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Perante o real do trabalho, continuamente conflitando e provocando o sujeito, sempre haverá sofrimento, diferindo o destino na medida das condições favoráveis à organização do trabalho para negociações e para transformações (DEJOURS, 2004/2008k; 2012b). Na presença desse sofrimento e em busca de não adoecer, os trabalhadores desenvolvem estratégias de defesa: conjunto de condutas de convivência com o sofrer. As defesas representam a forma e o destino dado ao sofrimento, configurando-se como meio privilegiado de acesso ao sofrer (DEJOURS, 1992; 2004/2008b; 2004/2008d; 2004/2008g).

Tais estratégias defensivas ocorrem em todos os níveis hierárquicos da organização do trabalho, não sendo privilégio das carreiras e dos cargos mais baixos da hierarquia organizacional. Do mesmo modo, e para todos os seus efeitos, elas transcendem o espaço privado e a economia familiar devido à impossibilidade de separar o dentro-do-trabalho do fora-do-trabalho quando o funcionamento psíquico se dá de modo indivisível (DEJOURS, 2004/2008g). Na concepção dejouriana, essas estratégias de defesa podem ser construções individuais ou coletivas. Nesse sentido, não apenas dependem da maleabilidade individual, mas comportam formas específicas de cooperação (DEJOURS, 1992; 2004/2008a; MENDES, 2007b).

Pesquisas com profissionais da construção civil e do setor petroquímico revelaram que o sistema de defesa do medo, um dos sofrimentos cardeais do trabalho, está organizado de forma coletiva em detrimento das estratégias individuais. Para a continuidade da tarefa arriscada, capaz de resultar em acidente, em mutilação, em doença, a estratégia de defesa perante o medo visa a mascarar, a ocultar, a controlar a ansiedade grave por meio de tentativas de inversão simbólica da posição passiva para outra de afirmação e de controle total da situação. Essa dinâmica defensiva geralmente envolve condutas paradoxais: assunção de riscos e indisciplina em relação a medidas de segurança; não manifestação do medo em face do sofrimento possível; comportamentos de invulnerabilidade e expressões de virilidade diante do sofrimento. Buscando lutar contra a angústia de perigos reais comuns, essa configuração de proteção da saúde mental requer a cooperação de todos (DEJOURS, 1992; 2004/2008a; 2004/2008d; 2012b).

Estratégia última ao agravamento da ansiedade, como forma de salvação a qualquer preço, a defesa coletiva pode se transformar em ideologia, em radicalização da postura defensiva que toma a si como finalidade. Na ideologia defensiva, sob o império do medo, a ligação dos indivíduos ocorre pelo ódio, pela sede de vingança. Entra em ação o imaginário: compor uma massa poderosa capaz de vencer o inimigo comum pela violência. O racional, que busca a intercompreensão, já não pertence mais ao jogo, agora transmutado em guerra. O trabalho perde sua capacidade deôntica; o pensamento é derrotado pela barbárie (DEJOURS, 1992; MENDES, 2007b; DEJOURS, 2012b).

Diante de organizações do trabalho taylorista-fordistas, as pesquisas evidenciaram a constituição de defesas individuais, sobretudo, contra o tédio e a sobrecarga de tarefas típicos da cadência monótona e repetitiva das linhas de produção; o desencorajamento do pensar, uma vez que se é mera extensão da máquina (ou do processo) que opera (executa); o temor de não dar conta do ritmo imposto e de comprometer a meta da produção. Busca-se, na evitação do sofrimento, economizar esforços, afastar cansaços e dores, desviar o pensamento. Entra em cena, como mecanismo de defesa, a autoaceleração: embrutecimento adaptativo marcado pela hiperatividade sensório-motora cujas consequências são o acrescimento na carga de trabalho e o embotamento do pensamento e da afetividade, refletidos também no espaço privado (DEJOURS, 1992; 2012b).

Nesse campo defensivo, as consequências patológicas relacionam-se, particularmente, à morbidade somática – doenças associadas ao desgaste e ao envelhecimento precoce do corpo e do intelecto. Entretanto, investigações apontaram influências nocivas desdobradas, na aposentadoria, pela impossibilidade de usufruto da ociosidade e, no espaço familiar27, pela dificuldade de participação em atividades lúdicas com as crianças da família (DEJOURS, 2004/2008h).

27 O espaço familiar, e o que ele envolve da dinâmica das relações amorosas, pode também sofrer

influências patogênicas das defesas coletivas efetivadas diante o medo. São exemplos: o celibato, como forma de reduzir as ameaças da afetividade comprometedora do escudo viril; a ausência no lar ou o distanciamento das funções cuidadoras das crianças, uma vez que a identificação e a empatia com os filhos pode comprometer a construção imaginária de invulnerabilidade (DEJOURS, 2004/2008h).

Pesquisas em psicodinâmica têm revelado diversidade nas construções defensivas – cinismo, dissimulação, desesperança, distorção da comunicação – perante o sofrimento, o que significa dizer que as estratégias, individuais ou coletivas, são constituídas conforme a especificidade da organização do trabalho e de suas contradições. Apesar disso, recorrências em categorias profissionais específicas são possíveis, apesar da impossibilidade de generalização diante do caráter dinâmico das relações. De modo geral, as defesas podem ser organizadas como sistemas de proteção, de adaptação e de exploração (MENDES, 2007b; 2007c).

Na proteção, o sofrimento racionalizado28 mantém intata a situação vigente, e a fuga ocorre por meio da alienação. Articulando os comportamentos neuróticos dos trabalhadores ao que há de perverso no funcionamento da organização do trabalho, as defesas que se sucedem pela adaptação e pela exploração, respectivamente, colocam em jogo processos de negação29 e de submissão30 (MENDES, 2007b; 2007c).

Destinadas a proteger a saúde mental, tanto as estratégias coletivas contra o medo, como as estratégias individuais em relação ao tédio negam a percepção da realidade, podendo favorecer a servidão voluntária, a reprodução da dominação e a

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“Processo pelo qual o indivíduo procura apresentar uma explicação coerente do ponto de vista lógico, ou aceitável do ponto de vista moral, para uma atitude, uma acção, uma idéia, um sentimento, etc. [...]” (LAPLANCHE; PONTALIS, 1970, p. 543). Relacionado ao disfarce secundário dos elementos presentes no conflito defensivo e a serviço do superego para reforçar as defesas do ego, a racionalização se apoia nas ideologias, na moral, nas religiões, nas convicções políticas. Mendes (2007b) caracteriza este tipo de proteção como modos compensatórios de pensar, de sentir e de agir.

29 Relaciona-se à denegação do desejo proposta por Freud. É quando o sujeito toma consciência do

desejo (recalcado), sem, no entanto, aceita-lo. Procede-se uma recusa da percepção do fato imposto ao mundo exterior, ocorrendo uma separação entre a função intelectual e a afetiva (LAPLANCHE; PONTALIS, 1970; ANDRÈS, 1996b).

30 Na perspectiva lacaniana, a alienação vincula-se à dependência do sujeito em relação ao Outro,

como na representação hegeliana do senhor e do escravo. Esse paradoxo remete ao desfalque, que constitui o sujeito entre a posição do sentido e do ser. O sentido pode ser representado pela figura do escravo que, por medo de perder a vida, submete-se a um Outro (o senhor), aquele ”sabedor” do seu desejo e que o “mantém vivo”. O ser é representado pelo papel do senhor, aquele que arrisca(ou) sua vida à procura, nas relações com outros, de um sentido para completar sua falta. “Se na alienação o sujeito só emerge como vazio sob a condição de já ter feito a escolha, a separação, por sua vez, começa pela confrontação desse sujeito com o campo do Outro” (DOUMIT, 1996, pp. 21-25).

participação no mal31 (DEJOURS, 2000; 2012b). Por seu caráter adaptativo, as

defesas interrompem a tomada de consciência. Agindo como freios, atenuam o sofrimento e tendem a perpetuar justamente as situações que buscam combater, interferindo diretamente na possibilidade da cura efetivada por movimentos de reapropriação, de emancipação e de mudança (DEJOURS, 2004/2008b; 2004/2008d; 2012b; MENDES, 2007b). A manutenção do sofrimento tem sentido patogênico, e a tendência das estratégias defensivas, a médio e longo prazos, é seu esgotamento, oportunizando as patologias (MENDES, 2007b).