A perspectiva conceitual do estresse contempla um conjunto de autores e de representações, conforme segue:
As ideias do físico Inglês Robert Hooke (1635-1703) quanto à capacidade de uma estrutura suportar mudanças de cargas e demandas externas (LAZARUS, 1993).
A proposta de Canon (1914) quanto à reação do indivíduo frente às situações “lutar-fugir (SARDÁ Jr. et al., 2003).
O modelo de Hans Selye (1907-1982) para a síndrome da adaptação geral (SAG) quanto às necessidades e às capacidades adaptativas do indivíduo (SELYE, 1950; COOPER et al., 2001).
As perspectivas de Richard S. Lazarus (1922-2002) a respeito da avaliação emocional e cognitiva do sujeito influenciando nas estratégias para lidar com as demandas do ambiente (LAZARUS, 1990; 1993; 2006).
Tal contexto nos possibilita compreender o estresse como um processo de busca por regulações homeostáticas em face das tensões efetuadas nas relações entre o sujeito e o ambiente, portanto, inerente à vida. A adversidade contemporânea das inconstâncias tem aguçado o interesse dos pesquisadores pelo estudo do estresse. De modo geral, essas pesquisas focam, pela discrepância entre as demandas do ambiente e os recursos (biológicos, psicológicos, sociais, culturais) do sujeito, os efeitos negativos do estresse, associando-os amplamente a doenças físicas e mentais (COOPER et al., 2001; LIPP; TANGANELLI, 2002; SARDA Jr. et
al., 2003; PASCHOAL; TAMAYO, 2004; LAJARUS, 2006; MENDES, 2008; LARANJEIRA, 2009).
Refletido em nossa vida física, psíquica e social (LAZARUS, 2006), o estresse integra a dinâmica do trabalho. Neste espaço, comumente, as pesquisas estão inseridas no paradigma positivista, baseadas em pressupostos teóricos cognitivo- comportamentais. As ações de saúde decorrentes se voltam ao gerenciamento individual e ao treinamento contra o estresse (PEÇANHA, 2009). Essa perspectiva é frontalmente criticada por Dejours (2004/2008h), que aponta a gestão do estresse comportamental – em práticas discursivas que visam apenas à atenuação do sofrimento – como uma das novas formas de dominação do mundo do trabalho em face da capacidade de distanciamento do pensamento crítico e, por consequência, das possibilidades do agir e do criar. A Psicodinâmica do Trabalho revela o estresse no âmbito do sofrimento e sua manifestação sintomática em patologias (UCHIDA, 1998; MENDES et al., 2003; MENDES, 2007b), particularmente as patologias de sobrecarga (DEJOURS, 2004/2008e; 2004/2008h).
Nesse sentido, as ações decorrentes da investigação buscam a abertura de caminhos para novas formas de gestão da organização do trabalho, alterando-se as condições e as relações socioprofissionais por meio da valorização da participação, da definição de regras pelo coletivo de trabalho, de processos mais flexíveis, da autonomia do trabalhador, da utilização de competências técnicas e criativas, de relações horizontais e verticais baseadas na confiança e na cooperação. Isto implica, diretamente, na ressignificação do sofrimento tendendo ao seu oposto, o prazer (MENDES, 2008).
Pesquisas com base na epistemologia da Psicodinâmica do Trabalho acessam o estresse por meio de recursos objetivos e instrumentais, com o emprego da EIPST46, ou adentram o universo simbólico-imaginário dos trabalhadores por meio do diálogo, percorrendo as manifestações subjetivas do sofrer e as formas de
46 A EIPST integra o ITRA, de MENDES e FERREIRA (2007). O estresse é elemento constitutivo do
fator esgotamento profissional, juntamente com esgotamento emocional, com insatisfação, com sobrecarga de trabalho, com frustação, com insegurança e com medo.
seu enfrentamento47. Abrahão e Cruz (2008) indicaram as principais diferenças
entre os modelos de investigação inseridos no paradigma positivista e a Psicodinâmica do Trabalho. Os autores levaram em consideração as seguintes características distintivas: objeto de estudo, método, resultados obtidos e modelo de ser humano. Tais diferenças encontram-se reunidas no Quadro 2.
Quadro 2 – Diferenças entre as abordagens teóricas do estresse e a Psicodinâmica do Trabalho.
DIFERENÇAS MODELOS TEÓRICOS DO
ESTRESSE
PSICODINÂMICA DO TRABALHO
OBJETO DE ESTUDO
Relações entre processos fisiológicos e ambientais e suas implicações psicológicas. Ênfase no indivíduo e em seus sintomas com base em fatos acontecidos.
Processos psicológicos coletivos de natureza subjetiva (prazer e
sofrimento; estratégias defensivas ou ofensivas contra o sofrimento). Ênfase no coletivo (o sujeito relacional e sua capacidade defensiva) e no drama que está sendo vivenciado no ambiente real de trabalho.
METODOLOGIA
Comumente, abordagens
quantitativas, com uso de tratamento estatístico em busca de controle e de explicações de relação entre
variáveis.
Abordagem qualitativa, de natureza descritiva (comumente o estudo de caso). Caráter intervencionista em face da observação participativa que se dá no conjunto de entrevistas coletivas e individuais. A unidade de análise é a fala.
RESULTADOS
Caracterização de impactos no indivíduo e do potencial de fontes de estresse visando à administração e ao controle dos estressores (fontes do estresse no ambiente do trabalho). Perspectivas de generalizações e taxonomia.
Identificação de categorias
conceituais ou temáticas subjetivas que podem conduzir a mudanças na organização do trabalho. Ênfase na gestão da organização do trabalho.
MODELO DE SER HUMANO
Entidade abstrata de natureza biopsicossocial, submetida a uma normalidade estatística.
Ser concreto, ator em situação concreta, cuja qualidade de vida psíquica está associada aos grupos e à sua condição de existência. Fonte: adaptado de Abrahão e Cruz (2008).
47 Essa forma de pesquisa, e de ação, tem viés clínico, trazendo a possibilidade de produção de
novos sentidos para o sujeito participante. Ao longo da pesquisa, é possível a ocorrência de investimentos afetivos e de mobilização de energia psíquica em vista de reapropriação dos desejos (MENDES, 2007b).
No presente capítulo, propusemo-nos a abranger a Psicodinâmica do Trabalho e a indicar, na epistemologia, os lugares que circundam o estresse. Nesse sentido, o estresse foi compreendido em decorrência das relações dinâmicas constituídas entre a organização do trabalho e o sujeito-trabalhador. Buscando a constituição de um modelo teórico para conduzir a investigação, assumimos a suposição de que o contexto produtivista contemporâneo e seu suporte ideológico têm relações com a organização do trabalho e com o paradoxo prazer-sofrer.
Nesse contexto, o estresse se relaciona à sobrecarga de trabalho nos âmbitos do sofrimento, das estratégias defensivas e das patologias contemporâneas. Na circunscrição do sofrimento, contempla: sensações de esgotamento físico ou emocional, dificuldades em separar o dentro e o fora do trabalho, jornadas duplas e agregação de funções burocráticas às técnicas.
Em referência às estratégias defensivas, o estresse ocorre pelo movimento da autoaceleração e suas manifestações: hiperatividade sensório-motora; aumento na carga de trabalho; embotamento do pensamento ou da afetividade; doenças psicossomáticas; impossibilidade de uso da ociosidade; e dificuldades de participação em atividades lúdicas.
No campo das patologias contemporâneas, admitindo o desvirtuamento do sentido da centralidade do trabalho, a sobrecarga ocorre em face da necessidade exacerbada de realização e de reconhecimento do outro. A Figura 1 busca representar, graficamente, o modelo teórico proposto.
Figura 1 – Modelo teórico suposto quanto à psicodinâmica do estresse em trabalhadores de pesquisa, desenvolvimento e inovação.