3.1 Anvendelsesområdet
3.1.1 Inngåelsestidspunktet
A análise do Finalmente Club como um espaço privilegiado para a sociabilidade não pode ignorar a importância da música para esse processo na medida em que, na sua ausência, as práticas performativas desenvolvidas na discoteca não existiriam, pelo menos com esta configuração. Ben Malbon, autor especialista na Sociologia do Lazer refere que a música tem uma importância chave para as experiências colectivas inerentes à prática do clubbing:
“The clubbing experience is primarily about music and the clubbers’ understandings of that music. These understandings are largely expressed and addressed through dancing […] Music is central to the clubbers’ enjoyment of their clubbing experiences (a point which presents itself forcefully in the accounts of clubbing that I have collated). Furthermore, through the identificatory power that very loud music exerts over the clubbing crowd, an emotional bond (or ethos) can be generated and reinforced between what is effectively a large group of strangers […]” (MALBON 1999:79).
Apesar das luzes, dos lasers, dos espelhos, do fumo e da falta de luminosidade serem elementos sensoriais intrínsecos a qualquer noite no Finalmente Club, é no som musical que recai uma das principais razões para os clientes escolherem este ou outro espaço noturno, procurando para o efeito um local onde a música reproduzida esteja em consonância com os seus gostos musicais ou com os repertórios que sejam considerados
ideais para o contexto. É neste sentido que os DJ’s são figuras centrais e decisoras no âmbito do Finalmente Club.
Dinis Gomes trabalha como DJ residente no Finalmente Club desde o final da década de 1990. O seu interesse pela prática de Disc Jockey iniciou-se “como uma brincadeira de escola”. Aos poucos conseguiu alguns trabalhos esporádicos como animador em alguns estabelecimentos noturnos, tendo exercido funções como DJ no Bric-à-bar; foi em seguida convidado pelo proprietário do Finalmente Club a fixar-se na casa em 1999, aí permanecendo até hoje. Fabicó Correia, funcionário do Finalmente Club desde 2009, acumula várias funções, desde barman, a apanha copos ou porteiro. No decorrer das férias e nas folgas semanais de Dinis Gomes (às quintas-feiras), Correia fica responsável pelos sistemas de luzes e som, assumido o cargo de DJ adjunto do Finalmente Club, sob a supervisão direta de Gomes.
É através das reações do público ao som musical que os DJ’s analisam o sucesso de uma determinada noite: caso os clientes dancem, saltem, ou cantem as melodias e os textos das músicas, a noite é considerada um sucesso; se, por outro lado, estiverem com uma atitude estática ou sem qualquer reação efusiva, a noite é considerada um fracasso. A música, ou melhor, as reações dos clientes à música são centrais para caracterizar o que os DJ’s consideram ser “uma boa casa” ou uma noite de sucesso. Neste sentido, o objetivo é agradar ao maior número de clientes possível; fazê-los vibrar com as músicas e com as mixagens feitas em tempo real. Porém, agradar a todos é um autêntico desafio, como nota Fabicó Correia, DJ adjunto:
“Às vezes estou aqui em cima e noto que metade das pessoas estão a dançar enquanto a outra metade está parada. Quando isso acontece tento perceber que tipo de público tenho à minha frente: mudo ligeiramente o som de pop para house, e por vezes os que estavam a dançar deixam de o fazer; os outros que estavam parados começam a dançar [...] Nós percebemos se eles estão a gostar pelo modo como olham para nós. Eles fazem questão de o fazer; fazem questão de mostrar que estão desagradados. Mas depois olhamos para o outro lado e vemos um grupo a dançar alegremente, e a pular. Quando isso acontece eu ponho um pouco de cada. Se tiver uma música muito grande eu corto, para não chatear muito os que não gostam”166.
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Entrevista a Fabicó Correia, funcionário e DJ adjunto no Finalmente Club (13 de junho de 2013 no Finalmente Club [ao inicio do expediente], Príncipe Real, Lisboa, 00:10). No decorrer da entrevista foi-me demonstrado o funcionamento dos sistemas de som e de luzes da discoteca.
Como evidencia o DJ adjunto, muitos dos clientes estão particularmente atentos ao alinhamento reproduzido pelos DJ’s e ao modo como estes fazem as misturas ou “passagens” entre músicas; perante o fracasso de uma determinada mistura (fracasso particularmente notório, por exemplo, em casos em que seja audível uma dessincronização rítmica), alguns clientes páram de dançar e ficam a olhar para o DJ com ar reprovador evidenciando, deste modo, que perceberam o seu erro. Uma reação semelhante pode ser despoletada perante a insatisfação do cliente em relação às escolhas do repertório. É nesse momento que os DJ’s procuram, em tempo real, “agradar a tudo e a toda gente, para que todos se possam divertir [...]”167, acrescenta Dinis Gomes, DJ residente do Finalmente Club.
Quando perguntei aos DJ’s quais os critérios de escolha do repertório, e se existe uma sonoridade que associem ao Finalmente Club, a resposta foi inequívoca:
“O público do Finalmente Club é muito diversificado. Demasiado até. Por isso é muito complicado ser DJ de lá. A minha experiência varia muito de noite para noite. Temos de olhar para o público e ver o que temos à nossa frente; tens muitas noites com aquela onda destes rapazes novos de agora que só gostam de Nikki Minaj e Pink… tenho de ir buscar várias coisas para os manter satisfeitos… muitos deles nem conhecem “anos oitenta”, por exemplo, e nesse sentido, é complicado. Eu percebo isso pela forma como eles reagem à música que toco. Ao tocar uma música vejo logo a reação e tento puxar para o resto da noite mais ou menos essa onda. De vez em quando muda um bocadinho mas eu não posso mudar muito senão depois fica complicado”168.
Verificamos assim que os critérios que norteiam a escolha dos repertórios numa determinada noite são sensíveis ao contexto; são definidos consoante o tipo de público presente. Segundo os DJ’s, existem dois grupos que se distinguem de acordo com a faixa etária: os mais novos preferem as músicas mais recentes, classificadas pelos DJ’s como “comerciais”, enquanto os mais velhos preferem as sonoridades associadas ao que consideram ser a “música dos anos 80”. Depois existem outras pessoas que preferem sonoridades mais “pesadas” ligadas a estabelecimentos que operam no regime de “after hours”; estas músicas são caracterizadas por não terem uma linha melódica bem definida e, na maioria dos casos, pela ausência de voz cantada. A lista de reprodução do dia sete
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Entrevista a Dinis Gomes, DJ no Finalmente Club (13 de junho de 2013 no bar Tr3s, Príncipe Real, Lisboa, 22:30).
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de junho de 2013 (ANEXO A) inclui exemplos de todas estas características, apesar de neste dia em particular cerca de 90% da lista de reprodução estar em consonância com o conceito de “música comercial” partilhado pelos DJ’s. Há que salientar que esta lista de reprodução é representativa do que os DJ’s consideram ser a sonoridade central do Finalmente Club. Quando mostrei a Dinis Gomes a playlist desse dia, a resposta foi inequívoca: “é tudo música gay, definitivamente, está aqui tudo. Olha, tens aqui a Rihanna, a Lady Gaga, a Christina Aguilera, Britney Spears [...] Quando passo estas músicas nem penso muito nisto, não faço de propósito mas acontece, e a prova é essa lista. Isto é tudo música que eu e os clientes do Finalmente vemos como música gay”169. Quais as características sonoras dessa playlist? Trata-se de uma categoria partilhada por várias pessoas, ou de uma conceção muito particular dos dois DJ’s?
Antes de desenvolver estes assuntos é pertinente referir que a discussão em torno da existência de um repertório associado à homossexualidade não é nova em contextos jornalísticos e académicos. Como já foi referido no capítulo 1, desde a década de 1990 que este assunto tem sido tratado. Apesar de revelar alguma cautela no que se refere à possível existência de um repertório gay, o artigo “Gay and Lesbian Music” da autoria de Phillip Brett e Elizabeth Wood, incluído no The New Grove Dictionary of Music and
Musicians salienta o prevalência de artistas homossexuais no âmbito da música erudita
europeia, no teatro musical, no mundo do Jazz e da música popular em geral (BRETT & WOOD 2006). Um dos pontos centrais sustentados pelos autores diz respeito a uma certa preferência dos homossexuais em relação ao culto da diva, não obstante o género musical, e a sua intrínseca relação com as discotecas e com a disco sound. Segundo os autores: “Whether these idols experienced same-sex liaisons or not is beside the point: more crucial are certain characteristics portrayed in their singing, such as vulnerability (or actual suffering) mixed with defiance, to which many of their fans relate. The quality of their humor is also an important ingredient” (BRETT & WOOD 2006:369). Assim, para os autores a “música gay” não é necessariamente feita com o propósito de “ser gay”, mesmo que os seus protagonistas (músicos, cantores, produtores...) sejam homossexuais. Trata-se sim, na maioria dos casos, de uma categorização que resulta numa apropriação feita a posteriori, no processo de receção. Os autores refletem também sobre a reprodução exacerbada de estereótipos, designadamente no que se reporta ao tipo de música que é usado para representar os homossexuais em diversos produtos tais como
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filmes, séries televisivas ou até mesmo em videojogos. Um exemplo amplamente desenvolvido na literatura reporta-se à adoção de sonoridades relacionadas com a disco
sound, frequentemente usadas para caracterizar o imaginário sonoro da experiência
homossexual. Richard Smith, jornalista e autor de artigos musicais relacionados com a homossexualidade, esclarece esta relação:
“Now that the ball is in their court, for many it becomes necessary to Stalinize dance’s past. The integral role that gay men have had in the music’s department is denied. It would be criminal to let them get away with this, not least because it is one of the few things that we can point to and declare “ours” [gays]. For twenty years it has been the soundtrack to our lives and we have used it to shape a separate and specific gay identity. Since the late Seventies the Disco has been the main focus for gay life, the closest thing many of us get to a genuine feeling of community” (SMITH 1995:195).
A Disco Sound foi também usada em Portugal com o mesmo propósito, tendo sido, numa perspetiva histórica, a estética musical prevalente nas discotecas do Príncipe Real (e não só); foi inclusive usada no filme Fatucha Superstar, aludido no capítulo 3. Mais recentemente a expansão “The Ballad of Gay Tony” do Jogo Grand Theft Auto IV (Rockstar 2008) recorre à música disco sound para caracterizar as personagens homossexuais e dar som a um argumento que se foca na disputa entre gangues proprietários de duas discotecas, uma gay e outra heterossexual170.