[...] A procura de prazeres era tão grande quanto antes, mas dirigida num sentido mais racional, parecendo que os paraenses procuravam agora imitar os costumes das nações do norte da Europa, ao invés dos da mãe-pátria. Alegrou-me ver várias livrarias na cidade, bem como um belo edifício funcionando como biblioteca [...] (BATES, 1979, p. 297).
A expressão “Belle-Époque44 Amazônica” tem, em geral, um significado nostálgico. Lembra o período áureo em que profundas transformações urbanas e de valores culturais ocorreram na região e na cidade de Belém, proporcionados pela larga produção, extração e comercialização internacional do látex. Tem também como referência os processos de modernização da Europa, principalmente de Paris, o qual teve seu auge na segunda metade do século XIX, indo até o momento que precede a Primeira Guerra.
44 A expressão Belle Époque foi cunhada na França nas primeiras décadas do século XX, quando o país vivia
uma crise econômica e as lembranças da Primeira Grande Guerra. A imagem que se tem ao se voltar para o período entre 1880 a 1914 era a de uma enorme nostalgia, como um passado áureo perdido. Ortiz considera esse período como a segunda modernidade; não quer, com esse argumento, negar o declínio da França como nação que durante o século XIX foi considerada a capital do século e que por isso serviu como modelo de desenvolvimento para outros países. Vê essa nova fase como uma alternância de poder entre as sociedades europeias para a norte-americana. Segundo o autor, a Belle Époque francesa não deve ser vista numa perspectiva finalista, pois nesse período ela consolidou aspectos fundamentais da vida moderna. Ela inicia, é o germe da civilização que porta as esperanças e as decepções que irão se manifestar na contemporaneidade (ORTIZ, 1991, p. 53-54).
Escolhemos a Belle Époque como evento afeto a um período que, por marcar de modo profundo a dinâmica urbana da cidade de Belém, marca, também, as formas de festejar o Círio de Nazaré. E cujos valores irão influenciar os períodos posteriores, até mesmo o contemporâneo.
Pretendemos evidenciar algumas mediações presentes no processo sócio-histórico de grande complexidade desse período que se caracteriza pela racionalização econômica capitalista, pela transferência do poder das autonomias regionais agrárias para as cidades, com centralização do poder político; pela coordenação jurídica das normas sociais; pela urbanização e reordenamento da cidade através de uma política de saneamento e consequente intensificação da vida urbana referenciada no modo de vida burguês, pelo crescimento populacional, pela institucionalização progressiva das práticas a partir dos valores tidos como formais e informais, pela separação entre a Igreja Católica e o Estado e pela força de um catolicismo reformado que começa a se impor. Este conjunto de fatores interfere no modo de sentir, pensar e de interagir das pessoas, constituindo práticas socioculturais com novos significados que se enraízam e vão impregnar os períodos posteriores.
O Círio, entendido como parte e, ao mesmo tempo, constituído por redes de relações sociais, influencia e é influenciado nesse todo relacional que é a sociedade. Nessa perspectiva, analisaremos os encadeamentos sócio-históricos reveladores das transformações nas relações sociais e no quadro de valores que a cidade de Belém vive entre meados do século XIX e início do século XX45, quando setores sociais da região enriquecem em função das atividades econômicas de extração e comercialização internacional do látex e a cidade experimenta transformações agudas de iniciativa modernizadora. Concomitantemente e para além desse período – porque se estende até a década de 1960 – ocorre no Brasil o movimento de Reforma da Igreja Católica, conhecido como romanização. Definimos os dois eventos por serem propulsores de mudanças nos valores, códigos e práticas da vida sociocultural da cidade de Belém, que se expressam em novas formas de se festejar o Círio de Nazaré.
A intenção é enfocar as práticas culturais presentes no Círio de Nazaré, frente aos novos valores e práticas culturais institucionalizados oriundos do lazer europeu que chegam a esta cidade por iniciativa das elites econômicas e políticas regionais e de uma classe média citadina, e também analisar alguns episódios ocorridos durante o processo de reforma da igreja e seus impactos sobre a festa.
45 No período de 1840 a 1920 as atividades econômicas da região amazônica giraram em torno da economia
extrativista da borracha. No entanto, Belém toma impulso como centro urbano, principalmente a partir da década de 1870. O ano de 1912 representa o marco do débâcle da borracha, a queda de uma fase de crescimento da economia gomífera causada pela concorrência asiática.
A principal questão colocada para análise neste capítulo é: até que ponto, nesse período, os valores de uma cidade que se urbanizava sob a influência de práticas burguesas exógenas e da reforma católica fixaram-se e assumiram novas feições na conjugação com as práticas populares existentes? Como, a partir desse convívio tenso, foram se configurando os conflitos e as complementariedades na formação híbrida46 da festa?
2.1 – Cidade Moderna: luxo e distinção de classe no Círio de Nazaré
O processo de remodelação espacial de parte da cidade de Belém com pretensão urbanizadora e profilática e a influência de valores urbanos europeus nas manifestações culturais populares estiveram fortemente presentes durante o boom da borracha. Como vimos no primeiro capítulo, as influências exógenas nos processos intraurbanos são anteriores, haja vista que há muito Belém já mantinha relações diretas com a Europa, destinando a esta sua produção predominantemente extrativista. Já em 1793, o Círio, constituído como procissão e feira de produtos regionais comercializados no arraial, era fruto de processos híbridos das práticas de devoção populares e de intervenções conjuntas do Estado e da igreja, sob influência das demandas econômicas da metrópole.
As mudanças socioculturais mais significativas passaram a se configurar a partir da década de 1840 até 192047, período no qual toda atividade econômica da região esteve relacionada à extração e comercialização do látex, adentrando na fase conhecida como República Velha.48 A intensificação, assim como os efeitos desse processo, tornaram-se mais visíveis a partir da segunda metade do século XIX, quando Belém toma impulso como centro urbano e vive grande desenvolvimento econômico induzido pela necessidade e exigência das indústrias internacionais.
46 O sentido da expressão “na formação híbrida da festa” aqui empregada diz respeito aos processos que se
intensificam nesse período, evidenciando o entrecruzamento entre as diversas práticas culturais de procedências diferentes na formação da festa.
47 Embora a seringueira já fosse conhecida pelos nativos da Amazônia e mesmo o látex já ser usado na
impermeabilização de objetos, esta é explorada mais intensivamente passando a ser o centro do desenvolvimento econômico de Belém a partir das exigências do capital internacional em 1840, quando Charles Goodyear descobre o processo de vulcanização. Nesse período, o látex era usado em artefatos de borracha, mais foi somente a partir da invenção do pneumático e com o desenvolvimento dos transportes que se intensifica a produção de borracha, principalmente de 1870 a 1910, quando a borracha supera o cacau na pauta das exportações, o que propiciou um vigoroso crescimento econômico na região (SARGES, 2002).
48 O Regime Republicano no Brasil, também denominado República Velha, inicia em 1889 com a Proclamação
Por outro lado, no que tange as manifestações culturais, há um processo de supervalorização das produções culturais em ascensão na Europa e os folguedos populares como os cordões de bois e de pastorinhas, os capoeiras, as brincadeiras de boi-bumbá, a malhação de Judas, e algumas festas de santo, amplamente vivenciados pelas camadas populares, passam a ser normatizados, associados a manifestações ultrapassadas e a sofrerem perseguições e discriminações, prática evidenciada em diversas festas populares no Brasil49. O Diário de Notícias, de 27 de dezembro de 1894, em tom claramente racista conclama a polícia a impor a ordem inspirada nos padrões da pretensa modernidade
“CORDÃO DAS ESTRELAS (DO ORIENTE)
‘Em noite de segunda feira última, no Cordão das Estrelas do Oriente, rolou cacete a granel.
‘É o caso que um bólido de nome Jurumu entrou pela constelação adentro e ferrou uns sopapos numa estrela de carvão de pedra chamada Elisa.
‘Os cometas-charutos encresparam-se e houve lenha a valer.
‘Chamamos a atenção da polícia para extinguir com essa via-láctea negra incomodativa da Rua Rosário’” (SALLES, 1994, p. 316).
Segundo Salles (1994), Belém foi palco de muitas festas e folguedos. A maioria destes esteve associada às solenidades religiosas, e em 1852 sofreu intervenção governamental para sua redução por pressão da indústria e do comércio local. Após a Proclamação da República em 1889 e do decreto de janeiro de 1890, que separa Igreja e Estado, as festas de santo, entre outras práticas populares, passaram a sofrer maior controle por parte da Igreja “renovada” ou “romanizada” e do Estado. No que diz respeito ao Círio de Nazaré, continuava a ser reconhecido como a principal festividade da cidade e, nesse sentido, palco das inúmeras novidades, tensões e contradições próprias do novo processo socioeconômico e das mudanças implementadas pela igreja, aspecto que trataremos no segundo item deste capítulo.
O Círio de Nazaré sempre foi constituído pela presença expressiva das camadas populares, mas também – na sua longa trajetória histórica, desde a invenção da tradição das suas principais procissões – pela presença das pessoas das elites e classes médias do Estado, diferentemente de outras festas e folguedos populares. Essa manifestação festiva é marcada pelo caráter relacional e transformacional das práticas socioculturais. Encontramos em seu processo de organização pessoas e grupos ora aliados ora adversários, em uma tensão característica, mas que permanentemente se equilibram como em uma balança de poder; movimentam-se de um
49 Ver ABREU, Martha. O Império do Divino. Festas religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro, 1830-
1900 Rio de Janeiro: Nova Fronteira; São Paulo: Fapesp, 1999. A autora analisa o papel dos conflitos religiosos no fim do Império entre Igreja Católica, maçons e protestantes tiveram na crescente repressão à Festa do Divino, culminando com sua extinção nos primeiros anos da República.
lado para o outro mediante a reordenação das situações e do convívio humano que é matizado pelas dependências mútuas, pelo processo de interdependência característico de uma sociedade que cada vez mais se torna complexa, marcada pela divisão social do trabalho, pela especialização das ocupações, da formação de um Estado onde o poder passa a ser centralizado, pela separação entre o Estado e a Igreja, regida por normas sociais jurídicas e pela divisão e caracterização das práticas como formais e informais (ELIAS, 1993).
Neste sentido, não foram poupados esforços na tentativa de moralização das práticas religiosas e lúdicas presentes nessa manifestação, no entanto, a construção de mediações50 nas relações entre os diferentes para fazer dessa festa uma referência de coesão social, sempre foi muito forte no Círio. Nem sempre isso foi fácil, como veremos no próximo tópico deste capítulo. Mas, na sua longa trajetória histórica, em muitos momentos estiveram unidas as várias instituições: o Estado, a igreja, as empresas locais, muitos dos intelectuais e a população em geral. Isto não significa dizer que as divergências não existiram entre esses setores ou mesmo dentro desses setores. Ao contrário, como afirmamos no parágrafo anterior, as tensões estiveram sempre latentes, mas não chegaram a extremos e os vários grupos estiveram unidos para cumprirem o objetivo que era amplamente anunciado no período do Círio nos jornais locais: de se fazer uma “festa com muita pompa”, com a “presença de pessoas honestas”, “senhoria da alta sociedade”, “com segurança e respeito individual, pois, para isso, temos todos os meios de vigilância de nossas autoridades”, “com divertimentos e espetáculos públicos honestos para [entretenimento] e recreio do povo”, “com a costumada urbanidade e delicadeza”, com a presença de “gente de gosto”, “no nosso poético e aristocrático arraial”, da nossa “ilustrada capital”51.
Importa destacar que nesse mesmo período em análise – a segunda metade do século XIX até as primeiras décadas do século XX – inauguram-se vertiginosas mudanças de valores com a constituição e expansão intensa da economia mundial, que se fez presente com pequenas diferenças temporais e regionais, não somente em Belém, mas em cidades como Paris, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Nápoles, Belo Horizonte, Manaus (SEVCENKO, 2003).
Deve-se à segunda revolução industrial ocorrida na segunda metade do século XIX na Europa setentrional o processo vigoroso de expansão econômica, acima referido, o qual baseou-
50 Mediação aqui entendida não como um processo neutro de interação entre formas separadas, mas um
processo ativo no qual a forma da mediação altera as coisas mediadas; É uma prática direta e necessária entre atividades e consciência diferentes (WILLIAMS, 2007, p. 274, 275).
51 Expressões usadas pelos cronistas nos jornais da época. Ver: Anúncio do Jornal Gazeta Oficial, de 15 de
outubro de 1858. In: MONTARROYOS, Heraldo. Festas profanas alegrias ruidosas. A imprensa no Círio. Belém: Falângola, 1992.
se em uma significativa taxa de investimento de capital capaz de influenciar não só a economia europeia, como também as economias norte-americana e japonesa. Resultaram desse processo, cujo ritmo foi garantido pela forte presença do Estado, importantes complexos industriais que se expressaram como verticalização produtiva e, ao mesmo tempo, um espraiamento (crescimento horizontal) do desenvolvimento capitalista. A ação do Estado baseou-se em um planejamento definidor do alcance, do sentido e dos efeitos sociais desse desenvolvimento. Contudo, apesar da ação voltada ao equilíbrio a própria dinâmica do modo de produção capitalista em franca expansão assumiria cada vez mais fortemente a intensificação da concorrência intercapitalista alimentada pelas possibilidades que o desenvolvimento tecnológico oferecia naquelas circunstâncias. Isso resultou, como era inevitável, em uma superprodução de mercadorias, gerando uma queda da taxa de lucro devido a não realização das trocas e, dessa forma, em desequilíbrios sistêmicos. Esse quadro gerou, por sua vez, uma pressão nos países do centro do sistema para ampliar o mercado consumidor nas suas próprias colônias ou para as antigas colônias europeias, como é o caso do Brasil (SEVCENKO, 2003).
É a partir de 1873 que significativos volumes de capital europeu são destinados ao financiamento de obras de infraestrutura (transporte, bens de capital para o beneficiamento de produtos do extrativismo, etc.) que pudessem viabilizar o uso pelos países periféricos dos produtos industriais europeus que, além de credores, podem ampliar seu controle sobre os recursos desses países. Obviamente esse processo europeu de expansão econômica e controle dos países da África e America Latina, produziu crescentes conflitos políticos e desagregações dos países submetidos a essa dinâmica expansionista em um processo que, ao consagrar a hegemonia europeia sobre o planeta, ampliou as interdependências e fomentou profundas transformações nos modos de vida, nos usos, costumes, maneira de pensar, sentir e agir das pessoas que vivem nesses países (SEVCENKO, 2003).
A referência principal do processo de modernização qual passa o Brasil nesse período é a Europa, em especial a cidade de Paris como modelo de “cidade espetáculo para os sentidos” (BENJAMIM, 1991, p. 41). Belém, consideradas as diferenças, sofria influência desse processo. Nesse contexto, mais do que reforma e constituição de uma moderna estrutura urbana exigida, sobretudo, pelos novos e pelos não tão novos endinheirados (seringalistas, comerciantes e financistas), eram necessárias mudanças nos costumes (Figura 10).
Figura 10 – Composição de imagens que demonstram as mudanças na dimensão urbana e nos hábitos, em Belém. Fonte: Belém da Saudade. A Memória de Belém do Início do Século em Cartões-Postais. Belém: Secult, 2006. p. 53, 80, 113, 247.
Perceptíveis mudanças no quadro econômico, na estrutura político-social, na composição das classes e frações de classe e nos modos de vida ocorreram no estado do Pará e na cidade de Belém. Como consequência da intensificação da produção e exportação do látex, a partir das exigências da indústria internacional, novos agentes sociais entram em cena e alteram as relações de poder. Logo o processo econômico transformou Belém em uma importante metrópole mercantil governada por uma burguesia que mantinha vínculo direto com o capital estrangeiro, uma vez que na época não havia capital local suficiente para dar sustentação ao empreendimento de produção e exportação do látex. Como tratamos acima, os empréstimos concedidos por países da Europa interessados em escoar sua produção e ter ingerência em países como o Brasil era uma realidade, além do interesse e necessidade que países europeus tinham no látex nesse momento de expansão industrial (SARGES, 2002).
No Pará, e consequentemente em Belém, a acumulação capitalista baseada no extrativismo alcança níveis expressivos e tem como principais gestores desse sistema o governo do Pará, que cumpria importante papel para a viabilização de investimentos, em função dos interesses de empresas locais e estrangeiras, mormente o capital inglês. Nesse processo foram se
constituindo laços de dependência a partir de cadeias de créditos, tais como: companhias de seguro, companhias de navegação, casas de crédito comercial da emergente indústria automobilística, casas bancárias, casas aviadoras, proprietários de terras, seringalistas e seringueiros. Além do comércio em torno da seringa, inter-relacionado a este havia ainda o comércio importador e o grande comércio das obras públicas (CASTRO, 1994, p. 95) (Figura 11).
Figura 11 – Rua 15 de Novembro - edifício do London Bank e, logo a seguir, o do Banco Commercial. Fonte:
Belém da Saudade. A Memória de Belém do Início do Século em Cartões-Postais. Belém: Secult, 2006. p. 215.
Complexas relações insinuam um novo horizonte simbólico e tencionam as antigas formas comerciais em que o produtor e o consumidor se conheciam. Na metrópole moderna, o dinheiro passa a ser o símbolo de igualdade, de homogeneização, o denominador comum. Tudo passa a girar em torno da produção do mercado, o que significa dizer, “para compradores inteiramente desconhecidos, que nunca entram pessoalmente no campo de visão propriamente dito do produtor” (SIMMEL, 1983, p. 14). Como expressa Farias (2006), a metrópole é a expressão da multiplicidade e da concentração das trocas, logo da economia monetária para a produção do mercado, o que introduz uma complexidade plural de meios e fatores sociais, embora haja um permanente esforço pela unificação e homogeneização das práticas sociais.
Essa ambiguidade fica clara quando nos deparamos com a diversificação das funções sociais e do crescimento populacional intenso, baseado, principalmente, na imigração portuguesa e nordestina. Os imigrantes nordestinos vinham para Amazônia fugindo dos graves problemas sociais, em decorrência da seca. Deixavam suas terras atraídos pelo fascínio da borracha e pela campanha governamental que oferecia subsídio para o deslocamento. A imigração contou também, em menor número, com os fluxos migratórios espanhóis, franceses e italianos, além do fluxo proveniente do interior paraense. Em 1900, o censo nos informa o crescimento populacional de Belém em 92,87%, o que a colocava com quase 100 mil habitantes (96.560) e, em 1920, Belém dobra o número de habitantes, passando a ter 236.402. Este crescimento se deu pelo grande desenvolvimento do comércio internacional da borracha, e a partir de 1912, fundamentalmente, pelo desemprego que abatia os seringais no interior do estado, ocasionado pela débâcle da borracha no mercado internacional, fazendo com que os seringueiros viessem para a capital em busca de novas possibilidades de vida (CASTRO, 1994).
Belém é, nesse período, centro de intermediação da exploração de bens do setor primário (borracha, castanha, etc.) e das importações de bens de consumo. Como entreposto comercial, a cidade dependia de sua capacidade de concentrar os excedentes, em geral, vindos do interior, o que foi determinante para que constituísse um expressivo setor de serviços (RODRIGUES, 1996).
Na condição de, mais do que mero centro comercial, centro financeiro com alto poder concentrador de capital comercial, particularmente na fase de maior dinamismo das atividades intrínsecas à economia gomífera, a cidade via-se envolvida em uma espiral onde quase todo o capital ingresso, devido a alta remuneração da borracha, era reinvestido, sob variadas formas nas atividades econômicas desse produto. Dessa forma, o excedente não era canalizado para atividades produtivas do setor secundário da economia” (RODRIGUES, 1996, p. 98).
Belém passou a ser o coração do negócio em torno do comércio do látex. Ao mesmo tempo, o centro do ócio, da diversão e local de moradia. Espaço de intenso convívio, de