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“a esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar.” João Bosco e Aldir Blanc631

Em 1979, o IAB-SP promoveu o seminário “Arquitetura e Desenvolvimento Nacional:

depoimentos de arquitetos paulistas”632, que foi possível com o fim do AI-5633, o qual permitiu a retomada do diálogo em reuniões públicas. O Seminário foi um marco importante no contexto arquitetônico

nacional, propondo-se a discutir a “função social do arquiteto”, frente ao “modelo econômico adotado

no país, a partir de 1964”634, e reuniu gerações de arquitetos, entre eles: J. Artigas, Lina Bo, J. Guedes e Rodrigo Lefèvre.

Lina Bo foi convidada para a mesa de abertura635, ao lado de E.K.de Mello, J.Artigas e O.

Bratke, arquitetos de uma mesma geração. Lina Bo, contudo, poderia ser considerada a nota

dissonante da mesa, ou mesmo, a “estranha no ninho” devido sua posição “independente no meio”636;

posição esta, reforçada por sua atuação singular no canteiro de obras do projeto SESC-Pompeia, seu projeto em andamento naquele ano.

No início de seu depoimento, Lina Bo analisou que, diferentemtente do início dos “tempos heróicos”637 da arquitetura moderna, quando havia ideias de “salvação do homem através da

arquitetura”638, naquele momento, a arquitetura moderna estaria em “obsolescência”639, pois teria

chegado a uma “nova utopia”. Segundo ela, devido ao entusiasmo pela prática científica a arquitetura contemporânea teria se transformado em tecnocracia, em suas palavras:

“[...] O idealismo de que estava falando é o idealismo tecnocrático. ‘Idealismo’, porque é uma filosofia nova, perigosíssima, que permite ao arquiteto ficar feliz dentro de certos limites se desligando completamente da semiótica da realidade. A recuperação do sentido verdadeiro, não da projetação, mas do planejamento ligado às condições sócio-econômicas, é uma

Política.” 640

631 Trecho da canção “O bêbado e a equilibrista” de João Bosco e Aldir Blac, que na voz de Elis Regina foi considrada o ‘hino’ da anistia.

632 INSTITUTO DOS ARQUITETOS DE SÃO PAULO. Arquitetura e desenvolvimento nacional: depoimentos de arquitetos paulistas. São Paulo: Editora Pini,

1979.

633 Com a revogação oficial do Ato Institucional Número 5, em 01/01/1979, debates públicos são permitidos. Segundo Napolitano:” Com a revogação oficial do AI-5, em 1 de janeiro de 1979, e o consequente fim da censura prévia, abriu-se uma nova era para a cultura brasileira.” Ver: NAPOLITANO, Marcos. Cultura brasileira: utopia e massificação (1950-1980). São Paulo: Contexto, 3º. ed, 2008, p. 121.

634 INSTITUTO DOS ARQUITETOS DE SÃO PAULO. Op. cit. p. 9.

635 Id. p. 21-22.

636 BASTOS, Maria Alice J.; ZEIN, Ruth V. Brasil: Arquiteturas após 1950. São Paulo: Perspectiva, 2010, p. 208.

637 BARDI, Lina. Depoimento. In INSTITUTO DOS ARQUITETOS DE SÃO PAULO. op. cit. p. 21-22.

638 Ibidem, ibidem. 639 Ibidem, ibidem.

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A opinião de Lina Bo é semelhante às discussões do cenário internacional, de crítica ao

Urbanismo Moderno e à tecnocracia - quando “sociedade industrial atinge o ápice de sua integração

organizacional e o ideal de modernização planejamento e racionalização”641 - como, por exemplo, o posicionamento crítico dos situacionistas aos urbanistas, que “ignoraram a função do ambiente psicológico”642 das cidades. Para os situacionistas, a valorização da “espacialidade social” para “contato

entre os seres”643 a criação de “ambiências completas” e não apenas formas isoladas644, e a “construção

de situações”645 como um novo ambiente, um “elemento de competição e separação da vida cotidiana”646 a fim de valorizar o conteúdo psicológico do urbano, são os desafios da profissão de arquiteto. Lina Bo revela pensamento semelhante aos situacionistas, no SESC-Pompeia, onde os usuários podem desfrutar das emoções proporcionadas pelo ambiente construído647. Lina Bo seguindo sua interpretação de função social do arquiteto instalou seu escritório no canteiro e, a exemplo de A.Gaudí, realizou a obra na obra.

Em seu depoimento no IAB-SP, Lina Bo traz as discussões do cenário arquitetônico

internacional para o contexto local: “o que está acontecendo agora, e temos um exemplo claríssimo na

cidade de São Paulo, é o desligamento total do arquiteto dos verdadeiros problemas reais”648. Ela

acredita que através da recuperação do “sentido de responsabilidade” seria possível “conservar os princípios da arquitetura moderna”649. Dessa forma, Lina Bo, antecipa as discussões sobre o desenho

urbano da década seguinte, as quais ganham corpo nos anos 1980. Segundo análise de H.Segawa: “No plano internacional, os resultados negativos de um planejamento tecnicista suscitavam críticas. No Brasil, a estagnação da modernização econômica com a falência do ‘milagre’ evidenciou a falácia do discurso planejador desenvolvido nos anos 1960-1970.”650.

Mais adiante em seu depoimento, Lina Bo comenta que está em desacordo com K.Mello sobre a questão “que os pedreiros não devem fazer arquitetura”651. Ela defende que o povo deve fazer

641 ROSZAK, Theodore. A contracultura: Reflexões sobre a sociedade tenocrática e a oposição juvenil. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1972, p. 19.

642JORN, Asger. Une architecture de la vie, na revista Potlatch nº15, dez.de 1954. In. DEBORD, Guy. Guy Debord présente Potlatch: 1954-1957, Paris: Gallimard, 1996. (tradução nossa)

643 CONSTANT, A N. La Nueva Babilônia. Barcelona: Editorial Gustavo Gilli, 2009.

644 Constant Nieuwenhuys. Fala em ocasião da terceira conferência em Munique do Bureau de Urbanismo Unitário, em 1959. Apud GROSSMAN, Vanessa. A

arquitetura e o urbanismo revisitados pela Internacional Situacionista. São Paulo: Anablume, 2008, p. 110.

645 Debord, Guy. In. HOME, Stewart. Assalto à cultura. Utopia subversão guerrilha na (anti) varte do século XX. São Paulo: Conrad, Editora do Brasil,1999, p. 52. 646 Ibidem, ibidem.

647 Olívia Oliveira no capítulo “Lugares de jogo do Sesc Pompéia” relaciona este projeto às propostas da I.S. Cf. OLIVEIRA, Olívia de. Sutis substâncias da

Arquitetura, São Paulo: Romano Guerra Editora; Barcelona, Editorial Gustavo Gilli, 2006, p. 201.

648 BARDI, op. cit. p. 21-22. 649 Ibidem, ibidem.

650 SEGAWA, Hugo. Arquiteturas no Brasil – 1900-1990. São Paulo: EDUSP, 1990, p. 195.

651 BARDI, Lina Bo. Depoimento. In. INSTITUTO DOS ARQUITETOS DE SÃO PAULO. Arquitetura e desenvolvimento nacional: depoimentos de arquitetos

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