, na medida em que a sua promoção se restringe essencialmente aos meses que antecedem o espetáculo, mano a mano com muitas outras músicas de outros países europeus. Assim sendo, e perante o facto de a artista original não ser tão conhecida, a performance dos transformistas passa a ser a referencia imagética que o espectador transporta em relação àquela música. Outros exemplos de números retirados do Festival da Eurovisão incluem “I’m in Love” de Sanna Nielsen protagonizado por Norma Swan, e o número de conjunto “Las Vegas” de Martin Stenmark. Este último foi uma constante nas noites do
141
Entrevista a João Velosa “Nyma Charlles”, transformista no Finalmente Club (27 de julho de 2013 no café Baiana, Avenida da Liberdade, Lisboa, 17:00).
Finalmente Club, tendo sido apresentado em seis dos sete espetáculos que analisei. Quando perguntei a muitos dos elementos do público se conheciam quem cantava ambas as músicas, todos responderam desconhecer o artista original; muitos disseram que imaginavam alguém com o estilo de Swan e Hugo a interpretar cada uma das músicas, respetivamente, desde as roupas à coreografia. Assim, perante o desconhecimento do original, os transformistas tornaram-se nos artistas “originais” para o público. A tendência de procurar repertórios desconhecidos pelo público “é uma estética que poderá ser a predominante”, refere Fernando Santos, na medida em que:
“No passado qualquer coisa que era feita, boa ou má, era bem aceite porque era novidade. Hoje é muito mais difícil porque as pessoas têm muita informação e sabem inclusivamente quem é a cantora que estamos a interpretar. Ao verem-na nos clips sabem se ela é loira, se é morena, se tem olhos verdes, se dança muito, se está parada, se usa vestidos longos ou, se pelo contrário, usa mini saias. Hoje se nós fizermos uma Rihanna com uma peruca loira, com pigmentação clara e de olhos azuis o público vai-nos chamar de parvos. Hoje se formos fazer a Adele, e formos para o palco magrinhos com uma peruca de risca ao meio escorrida, ninguém nos vai identificar como sendo a Adele. Agora sabemos como são os artistas, na época [décadas de 70 e 80] não sabíamos. Por isso é que hoje em dia há uma tendência de procurar o contrário, de tentamos ser o mais originais possível e surpreender o mais possível o público. Faço questão de não procurar os nomes óbvios, primeiro porque esses artistas mais óbvios estão ao alcance de toda gente e depois é tão fácil ouvi-los com a tecnologia moderna dos computadores e dos videoclips etc. Melhor do que elas nunca vamos conseguir fazer não é? Elas são os originais. Por isso começa a haver a tendência de procurar artistas desconhecidos”142.
Ou seja, os novos sistemas de comunicação emergentes como a internet e a sua inclusão em dispositivos móveis como smartphones veio obrigar à adoção de novos critérios para a escolha do repertório dos transformistas: agora valoriza-se o desconhecido ao invés do conhecido, ao contrário do que seria a tendência prevalente no passado.
Um outro ponto importante diz respeito à especialização imagética de cada um dos transformistas em diferentes noções de feminilidade. Por exemplo, enquanto Jenny Larrue e Nyma Charlles procuram incorporar a mulher poderosa, imponente, associada a uma ideia de “diva”, Norma Swan apresenta-se, por sua vez, com um estilo muito mais juvenil, recorrendo para o efeito a vestidos que poderiam ser usados por uma jovem
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Entrevista a Fernando Santos “Deborah Krystal”, diretor artístico e transformista no Finalmente Club (06 de fevereiro de 2013 no Café A Brasileira, Chiado, Lisboa, 18:00). Entrevista realizada após a assistência de um ensaio dos transformistas no Finalmente Club.
numa festa de finalistas, ou a gestos associados a um comportamento juvenil (forma de andar, etc.). Esta diferenciação está também patente na sonoridade das músicas, não só no tipo de voz ou tipo de técnica vocal empregue, como também na temática da letra. Por exemplo em “Diamonds Are the Girls Best Friends” Nyma interpreta uma mulher com experiência de vida, uma femme fatale com um registo de contralto e com uma letra que enfatiza temáticas de valorização pessoal da mulher, enquanto “I’m in Love” apresenta uma voz aguda, com uma temática juvenil sobre o primeiro amor da jovem.
Neste sentido, a voz é um elemento central para a escolha do repertório de transformismo, como explica Fernando Santos: “Nós queremos aproveitar as grandes vozes, a espetacularidade de determinados momentos numa música em que elas dão agudos, se for bem feito mexe com o público e ajuda a que o show seja um sucesso”143. Assim sendo, predominam vozes agudas, tendencialmente sopranos, principalmente no repertório de Jenny Larrue, ao incluir nomes sonantes como Whitney Houston ou Beyoncé. Por exemplo, em “I Have Nothing” de Whitney Houston, Larrue faz uma performance estática, sem grandes movimentos, segurando apenas um microfone. Aqui o foco da atenção encontra-se na voz e por conseguinte, no playback bem executado. O culto da diva parece assim prevalecer, não só na procura de vozes fortes e agudas como na atitude dos transformistas em palco.
Não obstante algumas exceções, encontramos uma tendência geral para que sejam interpretadas músicas com um ritmo dançável, muitas vezes através de versões remisturadas. Foi-me dito que as letras das músicas não eram determinantes para a escolha do repertório (com a exceção dos espetáculos temáticos); o resultado sonoro era muito mais valorizado. Predominam assim repertórios associados à música pop anglófona com formato canção, música latina e alguns números ligados às estéticas dos casinos ou cafés concertos como o “Las Vegas” de Martin Stenmark ou o “Besame Mucho” de Dalida. Uma outra referencia incontornável é o recurso de músicas associadas à disco sound ou “músicas dos anos 80”, como referem os transformistas e os DJ’s residentes, esta última particularmente evidenciada no repertório de Samantha Rox. Será interessante referir que os DJ’s têm um papel central para o resultado satisfatório das performances, na medida em que são responsáveis pelo sistema de iluminação; através de um elaborado jogo de luzes os DJ’s são os responsáveis pela criação de
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culminâncias nos shows. A construção das personagens passa também pelas combinações e efeitos usados no sistema de luzes, como atesta Fabicó Correia, DJ adjunto do Finalmente Club: “Às vezes dão-nos instruções sobre que tipo de iluminação querem, outras vezes somos nós que combinamos as luzes conforme as cores das roupas. Cada um deles tem efeitos personalizados”144.
Em suma, que têm todos estes estilos em comum? “É a mulher bonita”, refere João Velosa, “todos querem ser a mulher bonita, todos querem ser a mulher perfeita, ninguém quer fazer uma cantora feia ou desinteressante”145. Todos querem agradar ao público e passar uma noção coletiva de festa. Para o efeito procuram interpretar canções dançáveis e com um ritmo acelerado. Existe uma tendência em adotar estilos performativos que variam consoante as possibilidades físicas (parecença física com o cantor original) ou, pelo contrário, fazer uma interpretação diferente do original. Quanto à primeira hipótese, há uma tendência para interpretar artistas famosos, enquanto na segunda, há uma tendência para procurar artistas pouco conhecidos do público. Alguns valores preponderantes incluem o culto da mulher bonita, da diva e da voz poderosa.